Devo a Vila-Matas a descoberta de que Bonnard «entrava nos museus onde os seus quadros estavam expostos e, aproveitando a ausência de vigilantes, corrigia-os com uma euforia infinita.»
Sinto-me menos desacompanhado por, amiúde, regressar a este espaço, que está longe de ser um museu, mudar uma vírgula aqui, uma palavra ali, e sair subrepticiamente, na esperança de que se alguém der por isso, ao menos não achar que o resultado é pior do que o que lá estava antes.
3.12.19
Mapa dos vícios
Vinte e dois clientes no bar, e apenas eu e a senhora do casaco cor de salmão na mesa ao lado não fumamos. Como não recomeço no vício, disso estou certo, deverei mudar de bar, leitora?
As it happens
O infante na mesa ao lado, que se veste como eu (ou eu como ele), vai mostrando, alternadamente em português e inglês, à mãe dele, os seus vastos conhecimentos sobre as ligas espanhola e inglesa. Se consigo igualá-lo na indumentária, nunca por nunca o seria, ou serei, em tal admirável, avassaladora mesmo, verve desportiva.
[A banda sonora no café, reparo, é agora, enquanto escrevo, apropriamente, The return to innocence, dos Enigma.]
[A banda sonora no café, reparo, é agora, enquanto escrevo, apropriamente, The return to innocence, dos Enigma.]
2.12.19
Resoluções de Ano Novo
À saída, após o almoço, ouço um ralhete delicado do gentil Sri Akah: Ah, mas o senhor comeu demasiado depressa. Assim não tem tempo de saborear nossa comida. Até pensei que tinha sido devagar para os meus usos, que me tinha alongado na contemplação dos comensais nas suas danças por entre as mesas, dos rituais de chegada coroados por longos abraços, do encontro de etéreas yoginis na mesa em frente, mas o meu tempo e o de Sri decorrem em referenciais diferentes. Mas como as minhas celebrações de Natal começaram com um mês de antecedência, as resoluções de Ano Novo, entram agora em vigor, também. Comer com tal vagar, que faça inveja ao excelente Sri. Isto, claro, se inveja constar do vocabulário dele, o que duvido, leitora, duvido.
1.12.19
o poema é uma casa / para passar a noite / sem janelas úteis*
Anonymous 4, Gaude virgo salutata
*Rui Pires Cabral
A mão à palmatória
Até por este espaço, onde as palavras têm sido a favor das preleções da jovem Thunberg e com frequência opondo-se aos céticos do mérito da sua cruzada, se instalou o cansaço, não por ela, mas pela corte de bajuladores, faroleiros, dançarinos em pontas dos pés, e outros arrivistas, que se desdobram em mensagens, receções e homenagens, apenas porque a máquina dos retratos se encontra em foco, deixando cuidadosamente longe das suas preocupações tudo o que fica de fora da lente por ora assestada na viajante que está para chegar, assim as correntes e os ventos se aprontem de feição.
Pecados, só os merecidos
Tal é o carrossel de celebrações natalícias, que dei por mim, tendo chegado antes dos restantes convivas, com um copo de espumante na mão, na festa que descobri, atempadamente, ser a errada. Corrigido o erro, reposto o espumante intocado à bandeja de origem, prossegui para a folia certa, onde o espumante era igual, decerto, mas caía em orçamento de outras gentes. Não que acredite que cada um tem o espumante que merece (não acredito) mas não há espumante que mereça ser também um pecado, não é, leitora?
29.11.19
Uma senhora adorável
Hoje vi, finalmente, o novo namorado de Dona Miranda, uma senhora adorável, que me cumprimenta sempre tão bem. Vinham no carro dela, estacionaram-no atrás do meu e era ele, ensimesmado, que o conduzia.
É sobre as pedras que os corpos se apuram.*
John Tavener, The Protecting Veil (Fragmento)
* Rui Costa
28.11.19
O blog e a felicidade
Enquanto no almoço de Natal discutia a felicidade espontânea e a felicidade programática, dei por mim a recitar ideias que fui buscar a textos escritos e lidos nisto do em linha em toda a mais de meia dúzia de anos que levo de frequentar estas prosas voláteis. Até saiu qualquer coisas de coerente, penso agora, já com oito horas de permeio. O blog não me faz mais feliz, leitora, mas sem dúvida permite-me camuflar sofrivelmente a minha ignorância sobre o assunto.
A veneranda ordem dos insubstituíveis
Ainda trabalhas?, perguntou-me, quando nos encontrámos no elevador do parque de estacionamento. Ora essa, tantos anos me faltam ainda para a reforma, se a tiver alguma vez, por não me imaginar sem esta pequena, quando não grande, angústia pelo que fica por fazer, pela porção de mundo que acabará sem a minha intervenção atempada, pelo descalabro inevitável se faltar o brilho da minha opinião, pelo indispensável que sou em cada avanço, tão único como cada um dos que me precederam e não menos, decerto, dos que me sucederão, todos membros desta veneranda ordem de insubstituíveis que se sucedem metronomicamente da aurora até ao ocaso da humanidade.
Uma questão de (certa) destreza
Enquanto eu escrevo à leitora com o telefone numa mão, a condutora do veículo ao lado, mais destra, escreve aos seus leitores (decerto) com uma tabuleta segura pelas duas mãos.
27.11.19
Pandã
No restaurante vegetariano, o homem de cabelos apanhados como um yogi, veste um blusão de marca Ecologic.
Do Manifesto da Sociedade
Acreditamos que as nuvens são para os sonhadores e a sua contemplação beneficia a alma. De facto, todos os que consideram as formas que veem nelas pouparão dinheiro em contas de psicanálise.
[Do Manifesto da Sociedade]
[Do Manifesto da Sociedade]
Vivemos no céu
Nós vivemos no céu. Não por baixo dele, mas dentro dele.
[Um lembrete oportuno de Gavin Pretor-Pinney, fundador da Sociedade de Apreciação das Nuvens.]
[Um lembrete oportuno de Gavin Pretor-Pinney, fundador da Sociedade de Apreciação das Nuvens.]
26.11.19
Tarde, sei, será, se vier socorro: / se transluz pouco ao escuro este sinal*
Henry Purcell, Dido's Lament
* Margarida Vale de Gato
25.11.19
No final do almoço primeiro de Natal
O monge explicou-me que a campanha se destina a comprarem marmitas térmicas, porque ao menos desta forma, aqueles a quem a levam poderão comê-la quente, nestas noites frias. A comida vai saber melhor assim, acrescentou, sorrindo com as palavras, com os olhos, com as mãos, como um garoto feliz por antecipação.
Trilam os lábios nossos, à semelhança / das musicais manhãs dos pássaros.*
Georg Muffat, Passacaglia em Sol maior
* Fiama Hasse Pais Brandão
O homem e o Natal
Os almoços e jantares de Natal iniciam-se-me oficialmente esta semana. Se tudo correr como se afigura, e a este ritmo, quando chegar o dia vinte e cinco de dezembro terei celebrado já sessenta vezes, à mesa, o nascimento do menino, que não consta que tivesse sido assim tão prematuro, pois não, leitora?
A espera
Sabes como podes saber se alguém te ama? Se te ama mesmo, quero dizer. Nunca pensei nisso. Eu sim. E encontraste uma resposta? Acho que é algo que tem a ver com a espera. Se é capaz de esperar por ti, então ama-te.
[A partir de Alessandro Baricco]
[A partir de Alessandro Baricco]
24.11.19
Ame-se o que é, como nós, / efêmero. Todo o universo / podia chamar-se: gérbera.*
Jean-Féry Rebel, Les Elements, Le Féu
*Eucanaã Ferraz
Auto do anfitrião
Durante o almoço que eu cozinhei com a minha maior ciência, ainda respondo o melhor que sei e posso à questão atual e premente de um dos meus convidados, expressa em português de vinte e quatro quilates: «Mas quem é esse Jorge Jesus?»
[Os convivas à minha mesa, leitora, conseguem estar mais fora do mundo que este que aqui lhe escreve, por exorbitante que tal hipótese pareça.]
O bom, o mau e o medíocre
Foi Julio Ramón Ribeyro quem disse que um autor escreve dois ou três livros e depois passa a vida a responder a perguntas e a dar explicações sobre eles, o que prova que as pessoas estão tão ou mais interessadas nas opiniões do autor sobre os seus livros do que sobre os próprios livros e, quem sabe, talvez por causa disso o autor não escreva novos livros ou apenas livros sobre os seus livros. Para combater este perigo, Ribeyro propôs ter em mente que um bom trabalho não tem explicação, um mau trabalho não tem desculpa e um trabalho medíocre não tem qualquer interesse.
Como despertar interesse por um romance
É um bom romance? Sem dúvida, é um romance excelente. É bem escrito, cuidadosamente estruturado, cumpre um propósito original, ambicioso e interessante? Suponho que sim, mas não sei. Não sei porque o li como se o tivesse comido, como se o tivesse bebido, como se precisasse de percorrer as suas páginas para continuar a respirar.
[Almudena Grandes]
[Almudena Grandes]
Também na vida, no amor...
Isto é fundamental, penso eu: o que nos importa sobre um livro está associado à sensação de que há algo que não compreendemos completamente. A felicidade da leitura está associada à possibilidade de releitura.
[Alejandro Zambra, Tema livre]
[Alejandro Zambra, Tema livre]
22.11.19
Na minha Alma há um balouço / Que está sempre a balouçar --- *
Bertali, Ciaccona, Voices of Music; Alana Youssefian, violino barroco.
* Mário de Sá-Carneiro
Ira opsófaga
Em dois dias, perguntam-me, com antecipação, de formas diferentes, o que irei escolher para comer. Como não sou conhecido por apetite pantagruélico, creio, fico com uma dúvida: serei considerado influenciador, temerão que o meu exemplo gere uma onda de imitadores, levando a um estampido para o meu prato de eleição, ou a explosão da minha ira opsófaga, se o que vier à mesa não estiver à altura do que imaginam serem as minhas expetativas?
A ruína circular
Tendo regressado a O Relatório de Brodie, de Borges, senti necessidade premente e inadiável de comprar um livro ali mencionado. E, já que comprava o livro, porque não a obra completa do respetivo autor? (Não a de Borges, que essa tenho em duplicado, fora réplicas avulsas, não vá dar-se o caso de, subitamente, a obra do argentino ser confiscada a nível global e eu precisar recorrer a reservas estratégicas para continuar a lê-lo). Andamos nisto há décadas, ele e eu. Agora terei que interromper o Relatório para ler o livro a que ele me remete. Quando voltar, pois a outro me enviará. Os labirintos que descreve, não são mais do que as metáforas para os apuros em que embrulha os leitores. Ou, ainda que não generalizando, este leitor, pelo menos, já de si perdido com facilidade, mais ainda num labirinto.
21.11.19
Isso não se diz
Enquanto tomava café com o coronel, contei-lhe do Requiem de Mozart, de há dias, disse-lhe da acústica da sala, do arrumo do coro, da pujança da orquestra, da energia do maestro, do sublime de tudo. Cortês e distante como habitualmente, o coronel escutou-me com atenção e logo que oportuno, cortou-me os adjetivos, mudou de tema. Ele é que tem razão. Por vezes, no embalo da conversa, esqueço-me que nada é mais inútil do que falar sobre música. Com quem não gosta, porque a música não lhe diz nada; com quem gosta, porque as palavras sobre música nada lhe dizem. A música escuta-se, e tudo o que mais se diga é ruído.
Podia também ser epígrafe deste blog
Sei que estas recordações não são alegres nem significativas, mas não tenho outras.
