30.5.19
Má fortuna, amor ardente
E eis que identifico uma falha no livrinho com elástico onde guardo endereços de gentes de bem. Nele não consta morada nem número de porta de bruxo, alquimista, encantador de serpentes, endireita ou tirador de maus-olhados. Nem o livro de São Cipriano habita, sequer, a minha biblioteca. Tantas oportunidades tive para o comprar, sempre as declinei. Todos os outros que ali estão, povoados de palavras racionais e paixões irracionais, parecem-me inúteis contra as artes do além. Até contra as artes do aquém, atrevo-me a dizer, mais não são do que placebos. E enquanto o lado de lá continua a enviar-me raios e coriscos sem pausa nem descanso, aqui estou eu, do lado de cá, apenas com o céu azul como escudo. É um jogo de paciência: ou as minudências consequentes se cansam de vir ao meu encontro, ou ando eu em volta para que elas não me encontrem. Ou então, descubro no meu livrinho algum benzilhão salvador que por lá esteja camuflado. O mundo moderno nenhum artefacto nos dá contra a má fortuna. Contra o amor ardente, também não. Já quanto à perdição, ombros mais largos tivéssemos nós para a carregar, leitora.
15.5.19
Caderno diário
O pássaro voltou a ausentar-se e desta vez nem do beiral nem da frondosa árvore em frente surge qualquer trinado para riscar o silêncio denso do amanhecer. Acordo por moto-próprio às horas a que os sonhos me abandonam, sem o auxílio sempre inesperado, sempre esperado, do canoro. Poderia ser um descanso deitar-me sabendo que não serei despertado a horas aleatórias, por melodias exuberantes provindas do lado certo da janela. Na verdade, é um desassossego. Quem disse ao canoro que eu não queria ser acordado a desoras, ainda que a plenitude matinal seja cortada cerce pelo entusiasmo do chilreante? Quem diz ao cantante estas mesmas palavras, a ver se ele, ouvindo-as, me aquieta, desaquietando-me?
18.4.19
Missiva sobre a abnegação da quadra
Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto com a letra elegante de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a viver intramuros na casa d’Andrada, no cálido embalo dos braços da dulcíssima Orchidée.
Meu muito prezado amigo,
Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.
Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»
Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.
O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».
Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
Meu muito prezado amigo,
Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.
Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»
Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.
O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».
Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
15.3.19
Caderno diário
Assalta-me a indecisão logo ao alvorecer: será o pássaro do beiral, ou não? Reconheço os trinados ou, algures na penumbra do sono, parece-me reconhecê-los, mas estão distantes, esmaecidos, como se tivessem viajado pela canseira de uma linha de telefone centenária. A ser o pássaro, abrigou-se na árvore em frente à janela, frondosa, ampla, acolhedora. Ensaiará o regresso ao beiral? Ou, uma vez encontrado um ramo amplo e confortável, musicado pelo doce roçagar da folhagem ao vento, deixar-se-á ficar, abandonando o beiral expectante mas desvestido? Que apelo pode ter um beiral assim batido a sol e vento, pleno de ângulos e superfícies rugosas, face a uma tão aconchegante árvore, tão repleta de suaves balouços, tão amena a vistas amplas? E como é que se transforma um canto de beiral numa serenata de beiral, leitora?
3.2.19
A rede (Epílogo)
Após a morte do pai de Bertrande, a mãe desta casou com o tio de Martin. Foram disputas sobre terras que levaram o casal a convencer Bertrande a denunciar Arnaud como impostor, contra vontade desta. Durante o julgamento, trinta a quarenta pessoas afirmaram que o réu era seguramente Martin Guerre; haviam-no conhecido desde o berço. Entre os que não tinham dúvidas que Arnaud era Martin encontravam-se as quatro irmãs deste, os dois cunhados e uma certa Catherine Boeri de uma das mais respeitadas famílias na localidade. Faltava, assim, uma prova definitiva. Nunca se saberá como, nem porquê, mas o verdadeiro Martin, certamente informado pelas redes da época, resolveu aparecer, ao fim de tantos anos, precisamente na altura do julgamento. A partir daí, Arnaud du Tilh não tinha como negar o embuste. Arnaud deixaria todas as suas terras, em testamento, à filha com Bertrande. O cadafalso foi erguido em frente à casa onde com esta viveu três anos felizes e prósperos para ambos.
Recuperado o vigor, após os anos a monte, Martin viria a ter mais filhos com Bertrande e, posteriormente, com outra mulher.
Em Artigat, nada acontece. Mas os habitantes ainda dizem: «Quer lá saber o que aconteceu aqui há muitos, muitos séculos?»
