23.1.19
Caderno diário
Não é que eu não acorde cedo, em alvoroço, de ouvido esperançado na direção da janela onde dantes cantava o pássaro. Ou que não prolongue a leitura à noite, melhor, que leia antes com a audição, filtrando cada rumor em busca de uma nota, por singela que seja, que me soaria como uma salva no meio do breu. Mas nem um sinal, nem um som, senão o doce roçagar das folhas vazias. Há quase uma semana que dele nada sei, que não ouço trinado, nem um pio. Bem sei que o pássaro é livre de voar, é livre de não cantar, é livre de demandar beirais de outrem. Mas a minha razão é inábil para convencer o meu coração. O que sabemos não é escala para o que ansiamos. Num devaneio, iludo-me: talvez não ande longe, talvez dormite entre um tronco e um ramo resguardado, a um salto da minha atenção. Ou talvez repouse algures, apenas, do ofício de cantar. Soubesse eu onde encontrar garrafas com asas, deitaria uma ao ar, esperando que vogasse ao sabor dos ventos, até entregar a mensagem, com o timbre do meu coração, ao canoro. Assim a lesse ele, ai de mim. Agora, só sonhos tenho para enviar, enquanto guardo as esperanças e inquietações todas para mim. E tenho um ouvido tão atento que, assim o ouvisse eu, assim tivesse dele o sinal, ainda que não voasse ele para o beiral, era eu que até ele voaria.
14.1.19
Vilar de Perdizes
O alfarrabista já tem porta aberta: afinal o encerramento demorou mais do que o anunciado pelo papel, por razões que só eu sei e ele sabe que eu guardo para mim. Mas os livros usados não expiram, a virtude redentora dos colecionadores é a paciência, a demora dele é pisar um risco sem risco. Enquanto se aquece ao sol que lhe alonga a face pálida, a arquiteta chega, de passageira e de semblante cerrado, na motorizada: ela acena-lhe, o namorado ignora-o. O doutor Videira, ao meu lado na mesa do café, que olha na mesma direção que eu, a deles, diz-me: «O homem da mota ainda não sabe, mas o coração da arquiteta também bate por livros já lidos. Daqui a duas semanas, já não será ele a trazê-la.» O doutor Videira olha para o fundo da chávena, como se nele estivesse escrito, e fosse decifrável, o destino. O alfarrabista já entrou, está a atender um cliente, um dos colecionadores que lá permanecem horas em adoração, como num templo. A arquiteta ficou na rua a fumar, enquanto a mota sumia, engolida pelo fim da rua. Dois andares acima, o gato de Dona Maria Bárbara meneia a cabeça, ao ritmo dos compassos de uma transcrição de Wagner para piano, que chegam atenuados aqui. O doutor Videira vai todos os anos em setembro a Vilar de Perdizes, aprender com os melhores. Eu não sei o que o doutor lê do futuro, ou como o lê, mas não apostava contra ele, que me parece o mesmo que zombar do inevitável. A arquiteta acaba o cigarro e fica a olhar para a montra dos livros usados, como se quisesse rematar a frase do adivinho, meu vizinho. Depois, bate os tacões como um general prussiano, e entra na porta do atelier com passo triunfal. As grandes decisões são como os lagos: não é pela calmaria da superfície que se lhes mede a profundidade.
10.1.19
Propriedade comutativa
Dizia tio Ascenso: Trata-a como a uma princesa e ela tratar-te-á como as princesas tratam quem as trata como princesas.