[Ivan Turguénev, Diários de um homem supérfluo]
[Ivan Turguénev, Diários de um homem supérfluo]
20.11.19
Banda sonora
A arquiteta passa frente à loja do alfarrabista, em passo tão acelerado que dela fica apenas o rasto do casaco vermelho e da boina preta como as luvas e as botas. Eu estou junto a uma estante, sopesando uma primeira edição, e ele está perto, arrumando livros, enquanto ela segue sem se deter, sem um aceno de mão, sem um olhar para dentro sequer. É certo que eu já a vi antes à conversa calorosa com o meu anfitrião e que, após a quebra anunciada dela com o motociclista, alimentei esperanças de vir aqui contar histórias dos amores felizes do alfarrabista e da arquiteta. Mas, ah, as histórias são labirintos onde nos perdemos por recantos inesperados.
O alfarrabista fica a vê-la passar e segue devagar até à porta, para evitar denunciar o interesse e detém-se a olhar na direção dela, talvez, imagino, na esperança vã de que ela se vire para trás e corrija a indiferença. Vã, digo. Logo, regressa para dentro, a assobiar baixinho um hino dos Stones, que é também um apelo que ela não ouvirá. Os nossos olhos cruzam-se, ele percebe que eu percebi, mas também o que sobra para entender quando a banda sonora diz dela: A sweet sweet beauty, but stone stone cold?
Claro que eu podia dizer ao alfarrabista que a indiferença é, por certo, não casual, muito estudada, afirmativa, para lhe provocar alguma reação, fazê-lo mover uma peça, despoletar o desenlace. Mas quem sou eu, que sei eu, para escolher a banda sonora para o próximo passo dele?
O alfarrabista fica a vê-la passar e segue devagar até à porta, para evitar denunciar o interesse e detém-se a olhar na direção dela, talvez, imagino, na esperança vã de que ela se vire para trás e corrija a indiferença. Vã, digo. Logo, regressa para dentro, a assobiar baixinho um hino dos Stones, que é também um apelo que ela não ouvirá. Os nossos olhos cruzam-se, ele percebe que eu percebi, mas também o que sobra para entender quando a banda sonora diz dela: A sweet sweet beauty, but stone stone cold?
Claro que eu podia dizer ao alfarrabista que a indiferença é, por certo, não casual, muito estudada, afirmativa, para lhe provocar alguma reação, fazê-lo mover uma peça, despoletar o desenlace. Mas quem sou eu, que sei eu, para escolher a banda sonora para o próximo passo dele?
Contra a conclusão moral
Knausgaard e Ferrante prometem tão pouco. Mas o que prometem, dão. Cada um conta, na primeira pessoa, o interior de uma vida humana. Isto é algo que inúmeros escritores têm feito, obviamente, mas eles parecem fazê-lo de uma forma nova e perigosa – com uma impiedosa e desapaixonada modéstia de ambição. Nenhum dos narradores extrapola verdades maiores a partir das suas experiências.
[Charles Finch, no New York Times]
[Charles Finch, no New York Times]
19.11.19
Apfelstrudel
Ao almoço, com o doutor Videira, recaindo o tema na gastronomia geográfica, não pude deixar de lançar saudosos encómios a um templo de adoração de apfelstrudel na terra natal da sacro-romana tarte. O doutor Videira, com inegável expressão blasée, mostrou, mão a varrer o ar, que nunca se aproximou de tal delicadeza e que, a lá regressar, as minhas indicações não lhe são prioritárias. Tais doces nada lhe dizem ao palato, afirmou-me. À saída, já depois da conta saldada, do cesto de rebuçados de cortesia, retirou uma mão cheia. «Sou muito guloso», justificou-se, e eu acreditei. Ai de mim, que até para o segundo pecado com logística mais simples, o da gula, não sei senão escolher as vias mais intrincadas.
Um homem que fala alto é um homem persuasivo
Quando ele chega ao café, a voz do doutor Videira faz-se sempre ouvir acima de qualquer burburinho de fundo e não há moinho de café, centrifugadora de sumos ou avião a aterrar que lhe retire o tónus. Um homem que fala alto é um homem persuasivo, dizem os livros e eu, até saber o motivo, estive convencido que o doutor tinha feito cursos dos que ensinam a projetar uma personalidade confiante e vitoriosa ou, depois de ter passado pela tropa como alferes, continuou na parada da vida a dar instrução até aos objetores mais convictos.
É certo que, no decurso da conversa, o tom baixa até ao nível do do interlocutor, mas só quando me convidou a ir a casa dele provar um whisky japonês e ver primeiras edições de Camilo, percebi a origem da modulação em forma de taco de hóquei. Munido de um papel onde o meu anfitrião tinha escrito a morada, toquei à campainha, subi ao terceiro andar sem elevador e logo no primeiro degrau ouvi o troar da televisão.
O doutor apresentou-me a mãe, octogenária de verbo de caudal elevado, acrescentando um reparo: «Terá que falar mais alto, aqui Dona Isabelinha é um bocado dura de ouvido.» Na verdade, mesmo na biblioteca forrada a cartapácios, a televisão de Dona Isabel Videira mostrava-se tão incontornável quanto a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura na estante, e a tertúlia decorreu como se fosse o primeiro andamento da sétima de Beethoven, em versão musculada de Furtwängler.
Depois de uma hora de debate contra as novelas da tarde, já na rua, parei a falar com Dona Maria Bárbara, que passeava com o gato, e notei-lhe a voz mais acentuada do que o habitual. Percebi que também eu continuava a parecer um pregoeiro e que a diferença de decibéis não se devia apenas a dois dedos de whisky japonês. Dona Maria Bárbara aproveitou para me convidar para o coro da paróquia, «que a sua voz é bem colocada e faz lá falta um baixo assim», acrescentou.
Disse-lhe que ia pensar no convite, mas que entretanto lhe deixava uma sugestão:«Sabe quem tem muito boa voz, e forte, Dona Bárbara? Está a ver o senhor que toma café comigo, o doutor Videira?»
É certo que, no decurso da conversa, o tom baixa até ao nível do do interlocutor, mas só quando me convidou a ir a casa dele provar um whisky japonês e ver primeiras edições de Camilo, percebi a origem da modulação em forma de taco de hóquei. Munido de um papel onde o meu anfitrião tinha escrito a morada, toquei à campainha, subi ao terceiro andar sem elevador e logo no primeiro degrau ouvi o troar da televisão.
O doutor apresentou-me a mãe, octogenária de verbo de caudal elevado, acrescentando um reparo: «Terá que falar mais alto, aqui Dona Isabelinha é um bocado dura de ouvido.» Na verdade, mesmo na biblioteca forrada a cartapácios, a televisão de Dona Isabel Videira mostrava-se tão incontornável quanto a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura na estante, e a tertúlia decorreu como se fosse o primeiro andamento da sétima de Beethoven, em versão musculada de Furtwängler.
Depois de uma hora de debate contra as novelas da tarde, já na rua, parei a falar com Dona Maria Bárbara, que passeava com o gato, e notei-lhe a voz mais acentuada do que o habitual. Percebi que também eu continuava a parecer um pregoeiro e que a diferença de decibéis não se devia apenas a dois dedos de whisky japonês. Dona Maria Bárbara aproveitou para me convidar para o coro da paróquia, «que a sua voz é bem colocada e faz lá falta um baixo assim», acrescentou.
Disse-lhe que ia pensar no convite, mas que entretanto lhe deixava uma sugestão:«Sabe quem tem muito boa voz, e forte, Dona Bárbara? Está a ver o senhor que toma café comigo, o doutor Videira?»
17.11.19
Zé Elias
Oh, Zé Elias, levante-se do chão!, apela a avó ao neto que nada de bruços à porta da perfumaria, com um formalismo terno perfeitamente condicente com as suas elegantes botas Oxford Ponta de Asa cor de mel.
Inflorescência de Alpinia Purpurata
Quando o telefone começou a tocar, o pianista parou, como se o toque fizesse parte da peça, levantou-se, veio devagar e com largo sorriso até à beira do palco. Depois, com inglês de sotaque eslavo convidou: «Parece que alguém tem uma chamada. Não há problema, atenda, nós aguardamos, temos tempo.» A audiência lançou uma gargalhada coletiva de alívio, seguida de um aplauso, enquanto o pianista regressava ao seu lugar e o telefone continuava o apelo desesperado por quem ouvisse o que tinha a contar. Em vão. O pianista juntou os dedos, esticou os braços e construiu uma ponte. No outro lado do palco, o trio, a violinista, a violista e o violoncelista, aguardavam, impávidos como as estátuas que habitavam no corredor para a sala e, no público, algumas tosses contidas até então, aproveitaram o momento para se libertarem. O toque, por fim, parou. Desta vez sem comentar, o pianista retomou, acenou com a cabeça em direção ao trio e Beethoven regressou vibrante, como se ressuscitado a tocar para o Príncipe Lichnowsky. Nesse momento, olhei para o outro lado da segunda fila e numa face que descia em direção a uma mala consegui notar, iluminada pela luz espantada que restou antes de ser apagado o ecrã, um rubor vivo, como se se tratasse de uma belíssima inflorescência de Alpinia Purpurata.
16.11.19
Estrela Michelin
Pergunta-me Alice, nove anos, cabelos caindo em cachoeira loura pelos ombros, mãos dançando pelo ar como flores: «Sabes qual será o primeiro chef de um restaurante vegetariano a ganhar uma estrela Michelin?»
E eu, leitora, sustenho o espanto e a respiração, e recordo apenas, embaraçado, que, em tal idade, as minhas dúvidas gastronómicas não iam mais longe do que se barrar o pão do lanche com Tulicreme de avelã ou antes de chocolate.
E eu, leitora, sustenho o espanto e a respiração, e recordo apenas, embaraçado, que, em tal idade, as minhas dúvidas gastronómicas não iam mais longe do que se barrar o pão do lanche com Tulicreme de avelã ou antes de chocolate.
15.11.19
Eu e a blogger
Evidentemente, não me levantei da mesa para a ir cumprimentar, era o que mais faltava aparecer assim, sem convite nem apresentação, entrando pela conversa dela com quem a acompanhava: «Muito prazer, sou leitor do seu blog há uns anos...» Sem esperar vê-la, era naquele restaurante que a veria, na verdade e apenas pelas palavras e uma fotografia, era assim que lhe imaginava gestos e expressões. Ou não imaginava, sequer, e a intuição surgiu-me a posteriori, e tudo encaixou como devia. Demorei mais a almoçar que ela, saiu antes de mim, é improvável que nos voltemos a cruzar e se tornar a acontecer, não é de esperar que eu lhe surja à frente «impromptu». Fui reler o blog. Com a imagem atualizada, as palavras ganharam face. É o mesmo blog, mas já não é exatamente o mesmo blog. A informação, por ínfima que seja, é sempre uma lente: não é possível obtê-la sem que altere a forma como vemos de novo o que sempre lá esteve.
Impressão matinal
Daqui a pouco, será por Dona Inês que saberei a temperatura lá de fora, as previsões para o dia, se devo levar sobretudo ou antes gabardina, se o cachecol será acessório de estilo ou de precisão. O que vejo pela janela, o que os meus olhos me dizem, não é de fiar, são impressões de momento e não indicações de devir. Não fosse o sexto sentido de Dona Inês e eu andaria sempre a contraciclo. Assim também ando mas, ao menos, não há raio de sol, não há gota de água, que me apanhem desprevenido.
14.11.19
Homem previdente
«Admite que não gostas que eu veja o Lee porque estás com ciúmes. Admite que não é tudo cálculo frio contigo, que tens um coração, mesmo que seja pequeno e fraco e não te lembres da última vez em que o usaste», diz Verna. «Se eu soubesse que íamos expressar os nossos sentimentos por palavras, teria memorizado o Cântico dos Cânticos», escusa-se Tom.
Tom, o pragmático, mostra que homem previdente prepara-se para qualquer conversa, e recusa amavelmente aquelas para que não está precavido.