2.2.19
A rede (III)
A aliança entre as casas de Guerre e de Role foi selada pelo casamento de Martin e Bertrande, ambos ainda com catorze anos. O casamento não foi consumado na noite de núpcias e, na verdade, não o seria nos oito anos seguintes, tendo que aguardar uma receita milagrosa que consistiu em quatro missas e uns bolos especiais, que permitiram ao noivo ultrapassar finalmente a condição que tanto o humilhava perante a família da noiva e toda a aldeia de Artigat. Durante esses longos anos, Bertrande opôs-se à anulação do casamento – tinha-se afeiçoado às quatro irmãs do marido e com elas passou os melhores dias da sua juventude, longe de quaisquer obrigações no leito conjugal. Após a consumação, Bertrande engravidou de imediato; o nascimento do filho e um desentendimento com o pai por causa de uns alqueires de trigo fizeram transbordar a inquietação de Martin. Um dia, fugiu. Deixou para trás tudo o que tinha, regressou ao País Basco da sua origem, tornou-se soldado ao serviço de Filipe II de Espanha e I de Portugal. Anos mais tarde, antes do seu regresso, as suas irmãs jurariam que Arnaud du Tilh, era, de facto, ele. Elas, e muitos dos que o tinham conhecido ao longo dos anos antes do casamento e os seguintes, os do opróbrio que a impotência lhe tinha imposto.
A rede (II)
Arnaud du Tilh confessou, dizem os biógrafos, nunca ter encontrado Martin Guerre antes de ir para Artigat. Arnaud tinha voltado do acampamento do exército na Picardia por volta de 1553, presumivelmente após as batalhas de Therouanne, Hesdin e Valenciennes. Passando por Mane, ao longo do rio Salat, encontrou dois amigos de Martin, Master Dominique Pujol e o hoteleiro Pierre de Guilhet, que o tomaram pelo desaparecido de Artigat. Esta confusão deu ideias a Arnaud, também conhecido por Pansette, devido ao seu prodigioso apetite. Arnaut informou-se o mais astuciosamente que pode sobre Martin Guerre, a sua situação, a sua família e as coisas que costumava dizer e fazer. Insinuou-se astuciosamente junto de Pujol, Guilhet, e outros amigos, familiares e vizinhos dos Guerre. Nesse mundo em que todos falavam com todos, poderia obter informações através das redes de mexericos sem ir a Artigat – e eram abundantes, estes, incluindo detalhes como a localização do saco de roupa branca que Martin tinha deixado num certo tronco antes de desaparecer, anos antes, da casa que partilhava com a mulher e o filho. Arnaud aprendeu os nomes de muitos dos aldeões e informou-se sobre as relações de Martin com eles; também aprendeu palavras de basco, a língua original dos Daguerre antes de emigrarem para França e mudarem o nome para Guerre. Arnaut demorou muitos meses a preparar o seu papel, pois chegou a Artigat apenas em 1556.
1.2.19
A rede (I)
Quando Martin chegou a Artigat, depois de oito anos de ausência, cumprimentava toda a gente pelo nome e se elas pareciam não reconhecê-lo falava-lhes sobre as coisas que haviam feito juntos dez ou quinze anos antes. Explicava a todos que tinha andado fora servindo no exército do rei de França, tinha passado alguns meses em Espanha e agora estava ansioso para estar novamente na sua aldeia com a sua família, com o seu filho Sanxi e, especialmente, com sua esposa Bertrande, com quem tinha casado dezoito anos antes. Reconhecê-lo-ia, ela? Não só o reconheceu, como «conversou com ele dia e noite», acolhendo-o no seu leito – nos três anos seguintes, duas filhas nasceram ao casal reencontrado, tendo uma delas morrido e a outra, Bernarde, sobrevivido, tornando-se a irmã mais nova de Sanxi, o herdeiro do nome do avô.
23.1.19
Caderno diário
Não é que eu não acorde cedo, em alvoroço, de ouvido esperançado na direção da janela onde dantes cantava o pássaro. Ou que não prolongue a leitura à noite, melhor, que leia antes com a audição, filtrando cada rumor em busca de uma nota, por singela que seja, que me soaria como uma salva no meio do breu. Mas nem um sinal, nem um som, senão o doce roçagar das folhas vazias. Há quase uma semana que dele nada sei, que não ouço trinado, nem um pio. Bem sei que o pássaro é livre de voar, é livre de não cantar, é livre de demandar beirais de outrem. Mas a minha razão é inábil para convencer o meu coração. O que sabemos não é escala para o que ansiamos. Num devaneio, iludo-me: talvez não ande longe, talvez dormite entre um tronco e um ramo resguardado, a um salto da minha atenção. Ou talvez repouse algures, apenas, do ofício de cantar. Soubesse eu onde encontrar garrafas com asas, deitaria uma ao ar, esperando que vogasse ao sabor dos ventos, até entregar a mensagem, com o timbre do meu coração, ao canoro. Assim a lesse ele, ai de mim. Agora, só sonhos tenho para enviar, enquanto guardo as esperanças e inquietações todas para mim. E tenho um ouvido tão atento que, assim o ouvisse eu, assim tivesse dele o sinal, ainda que não voasse ele para o beiral, era eu que até ele voaria.
14.1.19
Vilar de Perdizes
O alfarrabista já tem porta aberta: afinal o encerramento demorou mais do que o anunciado pelo papel, por razões que só eu sei e ele sabe que eu guardo para mim. Mas os livros usados não expiram, a virtude redentora dos colecionadores é a paciência, a demora dele é pisar um risco sem risco. Enquanto se aquece ao sol que lhe alonga a face pálida, a arquiteta chega, de passageira e de semblante cerrado, na motorizada: ela acena-lhe, o namorado ignora-o. O doutor Videira, ao meu lado na mesa do café, que olha na mesma direção que eu, a deles, diz-me: «O homem da mota ainda não sabe, mas o coração da arquiteta também bate por livros já lidos. Daqui a duas semanas, já não será ele a trazê-la.» O doutor Videira olha para o fundo da chávena, como se nele estivesse escrito, e fosse decifrável, o destino. O alfarrabista já entrou, está a atender um cliente, um dos colecionadores que lá permanecem horas em adoração, como num templo. A arquiteta ficou na rua a fumar, enquanto a mota sumia, engolida pelo fim da rua. Dois andares acima, o gato de Dona Maria Bárbara meneia a cabeça, ao ritmo dos compassos de uma transcrição de Wagner para piano, que chegam atenuados aqui. O doutor Videira vai todos os anos em setembro a Vilar de Perdizes, aprender com os melhores. Eu não sei o que o doutor lê do futuro, ou como o lê, mas não apostava contra ele, que me parece o mesmo que zombar do inevitável. A arquiteta acaba o cigarro e fica a olhar para a montra dos livros usados, como se quisesse rematar a frase do adivinho, meu vizinho. Depois, bate os tacões como um general prussiano, e entra na porta do atelier com passo triunfal. As grandes decisões são como os lagos: não é pela calmaria da superfície que se lhes mede a profundidade.
10.1.19
Propriedade comutativa
Dizia tio Ascenso: Trata-a como a uma princesa e ela tratar-te-á como as princesas tratam quem as trata como princesas.
2.1.19
O terceiro andamento
A arquiteta sai do atelier em passo determinado, atravessa a rua numa diagonal traçada a régua e entra no café, sombria como um anjo da madrugada. O gorro enfiado até às sobrancelhas, as mãos ocultas por luvas pretas, o casaco longo, ao rés dos tornozelos, a cara de expressão cerrada, poderia fazer parte de alguma missão secreta, mas vem só pedir: «Um café por favor, Ninha, com cheirinho.» Dona Juliana alcança a garrafa de J&B e aromatiza generosamente o café. De onde me sento, junto à porta, parece-me ouvir o piano virtuoso de Dona Maria Bárbara enovelado na segunda sonata de Schumann, esse tresloucado. Do gato, nem reflexo na janela: também ele é schumanniaco. O Senhor Inácio da papelaria conversa com Dona Lídia da frutaria, vizinha de porta com porta: tarde amena para o negócio. O alfarrabista continua ausente em paradeiro de que apenas eu tenho notícia. Com a falta de cafeína liquidada, a arquiteta retira o telefone do bolso e inicia a chamada logo que cruza a porta. A voz sobe em crescendo como o scherzo do terceiro andamento. A meio da rua, já a fúria está livre por inteiro, com toda a amplitude de asas que apenas as águias e a raiva possuem. A voz chega aqui, sobrepondo-se à melodia do piano. Dona Juliana olha-me, único cliente agora, e diz: «Amor é fogo, menino.» Menino, não sou eu: é genérico, adenda de terras de outros continentes. Mas o mal de amor é universal, como o fogo. O poeta dizia que não se vê, o amor. Talvez não, mas ouve-se – com mais distinto furor que o scherzo de uma sonata para piano. Isto o poeta não disse, mas apenas porque no tempo dele ainda não havia scherzi, nem pianos.
1.1.19
A rua
No restaurante, as mesas da esplanada não estão postas para almoço e já passa das onze da manhã. O café está tão fechado como o cofre do banco e hoje tive que me resignar à bebida saída da minha máquina com previsibilidade encapsulada. Na porta vidrada do alfarrabista há um aviso aos estimados clientes a indicar o regresso dia sete de janeiro. Só eu sei onde ele está por estes dias, mas jurei segredo. Na papelaria do Senhor Inácio, a nota tipografada é concisa: Fechado. Ai daqueles a quem acabar a tinta azul cobalto: a urgência da escrita terá que aguardar um dia mais. Ontem, a meio da tarde, a motorizada do namorado da arquiteta estacou frente à porta do atelier com rugido de fera atemorizada. Ela saiu de sandálias de agulha visíveis debaixo do longo casaco preto, colocou o capacete, agarrou-o como a uma boia de salvação, e antes que o ruído da partida tivesse tempo de me chegar aos ouvidos, deixei de os ver ao fundo da rua. O gato à janela observa a rua, com minúcia de caçador. Não se ouve o piano de Dona Maria Bárbara, mas na janela que lhe pertence, e por detrás do gato, vislumbro os olhinhos vivazes e rápidos do Senhor Inácio, da cor da tinta das escritas. É manhã de primeiro de janeiro, a rua está vazia, o caminho livre. A porta da rua abre-se e um vulto de sobretudo e chapéu e embuçado no cachecol, sai em passinhos tão céleres como o olhar azul. Vê-me, hesita, mas acena-me. Eu devolvo o aceno e junto-lhe os votos de bom ano. O Senhor Inácio funde-se na pouca sombra do dia claríssimo e desaparece como vapor de água. O gato também já não está à janela: pode voltar a ter a atenção plena e merecida da sua hospedeira, e não desperdiça nem um minuto.
18.12.18
Pelos olhos do gato
A aluna de Dona Maria Bárbara chega a meio da manhã, com mochila ao ombro e ansiedade na expressão e, pouco depois, ouvem-se na rua os fiapos das notas titubeantes do piano, escalas esforçadas, peças de iniciação, voos mais ousados seguidos de quedas bruscas e ressurreições. Por vezes, há longos hiatos entre as escalas e, nesses, consegue-se distinguir a voz pautada da professora, pesada como duas mãos abertas carregando sobre os ombros da aprendiz. Mais tarde, quando esta sai da porta ao lado da loja do alfarrabista, a ansiedade dá lugar ao alívio, não diferente do de quem é salvo do oceano, do lado de lá do oxigénio já tão longínquo. O gato preto à janela do segundo andar assinala as horas das aulas de Dona Maria Bárbara: enquanto decorrem, os olhos claros e frios do felino percorrem a rua, em busca de lugar de poiso para a sua atenção de predador de histórias. Contaram-me que, quando o alfarrabista pai, antes de passar a loja ao cuidado do filho e se retirar em definitivo, cruzava a porta ao lado, o gato também vinha postar-se à janela, e assim ficava de sentinela à vida que decorria cá em baixo até o visitante voltar à luz do crepúsculo. Não sei, nunca vi, mas não me custa acreditar que o gato preto exija atenção plena da dona. Não a podendo ter, é o resto do mundo que ganha a atenção plena dele.
17.12.18
Dez graus pela manhã
Calhou estar hoje de manhã na esplanada, a aquecer as mãos na chávena do café, tentando derrotar os dez graus que me tolhiam o pensamento, quando a arquiteta chegou de motorizada com o namorado, provindos do lado da minha distração. Pararam junto à porta do atelier, e com um gesto ágil ela levantou-se, tirou o capacete e despediu-se dele num beijo longo como o perímetro de um pires. O alfarrabista estava frente à montra recém-composta, quando a arquiteta lhe acenou e ele respondeu com a sua mão em «zeppelin» flutuante. O namorado dela ia já longe, a minha chávena estava vazia, a arquiteta entrava no atelier e o alfarrabista ficava ainda na rua a mirar a montra dele e a porta ao lado. Vestido todo de preto, parecia o gato que, na janela do segundo andar, olhava a rua com o ar meticuloso daqueles para quem a visão não se mede apenas em metros, mas em semanas, meses, anos.