2.1.19
O terceiro andamento
A arquiteta sai do atelier em passo determinado, atravessa a rua numa diagonal traçada a régua e entra no café, sombria como um anjo da madrugada. O gorro enfiado até às sobrancelhas, as mãos ocultas por luvas pretas, o casaco longo, ao rés dos tornozelos, a cara de expressão cerrada, poderia fazer parte de alguma missão secreta, mas vem só pedir: «Um café por favor, Ninha, com cheirinho.» Dona Juliana alcança a garrafa de J&B e aromatiza generosamente o café. De onde me sento, junto à porta, parece-me ouvir o piano virtuoso de Dona Maria Bárbara enovelado na segunda sonata de Schumann, esse tresloucado. Do gato, nem reflexo na janela: também ele é schumanniaco. O Senhor Inácio da papelaria conversa com Dona Lídia da frutaria, vizinha de porta com porta: tarde amena para o negócio. O alfarrabista continua ausente em paradeiro de que apenas eu tenho notícia. Com a falta de cafeína liquidada, a arquiteta retira o telefone do bolso e inicia a chamada logo que cruza a porta. A voz sobe em crescendo como o scherzo do terceiro andamento. A meio da rua, já a fúria está livre por inteiro, com toda a amplitude de asas que apenas as águias e a raiva possuem. A voz chega aqui, sobrepondo-se à melodia do piano. Dona Juliana olha-me, único cliente agora, e diz: «Amor é fogo, menino.» Menino, não sou eu: é genérico, adenda de terras de outros continentes. Mas o mal de amor é universal, como o fogo. O poeta dizia que não se vê, o amor. Talvez não, mas ouve-se – com mais distinto furor que o scherzo de uma sonata para piano. Isto o poeta não disse, mas apenas porque no tempo dele ainda não havia scherzi, nem pianos.
1.1.19
A rua
No restaurante, as mesas da esplanada não estão postas para almoço e já passa das onze da manhã. O café está tão fechado como o cofre do banco e hoje tive que me resignar à bebida saída da minha máquina com previsibilidade encapsulada. Na porta vidrada do alfarrabista há um aviso aos estimados clientes a indicar o regresso dia sete de janeiro. Só eu sei onde ele está por estes dias, mas jurei segredo. Na papelaria do Senhor Inácio, a nota tipografada é concisa: Fechado. Ai daqueles a quem acabar a tinta azul cobalto: a urgência da escrita terá que aguardar um dia mais. Ontem, a meio da tarde, a motorizada do namorado da arquiteta estacou frente à porta do atelier com rugido de fera atemorizada. Ela saiu de sandálias de agulha visíveis debaixo do longo casaco preto, colocou o capacete, agarrou-o como a uma boia de salvação, e antes que o ruído da partida tivesse tempo de me chegar aos ouvidos, deixei de os ver ao fundo da rua. O gato à janela observa a rua, com minúcia de caçador. Não se ouve o piano de Dona Maria Bárbara, mas na janela que lhe pertence, e por detrás do gato, vislumbro os olhinhos vivazes e rápidos do Senhor Inácio, da cor da tinta das escritas. É manhã de primeiro de janeiro, a rua está vazia, o caminho livre. A porta da rua abre-se e um vulto de sobretudo e chapéu e embuçado no cachecol, sai em passinhos tão céleres como o olhar azul. Vê-me, hesita, mas acena-me. Eu devolvo o aceno e junto-lhe os votos de bom ano. O Senhor Inácio funde-se na pouca sombra do dia claríssimo e desaparece como vapor de água. O gato também já não está à janela: pode voltar a ter a atenção plena e merecida da sua hospedeira, e não desperdiça nem um minuto.
18.12.18
Pelos olhos do gato
A aluna de Dona Maria Bárbara chega a meio da manhã, com mochila ao ombro e ansiedade na expressão e, pouco depois, ouvem-se na rua os fiapos das notas titubeantes do piano, escalas esforçadas, peças de iniciação, voos mais ousados seguidos de quedas bruscas e ressurreições. Por vezes, há longos hiatos entre as escalas e, nesses, consegue-se distinguir a voz pautada da professora, pesada como duas mãos abertas carregando sobre os ombros da aprendiz. Mais tarde, quando esta sai da porta ao lado da loja do alfarrabista, a ansiedade dá lugar ao alívio, não diferente do de quem é salvo do oceano, do lado de lá do oxigénio já tão longínquo. O gato preto à janela do segundo andar assinala as horas das aulas de Dona Maria Bárbara: enquanto decorrem, os olhos claros e frios do felino percorrem a rua, em busca de lugar de poiso para a sua atenção de predador de histórias. Contaram-me que, quando o alfarrabista pai, antes de passar a loja ao cuidado do filho e se retirar em definitivo, cruzava a porta ao lado, o gato também vinha postar-se à janela, e assim ficava de sentinela à vida que decorria cá em baixo até o visitante voltar à luz do crepúsculo. Não sei, nunca vi, mas não me custa acreditar que o gato preto exija atenção plena da dona. Não a podendo ter, é o resto do mundo que ganha a atenção plena dele.