[Miller’s Crossing, Ethan e Joel Cohen]
Tom, o pragmático, mostra que homem previdente prepara-se para qualquer conversa, e recusa amavelmente aquelas para que não está precavido.
[Miller’s Crossing, Ethan e Joel Cohen]
parábola do semeador
em vez de sementes
espalhou livros
mas, ah
os livros não medram
e nem pássaros os quiseram
veio a chuva
apodreceram
e neles brotaram fungos
à sua maneira
belos como flores
Doppelgänger
Quando em dúvida, ele olha para mim, que tenho tão poucas certezas quanto ele, e entrega-me a palavra. Cabe-me dar à incógnita partilhada a forma de problema solucionado. Quando é minha a incerteza, é a ele que a entrego para a virar do avesso, fazendo do forro a solução. Visto do exterior, pareceria que pensamos da mesma forma. Nada mais longe da verdade. Só temos é esta habilidade de entregar um ao outro, à vez, uma meia convicção, de a aceitarmos como dádiva, de dela fazermos convicção inteira. Ou disso estamos convencidos.
13.11.19
Uma incógnita
Vieram morar para aquela casa há uns dois anos. A memória, se não for auxiliada, combina os tempos numa forma indistinta: é esse o modelo da minha. Todos os dias o via a ele no jardim ao final da tarde, curvado sobre o jornal, fazendo-me lembrar o meu pai que gostava de ler os vespertinos com a atenção de quem tem a vontade de conhecer o mundo pelas rodas dentadas que o movem. Ela saia, devagarinho, com andar manso, quase flutuante, dizia-lhe algumas palavras e voltava, como se tivesse sempre frio, mesmo a meio do verão. Há três semanas, vi um alvoroço na casa, gente, luzes acesas até mais tarde. Depois, parti em viagem, nada mais consegui observar. Regressei, a casa estava vazia, não o encontrei a ele na cadeira do jardim, nem a ela, com os seus passos de anjo vinda do conchego que imagino das mantas frente à lareira. No domingo, ela reapareceu, voltei a vê-la embrulhada no robe, mas a ele não. Nada sei sobre eles, a não ser que ele falta. Não sei se é ausência provisória, se definitiva, mas sei que a explicação mais simples é a melhor: ele é, por agora, até eu saber mais, um espaço em branco. A versão que conto a mim próprio é a que não queria que tivesse acontecido. Talvez me encha de coragem, vá à beira do jardim um dia e pergunte. Nada é mais inquietante do que uma incógnita. Perturba-me, e não pouco, esta indeterminação.
11.11.19
*
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
[Álvaro de Campos]
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
[Álvaro de Campos]
9.11.19
Validação externa
Picasso era apenas um grande exibicionista. A maior parte do seu trabalho é inerentemente trivial.
[Germaine Greer]
[Germaine Greer]
8.11.19
Afinidades
Caravaggio, Alaudista, 1596
No céu vive um coração de que as fibras são as cordas de um alaúde
como a alma de uma labareda, no céu mais alto.
Não há tão selvagem canto no fundo do absoluto como
o canto deste alaúde em voragem
angélica, que é a corda vibrante do coração do Anjo
Israfel. E cada pulsação deste
obscuro oráculo
é um Sinal, onde o infindo amor pôs a mão em chamas, na orla do Paraíso.
E diz a lenda que os astros bêbados emudecem,
e assistem atónitos
à inaudita ascensão daquela música
inaudita,
que o mágico Bardo do alto soletra enquanto soletra a sua vida,
cantando.
J. S. Bach, Prelúdio, BWV 1006, Hopkinson Smith
2.11.19
Uma sopinha
Declinaria com a maior amabilidade que conseguisse um eventual convite para comer uma sopinha elaborada com os saberes da senhora que, à minha frente, leva a hortaliça, liberta do confinamento do saco de compras, a arrastar pela lateral das longas escadas rolantes do metro da estação mais movimentada da cidade.
Sósia de John Malkovich em jovem
Don Giovanni, no final da ária «Deh, vieni alla finestra», pisca o olho à rapariga sentada na coxia da terceira fila. Ela sorri, desvelada, e não desvia os olhos daquele sósia de John Malkovich em jovem, um casting perfeito para o sedutor. Ao lado, o namorado, a olhar para a primeira-violino, de nada se apercebe. Se se voltar para a namorada, talvez se intrigue por ela continuar com tal abençoado sorriso, ajeitando nervosamente o cabelo imaculado. Dentro da ópera outra ópera acontece. Esta, ainda a ser escrita na plateia, é deveras mais interessante que a original, predeterminada, no palco.
1.11.19
Caravaggio
Deixo-me prender na voz da americana que vai lendo o catálogo para a companheira e até atraso o passo para a ouvir. A companheira fica estática, enlevada na leitura e julgo que semicerra os olhos, em transe hipnótico. Lento é o avanço, como secagem de tinta na tela. Caravaggio é, creio, apenas um pretexto para ela mergulhar na música das palavras da leitora. Acho o modelo, Mario Minniti, parecido com esta. Talvez Mario lesse para Caravaggio assim, talvez este fechasse os olhos para o ouvir. Nunca saberei. Com as unhas cheias de terra fresca, Mario parece troçar das minhas fantasias.
Torrente verbal
A compatriota de casaco de pele de leopardo praguejava como um marinheiro junto das lojas da Hermès e da IWC, no buliçoso final de tarde de véspera de feriado. Apenas o par que a acompanhava, ambos igualmente de meia idade e portugueses, entenderia semelhante torrente verbal. E eu, claro, que seguia atrás do trio e depressa o ultrapassei com a opaca expressão dos nativos, que uma tal explosão de liberdade é para ser vivida sem testemunhas senão as escolhidas, e que só a narro aqui porque sei que a leitora esquecerá, ainda mais depressa do que lê, esta minudência inconsequente.
21.10.19
Prioridades bem definidas
A edição mais antiga de Agustina que tenho, está assinada e datada por mim, e não há dúvidas: era o mês em que eu teria que acabar o curso, o primeiro, se o quisesse fazer a tempo e horas. Foi decerto comprado em alfarrabista, uma vez que a data de impressão precede de vários anos a do meu nascimento. O curso foi terminado no prazo, não tenha a leitora cuidados, mas lá está, já na altura as minhas prioridades estavam bem definidas. Maria Agustina é que nunca chegou a saber, que pena. Daquela vez, a única, não tive coragem de lho dizer.
14.10.19
Com um dedo, ou dois
O leitor assiste à vida em tempo acelerado. O escritor atrasa-a, para captá-la. A palavra no papel é um botão no comando da existência.
11.10.19
Caderno diário ilustrado
Mary Alaine Thomas, A leitora, 2016
Escrevo ao acordar, no escuro silencioso apenas iluminado pelo brilho ténue do caderno. Algures que não aqui o pássaro cantará. Dele nada sei. E eu com tantas páginas de saudade em branco para replenar com trinados do canoro. Quando Deus criou os pássaros com a forma que usou para o coração, legou-nos uma dúvida insolúvel. Como se preenche o vazio deixado pelo pássaro que leva em si o nosso coração?
10.10.19
Missiva acerca disso das artes
Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto na qual reconheço a caligrafia apurada nos clubes de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos de ouro no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.
Meu muito estimado amigo,
«Os homens querem-se para pelejar, para guerrear» apregoava um magala num dos filmes do Manoel de Oliveira, esse Matusalém da sétima das artes. Por afirmações destas é que o desinfeliz era recruta de pente zero e não coronel ou general. As mentes superiores sabem que o homem quer-se é para as coisas do espírito, para a contemplação da beleza, para o prazer que é a mais afortunada das formas de glória, a única, na verdade, para que foi ungido.
Eu, aqui onde me verá, sou capaz de ficar horas a fio, horas! a apreciar o colo de marfim da dulcíssima sereia cujo canto me enleva de anoitecer ao alvorecer, sem jamais esmorecer. Ah, meu amigo, contemplar a arte assim, sim, porque falamos de arte, é termos o paraíso na Terra, o melhor dos mundos possíveis, como diria Leibniz, porque ao menos aqui temos o Faisão com amêndoa torrada, bolbo de aipo e alperce, do chef Spalk e no outro, sabe-se lá se não nos servem apenas haggis escocês. Claro que para o meu amigo, que é herbívoro, o paraíso são coisas como suflês de malmequeres e feijoadas de urtigas, mas adiante.
A razão de estar a receber esta página lavrada por meu punho, é que a dulcíssima Orchidée está a organizar um sarau dedicada às artes, no próximo sábado, aqui na Casa d’Andrada. É pois o meu amigo, convidado de honra, como o Porto. Tem a dulcíssima um apreço incompreensível pelas garatujas do meu estimado. Afiança amiúde a formosíssima, a propósito, imagino, dessa sua vocação desperdiçada para os mesteres artísticos: «Ah, le pauvre J., qu’il a des mains d’or!». Mistérios…
Nesse dia faremos, na tenda grande do jardim, uma mostra das obras da coleção Casa d’Andrada, os Dacosta, os Palolo, os Sarmento, e está o meu amigo convidado a juntar também os rabiscos que, dizem-me fez durante as férias, enquanto chorava copiosamente rios de gin com raspa de lima por uma qualquer musa sempre ausente, jamais identificada, oh, mistério maior do que o sorriso da Gioconda.
O diligente Reboredo assegurar-se-á de que haverá canapés com hummus e baba ganoush e baba de caracol e todas essas viscosidades a que o meu amigo canta loas lá nesse seu hebdomadário nas internetes. Faça-se acompanhar apenas pelos seus bosquejos, que de tudo o resto a graciosa Orchidée cuidará. Até mesmo um projeto de artista como o meu estimado merece que as obras saiam lá dessa caverna platónica onde passa os seus empoeirados dias. (Ah, le pauvre, pauvre J, repreende-me aqui ao lado, com pontapé por debaixo da mesa, finíssima apreciadora d’arte que manterei incógnita).
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
10.9.19
Missiva sobre as práticas de dar um jeito
Recebo uma carta na qual reconheço, a tinta azul, a caligrafia esmerada do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a passar os seus anos de ouro no alvo colo da dulcíssima Orchidée.
Meu muito estimado amigo,
Sei que conhece o enigma da esfinge, que Édipo resolveu, e portanto passo já para a conclusão: chegou a altura de eu andar de três pernas neste arrebol da minha vida. A generosíssima Orchidée ofereceu-me uma bengala de buxo, encastoada em prata fina, que foi usada com sucesso pelo próprio João da Ega nos lombos nédios do Eusebiozinho, e que ela mandou arrematar num leilão da Christie’s. Perguntar-me-á o que me sucedeu que me condenou a tal desdita. Pois saiba que um cavalheiro não revela detalhes do que se passa portas da alcova dentro mas, resumindo, dei um jeito às costas. Por Deus, dei um jeito tal que não mais consegui assumir a minha postura de homem vertical, e estou condenado, dizem-me, a andar como um galináceo mais um par de dias, enquanto sou torcido, esticado e massajado por uma donzela trajada de enfermeira, com os bíceps do Tarzan Taborda.
Ochidée, essa luz que afaga as pupilas sequiosas dos meus olhos, diz-me que o que tenho é falta de flexibilidade. É verdade, é algo que os meus rendeiros poderão atestar: a minha inflexibilidade é matéria de que se fazem as lendas e os maus-olhados dos inquilinos. Orchidée, ali onde a vê neste momento, é tão flexível que consegue coçar a orelhinha esquerda com o dedinho grande do pezinho direito. O segredo, meu amigo, o segredo de tal gesto audaz está no ioga. Mas não num ioga qualquer, desse que praticam as gentes vestidas de licras lilases no Estádio Nacional. É o ioga quente, o “hot yoga”, praticado a temperaturas em que o suor escorre copiosa e continuamente pelos corpos contorcidos, assim me dizem fontes que conhecem a capacidade de visualização da minha mente impoluta. Um dos quartos da casa d’Andrada foi mandado transformar numa espécie de sauna, onde Orchidée se contorce agora sob a supervisão da caridosa Krishna.
Orchidée insiste que eu, Andrada, me junte a esse carnaval, tudo a bem das minhas articulações, diz a dulcíssima. Mas, é preciso mais um cavalheiro, para que a piedosa Krishna exemplifique os passes de magia óssea que eu e Orchidée praticaremos. Não sei se está a ver. Foi assim que Orchidée se lembrou, e eu não sei como tem ela tais ideias, do meu amigo: mon chou, ça te dérangerait d'inviter le pauvre, pauvre J. à faire du yoga avec nous ? E aqui estou a convidá-lo a vir suar as estopinhas cá à casa de Andrada no próximo sábado ao alvorecer. Fique o meu amigo descansado que depois, terá direito a lauto repasto de alcachofras da Polinésia e acelgas brancas de Fiji para repor os seus níveis de clorofila.
Orchidée já anda pelas internetes em busca de tangas de fakir ou lá o que usam para praticar aquilo. Venha como está, que tudo o mais está tratado. Entrará naquela sala engelhado e com os ossos fora dos eixos e, debaixo de uma espessa camada de suor, sairá um renovado J. avec peau de bébé, afirmam fontes que não estou autorizado a revelar. Não falte, não falte, pela minha saúde.
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
30.5.19
Má fortuna, amor ardente
E eis que identifico uma falha no livrinho com elástico onde guardo endereços de gentes de bem. Nele não consta morada nem número de porta de bruxo, alquimista, encantador de serpentes, endireita ou tirador de maus-olhados. Nem o livro de São Cipriano habita, sequer, a minha biblioteca. Tantas oportunidades tive para o comprar, sempre as declinei. Todos os outros que ali estão, povoados de palavras racionais e paixões irracionais, parecem-me inúteis contra as artes do além. Até contra as artes do aquém, atrevo-me a dizer, mais não são do que placebos. E enquanto o lado de lá continua a enviar-me raios e coriscos sem pausa nem descanso, aqui estou eu, do lado de cá, apenas com o céu azul como escudo. É um jogo de paciência: ou as minudências consequentes se cansam de vir ao meu encontro, ou ando eu em volta para que elas não me encontrem. Ou então, descubro no meu livrinho algum benzilhão salvador que por lá esteja camuflado. O mundo moderno nenhum artefacto nos dá contra a má fortuna. Contra o amor ardente, também não. Já quanto à perdição, ombros mais largos tivéssemos nós para a carregar, leitora.
15.5.19
Caderno diário
O pássaro voltou a ausentar-se e desta vez nem do beiral nem da frondosa árvore em frente surge qualquer trinado para riscar o silêncio denso do amanhecer. Acordo por moto-próprio às horas a que os sonhos me abandonam, sem o auxílio sempre inesperado, sempre esperado, do canoro. Poderia ser um descanso deitar-me sabendo que não serei despertado a horas aleatórias, por melodias exuberantes provindas do lado certo da janela. Na verdade, é um desassossego. Quem disse ao canoro que eu não queria ser acordado a desoras, ainda que a plenitude matinal seja cortada cerce pelo entusiasmo do chilreante? Quem diz ao cantante estas mesmas palavras, a ver se ele, ouvindo-as, me aquieta, desaquietando-me?
18.4.19
Missiva sobre a abnegação da quadra
Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto com a letra elegante de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a viver intramuros na casa d’Andrada, no cálido embalo dos braços da dulcíssima Orchidée.
Meu muito prezado amigo,
Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.
Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»
Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.
O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».
Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
Meu muito prezado amigo,
Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.
Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»
Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.
O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».
Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»
Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
15.3.19
Caderno diário
Assalta-me a indecisão logo ao alvorecer: será o pássaro do beiral, ou não? Reconheço os trinados ou, algures na penumbra do sono, parece-me reconhecê-los, mas estão distantes, esmaecidos, como se tivessem viajado pela canseira de uma linha de telefone centenária. A ser o pássaro, abrigou-se na árvore em frente à janela, frondosa, ampla, acolhedora. Ensaiará o regresso ao beiral? Ou, uma vez encontrado um ramo amplo e confortável, musicado pelo doce roçagar da folhagem ao vento, deixar-se-á ficar, abandonando o beiral expectante mas desvestido? Que apelo pode ter um beiral assim batido a sol e vento, pleno de ângulos e superfícies rugosas, face a uma tão aconchegante árvore, tão repleta de suaves balouços, tão amena a vistas amplas? E como é que se transforma um canto de beiral numa serenata de beiral, leitora?
3.2.19
A rede (Epílogo)
Após a morte do pai de Bertrande, a mãe desta casou com o tio de Martin. Foram disputas sobre terras que levaram o casal a convencer Bertrande a denunciar Arnaud como impostor, contra vontade desta. Durante o julgamento, trinta a quarenta pessoas afirmaram que o réu era seguramente Martin Guerre; haviam-no conhecido desde o berço. Entre os que não tinham dúvidas que Arnaud era Martin encontravam-se as quatro irmãs deste, os dois cunhados e uma certa Catherine Boeri de uma das mais respeitadas famílias na localidade. Faltava, assim, uma prova definitiva. Nunca se saberá como, nem porquê, mas o verdadeiro Martin, certamente informado pelas redes da época, resolveu aparecer, ao fim de tantos anos, precisamente na altura do julgamento. A partir daí, Arnaud du Tilh não tinha como negar o embuste. Arnaud deixaria todas as suas terras, em testamento, à filha com Bertrande. O cadafalso foi erguido em frente à casa onde com esta viveu três anos felizes e prósperos para ambos.
Recuperado o vigor, após os anos a monte, Martin viria a ter mais filhos com Bertrande e, posteriormente, com outra mulher.
Em Artigat, nada acontece. Mas os habitantes ainda dizem: «Quer lá saber o que aconteceu aqui há muitos, muitos séculos?»
2.2.19
A rede (III)
A aliança entre as casas de Guerre e de Role foi selada pelo casamento de Martin e Bertrande, ambos ainda com catorze anos. O casamento não foi consumado na noite de núpcias e, na verdade, não o seria nos oito anos seguintes, tendo que aguardar uma receita milagrosa que consistiu em quatro missas e uns bolos especiais, que permitiram ao noivo ultrapassar finalmente a condição que tanto o humilhava perante a família da noiva e toda a aldeia de Artigat. Durante esses longos anos, Bertrande opôs-se à anulação do casamento – tinha-se afeiçoado às quatro irmãs do marido e com elas passou os melhores dias da sua juventude, longe de quaisquer obrigações no leito conjugal. Após a consumação, Bertrande engravidou de imediato; o nascimento do filho e um desentendimento com o pai por causa de uns alqueires de trigo fizeram transbordar a inquietação de Martin. Um dia, fugiu. Deixou para trás tudo o que tinha, regressou ao País Basco da sua origem, tornou-se soldado ao serviço de Filipe II de Espanha e I de Portugal. Anos mais tarde, antes do seu regresso, as suas irmãs jurariam que Arnaud du Tilh, era, de facto, ele. Elas, e muitos dos que o tinham conhecido ao longo dos anos antes do casamento e os seguintes, os do opróbrio que a impotência lhe tinha imposto.
A rede (II)
Arnaud du Tilh confessou, dizem os biógrafos, nunca ter encontrado Martin Guerre antes de ir para Artigat. Arnaud tinha voltado do acampamento do exército na Picardia por volta de 1553, presumivelmente após as batalhas de Therouanne, Hesdin e Valenciennes. Passando por Mane, ao longo do rio Salat, encontrou dois amigos de Martin, Master Dominique Pujol e o hoteleiro Pierre de Guilhet, que o tomaram pelo desaparecido de Artigat. Esta confusão deu ideias a Arnaud, também conhecido por Pansette, devido ao seu prodigioso apetite. Arnaut informou-se o mais astuciosamente que pode sobre Martin Guerre, a sua situação, a sua família e as coisas que costumava dizer e fazer. Insinuou-se astuciosamente junto de Pujol, Guilhet, e outros amigos, familiares e vizinhos dos Guerre. Nesse mundo em que todos falavam com todos, poderia obter informações através das redes de mexericos sem ir a Artigat – e eram abundantes, estes, incluindo detalhes como a localização do saco de roupa branca que Martin tinha deixado num certo tronco antes de desaparecer, anos antes, da casa que partilhava com a mulher e o filho. Arnaud aprendeu os nomes de muitos dos aldeões e informou-se sobre as relações de Martin com eles; também aprendeu palavras de basco, a língua original dos Daguerre antes de emigrarem para França e mudarem o nome para Guerre. Arnaut demorou muitos meses a preparar o seu papel, pois chegou a Artigat apenas em 1556.
1.2.19
A rede (I)
Quando Martin chegou a Artigat, depois de oito anos de ausência, cumprimentava toda a gente pelo nome e se elas pareciam não reconhecê-lo falava-lhes sobre as coisas que haviam feito juntos dez ou quinze anos antes. Explicava a todos que tinha andado fora servindo no exército do rei de França, tinha passado alguns meses em Espanha e agora estava ansioso para estar novamente na sua aldeia com a sua família, com o seu filho Sanxi e, especialmente, com sua esposa Bertrande, com quem tinha casado dezoito anos antes. Reconhecê-lo-ia, ela? Não só o reconheceu, como «conversou com ele dia e noite», acolhendo-o no seu leito – nos três anos seguintes, duas filhas nasceram ao casal reencontrado, tendo uma delas morrido e a outra, Bernarde, sobrevivido, tornando-se a irmã mais nova de Sanxi, o herdeiro do nome do avô.
23.1.19
Caderno diário
Não é que eu não acorde cedo, em alvoroço, de ouvido esperançado na direção da janela onde dantes cantava o pássaro. Ou que não prolongue a leitura à noite, melhor, que leia antes com a audição, filtrando cada rumor em busca de uma nota, por singela que seja, que me soaria como uma salva no meio do breu. Mas nem um sinal, nem um som, senão o doce roçagar das folhas vazias. Há quase uma semana que dele nada sei, que não ouço trinado, nem um pio. Bem sei que o pássaro é livre de voar, é livre de não cantar, é livre de demandar beirais de outrem. Mas a minha razão é inábil para convencer o meu coração. O que sabemos não é escala para o que ansiamos. Num devaneio, iludo-me: talvez não ande longe, talvez dormite entre um tronco e um ramo resguardado, a um salto da minha atenção. Ou talvez repouse algures, apenas, do ofício de cantar. Soubesse eu onde encontrar garrafas com asas, deitaria uma ao ar, esperando que vogasse ao sabor dos ventos, até entregar a mensagem, com o timbre do meu coração, ao canoro. Assim a lesse ele, ai de mim. Agora, só sonhos tenho para enviar, enquanto guardo as esperanças e inquietações todas para mim. E tenho um ouvido tão atento que, assim o ouvisse eu, assim tivesse dele o sinal, ainda que não voasse ele para o beiral, era eu que até ele voaria.
14.1.19
Vilar de Perdizes
O alfarrabista já tem porta aberta: afinal o encerramento demorou mais do que o anunciado pelo papel, por razões que só eu sei e ele sabe que eu guardo para mim. Mas os livros usados não expiram, a virtude redentora dos colecionadores é a paciência, a demora dele é pisar um risco sem risco. Enquanto se aquece ao sol que lhe alonga a face pálida, a arquiteta chega, de passageira e de semblante cerrado, na motorizada: ela acena-lhe, o namorado ignora-o. O doutor Videira, ao meu lado na mesa do café, que olha na mesma direção que eu, a deles, diz-me: «O homem da mota ainda não sabe, mas o coração da arquiteta também bate por livros já lidos. Daqui a duas semanas, já não será ele a trazê-la.» O doutor Videira olha para o fundo da chávena, como se nele estivesse escrito, e fosse decifrável, o destino. O alfarrabista já entrou, está a atender um cliente, um dos colecionadores que lá permanecem horas em adoração, como num templo. A arquiteta ficou na rua a fumar, enquanto a mota sumia, engolida pelo fim da rua. Dois andares acima, o gato de Dona Maria Bárbara meneia a cabeça, ao ritmo dos compassos de uma transcrição de Wagner para piano, que chegam atenuados aqui. O doutor Videira vai todos os anos em setembro a Vilar de Perdizes, aprender com os melhores. Eu não sei o que o doutor lê do futuro, ou como o lê, mas não apostava contra ele, que me parece o mesmo que zombar do inevitável. A arquiteta acaba o cigarro e fica a olhar para a montra dos livros usados, como se quisesse rematar a frase do adivinho, meu vizinho. Depois, bate os tacões como um general prussiano, e entra na porta do atelier com passo triunfal. As grandes decisões são como os lagos: não é pela calmaria da superfície que se lhes mede a profundidade.
10.1.19
Propriedade comutativa
Dizia tio Ascenso: Trata-a como a uma princesa e ela tratar-te-á como as princesas tratam quem as trata como princesas.
2.1.19
O terceiro andamento
A arquiteta sai do atelier em passo determinado, atravessa a rua numa diagonal traçada a régua e entra no café, sombria como um anjo da madrugada. O gorro enfiado até às sobrancelhas, as mãos ocultas por luvas pretas, o casaco longo, ao rés dos tornozelos, a cara de expressão cerrada, poderia fazer parte de alguma missão secreta, mas vem só pedir: «Um café por favor, Ninha, com cheirinho.» Dona Juliana alcança a garrafa de J&B e aromatiza generosamente o café. De onde me sento, junto à porta, parece-me ouvir o piano virtuoso de Dona Maria Bárbara enovelado na segunda sonata de Schumann, esse tresloucado. Do gato, nem reflexo na janela: também ele é schumanniaco. O Senhor Inácio da papelaria conversa com Dona Lídia da frutaria, vizinha de porta com porta: tarde amena para o negócio. O alfarrabista continua ausente em paradeiro de que apenas eu tenho notícia. Com a falta de cafeína liquidada, a arquiteta retira o telefone do bolso e inicia a chamada logo que cruza a porta. A voz sobe em crescendo como o scherzo do terceiro andamento. A meio da rua, já a fúria está livre por inteiro, com toda a amplitude de asas que apenas as águias e a raiva possuem. A voz chega aqui, sobrepondo-se à melodia do piano. Dona Juliana olha-me, único cliente agora, e diz: «Amor é fogo, menino.» Menino, não sou eu: é genérico, adenda de terras de outros continentes. Mas o mal de amor é universal, como o fogo. O poeta dizia que não se vê, o amor. Talvez não, mas ouve-se – com mais distinto furor que o scherzo de uma sonata para piano. Isto o poeta não disse, mas apenas porque no tempo dele ainda não havia scherzi, nem pianos.
1.1.19
A rua
No restaurante, as mesas da esplanada não estão postas para almoço e já passa das onze da manhã. O café está tão fechado como o cofre do banco e hoje tive que me resignar à bebida saída da minha máquina com previsibilidade encapsulada. Na porta vidrada do alfarrabista há um aviso aos estimados clientes a indicar o regresso dia sete de janeiro. Só eu sei onde ele está por estes dias, mas jurei segredo. Na papelaria do Senhor Inácio, a nota tipografada é concisa: Fechado. Ai daqueles a quem acabar a tinta azul cobalto: a urgência da escrita terá que aguardar um dia mais. Ontem, a meio da tarde, a motorizada do namorado da arquiteta estacou frente à porta do atelier com rugido de fera atemorizada. Ela saiu de sandálias de agulha visíveis debaixo do longo casaco preto, colocou o capacete, agarrou-o como a uma boia de salvação, e antes que o ruído da partida tivesse tempo de me chegar aos ouvidos, deixei de os ver ao fundo da rua. O gato à janela observa a rua, com minúcia de caçador. Não se ouve o piano de Dona Maria Bárbara, mas na janela que lhe pertence, e por detrás do gato, vislumbro os olhinhos vivazes e rápidos do Senhor Inácio, da cor da tinta das escritas. É manhã de primeiro de janeiro, a rua está vazia, o caminho livre. A porta da rua abre-se e um vulto de sobretudo e chapéu e embuçado no cachecol, sai em passinhos tão céleres como o olhar azul. Vê-me, hesita, mas acena-me. Eu devolvo o aceno e junto-lhe os votos de bom ano. O Senhor Inácio funde-se na pouca sombra do dia claríssimo e desaparece como vapor de água. O gato também já não está à janela: pode voltar a ter a atenção plena e merecida da sua hospedeira, e não desperdiça nem um minuto.
18.12.18
Pelos olhos do gato
A aluna de Dona Maria Bárbara chega a meio da manhã, com mochila ao ombro e ansiedade na expressão e, pouco depois, ouvem-se na rua os fiapos das notas titubeantes do piano, escalas esforçadas, peças de iniciação, voos mais ousados seguidos de quedas bruscas e ressurreições. Por vezes, há longos hiatos entre as escalas e, nesses, consegue-se distinguir a voz pautada da professora, pesada como duas mãos abertas carregando sobre os ombros da aprendiz. Mais tarde, quando esta sai da porta ao lado da loja do alfarrabista, a ansiedade dá lugar ao alívio, não diferente do de quem é salvo do oceano, do lado de lá do oxigénio já tão longínquo. O gato preto à janela do segundo andar assinala as horas das aulas de Dona Maria Bárbara: enquanto decorrem, os olhos claros e frios do felino percorrem a rua, em busca de lugar de poiso para a sua atenção de predador de histórias. Contaram-me que, quando o alfarrabista pai, antes de passar a loja ao cuidado do filho e se retirar em definitivo, cruzava a porta ao lado, o gato também vinha postar-se à janela, e assim ficava de sentinela à vida que decorria cá em baixo até o visitante voltar à luz do crepúsculo. Não sei, nunca vi, mas não me custa acreditar que o gato preto exija atenção plena da dona. Não a podendo ter, é o resto do mundo que ganha a atenção plena dele.
17.12.18
Dez graus pela manhã
Calhou estar hoje de manhã na esplanada, a aquecer as mãos na chávena do café, tentando derrotar os dez graus que me tolhiam o pensamento, quando a arquiteta chegou de motorizada com o namorado, provindos do lado da minha distração. Pararam junto à porta do atelier, e com um gesto ágil ela levantou-se, tirou o capacete e despediu-se dele num beijo longo como o perímetro de um pires. O alfarrabista estava frente à montra recém-composta, quando a arquiteta lhe acenou e ele respondeu com a sua mão em «zeppelin» flutuante. O namorado dela ia já longe, a minha chávena estava vazia, a arquiteta entrava no atelier e o alfarrabista ficava ainda na rua a mirar a montra dele e a porta ao lado. Vestido todo de preto, parecia o gato que, na janela do segundo andar, olhava a rua com o ar meticuloso daqueles para quem a visão não se mede apenas em metros, mas em semanas, meses, anos.
16.12.18
Como a teia de aranha
O alfarrabista olha para a rua através da montra, enquanto eu procuro nas estantes um dos obscuros livros de Agustina que ainda me faltam, ou algum daqueles de Ramos Rosa de que não foram feitas edições de mais do que uma centena de exemplares. Mas o olhar dele é mais atento do que o meu, mais distante também, e depressa percebo que segue o casaco comprido que anda em círculo do lado de fora da montra, enquanto a dona fala ao telefone, com um voltear irado da outra mão e voz áspera que ouço aqui. «É a arquiteta», diz. «A discutir com o namorado, como de costume», oferece de seguida a explicação, quase num sussurro, sem que eu lha tenha pedido. Na loja meticulosamente limpa, no canto da estante mais perto da secretária onde o alfarrabista se senta, noto, pela primeira vez, uma teia de aranha. Só pode estar ali porque ele a quer, deliberadamente mantida, contra as investidas rigorosas de limpeza da empregada. A arquiteta parece prestes a atirar o telefone, mas contém-se, guarda-o no bolso do casaco, joga os braços ao ar e, antes de regressar ao atelier, na porta ao lado, cola as mãos em concha ao vidro e acena ao alfarrabista. Ele devolve-lhe o aceno, com a mão flutuante como um «zeppelin». Eu continuo fascinado pela teia de aranha e ele nota. «Os livros», diz-me, «são reservas de paciência. Como essa teia.» E, com a lentidão determinada da inquilina da estante, sai da secretária e vai ao até ao vidro. Do outro lado, esteve a arquiteta e as marcas da mão, efémeras, ainda lá estão. Os livros e a teia estão deste lado, perenes, como ele.
25.11.18
Infusão galinácea
Arrastei-me, a tremer e a bocejar, até à quitanda de Seu Januário, que tem uma barba à Lincoln e usa suspensórios para segurar a sua delgada estrutura de caniço às calças. Curta, a minha lista de compras, que a memória para mais não dava: meia galinha, gengibre e cebolinho. Gengibre, Seu vendeu-me a preço de pepita de ouro: «Vem de muito longe, e não vem a nado, paga o transporte por paquete pelo grande oceano.» A galinha é da criação de Dona Adozinda, com quem Seu Januário, homem regrado, mantém relações comerciais ao domingo e à quarta. Cebolinho, nem vê-lo, «terá que ser cebola mesmo», diz Seu. Não é o mesmo, mas não estou em condições de argumentar. Seu Januário vê as minhas mãos a tremer e quer-me a milhas da quitanda depressa. É véspera de visita a Dona Adozinda e altura inadequada para uma gripe, se é que há alguma adequada.
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
Meti tudo na panela, com a volumetria de um poço, que pedi emprestada a Dona Consolação, onde ela faz o jantar quando tem os filhos todos de visita, e deixei a ferver por horas, como aprendi com Li Pou chinês errante primeiro no Yangtzé, depois no mundo, e que conheci na Brindisi de Virgílio. Voltei para a cama e adormeci. Às três da manhã acordei e fui ver o caldo onde a galinha se fundiu e, a essa hora, jantei litros de infusão galinácea. Com o estômago e a alma aconchegados, voltei a dormir, até fazer vinte quatro horas desde que me tinha deitado, antes do opíparo jantar. A casa cheirava a galinha, eu também, abri a janela para deixar entrar o aroma da ilha, olhei o sol e, pela primeira vez em dois dias, não tremi ao ar fresco da rua, nem bocejei como se estivesse a assistir ao «Prelúdio ao Entardecer de um Fauno». A esta hora, estaria Seu Januário em negociações com Dona Adozinda, a quitanda fechada. Sem nada para comer, pensei que a fome também cura. E com a barriga a dar horas, desci até à praia, acabado de nascer.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
24.11.18
Mosto
Pelo que me recordo do sonho, durou toda a noite, sempre o mesmo, recorrente, como se eu fosse um hamster condenado a correr numa roda chiante. Correr faz sede, e por isso aquela vontade de beber a meio da noite, água que é a bebida que mais se parece com o gin, este interdito se, com tal carga de antipiréticos, não quisesse ganhar asas e voar pela janela, em alucinações onde surgiriam, imaculadas e impávidas, raparigas de olhos de caleidoscópio.
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
A mão treme a escrever estas linhas com o lápis gasto, cada letra uma poça de grafite. O chá de limão arrefece ao lado com restos de mel coalhado com aspeto de desistente. Todos os músculos do meu corpo parecem ter sido pisado num lagar, por pés calosos determinados a extrair de mim todo o mosto que vive sob a película da minha pele. Abro a janela, para que o ar cálido da ilha à noite, afague os micróbios que tanto me separam do meu eu, como se estivesse já recolhido em cubas de aço inoxidável, pronto para a fermentação.
E é a fermentar que me sinto. A minha esperança é, quando parar de tremer, quando o meu mosto se transmutar em líquido menos turvo, possa ser, enfim, de boa colheita. Para alguma coisa há-de servir a videira resfriada em que o meu corpo se transformou. Já não sei se este foi o sonho que me assombrou a noite, mas podia muito bem ter sido.
[Dos «Diários», de Victor de Vere.]
18.9.18
O derradeiro passageiro
O calor do inferno já se faz sentir a meio da manhã e é exacerbado pela humidade que parece nascer diretamente nos pulmões, tornando cada ciclo de respiração uma cena de pugilato por debaixo da pele. Eu estou sentado no «tro tro», o mini-autocarro, melhor, a furgoneta, que me levará até ao meu destino, a duas horas de distância de Acra. Antevejo os meus ossos a pedirem misericórdia nas estradas de terra batida, com aquela suspensão de ferro rijo com amortecimento a chumbo. Mas para já, só quero é iniciar viagem, sair daqui, sentir o alívio da brisa entrando pela janela, ao invés deste ar estacado como o condutor, à espera do último passageiro.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
O «tro tro» só parte quando não restar um lugar livre e eu já estou a postos há duas horas. O último lugar está há quarenta minutos à espera de ser ocupado. A minha impaciência ocidental ainda tem a tentação de pagar ao condutor o lugar, para que dê sinal de partida. Ah, mas é o sítio errado para ser impaciente e intuo que de pouco me servirá subverter o sistema, arriscar a ira calada ou não dos companheiros de viagem quando perceberem a manobra insidiosa. E o condutor guardará o pagamento e continuará à espera, fazendo de conta que nada se passou. Não há livro de reclamações no «tro tro».
Espero, olhando a multidão em torvelinho em volta que, de entre todos os que andam vergados pelo calor, surja o derradeiro passageiro, o messias, que finalmente, possibilite que me levem, senão à terra prometida, pelo menos para fora daqui. E é então que me ocorre que a única forma de conseguir viver no Ghana é fazer como se cá tivesse nascido. Num momento, decido abdicar de relógio, bússola, termómetro ou higrómetro. Esqueço as duas horas de espera, os quarenta graus, os oitenta por cento de humidade A medição encerra em si a angústia. Que seja o que for, desmedidamente. E uma estranha calma, ghanesa diria, toma então conta de mim.
17.9.18
Os dias da rádio
Eu trazia as histórias de uma rádio universitária, dos tempos de estudante, e ele, de uma rádio local, em La Oroya, onde embarcou no autocarro e se sentou ao meu lado. De súbito, estávamos a conversar como velhos conhecidos, oficiais do mesmo ofício que não era o que alimentava nenhum do dois. Chamava-se César Hernández, «como o jogador», disse-me, com uma ponta de orgulho na voz. Todo vestido de branco, que lhe realçava a tez morena e o bigode preto cuidado, César tinha uma voz de ouro, uma voz que adoçaria as ondas do éter e quebraria corações como cascas de ovo. Ia para Lima, a uma entrevista na Radio Nacional del Perú. César era o sócio-gerente, locutor e todos os restantes papéis na rádio de La Oroya, uma terra onde, como a maioria no interior do Perú, todas as casas estão permanentemente a meio da construção.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.
Para sustentar a rádio, César era eletricista e canalizador e reparador de aparelhos de telefonia e pintor e ainda aproveitava o tempo que lhe sobrava no minúsculo terreno do pai. A rádio era, contudo, a paixão da sua vida, para além da novia, Irene, claro. Durante anos, enviou currículos, propostas e podcasts para Lima até que, finalmente, no mês anterior, uma carta oficial, com o logótipo da RNP, tinha chegado, a convidá-lo para uma entrevista de emprego. Irene deu-lhe o seu beijo mais sonoro à partida, o pai fez a cruz da benção, que eu bem vi, César tinha uma pequenina lágrima quando se sentou ao meu lado, falou como uma criança feliz toda a viagem e saiu do autocarro aos saltinhos no seu passo miúdo. Guardou o meu endereço de correio eletrónico para me dar novas e não se esqueceu. Ficou.
16.9.18
No curso do Napo
Seguia o curso do Napo, que é um afluente do Amazonas, com a esperança debruada a temor de encontrar uma tribo de Haoranis. Caso os visse, tinha decidido passar de largo, se tal fosse possível: há descobertas mútuas que é melhor permanecerem no terreno das possibilidades. Parado, encostado à motocicleta alugada, fotografava o rugido do rio, quando um macaco-prego, um dos muitos que havia avistado, de olhos brilhantes entre a vegetação, se afoitou até mais perto de mim, com o passo dengoso da curiosidade tateante. Apontei a máquina e disparei uma, duas, uma rajada de fotos e ele, cooperante, mostrando os dentes num esgar escarninho. Cedo se desinteressou e me virou as costas, e eu a ele, no seguimento, na amigável separação de quem jamais se cruzaria de novo, assim pensei.
Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.
Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.
Pousei a máquina em cima do banco da motorizada, enquadrei, temporizador ligado, afastei-me até à moldura do penhasco e fiz um sorriso que decerto se pareceria com o do irmão símio, quando ele, surgido do nada, mais rápido que uma canoa na cachoeira, apanhou a máquina e de um golpe a apontou a mim, como eu tinha feito a ele. Ouvi o clique do temporizador, estava a objetiva na minha direção, e o mundo ao contrário. Decerto o meu «larga!» terá resultado numa expressão mais desesperada que o tranquilo «queijo» que já tinha preparado. Mas ele resolveu guardar as fotos e a máquina com elas.
Corri, saltei, gritei, esbracejei, ofeguei, praguejei. Ele conhecia o terreno e jogava em casa; eu apenas me joguei ao chão, no final. Rendido, vi-o no cimo de uma árvore, fora de alcance, a mostrar-me a câmara em jeito de troféu. Depois, rasgou um riso com todos os seus dentes amarelados e desapareceu de vez, ele, a máquina, centenas de fotos, e o seu sorriso sonso. Deixou-me uma gargalhada, quando finalmente o meu espírito regressou do topo das árvores, uma história para contar, e um caminho de regresso onde os olhos captaram tudo o que conseguiram, porque eram a derradeira e mais fiável câmara que me restava.
14.9.18
Agua caliente
Depois de muitas horas de agonia e de ossos desconjuntados, o autocarro apocalíptico deixou-me em Gobernador Gregores, o derradeiro enclave de civilização antes do Lago Cardiel, na Patagónia. Quando saí, o vento, que transportava navalhas a eito, enrodilhou-se-me nos ossos, e senti-me a andar como se tolhido por ligaduras em todo o corpo, acabado de sair de algum sarcófago milenar. O meu reino por um banho, pensei. Felizmente, a pensão, que concluí ser um albergue, quando lá cheguei, estava perto. Mas logo à porta, as expectativas goraram-se, como as de Dante à entrada do Inferno. Alguém, tão irónico como pragmático, tinha ensinado um papagaio, que se empoleirava ao lado do enfastiado rececionista, a dar as piores notícias aos desprevenidos hóspedes. A tiritar no chuveiro, mais tarde, ainda ouvia o safado a repetir-se, com nítido gozo no papagueio adunco: «No hay agua caliente!»
13.9.18
Lavas vivas
Uma noite fiquei preso no glaciar de Pico de Orizaba e gastei os últimos fósforos a fazer uma fogueira ridícula como a minha inconsciência. Só de manhã passou uma mulher Nahua, que me ofereceu café em pó. Sem os fósforos nem isqueiro, não tinha forma de fazer café quente. Atirei uma mão cheia de café para a boca e mastiguei com gelo. Ainda recordo o vulcão na boca, mais feroz do que terá sido o de Orizaba, nos seus tempos exuberantes de lavas vivas.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso
Em Chiapas, entrei na igreja de San Juan Chamula, que tem o arco da porta pintado do verde das folhas da magnólia mexicana. Um pinheiro cobre a porta. Os nativos Tzotzil, que frequentam a igreja, são católicos devotos, São João Batista é o padroeiro da cidade, e o batismo é o único sacramento observado na igreja. Em San Juan Chamula não há padre. Quando é necessário, os Tzotzil trazem um de outra cidade, deixam-no derramar água benta sobre a cabeça da criança e dizer umas orações e assim como veio o enviam de volta. No resto do tempo, os paroquianos praticam antigos rituais maias. Não há bancos na igreja e o chão é coberto de agulhas de pinheiro. O ar é denso com o calor e o cheiro a incenso.
Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.
Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
Três mulheres Tzotzil ajoelhavam-se no chão, atrás de fileiras de velas acesas. Na parede acima, um santo paramentado espreitava de dentro de uma caixa de vidro. Do seu pescoço, pendiam vários espelhos. As mulheres beberam goladas de garrafas de Coca-Cola e arrotaram na direção do santo. Eu não conseguia ver, mas aparentemente o santo aliviou as mulheres dos seus espíritos malignos, recolhendo-os nos espelhos em volta do pescoço.
Uma das mulheres estava doente. Tirou uma galinha viva que ocultava sob o xaile; acariciou-a; sussurrou-lhe algo inaudível; de um golpe, partiu-lhe o pescoço. Depois, pousou a galinha sobre as agulhas de pinheiro, com um gesto leve como uma pena. As três mulheres cantaram e arrotaram mais uma vez. Passado algum tempo, guardaram a galinha morta num saco plástico e deixaram a igreja. Ninguém comeria jamais a galinha. A mulher estava curada e era a galinha que carregava a doença.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
7.9.18
Uma cerveja em Acra
A cerveja é a bebida nacional no Ghana, e a quem se sente num bar em Acra e peça a beer é-lhe servida uma garrafa de 625 ml. Ao principiante que arregale os olhos e timidamente aponte e balbucie smaller, ser-lhe-á jogada uma garrafa de 354 ml, acompanhada de um olhar condescendente e anunciada como a mini.
8.8.18
Alexandre, o Pequeno
A t-shirt deste é cor-de-rosa com estrelas azuis, o cabelo é louro e liso. O olhar, determinado. A idade, a mesma do da trotinete, do final da manhã. Senta-se na mesa ao lado, com a mãe, a avó e a irmã, de um ano, no topo, centro de atenção das adultas. Para ele, a mãe pediu uma piza, que come conscienciosamente, assumindo o papel de homem mais velho da mesa. O queijo fundido faz agora uma ponte, em forma de esparguete, até à boca dele. «Como me desembaraço disto?» parece perguntar. Olha para mim, separado por um corredor, para ver se reparo. Finjo que não vejo. Como Alexandre na Frígia cortou o nó, ele faz do dedo espada e desfaz o fio de queijo. Depois continua, impávido, a devastar a piza, como se esta fosse a Ásia Menor.
1.8.18
Confissões
Preparava-me para sair com o livro, quando o outro cliente abriu a porta da rua e entrou. «Não quer um saquinho?» perguntava-me então o alfarrabista. Pois que sim, dá jeito, e ele enfiou a obra, densa mas não espessa, que suspeito nunca ter sido lida, num saco de papel que daria para transportar a Bíblia na tradução de Frederico Lourenço, na edição integral, quando estiver completa. O outro cliente deambulava entretanto, em busca de obra onde prender os olhos e as mãos. «Precisa de ajuda?», ofereceu-se o dono da loja. E eu nem parei sequer no caminho para a porta, para não ouvir um bocadinho que fosse da resposta. Nada é mais íntimo num homem, nada mais revelador do estado da sua alma, que a busca de um livro esgotado. Um alfarrabista é um confessor, ainda que não ordenado. Ora eu preferia não estar presente nas minhas próprias confissões, quando mais presenciar as alheias.
