Uma gaivota pousa no outro extremo da mesa de tábuas corridas onde me sento com o comandante. Estou de frente para o mar, e ele do meu lado esquerdo. Na mesa ao lado, uma mulher de vestido verde com flores brancas e chapéu de palhinha com uma fita grená afasta as moscas, mão remando no ar com um abanico de fogareiro. O dono do bar assovia baixinho lá atrás do balcão. Bebo pelo gargalo da garrafa um gole de cerveja de água dessalinizada. Tem o sabor adocicado das cervejas de todas as ilhas. «Uma vez encontrei uma garrafa com uma mensagem enrolada, ali à beira de água», diz o comandante, esticando o dedo, num gesto brusco. A gaivota, já próxima, assusta-se. Hesita, levanta as asas, como se fosse partir. Mas fica. A mulher do abanico pousa-o nas pernas e fecha os olhos, enquanto adormece na cadeira. «No papel amarelecido dentro da garrafa, apenas as palavras em espanhol, ‘Não me esqueças’, ‘No me olvides’.» Porque é que se deitaria ao mar tal mensagem, para quem?, interroga-se o comandante. Agora ao pé, noto que a gaivota é demasiado grande, do tamanho de uma galinha, como as que encontrei no outro lado do mundo. Não tenho resposta para a pergunta. «Gastamos a vida a atirar garrafas ao mar, com uma esperança vaga de que os destinatários as encontrem. Mas a maioria perde-se na corrente dos dias.» A gaivota acena a cabeça como que a dar razão ao comandante. O abanico da mulher do vestido verde cai ao chão com um ruído seco que contrasta com o silêncio da tarde e é desta que a gaivota se vai, como se fosse uma garrafa levada pelas correntes do ar.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]