10.10.19

Missiva acerca disso das artes

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto na qual reconheço a caligrafia apurada nos clubes de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos de ouro no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.


Meu muito estimado amigo,


«Os homens querem-se para pelejar, para guerrear» apregoava um magala num dos filmes do Manoel de Oliveira, esse Matusalém da sétima das artes. Por afirmações destas é que o desinfeliz era recruta de pente zero e não coronel ou general. As mentes superiores sabem que o homem quer-se é para as coisas do espírito, para a contemplação da beleza, para o prazer que é a mais afortunada das formas de glória, a única, na verdade, para que foi ungido. 


Eu, aqui onde me verá, sou capaz de ficar horas a fio, horas! a apreciar o colo de marfim da dulcíssima sereia cujo canto me enleva de anoitecer ao alvorecer, sem jamais esmorecer. Ah, meu amigo, contemplar a arte assim, sim, porque falamos de arte, é termos o paraíso na Terra, o melhor dos mundos possíveis, como diria Leibniz, porque ao menos aqui temos o Faisão com amêndoa torrada, bolbo de aipo e alperce, do chef Spalk e no outro, sabe-se lá se não nos servem apenas haggis escocês. Claro que para o meu amigo, que é herbívoro, o paraíso são coisas como suflês de malmequeres e feijoadas de urtigas, mas adiante. 


A razão de estar a receber esta página lavrada por meu punho, é que a dulcíssima Orchidée está a organizar um sarau dedicada às artes, no próximo sábado, aqui na Casa d’Andrada. É pois o meu amigo, convidado de honra, como o Porto. Tem a dulcíssima um apreço incompreensível pelas garatujas do meu estimado. Afiança amiúde a formosíssima, a propósito, imagino, dessa sua vocação desperdiçada para os mesteres artísticos: «Ah, le pauvre J., qu’il a des mains d’or!». Mistérios…


Nesse dia faremos, na tenda grande do jardim, uma mostra das obras da coleção Casa d’Andrada, os Dacosta, os Palolo, os Sarmento, e está o meu amigo convidado a juntar também os rabiscos que, dizem-me fez durante as férias, enquanto chorava copiosamente rios de gin com raspa de lima por uma qualquer musa sempre ausente, jamais identificada, oh, mistério maior do que o sorriso da Gioconda.


O diligente Reboredo assegurar-se-á de que haverá canapés com hummus e baba ganoush e baba de caracol e todas essas viscosidades a que o meu amigo canta loas lá nesse seu hebdomadário nas internetes. Faça-se acompanhar apenas pelos seus bosquejos, que de tudo o resto a graciosa Orchidée cuidará. Até mesmo um projeto de artista como o meu estimado merece que as obras saiam lá dessa caverna platónica onde passa os seus empoeirados dias. (Ah, le pauvre, pauvre J, repreende-me aqui ao lado, com pontapé por debaixo da mesa, finíssima apreciadora d’arte que manterei incógnita).


Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada