10.9.19

Missiva sobre as práticas de dar um jeito

Recebo uma carta na qual reconheço, a tinta azul, a caligrafia esmerada do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a passar os seus anos de ouro no alvo colo da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,  

Sei que conhece o enigma da esfinge, que Édipo resolveu, e portanto passo já para a conclusão: chegou a altura de eu andar de três pernas neste arrebol da minha vida. A generosíssima Orchidée ofereceu-me uma bengala de buxo, encastoada em prata fina, que foi usada com sucesso pelo próprio João da Ega nos lombos nédios do Eusebiozinho, e que ela mandou arrematar num leilão da Christie’s. Perguntar-me-á o que me sucedeu que me condenou a tal desdita. Pois saiba que um cavalheiro não revela detalhes do que se passa portas da alcova dentro mas, resumindo, dei um jeito às costas. Por Deus, dei um jeito tal que não mais consegui assumir a minha postura de homem vertical, e estou condenado, dizem-me, a andar como um galináceo mais um par de dias, enquanto sou torcido, esticado e massajado por uma donzela trajada de enfermeira, com os bíceps do Tarzan Taborda.  

Ochidée, essa luz que afaga as pupilas sequiosas dos meus olhos, diz-me que o que tenho é falta de flexibilidade. É verdade, é algo que os meus rendeiros poderão atestar: a minha inflexibilidade é matéria de que se fazem as lendas e os maus-olhados dos inquilinos. Orchidée, ali onde a vê neste momento, é tão flexível que consegue coçar a orelhinha esquerda com o dedinho grande do pezinho direito. O segredo, meu amigo, o segredo de tal gesto audaz está no ioga. Mas não num ioga qualquer, desse que praticam as gentes vestidas de licras lilases no Estádio Nacional. É o ioga quente, o “hot yoga”, praticado a temperaturas em que o suor escorre copiosa e continuamente pelos corpos contorcidos, assim me dizem fontes que conhecem a capacidade de visualização da minha mente impoluta. Um dos quartos da casa d’Andrada foi mandado transformar numa espécie de sauna, onde Orchidée se contorce agora sob a supervisão da caridosa Krishna.  

Orchidée insiste que eu, Andrada, me junte a esse carnaval, tudo a bem das minhas articulações, diz a dulcíssima. Mas, é preciso mais um cavalheiro, para que a piedosa Krishna exemplifique os passes de magia óssea que eu e Orchidée praticaremos. Não sei se está a ver. Foi assim que Orchidée se lembrou, e eu não sei como tem ela tais ideias, do meu amigo: mon chou, ça te dérangerait d'inviter le pauvre, pauvre J. à faire du yoga avec nous ? E aqui estou a convidá-lo a vir suar as estopinhas cá à casa de Andrada no próximo sábado ao alvorecer. Fique o meu amigo descansado que depois, terá direito a lauto repasto de alcachofras da Polinésia e acelgas brancas de Fiji para repor os seus níveis de clorofila.

Orchidée já anda pelas internetes em busca de tangas de fakir ou lá o que usam para praticar aquilo. Venha como está, que tudo o mais está tratado. Entrará naquela sala engelhado e com os ossos fora dos eixos e, debaixo de uma espessa camada de suor, sairá um renovado J. avec peau de bébé, afirmam fontes que não estou autorizado a revelar. Não falte, não falte, pela minha saúde. 

Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada