Meu muito estimado amigo,
Fontes que não irei
identificar dizem-me que das janelas da sua casa se escapam, por estes dias, pungentes
melodias de alaúde magrebino, cantos lamentosos de mouras de olhos amendoados e
vozes felinas, cheiros de chás de menta e sementes de sésamo, despertares com
chamadas à fé, de muezzin (esta parte deduzi eu próprio). Dizem-me as ditas
fontes que não tarda, por este andar, e esse carão encovado com olhos de sono
inquieto, será em breve enquadrado por uma farta barba, à Cat Stevens após a
conversão em Yusuf Islam, que é aquilo que as minhas belas fontes esperam, que abrace
a fé islâmica, o que pelo menos terá como benefício que eventualmente decida
abandonar essas caves onde definha e abrace uma segunda existência, com sorte, breve,
como guerreiro santo no Sudão, no Afeganistão ou assim.
Acontece que, como o meu
amigo sabe, aqui na casa d’Andrada, a dulcíssima Orchidée é tomada de amores
pelo Carnaval. Este ano está a preparar uma festa d’época, onde os convidados
se deverão apresentar vestidos como se fossem magníficos cortesãos de Soleimão,
e onde serão servidas iguarias extraídas do livro secreto de receitas do cozinheiro
de Xariar. Para o meu estimado, haverá kebabs de seitan, shakshuka de soja e
outros pratos que fariam as delícias de qualquer adolescente sueca que faça
gazeta à escola à sexta e que serão, decerto, do seu inteiro agrado. Teremos
sempre uma açorda de acelgas brancas como reforço, caso estes pratos não lhe
quebrem a fraqueza.
Sabendo como é parca a
vestimenta do meu estimado e mais ainda quão falho é de imaginação para estas festividades,
Orchidée faz-lhe chegar, pelo portador desta missiva, o traje completo de califa,
turbante e chinelas incluídas. («Pauvre, pauvre, J., avec une âme si pure,
qu'il a tant de choses à penser, il sera si beau dans ce costume maure.») Cimitarra
também, mas só a terá cá, porque com o seu jeito e habilidade para todas as
coisas do mundo, ainda se imolava sem querer na lâmina afiada e lá teríamos a
inconveniência de interromper as festividades por sua causa. Mais que provável
desastre.
A capitosa musa minha anda
a preparar uma surpresa para os convidados, que eu não posso revelar, naturalmente,
e que envolve danças e véus e umbigos expostos como surgiram ao mundo. De Marraquexe
veio a propósito uma professora de artes de sedução e da tenda no jardim elevam-se
notas dengosas que enchem a casa de atmosfera de Al-Andaluz antes da chegada dos
feros sogros do Dom Manuel, um verdadeiro Alhambra no Restelo. Anda, a frágil
Orchidée, particularmente nervosa se o meu amigo, que tem fama de crítico
exigente das artes, gostará («Le pauvre, pauvre J. aimera-t-il cette simple
petite surprise?»). Já tranquilizei a doce orquídea, por isso, não me faça a
desfeita de não gostar. O mínimo que espero é o seu entusiasmo esfuziante!
Cá o aguardamos,
devidamente trajado, para esta festa carnavalesca memorável e da qual a única
condição é que não pode fazer qualquer “leak” lá naquele seu hebdomadária nas
internetes. «Ce qui se passe à Restelo, reste à Restelo», costuma dizer a
preciosa musa que enleia em mel os meus dias e em rosas as minhas noites.
Deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada