Seguia o curso do Napo, que é um afluente do Amazonas, com a esperança debruada a temor de encontrar uma tribo de Haoranis. Caso os visse, tinha decidido passar de largo, se tal fosse possível: há descobertas mútuas que é melhor permanecerem no terreno das possibilidades. Parado, encostado à motocicleta alugada, fotografava o rugido do rio, quando um macaco-prego, um dos muitos que havia avistado, de olhos brilhantes entre a vegetação, se afoitou até mais perto de mim, com o passo dengoso da curiosidade tateante. Apontei a máquina e disparei uma, duas, uma rajada de fotos e ele, cooperante, mostrando os dentes num esgar escarninho. Cedo se desinteressou e me virou as costas, e eu a ele, no seguimento, na amigável separação de quem jamais se cruzaria de novo, assim pensei.
Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.
Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.