13.11.19

Uma incógnita

Vieram morar para aquela casa há uns dois anos. A memória, se não for auxiliada, combina os tempos numa forma indistinta: é esse o modelo da minha. Todos os dias o via a ele no jardim ao final da tarde, curvado sobre o jornal, fazendo-me lembrar o meu pai que gostava de ler os vespertinos com a atenção de quem tem a vontade de conhecer o mundo pelas rodas dentadas que o movem. Ela saia, devagarinho, com andar manso, quase flutuante, dizia-lhe algumas palavras e voltava, como se tivesse sempre frio, mesmo a meio do verão. Há três semanas, vi um alvoroço na casa, gente, luzes acesas até mais tarde. Depois, parti em viagem, nada mais consegui observar. Regressei, a casa estava vazia, não o encontrei a ele na cadeira do jardim, nem a ela, com os seus passos de anjo vinda do conchego que imagino das mantas frente à lareira. No domingo, ela reapareceu, voltei a vê-la embrulhada no robe, mas a ele não. Nada sei sobre eles, a não ser que ele falta. Não sei se é ausência provisória, se definitiva, mas sei que a explicação mais simples é a melhor: ele é, por agora, até eu saber mais, um espaço em branco. A versão que conto a mim próprio é a que não queria que tivesse acontecido. Talvez me encha de coragem, vá à beira do jardim um dia e pergunte. Nada é mais inquietante do que uma incógnita. Perturba-me, e não pouco, esta indeterminação.