25.11.18

Infusão galinácea

Arrastei-me, a tremer e a bocejar, até à quitanda de Seu Januário, que tem uma barba à Lincoln e usa suspensórios para segurar a sua delgada estrutura de caniço às calças. Curta, a minha lista de compras, que a memória para mais não dava: meia galinha, gengibre e cebolinho. Gengibre, Seu vendeu-me a preço de pepita de ouro: «Vem de muito longe, e não vem a nado, paga o transporte por paquete pelo grande oceano.» A galinha é da criação de Dona Adozinda, com quem Seu Januário, homem regrado, mantém relações comerciais ao domingo e à quarta. Cebolinho, nem vê-lo, «terá que ser cebola mesmo», diz Seu. Não é o mesmo, mas não estou em condições de argumentar. Seu Januário vê as minhas mãos a tremer e quer-me a milhas da quitanda depressa. É véspera de visita a Dona Adozinda e altura inadequada para uma gripe, se é que há alguma adequada.

Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei  litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.

[Dos «Diários», de Victor de Vere.]

24.11.18

Mosto

Pelo que me recordo do sonho, durou toda a noite, sempre o mesmo, recorrente, como se eu fosse um hamster condenado a correr numa roda chiante. Correr faz sede, e por isso aquela vontade de beber a meio da noite, água que é a bebida que mais se parece com o gin, este interdito se, com tal carga de antipiréticos, não quisesse ganhar asas e voar pela janela, em alucinações onde surgiriam, imaculadas e impávidas, raparigas de olhos de caleidoscópio.

A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.

E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.

[Dos «Diários», de Victor de Vere.]

18.9.18

O derradeiro passageiro

O calor do inferno já se faz sentir a meio da manhã e é exacerbado pela humidade que parece nascer diretamente nos pulmões, tornando cada ciclo de respiração uma cena de pugilato por debaixo da pele. Eu estou sentado no «tro tro», o mini-autocarro, melhor, a furgoneta, que me levará até ao meu destino, a duas horas de distância de Acra. Antevejo os meus ossos a pedirem misericórdia nas estradas de terra batida, com aquela suspensão de ferro rijo com amortecimento a chumbo. Mas para já, só quero é iniciar viagem, sair daqui, sentir o alívio da brisa entrando pela janela, ao invés deste ar estacado como o condutor, à espera do último passageiro.

O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».

Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro.  Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.

17.9.18

Os dias da rádio

Eu trazia as histórias de uma rádio universitária, dos tempos de estudante, e ele, de uma rádio local, em La Oroya, onde embarcou no autocarro e se sentou ao meu lado. De súbito, estávamos a conversar como velhos conhecidos, oficiais do mesmo ofício que não era o que alimentava nenhum do dois. Chamava-se César Hernández, «como o jogador», disse-me, com uma ponta de orgulho na voz. Todo vestido de branco, que lhe realçava a tez morena e o bigode preto cuidado, César tinha uma voz de ouro, uma voz que adoçaria as ondas do éter e quebraria corações como cascas de ovo. Ia para Lima, a uma entrevista na Radio Nacional del Perú. César era o sócio-gerente, locutor e todos os restantes papéis na rádio de La Oroya, uma terra onde, como a maioria no interior do Perú, todas as casas estão permanentemente a meio da construção.

Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.

16.9.18

No curso do Napo

Seguia o curso do Napo, que é um afluente do Amazonas, com a esperança debruada a temor de encontrar uma tribo de Haoranis. Caso os visse, tinha decidido passar de largo, se tal fosse possível: há descobertas mútuas que é melhor permanecerem no terreno das possibilidades. Parado, encostado à motocicleta alugada, fotografava o rugido do rio, quando um macaco-prego, um dos muitos que havia avistado, de olhos brilhantes entre a vegetação, se afoitou até mais perto de mim, com o passo dengoso da curiosidade tateante. Apontei a máquina e disparei uma, duas, uma rajada de fotos e ele, cooperante, mostrando os dentes num esgar escarninho. Cedo se desinteressou e me virou as costas, e eu a ele, no seguimento, na amigável separação de quem jamais se cruzaria de novo, assim pensei.

Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.

Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.

14.9.18

Agua caliente

Depois de muitas horas de agonia e de ossos desconjuntados, o autocarro apocalíptico deixou-me em Gobernador Gregores, o derradeiro enclave de civilização antes do Lago Cardiel, na Patagónia. Quando saí, o vento, que transportava navalhas a eito, enrodilhou-se-me nos ossos, e senti-me a andar como se tolhido por ligaduras em todo o corpo, acabado de sair de algum sarcófago milenar. O meu reino por um banho, pensei. Felizmente, a pensão, que concluí ser um albergue, quando lá cheguei, estava perto. Mas logo à porta, as expectativas goraram-se, como as de Dante à entrada do Inferno. Alguém, tão irónico como pragmático, tinha ensinado um papagaio, que se empoleirava ao lado do enfastiado rececionista, a dar as piores notícias aos desprevenidos hóspedes. A tiritar no chuveiro, mais tarde, ainda ouvia o safado a repetir-se, com nítido gozo no papagueio adunco: «No hay agua caliente!»

13.9.18

Lavas vivas

Uma noite fiquei preso no glaciar de Pico de Orizaba e gastei os últimos fósforos a fazer uma fogueira ridícula como a minha inconsciência. Só de manhã passou uma mulher Nahua, que me ofereceu café em pó. Sem os fósforos nem isqueiro, não tinha forma de fazer café quente. Atirei uma mão cheia de café para a boca e mastiguei com gelo. Ainda recordo o vulcão na boca, mais feroz do que terá sido o de Orizaba, nos seus tempos exuberantes de lavas vivas.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso

Em Chiapas, entrei na igreja de San Juan Chamula, que tem o arco da porta pintado do verde das folhas da magnólia mexicana. Um pinheiro cobre a porta. Os nativos Tzotzil, que frequentam a igreja, são católicos devotos, São João Batista é o padroeiro da cidade, e o batismo é o único sacramento observado na igreja. Em San Juan Chamula não há padre. Quando é necessário, os Tzotzil trazem um de outra cidade, deixam-no derramar água benta sobre a cabeça da criança e dizer umas orações e assim como veio o enviam de volta. No resto do tempo, os paroquianos praticam antigos rituais maias. Não há bancos na igreja e o chão é coberto de agulhas de pinheiro. O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso.

Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.

Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

7.9.18

Uma cerveja em Acra

A cerveja é a bebida nacional no Ghana, e a quem se sente num bar em Acra e peça a beer é-lhe servida uma garrafa de 625 ml. Ao principiante que arregale os olhos e timidamente aponte e balbucie smaller, ser-lhe-á jogada uma garrafa de 354 ml, acompanhada de um olhar condescendente e anunciada como a mini.

8.8.18

Alexandre, o Pequeno

A t-shirt deste é cor-de-rosa com estrelas azuis, o cabelo é louro e liso. O olhar, determinado. A idade, a mesma do da trotinete, do final da manhã. Senta-se na mesa ao lado, com a mãe, a avó e a irmã, de um ano, no topo, centro de atenção das adultas. Para ele, a mãe pediu uma piza, que come conscienciosamente, assumindo o papel de homem mais velho da mesa. O queijo fundido faz agora uma ponte, em forma de esparguete, até à boca dele. «Como me desembaraço disto?» parece perguntar. Olha para mim, separado por um corredor, para ver se reparo. Finjo que não vejo. Como Alexandre na Frígia cortou o nó, ele faz do dedo espada e desfaz o fio de queijo. Depois continua, impávido, a devastar a piza, como se esta fosse a Ásia Menor.

1.8.18

Confissões

Preparava-me para sair com o livro, quando o outro cliente abriu a porta da rua e entrou. «Não quer um saquinho?» perguntava-me então o alfarrabista. Pois que sim, dá jeito, e ele enfiou a obra, densa mas não espessa, que suspeito nunca ter sido lida, num saco de papel que daria para transportar a Bíblia na tradução de Frederico Lourenço, na edição integral, quando estiver completa. O outro cliente deambulava entretanto, em busca de obra onde prender os olhos e as mãos. «Precisa de ajuda?», ofereceu-se o dono da loja. E eu nem parei sequer no caminho para a porta, para não ouvir um bocadinho que fosse da resposta. Nada é mais íntimo num homem, nada mais revelador do estado da sua alma, que a busca de um livro esgotado. Um alfarrabista é um confessor, ainda que não ordenado. Ora eu preferia não estar presente nas minhas próprias confissões, quando mais presenciar as alheias.

31.7.18

Robespierres

«Guilhotinaram os livros», diz-me o alfarrabista, com um esgar de horror, que eu partilho, mal acreditando que alguém o faça sem que o estômago se dobre em nó. Por isso já não encontro esses livros, mesmo escrevendo para a editora, mesmo sabendo que deveriam ter ficado em armazém, a aguardar os compradores que tardavam, dos quais eu seria um, possivelmente de entre muito poucos. Ambos parámos, respirámos fundo, olhámos outros tomos nas estantes em redor, as primeiras edições no armário com vidros, os outros vestindo as tábuas de madeira envernizada. Os guilhotinados eram também edições primeiras, que outras não chegaram a ser editadas, os compradores nunca responderam à chamada, ao apelo, nunca pararam no balcão da compra. De repente, apercebi-me que um editor pode esconder um Robespierre, um guilhotinador, que prefere decapitar um livro, como qualquer descartável de um «ancien régime», a reabilitá-lo para outro fim que não obrigue a câmbio de dinheiro por leitura. Eu não concebo os livros senão como números inteiros. O amor, aos livros, a tudo, não tem existência, não tem significado sequer, como fração.

22.7.18

Eu e ele

A avó arengava muito alto para o neto, com não mais que um ano, que seguia aninhado no carrinho, mas na verdade olhava para mim, para ver se eu ouvia as admoestações dirigidas ao infante, talvez em busca de um aceno de concordância. Eu e ele trocámos olhares cúmplices e entre nós, de forma muda, acertámos os nossos ouvidos de mercador.

19.6.18

Roda vinte e nove

Apreciei-lhe o jeito dramático de falar, a ênfase dada às palavras como um Ary dos Santos fora de tempo, modelando a voz como se a cavasse a golpes de pá; ouvi-lhe as opiniões fortes, o tom desencantado e as desconfianças com o rumo do mundo; respondi com palavras de compreensão, que lhe provocaram acenos vigorosos de cabeça. Exames feitos, enquanto digitava a receita no computador, a conversa desviou-se para outros trilhos, e ele, como se fosse um avô desvelado a apresentar o neto, mostrou-me, no telefone, a imagem da bicicleta. «Roda vinte e nove», disse-lhe eu e ele confirmou, boa para as subidas e terrenos planos; não tão boa nas descidas. A roda vinte e nove não ajuda sempre aí, confirmei-lhe. Durante mais de quarenta minutos, ouvi-o, retorqui, acrescentei, argumentei. Notei que, enquanto falava da vida de fim-de-semana, se evadia das quatro paredes, e andava, feliz, tombando e arranhando-se por veredas estreitas e barrancos vertiginosos. Com a amargura inicial já distante, não soube, nunca saberei, quem é que consultou quem, afinal.

14.6.18

Um olhar célere

George de La Tour, Fragmento de A Vidente, 1630
É um olhar célere o da rapariga. Sagaz. Um ângulo de visão que só por si será capaz de dar a volta ao mundo inteiro.

[João Miguel Fernandes Jorge]

11.6.18

Água

Sigo abaixo da superfície, vendo as bolhas esparsas, etéreas, que ascendem das minhas mãos, trânsfugas da gravidade. A água respira tão lentamente que juraria estar adormecida e eu avanço em silêncio para não lhe transtornar o repouso, como se tivesse com ela um trato implícito, um pacto — não nos perturbaremos. Chego ao extremo e perscruto a superfície azul, onde tiras de luz dançam com a tranquilidade do que é inevitável: o meu rasto desapareceu, como se nunca ali tivesse estado. Imperturbada, a água é a medida visível do presente.

8.6.18

Missiva sobre a nova ala

Recebo uma carta escrita com caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, que identifico com J. Eustáquio de Andrade, professor emérito do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos dourados no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,

As almas fracas fenecem quando lhes falta o sol, como pétalas de malmequer ou caules tenros, lamentando-se como Jeremias, fazendo escândalo, fungando, ansiando por dias luminosos, como donzelas de pálidas faces à procura do bálsamo de uma cor que lhes permita receber o verão como a um amado perdido. Fontes que não identificarei, mas que aqui ao meu lado limpam os olhos perlados de comoção enquanto balbuciam «Ah, pauvre, pauvre J.», afirmam que o meu ilustre amigo anda amargado com o mês cinzento que aí vai, com desânimo de vida, enfraquecido como um Sansão a quem a cabeça amanheceu rapada, murcho como um figo seco.

Eu sempre achei, mas tenho guardado para os meus mais íntimos pensamentos, como sabe, que essa sua dieta de ervas, essas misturas de acelgas com urtigas, que lhe servem as tais Donas com falas que passaram o equador e que o bajulam amiúde chamando-lhe «doutor» e sabe-se lá mais o quê, lhe acabariam por tirar o pouco vigor que separava um espécime humano como o meu estimado amigo de um peixinho de aquário. Bem, adiante, não denigramos os peixinhos de aquário, por quem a minha Orchidée, este cometa fosforescente que ilumina a minha órbita tardia, tanto suspira: «Ah, pauvre, pauvre poisson.»

As almas fortes, de que conheço bem pelo menos um exemplar, temperado a banhos de água fria, invernos britânicos e tinto da Herdade d’Andrada, rebrilham e rejuvenescem com um tempo assim, fortalecem-se, revigoram, rebentam paredes, erguem paredes, berram com empreiteiros, acrescentam alas, preparam-se para inaugurar bibliotecas. E lembram-se dos elos mais fracos da humanidade, ou seja, dos espécimes como o meu amigo, que vivem na esperança da luz e na sombra dos livros quando se preparam para por a uso mais umas centenas de metros lineares de estantes do melhor carvalho da Pomerânia.

Assim, a instâncias da doce ninfa que espreita por cima do meu ombro enquanto esboço estas linhas, venho convidá-lo a comparecer, no sábado próximo, às dezanove horas, em traje — como sói dizer-se — de negócios ocasionais, que não vejo o meu amigo a fazê-los de outro tipo ou género, aqui na casa d’Andrada ao Restelo, para a apresentação oficial da ala sul da biblioteca d’Andrada, a que foi dado o nome inteiramente inesperado de Ala Orchidée.

Na ocasião serão servidos os melhores vinhos da Herdade d’Andrada e os faisões para os quais o misericordioso Reboredo afia agora as suas artes aprendidas em King’s Saul Boulevard. Manjares, como vê, capazes de restabelecer até um peixinho amortiçado nas areias do aquário. Não se atrase, que o misericordioso Reboredo tem maus fígados, quando vê os seus bem-amados faisões jazerem arrefecidos nas travessas por demoras de convidados.

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada

7.5.18

Calções de peitilho

«A ilha não é tão grande assim», diz o comandante. «O velho Malaquias fez anúncio na telefonia, organizou uma batida, como se eles fossem bichos fugidos, mandou a matula pelo mato durante a noite de luzernas acesas, a bramar como gente de alma roubada. Foram apanhados no dia seguinte, aninhados um no outro, a tremer como peixes enleados na rede.» O velho deu-lhe tal muxinga que dizem que ouviram o eco dos gritos lá para a zona da ribeira; o comandante estende o dedo na direção da vendedora de lenço vermelho, mas eu bem sei que é para lá dela que ele aponta.

«Ele, ainda passou uma semana nos calabouços da polícia. Levou uns carolos do Sargento Saringa, que tem conta aberta na quitanda. Com o Malaquias ninguém mexe. Ela ia chorar às grades que dava dó. O velho abalava da loja ainda de avental posto e arrastava-a pelos cabelos, cacarejando como um galo. Safado duro, aquele.»

«Mas a semente tinha sido lançada à terra», diz o comandante, afastando com mão displicente a oferta da vendedora de lenço vermelho. «Quando o velho a viu agoniada, de olhos aguados, sumindo da quitanda para deitar a rede pela borda fora por causa do cheiro da fruta acalorada que o velho deixa amanhecer mal, falou com o padre, marcou ele o casamento, empregou o moço, que tem boas costas, nas entregas, arranjou para eles o quarto das traseiras da quitanda, e anunciou que ia ser avô. «Vou ser avô», confidenciava a toda a freguesia. E contava a história do neto que ainda havia de nascer. Via-o destinado a grandes feitos, olhava esperançado para o palácio cor-de-rosa. «Um dia, será nosso», Dona Adozinda ouviu-o dizer bastas vezes.

Não fez festa de casamento da filha, mas fez folia de arromba do batizado, uma semana depois do Quiaszinho nascido, com direito a quitanda fechada o dia todo. Dantes, a quitanda estava sempre de porta aberta, tirando no dia de Natal, a partir da hora de almoço.