17.12.18
Dez graus pela manhã
Calhou estar hoje de manhã na esplanada, a aquecer as mãos na chávena do café, tentando derrotar os dez graus que me tolhiam o pensamento, quando a arquiteta chegou de motorizada com o namorado, provindos do lado da minha distração. Pararam junto à porta do atelier, e com um gesto ágil ela levantou-se, tirou o capacete e despediu-se dele num beijo longo como o perímetro de um pires. O alfarrabista estava frente à montra recém-composta, quando a arquiteta lhe acenou e ele respondeu com a sua mão em «zeppelin» flutuante. O namorado dela ia já longe, a minha chávena estava vazia, a arquiteta entrava no atelier e o alfarrabista ficava ainda na rua a mirar a montra dele e a porta ao lado. Vestido todo de preto, parecia o gato que, na janela do segundo andar, olhava a rua com o ar meticuloso daqueles para quem a visão não se mede apenas em metros, mas em semanas, meses, anos.
16.12.18
Como a teia de aranha
O alfarrabista olha para a rua através da montra, enquanto eu procuro nas estantes um dos obscuros livros de Agustina que ainda me faltam, ou algum daqueles de Ramos Rosa de que não foram feitas edições de mais do que uma centena de exemplares. Mas o olhar dele é mais atento do que o meu, mais distante também, e depressa percebo que segue o casaco comprido que anda em círculo do lado de fora da montra, enquanto a dona fala ao telefone, com um voltear irado da outra mão e voz áspera que ouço aqui. «É a arquiteta», diz. «A discutir com o namorado, como de costume», oferece de seguida a explicação, quase num sussurro, sem que eu lha tenha pedido. Na loja meticulosamente limpa, no canto da estante mais perto da secretária onde o alfarrabista se senta, noto, pela primeira vez, uma teia de aranha. Só pode estar ali porque ele a quer, deliberadamente mantida, contra as investidas rigorosas de limpeza da empregada. A arquiteta parece prestes a atirar o telefone, mas contém-se, guarda-o no bolso do casaco, joga os braços ao ar e, antes de regressar ao atelier, na porta ao lado, cola as mãos em concha ao vidro e acena ao alfarrabista. Ele devolve-lhe o aceno, com a mão flutuante como um «zeppelin». Eu continuo fascinado pela teia de aranha e ele nota. «Os livros», diz-me, «são reservas de paciência. Como essa teia.» E, com a lentidão determinada da inquilina da estante, sai da secretária e vai ao até ao vidro. Do outro lado, esteve a arquiteta e as marcas da mão, efémeras, ainda lá estão. Os livros e a teia estão deste lado, perenes, como ele.
25.11.18
Infusão galinácea
Arrastei-me, a tremer e a bocejar, até à quitanda de Seu Januário, que tem uma barba à Lincoln e usa suspensórios para segurar a sua delgada estrutura de caniço às calças. Curta, a minha lista de compras, que a memória para mais não dava: meia galinha, gengibre e cebolinho. Gengibre, Seu vendeu-me a preço de pepita de ouro: «Vem de muito longe, e não vem a nado, paga o transporte por paquete pelo grande oceano.» A galinha é da criação de Dona Adozinda, com quem Seu Januário, homem regrado, mantém relações comerciais ao domingo e à quarta. Cebolinho, nem vê-lo, «terá que ser cebola mesmo», diz Seu. Não é o mesmo, mas não estou em condições de argumentar. Seu Januário vê as minhas mãos a tremer e quer-me a milhas da quitanda depressa. É véspera de visita a Dona Adozinda e altura inadequada para uma gripe, se é que há alguma adequada.
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
24.11.18
Mosto
Pelo que me recordo do sonho, durou toda a noite, sempre o mesmo, recorrente, como se eu fosse um hamster condenado a correr numa roda chiante. Correr faz sede, e por isso aquela vontade de beber a meio da noite, água que é a bebida que mais se parece com o gin, este interdito se, com tal carga de antipiréticos, não quisesse ganhar asas e voar pela janela, em alucinações onde surgiriam, imaculadas e impávidas, raparigas de olhos de caleidoscópio.
