O artigo de Henrique Raposo que o Expresso republicou e a
que cheguei por via da referência em Tempo Contado, causou-me pena por, após
tão extensa resenha de fontes, o autor ter entendido tão pouco do material que
tinha entre mãos ou, pior, por o que leu não se adequar à tese que pretendia
expor, ter simplesmente ignorado o que Vasco Pulido Valente na realidade escreveu,
substituindo-a por uma qualquer interpretação mal-amanhada e errada.
Sem entrar na análise crítica de cada um dos pontos do texto
(em jeito de exemplo, como é que alguém pode seriamente dizer que Vitorino Nemésio
está entre os “silenciados” do meio literário português por influência da
intelectualidade de esquerda, quando foi professor catedrático na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa durante mais de três décadas, determinando,
isso sim, quem era estudado ou silenciado, tendo tido, para além disso, um dos
mais populares programas de índole literária que já passaram na televisão portuguesa),
pelo menos o que lá é dito sobre Pulido Valente e Eça, não deveria deixar de
merecer nota.
O que Raposo diz, e é uma das teses centrais do artigo (que tem
origem numa biografia que estará a preparar sobre Pulido Valente): “O erro da
narrativa de V.P.V. está na transformação dos livros de Eça em oráculos eternos
e infalíveis sobre o nosso século XIX e até sobre a nossa (alegada) identidade.”
Ora Pulido Valente diz precisamente o contrário. Leia-se “Um dia na vida de Eça
de Queiroz” em “Às avessas” de Pulido Valente para encontrar que “Eça iria permanentemente ignorar
o lado mais importante e politicamente decisivo da sociedade em que nascera”,
porque a “Lisboa que as estatísticas deixam adivinhar, a Lisboa das ‘vielas e
alfurjas’, dos miseráveis e dos delinquentes, dos operários e dos conspiradores,
nunca interessou a Eça. Olhava-a sempre como um estereótipo de folhetim.” Porque,
na verdade, Lisboa, “a que ele (Eça) entreviu em 30 de Março de 1867 (...) ninguém a escreveu. Ou quem a escreveu, escreveu mal, o que é o mesmo.”
Raposo recorre às palavras de uma colega de Pulido Valente,
para “repor a verdade”: “Ora, como bem explicou Filomena Mónica, a imagem do século
XIX deixada por Eça ‘não é verdadeira’.” Mas tal reparo é redundante, uma vez que
esta era, igualmente, a opinião do seu biografado. Raposo assim não o entendeu,
porque tal não era conveniente para a sua agenda, naturalmente.
Diz-se do físico Wolfgang Pauli que terá afirmado, quando lhe
pediram a opinião sobre determinado artigo científico: “Nem chega a estar
errado.” O mesmo se poderia dizer do artigo de Raposo. Causa-me pena, como disse
ao início. Porque concordando ou discordando das posições de Vasco Pulido
Valente, que leio há décadas, e tanto há por onde discordar, o que não há necessidade
é de ser desonesto intelectualmente para marcar um ou dois pontos de agenda
política. Raposo poderia, com tal esforço, produzir um trabalho sério que
fizesse jus à figura que biografa. Assim, não sabendo se se haverá de pautar
pelo rigor ou pelo ajuste de contas, que parece feito por encomenda, será
apenas mais um dos trabalhos de quem, como ele diz de si próprio, “escreve
o que for preciso”, que ficarão para as valetas de história.