30.5.19

Má fortuna, amor ardente

E eis que identifico uma falha no livrinho com elástico onde guardo endereços de gentes de bem. Nele não consta morada nem número de porta de bruxo, alquimista, encantador de serpentes, endireita ou tirador de maus-olhados. Nem o livro de São Cipriano habita, sequer, a minha biblioteca. Tantas oportunidades tive para o comprar, sempre as declinei. Todos os outros que ali estão, povoados de palavras racionais e paixões irracionais, parecem-me inúteis contra as artes do além. Até contra as artes do aquém, atrevo-me a dizer, mais não são do que placebos. E enquanto o lado de lá continua a enviar-me raios e coriscos sem pausa nem descanso, aqui estou eu, do lado de cá, apenas com o céu azul como escudo. É um jogo de paciência: ou as minudências consequentes se cansam de vir ao meu encontro, ou ando eu em volta para que elas não me encontrem. Ou então, descubro no meu livrinho algum benzilhão salvador que por lá esteja camuflado. O mundo moderno nenhum artefacto nos dá contra a má fortuna. Contra o amor ardente, também não. Já quanto à perdição, ombros mais largos tivéssemos nós para a carregar, leitora.