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
18.9.18
O derradeiro passageiro
O calor do inferno já se faz sentir a meio da manhã e é exacerbado pela humidade que parece nascer diretamente nos pulmões, tornando cada ciclo de respiração uma cena de pugilato por debaixo da pele. Eu estou sentado no «tro tro», o mini-autocarro, melhor, a furgoneta, que me levará até ao meu destino, a duas horas de distância de Acra. Antevejo os meus ossos a pedirem misericórdia nas estradas de terra batida, com aquela suspensão de ferro rijo com amortecimento a chumbo. Mas para já, só quero é iniciar viagem, sair daqui, sentir o alívio da brisa entrando pela janela, ao invés deste ar estacado como o condutor, à espera do último passageiro.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
17.9.18
Os dias da rádio
Eu trazia as histórias de uma rádio universitária, dos tempos de estudante, e ele, de uma rádio local, em La Oroya, onde embarcou no autocarro e se sentou ao meu lado. De súbito, estávamos a conversar como velhos conhecidos, oficiais do mesmo ofício que não era o que alimentava nenhum do dois. Chamava-se César Hernández, «como o jogador», disse-me, com uma ponta de orgulho na voz. Todo vestido de branco, que lhe realçava a tez morena e o bigode preto cuidado, César tinha uma voz de ouro, uma voz que adoçaria as ondas do éter e quebraria corações como cascas de ovo. Ia para Lima, a uma entrevista na Radio Nacional del Perú. César era o sócio-gerente, locutor e todos os restantes papéis na rádio de La Oroya, uma terra onde, como a maioria no interior do Perú, todas as casas estão permanentemente a meio da construção.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.
16.9.18
No curso do Napo
Seguia o curso do Napo, que é um afluente do Amazonas, com a esperança debruada a temor de encontrar uma tribo de Haoranis. Caso os visse, tinha decidido passar de largo, se tal fosse possível: há descobertas mútuas que é melhor permanecerem no terreno das possibilidades. Parado, encostado à motocicleta alugada, fotografava o rugido do rio, quando um macaco-prego, um dos muitos que havia avistado, de olhos brilhantes entre a vegetação, se afoitou até mais perto de mim, com o passo dengoso da curiosidade tateante. Apontei a máquina e disparei uma, duas, uma rajada de fotos e ele, cooperante, mostrando os dentes num esgar escarninho. Cedo se desinteressou e me virou as costas, e eu a ele, no seguimento, na amigável separação de quem jamais se cruzaria de novo, assim pensei.
Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.
Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.
Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.
Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.
14.9.18
Agua caliente
Depois de muitas horas de agonia e de ossos desconjuntados, o autocarro apocalíptico deixou-me em Gobernador Gregores, o derradeiro enclave de civilização antes do Lago Cardiel, na Patagónia. Quando saí, o vento, que transportava navalhas a eito, enrodilhou-se-me nos ossos, e senti-me a andar como se tolhido por ligaduras em todo o corpo, acabado de sair de algum sarcófago milenar. O meu reino por um banho, pensei. Felizmente, a pensão, que concluí ser um albergue, quando lá cheguei, estava perto. Mas logo à porta, as expectativas goraram-se, como as de Dante à entrada do Inferno. Alguém, tão irónico como pragmático, tinha ensinado um papagaio, que se empoleirava ao lado do enfastiado rececionista, a dar as piores notícias aos desprevenidos hóspedes. A tiritar no chuveiro, mais tarde, ainda ouvia o safado a repetir-se, com nítido gozo no papagueio adunco: «No hay agua caliente!»