O velho Malaquias tinha ficado lá atrás, no início do mercado, quando o vimos a comprar uns calções para o Quiaszinho e o comandante me começou a contar a história.

«Eu também tive uns daqueles assim», e saco da carteira a minha foto com os calções como os do Quiaszinho. «A foto é a preto e branco, sei lá eu se são iguais?», desconfia o comandante. «Olhe aqui o peitilho, não se está mesmo a ver que são iguais? Iguaizinhos. Ora que cisma!»

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

6.5.18

Um trópico perto ou distante

«Foi mãe da minha mãe sem ser minha avó», diz-me o comandante.

As fatias finas de sol que se escoam pelas frinchas do telhado da esplanada pintam-lhe a cara com listas luminosas e criam múltiplos focos de incêndio nos cabelos claros. «Foi também minha mãe», acrescentou. «Tia Conceição até mãe da minha avó foi, ainda que sendo sua irmã.»

Imagino essa irmã da avó do comandante, que foi também mãe da mãe, e mãe dele, e tudo, com uma face parecida à que vejo nele, talvez com os mesmos cabelos claros incendiados pelo sol. Afinal, os nossos genes mudam, evoluem, com a nossa vida. Ela, essa mãe que o era sem o ser, que o abraçou quando nasceu, moldou-o com as suas mãos e o seu olhar, como a uma porção de caulino que se transforma de massa por formar em peça perfeita. Ele ganhou-lhe o jeito e as feições.

O olhar do comandante perde-se em Dona Giza, que embala o filho adormecido no colo, ali, ao lado do balcão, sob o olhar vigilante de Crioula, a gaivota, talvez ela mãe com filhos voando por um qualquer céu, um trópico perto ou distante. «Embalou minha mãe. E embalou-me a mim. Talvez tenha embalado minha avó, também.» Faz uma pausa. «Foi mãe de três gerações», e levanta a mão com três dedos esticados. E depois junta-lhes os da outra mão: oito dedos. «Pelas minhas contas, foi mãe toda a vida, foi mãe mais de oitenta anos.»

«E quando partiu, deixou o mundo povoado, como Eva.»

Crioula parece andar pé ante pé para não acordar o filho de Dona Giza. Deus deixou o mundo ao cuidado das mães, de todas as mães, independentemente das razões da biologia, penso eu. O comandante, que embala o filho de Dona Giza com um gesto da cabeça ao ritmo das asas volantes de Crioula, parece assentir. Na cara, o sorriso maternal que herdou de Tia Conceição, adivinho eu.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]

2.5.18

O mar através de uma garrafa

«A saudade é inútil», diz o comandante, que mora na ilha desde quando o mundo ainda era moço. «Chegam aqui, estão duas ou três semanas, e um dia dizem-me: bateu-me cá uma saudade...» O comandante mira o mar através do vidro da garrafa de cerveja. «E eu dou-lhes uma garrafa e digo-lhes para olharem o mar assim. Pergunto-lhes: O mundo mudou, porque há uma vidro de permeio?» Continua, sem esperar a minha resposta: «Não. Muda o mundo, notar-se a distância? A distância está sempre lá: note-se ou não. É uma ilusão inútil, a saudade. Mais inútil do que uma miragem no deserto, que não mata a sede, mas gera esperança. Não há esperança na saudade.»

A gaivota que pousa na balaustrada do bar já tem nome; chamo-lhe «Crioula.» Vem escutar as nossas conversas, a cusca Crioula.

«Leve a garrafa, olhe o mar através dela e a saudade ganhará perspetiva, como o horizonte», aconselha o comandante. «Leva a garrafa, paga o depósito», responde lá do balcão o dono do bar. O comandante, decano da ilha, esquece que ali, se a saudade abunda, tudo o mais escasseia, é precioso: uma garrafa é um tesouro. E não basta a gaivota, senão o dono do bar a escutar as conversas. As ilhas são um desassossego. A garrafa fica em cima da mesa, a nova perspetiva também. A saudade continua comigo, que é onde pertence. «É inútil, mas é minha», digo ao comandante. Ele abana a cabeça como se tivesse andando a gastar areia para assorear o mar. O dono do bar, finge que limpa copos ainda de ouvido esticado, mas Crioula, a sábia, voa: do tema da saudade, já sabe tudo o que precisa.

[Dos «Diários» de Victor de Vere.]