23.2.20

Nem sequer errado


O artigo de Henrique Raposo que o Expresso republicou e a que cheguei por via da referência em Tempo Contado, causou-me pena por, após tão extensa resenha de fontes, o autor ter entendido tão pouco do material que tinha entre mãos ou, pior, por o que leu não se adequar à tese que pretendia expor, ter simplesmente ignorado o que Vasco Pulido Valente na realidade escreveu, substituindo-a por uma qualquer interpretação mal-amanhada e errada.

Sem entrar na análise crítica de cada um dos pontos do texto (em jeito de exemplo, como é que alguém pode seriamente dizer que Vitorino Nemésio está entre os “silenciados” do meio literário português por influência da intelectualidade de esquerda, quando foi professor catedrático na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa durante mais de três décadas, determinando, isso sim, quem era estudado ou silenciado, tendo tido, para além disso, um dos mais populares programas de índole literária que já passaram na televisão portuguesa), pelo menos o que lá é dito sobre Pulido Valente e Eça, não deveria deixar de merecer nota.

O que Raposo diz, e é uma das teses centrais do artigo (que tem origem numa biografia que estará a preparar sobre Pulido Valente): “O erro da narrativa de V.P.V. está na transformação dos livros de Eça em oráculos eternos e infalíveis sobre o nosso século XIX e até sobre a nossa (alegada) identidade.” 

Ora Pulido Valente diz precisamente o contrário. Leia-se “Um dia na vida de Eça de Queiroz” em “Às avessas” de Pulido Valente para encontrar que “Eça iria permanentemente ignorar o lado mais importante e politicamente decisivo da sociedade em que nascera”, porque a “Lisboa que as estatísticas deixam adivinhar, a Lisboa das ‘vielas e alfurjas’, dos miseráveis e dos delinquentes, dos operários e dos conspiradores, nunca interessou a Eça. Olhava-a sempre como um estereótipo de folhetim.” Porque, na verdade, Lisboa, “a que ele (Eça) entreviu em 30 de Março de 1867 (...)  ninguém a escreveu. Ou quem a escreveu, escreveu mal, o que é o mesmo.”

Raposo recorre às palavras de uma colega de Pulido Valente, para “repor a verdade”: “Ora, como bem explicou Filomena Mónica, a imagem do século XIX deixada por Eça ‘não é verdadeira’.” Mas tal reparo é redundante, uma vez que esta era, igualmente, a opinião do seu biografado. Raposo assim não o entendeu, porque tal não era conveniente para a sua agenda, naturalmente.

Diz-se do físico Wolfgang Pauli que terá afirmado, quando lhe pediram a opinião sobre determinado artigo científico: “Nem chega a estar errado.” O mesmo se poderia dizer do artigo de Raposo. Causa-me pena, como disse ao início. Porque concordando ou discordando das posições de Vasco Pulido Valente, que leio há décadas, e tanto há por onde discordar, o que não há necessidade é de ser desonesto intelectualmente para marcar um ou dois pontos de agenda política. Raposo poderia, com tal esforço, produzir um trabalho sério que fizesse jus à figura que biografa. Assim, não sabendo se se haverá de pautar pelo rigor ou pelo ajuste de contas, que parece feito por encomenda, será apenas mais um dos trabalhos de quem, como ele diz de si próprio, “escreve o que for preciso”, que ficarão para as valetas de história.