16.12.18
Como a teia de aranha
O alfarrabista olha para a rua através da montra, enquanto eu procuro nas estantes um dos obscuros livros de Agustina que ainda me faltam, ou algum daqueles de Ramos Rosa de que não foram feitas edições de mais do que uma centena de exemplares. Mas o olhar dele é mais atento do que o meu, mais distante também, e depressa percebo que segue o casaco comprido que anda em círculo do lado de fora da montra, enquanto a dona fala ao telefone, com um voltear irado da outra mão e voz áspera que ouço aqui. «É a arquiteta», diz. «A discutir com o namorado, como de costume», oferece de seguida a explicação, quase num sussurro, sem que eu lha tenha pedido. Na loja meticulosamente limpa, no canto da estante mais perto da secretária onde o alfarrabista se senta, noto, pela primeira vez, uma teia de aranha. Só pode estar ali porque ele a quer, deliberadamente mantida, contra as investidas rigorosas de limpeza da empregada. A arquiteta parece prestes a atirar o telefone, mas contém-se, guarda-o no bolso do casaco, joga os braços ao ar e, antes de regressar ao atelier, na porta ao lado, cola as mãos em concha ao vidro e acena ao alfarrabista. Ele devolve-lhe o aceno, com a mão flutuante como um «zeppelin». Eu continuo fascinado pela teia de aranha e ele nota. «Os livros», diz-me, «são reservas de paciência. Como essa teia.» E, com a lentidão determinada da inquilina da estante, sai da secretária e vai ao até ao vidro. Do outro lado, esteve a arquiteta e as marcas da mão, efémeras, ainda lá estão. Os livros e a teia estão deste lado, perenes, como ele.
25.11.18
Infusão galinácea
Arrastei-me, a tremer e a bocejar, até à quitanda de Seu Januário, que tem uma barba à Lincoln e usa suspensórios para segurar a sua delgada estrutura de caniço às calças. Curta, a minha lista de compras, que a memória para mais não dava: meia galinha, gengibre e cebolinho. Gengibre, Seu vendeu-me a preço de pepita de ouro: «Vem de muito longe, e não vem a nado, paga o transporte por paquete pelo grande oceano.» A galinha é da criação de Dona Adozinda, com quem Seu Januário, homem regrado, mantém relações comerciais ao domingo e à quarta. Cebolinho, nem vê-lo, «terá que ser cebola mesmo», diz Seu. Não é o mesmo, mas não estou em condições de argumentar. Seu Januário vê as minhas mãos a tremer e quer-me a milhas da quitanda depressa. É véspera de visita a Dona Adozinda e altura inadequada para uma gripe, se é que há alguma adequada.
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
24.11.18
Mosto
Pelo que me recordo do sonho, durou toda a noite, sempre o mesmo, recorrente, como se eu fosse um hamster condenado a correr numa roda chiante. Correr faz sede, e por isso aquela vontade de beber a meio da noite, água que é a bebida que mais se parece com o gin, este interdito se, com tal carga de antipiréticos, não quisesse ganhar asas e voar pela janela, em alucinações onde surgiriam, imaculadas e impávidas, raparigas de olhos de caleidoscópio.
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
18.9.18
O derradeiro passageiro
O calor do inferno já se faz sentir a meio da manhã e é exacerbado pela humidade que parece nascer diretamente nos pulmões, tornando cada ciclo de respiração uma cena de pugilato por debaixo da pele. Eu estou sentado no «tro tro», o mini-autocarro, melhor, a furgoneta, que me levará até ao meu destino, a duas horas de distância de Acra. Antevejo os meus ossos a pedirem misericórdia nas estradas de terra batida, com aquela suspensão de ferro rijo com amortecimento a chumbo. Mas para já, só quero é iniciar viagem, sair daqui, sentir o alívio da brisa entrando pela janela, ao invés deste ar estacado como o condutor, à espera do último passageiro.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
17.9.18
Os dias da rádio
Eu trazia as histórias de uma rádio universitária, dos tempos de estudante, e ele, de uma rádio local, em La Oroya, onde embarcou no autocarro e se sentou ao meu lado. De súbito, estávamos a conversar como velhos conhecidos, oficiais do mesmo ofício que não era o que alimentava nenhum do dois. Chamava-se César Hernández, «como o jogador», disse-me, com uma ponta de orgulho na voz. Todo vestido de branco, que lhe realçava a tez morena e o bigode preto cuidado, César tinha uma voz de ouro, uma voz que adoçaria as ondas do éter e quebraria corações como cascas de ovo. Ia para Lima, a uma entrevista na Radio Nacional del Perú. César era o sócio-gerente, locutor e todos os restantes papéis na rádio de La Oroya, uma terra onde, como a maioria no interior do Perú, todas as casas estão permanentemente a meio da construção.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.