7.4.26

Derrocadas

Acima de tudo, a guerra de que ouvimos o rufar dos tambores cada vez mais ensurdecedor, causa a angústia adicional de, lá no fundo, sentirmos que os que desde sempre consideramos os bons, afinal são os maus, sendo a inversa, pelo menos em parte, verdadeira. Fica a dúvida, cada vez mais transformada em certeza, de que durante décadas fomos manipulados e ofuscados, provavelmente suspeitando-o mas não o querendo reconhecer. É mais do que altura de olharmos a verdade bem nos olhos, sem os desviarmos por vergonha ou preconceito. Daqui para a frente, se voltarmos a ser enganados, é porque o quisemos. Nesse caso não é engano: é cumplicidade.

9 comentários:

  1. Esse é um desabafo forte e reflete um sentimento de desilusão profunda que muitos compartilham hoje. É um convite à lucidez, mesmo que ela traga o peso da angústia. Afinal, a verdade raramente é confortável, mas é a única base sólida para qualquer tipo de integridade.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Infelizmente, a verdade sobre estes temas, parece ferro deixado a oxidar: a camada de ferrugem já é tanta que dificilmente conseguimos entender a forma original, a não ser que estejamos a fazer toda a longa e penosa operação de limpeza. Muitos não sabem ou não querem fazê-lo. Mas a verdade é que a ferrugem nunca dorme, como diria a canção.

      Eliminar
  2. Um texto forte e inquietante, que expõe a quebra de confiança nas narrativas de “bons” e “maus”. Desafia-nos a encarar a verdade com lucidez, mas sem deixar que a desilusão se transforme em certeza absoluta.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Claro que há gradações, mas neste momento, sim, a confiança está abalada -- suponho que de forma irreversível.

      Eliminar
  3. É impressionante, caro Xilre, esta sensação de que sempre fomos manipulados.
    Onde estará a Verdade afinal? Em quem poderei confiar, que não tenha escondido um interesse qualquer? Nos jornalistas?
    E reparo que de rajada lhe fiz três perguntas e na realidade não espero resposta nenhuma.
    Obrigado pela lucidez.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Creio que as fontes estão inquinadas para todos, inclusivamente os jornalistas. A melhor forma é percebermos quem, na verdade sofre no terreno -- esses são, não os detentores da verdade, mas os barómetros. Estão a ser tratados como números ou danos colaterais? Se sim, quem conta a história não está, decerto a dizer verdade -- no limite, está a atirar areia ao ar, a ver se o vento a empurra para os nossos olhos.

      Eliminar
  4. Eu nunca acreditei que houvesse bons e maus, sempre fui céptica quanto à totalidade que habita cada coisa. Contudo, que um povo vítima da maior crueldade da história se pudesse tornar tão cruel, isso ainda me surpreende um pouco.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Ao longo da vida conheci vária pessoas originárias do Irão (ou Pérsia, como preferem dizer) e todas me surpreenderam pelo brilho intelectual, cultura, delicadeza. Ouvir o presidente de uma nação ocidental ameaçar destruir a cultura milenar de tal povo é extremamente perturbador, mais ainda quando o secretário-geral da NATO, europeu, ex-primeiro-ministro do mesmo país onde, durante o tempo da Shoá, Anne Frank esteve escondida -- e foi depois capturada -- vir dizer que concorda com esse dito presidente, mostra que este mal, esta forma odiosa de ver o mundo, está entranhado entre os que o praticam e os que são cúmplices. Na prática, vem a dar no mesmo, como Anna Arendt bem demonstrou.

      Eliminar
  5. Temos andado meio adormecidos no que diz respeito aos que, lá no fundo, iam passando pelos pingos da chuva.
    Não acredito na bipolaridade "bons versus maus". Há algo no ser humano que o faz estranhamente inconstante.
    Entristece, isto!

    Uma boa noite, caro Xilre, apesar de tudo.

    ResponderEliminar