31.7.18
Robespierres
«Guilhotinaram os livros», diz-me o alfarrabista, com um esgar de horror, que eu partilho, mal acreditando que alguém o faça sem que o estômago se dobre em nó. Por isso já não encontro esses livros, mesmo escrevendo para a editora, mesmo sabendo que deveriam ter ficado em armazém, a aguardar os compradores que tardavam, dos quais eu seria um, possivelmente de entre muito poucos. Ambos parámos, respirámos fundo, olhámos outros tomos nas estantes em redor, as primeiras edições no armário com vidros, os outros vestindo as tábuas de madeira envernizada. Os guilhotinados eram também edições primeiras, que outras não chegaram a ser editadas, os compradores nunca responderam à chamada, ao apelo, nunca pararam no balcão da compra. De repente, apercebi-me que um editor pode esconder um Robespierre, um guilhotinador, que prefere decapitar um livro, como qualquer descartável de um «ancien régime», a reabilitá-lo para outro fim que não obrigue a câmbio de dinheiro por leitura. Eu não concebo os livros senão como números inteiros. O amor, aos livros, a tudo, não tem existência, não tem significado sequer, como fração.
22.7.18
Eu e ele
A avó arengava muito alto para o neto, com não mais que um ano, que seguia aninhado no carrinho, mas na verdade olhava para mim, para ver se eu ouvia as admoestações dirigidas ao infante, talvez em busca de um aceno de concordância. Eu e ele trocámos olhares cúmplices e entre nós, de forma muda, acertámos os nossos ouvidos de mercador.
19.6.18
Roda vinte e nove
Apreciei-lhe o jeito dramático de falar, a ênfase dada às palavras como um Ary dos Santos fora de tempo, modelando a voz como se a cavasse a golpes de pá; ouvi-lhe as opiniões fortes, o tom desencantado e as desconfianças com o rumo do mundo; respondi com palavras de compreensão, que lhe provocaram acenos vigorosos de cabeça. Exames feitos, enquanto digitava a receita no computador, a conversa desviou-se para outros trilhos, e ele, como se fosse um avô desvelado a apresentar o neto, mostrou-me, no telefone, a imagem da bicicleta. «Roda vinte e nove», disse-lhe eu e ele confirmou, boa para as subidas e terrenos planos; não tão boa nas descidas. A roda vinte e nove não ajuda sempre aí, confirmei-lhe. Durante mais de quarenta minutos, ouvi-o, retorqui, acrescentei, argumentei. Notei que, enquanto falava da vida de fim-de-semana, se evadia das quatro paredes, e andava, feliz, tombando e arranhando-se por veredas estreitas e barrancos vertiginosos. Com a amargura inicial já distante, não soube, nunca saberei, quem é que consultou quem, afinal.
14.6.18
Um olhar célere
![]() |
| George de La Tour, Fragmento de A Vidente, 1630 |
[João Miguel Fernandes Jorge]
11.6.18
Água
Sigo abaixo da superfície, vendo as bolhas esparsas, etéreas, que ascendem das minhas mãos, trânsfugas da gravidade. A água respira tão lentamente que juraria estar adormecida e eu avanço em silêncio para não lhe transtornar o repouso, como se tivesse com ela um trato implícito, um pacto — não nos perturbaremos. Chego ao extremo e perscruto a superfície azul, onde tiras de luz dançam com a tranquilidade do que é inevitável: o meu rasto desapareceu, como se nunca ali tivesse estado. Imperturbada, a água é a medida visível do presente.
8.6.18
Missiva sobre a nova ala
Recebo uma carta escrita com caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, que identifico com J. Eustáquio de Andrade, professor emérito do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos dourados no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.
Meu muito estimado amigo,
As almas fracas fenecem quando lhes falta o sol, como pétalas de malmequer ou caules tenros, lamentando-se como Jeremias, fazendo escândalo, fungando, ansiando por dias luminosos, como donzelas de pálidas faces à procura do bálsamo de uma cor que lhes permita receber o verão como a um amado perdido. Fontes que não identificarei, mas que aqui ao meu lado limpam os olhos perlados de comoção enquanto balbuciam «Ah, pauvre, pauvre J.», afirmam que o meu ilustre amigo anda amargado com o mês cinzento que aí vai, com desânimo de vida, enfraquecido como um Sansão a quem a cabeça amanheceu rapada, murcho como um figo seco.
Eu sempre achei, mas tenho guardado para os meus mais íntimos pensamentos, como sabe, que essa sua dieta de ervas, essas misturas de acelgas com urtigas, que lhe servem as tais Donas com falas que passaram o equador e que o bajulam amiúde chamando-lhe «doutor» e sabe-se lá mais o quê, lhe acabariam por tirar o pouco vigor que separava um espécime humano como o meu estimado amigo de um peixinho de aquário. Bem, adiante, não denigramos os peixinhos de aquário, por quem a minha Orchidée, este cometa fosforescente que ilumina a minha órbita tardia, tanto suspira: «Ah, pauvre, pauvre poisson.»
As almas fortes, de que conheço bem pelo menos um exemplar, temperado a banhos de água fria, invernos britânicos e tinto da Herdade d’Andrada, rebrilham e rejuvenescem com um tempo assim, fortalecem-se, revigoram, rebentam paredes, erguem paredes, berram com empreiteiros, acrescentam alas, preparam-se para inaugurar bibliotecas. E lembram-se dos elos mais fracos da humanidade, ou seja, dos espécimes como o meu amigo, que vivem na esperança da luz e na sombra dos livros quando se preparam para por a uso mais umas centenas de metros lineares de estantes do melhor carvalho da Pomerânia.
Assim, a instâncias da doce ninfa que espreita por cima do meu ombro enquanto esboço estas linhas, venho convidá-lo a comparecer, no sábado próximo, às dezanove horas, em traje — como sói dizer-se — de negócios ocasionais, que não vejo o meu amigo a fazê-los de outro tipo ou género, aqui na casa d’Andrada ao Restelo, para a apresentação oficial da ala sul da biblioteca d’Andrada, a que foi dado o nome inteiramente inesperado de Ala Orchidée.
Na ocasião serão servidos os melhores vinhos da Herdade d’Andrada e os faisões para os quais o misericordioso Reboredo afia agora as suas artes aprendidas em King’s Saul Boulevard. Manjares, como vê, capazes de restabelecer até um peixinho amortiçado nas areias do aquário. Não se atrase, que o misericordioso Reboredo tem maus fígados, quando vê os seus bem-amados faisões jazerem arrefecidos nas travessas por demoras de convidados.
Deste que muito o estima e considera,
J. Eustáquio de Andrada
Meu muito estimado amigo,
As almas fracas fenecem quando lhes falta o sol, como pétalas de malmequer ou caules tenros, lamentando-se como Jeremias, fazendo escândalo, fungando, ansiando por dias luminosos, como donzelas de pálidas faces à procura do bálsamo de uma cor que lhes permita receber o verão como a um amado perdido. Fontes que não identificarei, mas que aqui ao meu lado limpam os olhos perlados de comoção enquanto balbuciam «Ah, pauvre, pauvre J.», afirmam que o meu ilustre amigo anda amargado com o mês cinzento que aí vai, com desânimo de vida, enfraquecido como um Sansão a quem a cabeça amanheceu rapada, murcho como um figo seco.
Eu sempre achei, mas tenho guardado para os meus mais íntimos pensamentos, como sabe, que essa sua dieta de ervas, essas misturas de acelgas com urtigas, que lhe servem as tais Donas com falas que passaram o equador e que o bajulam amiúde chamando-lhe «doutor» e sabe-se lá mais o quê, lhe acabariam por tirar o pouco vigor que separava um espécime humano como o meu estimado amigo de um peixinho de aquário. Bem, adiante, não denigramos os peixinhos de aquário, por quem a minha Orchidée, este cometa fosforescente que ilumina a minha órbita tardia, tanto suspira: «Ah, pauvre, pauvre poisson.»
As almas fortes, de que conheço bem pelo menos um exemplar, temperado a banhos de água fria, invernos britânicos e tinto da Herdade d’Andrada, rebrilham e rejuvenescem com um tempo assim, fortalecem-se, revigoram, rebentam paredes, erguem paredes, berram com empreiteiros, acrescentam alas, preparam-se para inaugurar bibliotecas. E lembram-se dos elos mais fracos da humanidade, ou seja, dos espécimes como o meu amigo, que vivem na esperança da luz e na sombra dos livros quando se preparam para por a uso mais umas centenas de metros lineares de estantes do melhor carvalho da Pomerânia.
Assim, a instâncias da doce ninfa que espreita por cima do meu ombro enquanto esboço estas linhas, venho convidá-lo a comparecer, no sábado próximo, às dezanove horas, em traje — como sói dizer-se — de negócios ocasionais, que não vejo o meu amigo a fazê-los de outro tipo ou género, aqui na casa d’Andrada ao Restelo, para a apresentação oficial da ala sul da biblioteca d’Andrada, a que foi dado o nome inteiramente inesperado de Ala Orchidée.
Na ocasião serão servidos os melhores vinhos da Herdade d’Andrada e os faisões para os quais o misericordioso Reboredo afia agora as suas artes aprendidas em King’s Saul Boulevard. Manjares, como vê, capazes de restabelecer até um peixinho amortiçado nas areias do aquário. Não se atrase, que o misericordioso Reboredo tem maus fígados, quando vê os seus bem-amados faisões jazerem arrefecidos nas travessas por demoras de convidados.
Deste que muito o estima e considera,
J. Eustáquio de Andrada
7.5.18
Calções de peitilho
«A ilha não é tão grande assim», diz o comandante. «O velho Malaquias fez anúncio na telefonia, organizou uma batida, como se eles fossem bichos fugidos, mandou a matula pelo mato durante a noite de luzernas acesas, a bramar como gente de alma roubada. Foram apanhados no dia seguinte, aninhados um no outro, a tremer como peixes enleados na rede.» O velho deu-lhe tal muxinga que dizem que ouviram o eco dos gritos lá para a zona da ribeira; o comandante estende o dedo na direção da vendedora de lenço vermelho, mas eu bem sei que é para lá dela que ele aponta.
«Ele, ainda passou uma semana nos calabouços da polícia. Levou uns carolos do Sargento Saringa, que tem conta aberta na quitanda. Com o Malaquias ninguém mexe. Ela ia chorar às grades que dava dó. O velho abalava da loja ainda de avental posto e arrastava-a pelos cabelos, cacarejando como um galo. Safado duro, aquele.»
«Mas a semente tinha sido lançada à terra», diz o comandante, afastando com mão displicente a oferta da vendedora de lenço vermelho. «Quando o velho a viu agoniada, de olhos aguados, sumindo da quitanda para deitar a rede pela borda fora por causa do cheiro da fruta acalorada que o velho deixa amanhecer mal, falou com o padre, marcou ele o casamento, empregou o moço, que tem boas costas, nas entregas, arranjou para eles o quarto das traseiras da quitanda, e anunciou que ia ser avô. «Vou ser avô», confidenciava a toda a freguesia. E contava a história do neto que ainda havia de nascer. Via-o destinado a grandes feitos, olhava esperançado para o palácio cor-de-rosa. «Um dia, será nosso», Dona Adozinda ouviu-o dizer bastas vezes.
Não fez festa de casamento da filha, mas fez folia de arromba do batizado, uma semana depois do Quiaszinho nascido, com direito a quitanda fechada o dia todo. Dantes, a quitanda estava sempre de porta aberta, tirando no dia de Natal, a partir da hora de almoço.
O velho Malaquias tinha ficado lá atrás, no início do mercado, quando o vimos a comprar uns calções para o Quiaszinho e o comandante me começou a contar a história.
