25.2.20
Admissão disto de ser português
O café no estabelecimento de Dona Teresa não me soube hoje ao segundo ou terceiro melhor café do mundo, que os primeiros lugares estão guardados para o do café do Chico e para o de Dona Patroa, por esta ordem. Não, soube-me mais ao quadragésimo oitavo, para não dizer septuagésimo nono. Claro que estive a uma ai de dizer a Dona que o café estava abaixo de par, mas imaginei o tremor na voz cristalina, as pálpebras de sombra azul semicerradas de cuidado, quando me pedisse para elucidar o que notei de diferente, e o meu próprio embaraço quando tivesse que confessar que me falta o vocabulário especializado para especificar as nuances do que sinto no palato, dos travos de fundo de madeira, de frutos vermelhos, de casca de pêssego ou de jasmim do Azerbaijão. Guardei para mim, esperando que o tempo solucione o café, como soluciona quase tudo com a exceção dos rasgões na alma. Bem sei que a leitora prefere ler nesta página opiniões desabridas, franqueza nórdica, tudo colocado em pratos tão limpos como cozinha de autor em hotel-palácio. Mas hoje, por aqui há apenas esta admissão disto de ser português, e do esperar que o assunto se resolva por si. Tantos séculos depois da outra Dona Teresa, a fundadora, ainda assim por cá continuamos, sinal de que a tática resulta, para mal da nossa reputação, para bem de termos de que remocar.