13.9.18
Lavas vivas
Uma noite fiquei preso no glaciar de Pico de Orizaba e gastei os últimos fósforos a fazer uma fogueira ridícula como a minha inconsciência. Só de manhã passou uma mulher Nahua, que me ofereceu café em pó. Sem os fósforos nem isqueiro, não tinha forma de fazer café quente. Atirei uma mão cheia de café para a boca e mastiguei com gelo. Ainda recordo o vulcão na boca, mais feroz do que terá sido o de Orizaba, nos seus tempos exuberantes de lavas vivas.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso
Em Chiapas, entrei na igreja de San Juan Chamula, que tem o arco da porta pintado do verde das folhas da magnólia mexicana. Um pinheiro cobre a porta. Os nativos Tzotzil, que frequentam a igreja, são católicos devotos, São João Batista é o padroeiro da cidade, e o batismo é o único sacramento observado na igreja. Em San Juan Chamula não há padre. Quando é necessário, os Tzotzil trazem um de outra cidade, deixam-no derramar água benta sobre a cabeça da criança e dizer umas orações e assim como veio o enviam de volta. No resto do tempo, os paroquianos praticam antigos rituais maias. Não há bancos na igreja e o chão é coberto de agulhas de pinheiro. O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso.
Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.
Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.
Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
7.9.18
Uma cerveja em Acra
A cerveja é a bebida nacional no Ghana, e a quem se sente num bar em Acra e peça a beer é-lhe servida uma garrafa de 625 ml. Ao principiante que arregale os olhos e timidamente aponte e balbucie smaller, ser-lhe-á jogada uma garrafa de 354 ml, acompanhada de um olhar condescendente e anunciada como a mini.
8.8.18
Alexandre, o Pequeno
A t-shirt deste é cor-de-rosa com estrelas azuis, o cabelo é louro e liso. O olhar, determinado. A idade, a mesma do da trotinete, do final da manhã. Senta-se na mesa ao lado, com a mãe, a avó e a irmã, de um ano, no topo, centro de atenção das adultas. Para ele, a mãe pediu uma piza, que come conscienciosamente, assumindo o papel de homem mais velho da mesa. O queijo fundido faz agora uma ponte, em forma de esparguete, até à boca dele. «Como me desembaraço disto?» parece perguntar. Olha para mim, separado por um corredor, para ver se reparo. Finjo que não vejo. Como Alexandre na Frígia cortou o nó, ele faz do dedo espada e desfaz o fio de queijo. Depois continua, impávido, a devastar a piza, como se esta fosse a Ásia Menor.
1.8.18
Confissões
Preparava-me para sair com o livro, quando o outro cliente abriu a porta da rua e entrou. «Não quer um saquinho?» perguntava-me então o alfarrabista. Pois que sim, dá jeito, e ele enfiou a obra, densa mas não espessa, que suspeito nunca ter sido lida, num saco de papel que daria para transportar a Bíblia na tradução de Frederico Lourenço, na edição integral, quando estiver completa. O outro cliente deambulava entretanto, em busca de obra onde prender os olhos e as mãos. «Precisa de ajuda?», ofereceu-se o dono da loja. E eu nem parei sequer no caminho para a porta, para não ouvir um bocadinho que fosse da resposta. Nada é mais íntimo num homem, nada mais revelador do estado da sua alma, que a busca de um livro esgotado. Um alfarrabista é um confessor, ainda que não ordenado. Ora eu preferia não estar presente nas minhas próprias confissões, quando mais presenciar as alheias.
31.7.18
Robespierres
«Guilhotinaram os livros», diz-me o alfarrabista, com um esgar de horror, que eu partilho, mal acreditando que alguém o faça sem que o estômago se dobre em nó. Por isso já não encontro esses livros, mesmo escrevendo para a editora, mesmo sabendo que deveriam ter ficado em armazém, a aguardar os compradores que tardavam, dos quais eu seria um, possivelmente de entre muito poucos. Ambos parámos, respirámos fundo, olhámos outros tomos nas estantes em redor, as primeiras edições no armário com vidros, os outros vestindo as tábuas de madeira envernizada. Os guilhotinados eram também edições primeiras, que outras não chegaram a ser editadas, os compradores nunca responderam à chamada, ao apelo, nunca pararam no balcão da compra. De repente, apercebi-me que um editor pode esconder um Robespierre, um guilhotinador, que prefere decapitar um livro, como qualquer descartável de um «ancien régime», a reabilitá-lo para outro fim que não obrigue a câmbio de dinheiro por leitura. Eu não concebo os livros senão como números inteiros. O amor, aos livros, a tudo, não tem existência, não tem significado sequer, como fração.