22.2.20

Missiva sobre a festa magrebina

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto, onde reconheço a letra treinada nos clubes de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos d’oiro no amplexo cálido de subtil Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

Fontes que não irei identificar dizem-me que das janelas da sua casa se escapam, por estes dias, pungentes melodias de alaúde magrebino, cantos lamentosos de mouras de olhos amendoados e vozes felinas, cheiros de chás de menta e sementes de sésamo, despertares com chamadas à fé, de muezzin (esta parte deduzi eu próprio). Dizem-me as ditas fontes que não tarda, por este andar, e esse carão encovado com olhos de sono inquieto, será em breve enquadrado por uma farta barba, à Cat Stevens após a conversão em Yusuf Islam, que é aquilo que as minhas belas fontes esperam, que abrace a fé islâmica, o que pelo menos terá como benefício que eventualmente decida abandonar essas caves onde definha e abrace uma segunda existência, com sorte, breve, como guerreiro santo no Sudão, no Afeganistão ou assim.

Acontece que, como o meu amigo sabe, aqui na casa d’Andrada, a dulcíssima Orchidée é tomada de amores pelo Carnaval. Este ano está a preparar uma festa d’época, onde os convidados se deverão apresentar vestidos como se fossem magníficos cortesãos de Soleimão, e onde serão servidas iguarias extraídas do livro secreto de receitas do cozinheiro de Xariar. Para o meu estimado, haverá kebabs de seitan, shakshuka de soja e outros pratos que fariam as delícias de qualquer adolescente sueca que faça gazeta à escola à sexta e que serão, decerto, do seu inteiro agrado. Teremos sempre uma açorda de acelgas brancas como reforço, caso estes pratos não lhe quebrem a fraqueza.

Sabendo como é parca a vestimenta do meu estimado e mais ainda quão falho é de imaginação para estas festividades, Orchidée faz-lhe chegar, pelo portador desta missiva, o traje completo de califa, turbante e chinelas incluídas. («Pauvre, pauvre, J., avec une âme si pure, qu'il a tant de choses à penser, il sera si beau dans ce costume maure.») Cimitarra também, mas só a terá cá, porque com o seu jeito e habilidade para todas as coisas do mundo, ainda se imolava sem querer na lâmina afiada e lá teríamos a inconveniência de interromper as festividades por sua causa. Mais que provável desastre.

A capitosa musa minha anda a preparar uma surpresa para os convidados, que eu não posso revelar, naturalmente, e que envolve danças e véus e umbigos expostos como surgiram ao mundo. De Marraquexe veio a propósito uma professora de artes de sedução e da tenda no jardim elevam-se notas dengosas que enchem a casa de atmosfera de Al-Andaluz antes da chegada dos feros sogros do Dom Manuel, um verdadeiro Alhambra no Restelo. Anda, a frágil Orchidée, particularmente nervosa se o meu amigo, que tem fama de crítico exigente das artes, gostará («Le pauvre, pauvre J. aimera-t-il cette simple petite surprise?»). Já tranquilizei a doce orquídea, por isso, não me faça a desfeita de não gostar. O mínimo que espero é o seu entusiasmo esfuziante!

Cá o aguardamos, devidamente trajado, para esta festa carnavalesca memorável e da qual a única condição é que não pode fazer qualquer “leak” lá naquele seu hebdomadária nas internetes. «Ce qui se passe à Restelo, reste à Restelo», costuma dizer a preciosa musa que enleia em mel os meus dias e em rosas as minhas noites.

Deste que muito o estima,

J. Eustáquio de Andrada