«Eu também tive uns daqueles assim», e saco da carteira a minha foto com os calções como os do Quiaszinho. «A foto é a preto e branco, sei lá eu se são iguais?», desconfia o comandante. «Olhe aqui o peitilho, não se está mesmo a ver que são iguais? Iguaizinhos. Ora que cisma!»
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
«Ele, ainda passou uma semana nos calabouços da polícia. Levou uns carolos do Sargento Saringa, que tem conta aberta na quitanda. Com o Malaquias ninguém mexe. Ela ia chorar às grades que dava dó. O velho abalava da loja ainda de avental posto e arrastava-a pelos cabelos, cacarejando como um galo. Safado duro, aquele.»
«Mas a semente tinha sido lançada à terra», diz o comandante, afastando com mão displicente a oferta da vendedora de lenço vermelho. «Quando o velho a viu agoniada, de olhos aguados, sumindo da quitanda para deitar a rede pela borda fora por causa do cheiro da fruta acalorada que o velho deixa amanhecer mal, falou com o padre, marcou ele o casamento, empregou o moço, que tem boas costas, nas entregas, arranjou para eles o quarto das traseiras da quitanda, e anunciou que ia ser avô. «Vou ser avô», confidenciava a toda a freguesia. E contava a história do neto que ainda havia de nascer. Via-o destinado a grandes feitos, olhava esperançado para o palácio cor-de-rosa. «Um dia, será nosso», Dona Adozinda ouviu-o dizer bastas vezes.
Não fez festa de casamento da filha, mas fez folia de arromba do batizado, uma semana depois do Quiaszinho nascido, com direito a quitanda fechada o dia todo. Dantes, a quitanda estava sempre de porta aberta, tirando no dia de Natal, a partir da hora de almoço.
O velho Malaquias tinha ficado lá atrás, no início do mercado, quando o vimos a comprar uns calções para o Quiaszinho e o comandante me começou a contar a história.
«Eu também tive uns daqueles assim», e saco da carteira a minha foto com os calções como os do Quiaszinho. «A foto é a preto e branco, sei lá eu se são iguais?», desconfia o comandante. «Olhe aqui o peitilho, não se está mesmo a ver que são iguais? Iguaizinhos. Ora que cisma!»
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
6.5.18
Um trópico perto ou distante
«Foi mãe da minha mãe sem ser minha avó», diz-me o comandante.
As fatias finas de sol que se escoam pelas frinchas do telhado da esplanada pintam-lhe a cara com listas luminosas e criam múltiplos focos de incêndio nos cabelos claros. «Foi também minha mãe», acrescentou. «Tia Conceição até mãe da minha avó foi, ainda que sendo sua irmã.»
Imagino essa irmã da avó do comandante, que foi também mãe da mãe, e mãe dele, e tudo, com uma face parecida à que vejo nele, talvez com os mesmos cabelos claros incendiados pelo sol. Afinal, os nossos genes mudam, evoluem, com a nossa vida. Ela, essa mãe que o era sem o ser, que o abraçou quando nasceu, moldou-o com as suas mãos e o seu olhar, como a uma porção de caulino que se transforma de massa por formar em peça perfeita. Ele ganhou-lhe o jeito e as feições.
O olhar do comandante perde-se em Dona Giza, que embala o filho adormecido no colo, ali, ao lado do balcão, sob o olhar vigilante de Crioula, a gaivota, talvez ela mãe com filhos voando por um qualquer céu, um trópico perto ou distante. «Embalou minha mãe. E embalou-me a mim. Talvez tenha embalado minha avó, também.» Faz uma pausa. «Foi mãe de três gerações», e levanta a mão com três dedos esticados. E depois junta-lhes os da outra mão: oito dedos. «Pelas minhas contas, foi mãe toda a vida, foi mãe mais de oitenta anos.»
«E quando partiu, deixou o mundo povoado, como Eva.»
Crioula parece andar pé ante pé para não acordar o filho de Dona Giza. Deus deixou o mundo ao cuidado das mães, de todas as mães, independentemente das razões da biologia, penso eu. O comandante, que embala o filho de Dona Giza com um gesto da cabeça ao ritmo das asas volantes de Crioula, parece assentir. Na cara, o sorriso maternal que herdou de Tia Conceição, adivinho eu.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
As fatias finas de sol que se escoam pelas frinchas do telhado da esplanada pintam-lhe a cara com listas luminosas e criam múltiplos focos de incêndio nos cabelos claros. «Foi também minha mãe», acrescentou. «Tia Conceição até mãe da minha avó foi, ainda que sendo sua irmã.»
Imagino essa irmã da avó do comandante, que foi também mãe da mãe, e mãe dele, e tudo, com uma face parecida à que vejo nele, talvez com os mesmos cabelos claros incendiados pelo sol. Afinal, os nossos genes mudam, evoluem, com a nossa vida. Ela, essa mãe que o era sem o ser, que o abraçou quando nasceu, moldou-o com as suas mãos e o seu olhar, como a uma porção de caulino que se transforma de massa por formar em peça perfeita. Ele ganhou-lhe o jeito e as feições.
O olhar do comandante perde-se em Dona Giza, que embala o filho adormecido no colo, ali, ao lado do balcão, sob o olhar vigilante de Crioula, a gaivota, talvez ela mãe com filhos voando por um qualquer céu, um trópico perto ou distante. «Embalou minha mãe. E embalou-me a mim. Talvez tenha embalado minha avó, também.» Faz uma pausa. «Foi mãe de três gerações», e levanta a mão com três dedos esticados. E depois junta-lhes os da outra mão: oito dedos. «Pelas minhas contas, foi mãe toda a vida, foi mãe mais de oitenta anos.»
«E quando partiu, deixou o mundo povoado, como Eva.»
Crioula parece andar pé ante pé para não acordar o filho de Dona Giza. Deus deixou o mundo ao cuidado das mães, de todas as mães, independentemente das razões da biologia, penso eu. O comandante, que embala o filho de Dona Giza com um gesto da cabeça ao ritmo das asas volantes de Crioula, parece assentir. Na cara, o sorriso maternal que herdou de Tia Conceição, adivinho eu.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
2.5.18
O mar através de uma garrafa
«A saudade é inútil», diz o comandante, que mora na ilha desde quando o mundo ainda era moço. «Chegam aqui, estão duas ou três semanas, e um dia dizem-me: bateu-me cá uma saudade...» O comandante mira o mar através do vidro da garrafa de cerveja. «E eu dou-lhes uma garrafa e digo-lhes para olharem o mar assim. Pergunto-lhes: O mundo mudou, porque há uma vidro de permeio?» Continua, sem esperar a minha resposta: «Não. Muda o mundo, notar-se a distância? A distância está sempre lá: note-se ou não. É uma ilusão inútil, a saudade. Mais inútil do que uma miragem no deserto, que não mata a sede, mas gera esperança. Não há esperança na saudade.»
A gaivota que pousa na balaustrada do bar já tem nome; chamo-lhe «Crioula.» Vem escutar as nossas conversas, a cusca Crioula.
«Leve a garrafa, olhe o mar através dela e a saudade ganhará perspetiva, como o horizonte», aconselha o comandante. «Leva a garrafa, paga o depósito», responde lá do balcão o dono do bar. O comandante, decano da ilha, esquece que ali, se a saudade abunda, tudo o mais escasseia, é precioso: uma garrafa é um tesouro. E não basta a gaivota, senão o dono do bar a escutar as conversas. As ilhas são um desassossego. A garrafa fica em cima da mesa, a nova perspetiva também. A saudade continua comigo, que é onde pertence. «É inútil, mas é minha», digo ao comandante. Ele abana a cabeça como se tivesse andando a gastar areia para assorear o mar. O dono do bar, finge que limpa copos ainda de ouvido esticado, mas Crioula, a sábia, voa: do tema da saudade, já sabe tudo o que precisa.
A gaivota que pousa na balaustrada do bar já tem nome; chamo-lhe «Crioula.» Vem escutar as nossas conversas, a cusca Crioula.
«Leve a garrafa, olhe o mar através dela e a saudade ganhará perspetiva, como o horizonte», aconselha o comandante. «Leva a garrafa, paga o depósito», responde lá do balcão o dono do bar. O comandante, decano da ilha, esquece que ali, se a saudade abunda, tudo o mais escasseia, é precioso: uma garrafa é um tesouro. E não basta a gaivota, senão o dono do bar a escutar as conversas. As ilhas são um desassossego. A garrafa fica em cima da mesa, a nova perspetiva também. A saudade continua comigo, que é onde pertence. «É inútil, mas é minha», digo ao comandante. Ele abana a cabeça como se tivesse andando a gastar areia para assorear o mar. O dono do bar, finge que limpa copos ainda de ouvido esticado, mas Crioula, a sábia, voa: do tema da saudade, já sabe tudo o que precisa.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
9.4.18
A brisa que chega agora
Eduardo desculpa-se de não tomar café comigo de manhã, deixa uma promessa: «Tomamos depois de almoço.» Saio, atravesso a rua, viro a esquina, outra esquina, entro, não peço e dão-mo, sento-me na esplanada, de costas para a porta, de olhar para os vultos que se esfumam, sem nome, nos passeios. Oculto por detrás da chávena, vejo passar Eduardo e, ao seu lado, Margarida. Há outro café nesta rua, do lado ímpar, três números abaixo. Sempre cavalheiro, Eduardo cede o passo a Margarida; levanta o braço, que diz: «Depois de ti.» Antes dele, ela. O braço direito levantado encaminha-lhe o ombro para a porta, num arco dançado, num abraço impercetível. A mão esquerda dela perde-se, esquecida por um instante na dele, o tempo apenas de um piscar de pálpebras. Os gestos desfazem-se, graciosos, depois dela, ele. Não os vejo já, mas a brisa que chega agora, ainda consegue entrelaçar o perfume dos dois.
6.1.18
Uma garrafa à água
Uma gaivota pousa no outro extremo da mesa de tábuas corridas onde me sento com o comandante. Estou de frente para o mar, e ele do meu lado esquerdo. Na mesa ao lado, uma mulher de vestido verde com flores brancas e chapéu de palhinha com uma fita grená afasta as moscas, mão remando no ar com um abanico de fogareiro. O dono do bar assovia baixinho lá atrás do balcão. Bebo pelo gargalo da garrafa um gole de cerveja de água dessalinizada. Tem o sabor adocicado das cervejas de todas as ilhas. «Uma vez encontrei uma garrafa com uma mensagem enrolada, ali à beira de água», diz o comandante, esticando o dedo, num gesto brusco. A gaivota, já próxima, assusta-se. Hesita, levanta as asas, como se fosse partir. Mas fica. A mulher do abanico pousa-o nas pernas e fecha os olhos, enquanto adormece na cadeira. «No papel amarelecido dentro da garrafa, apenas as palavras em espanhol, ‘Não me esqueças’, ‘No me olvides’.» Porque é que se deitaria ao mar tal mensagem, para quem?, interroga-se o comandante. Agora ao pé, noto que a gaivota é demasiado grande, do tamanho de uma galinha, como as que encontrei no outro lado do mundo. Não tenho resposta para a pergunta. «Gastamos a vida a atirar garrafas ao mar, com uma esperança vaga de que os destinatários as encontrem. Mas a maioria perde-se na corrente dos dias.» A gaivota acena a cabeça como que a dar razão ao comandante. O abanico da mulher do vestido verde cai ao chão com um ruído seco que contrasta com o silêncio da tarde e é desta que a gaivota se vai, como se fosse uma garrafa levada pelas correntes do ar.
[Dos «Diários» de Victor de Vere.]
8.12.17
Subversão
O conde von Metternich, ao ler um poema de Heine: «Excelente. Confisquem todas as cópias imediatamente.»
13.11.17
Organização do mundo II
O profundo, visto em profundidade, é superfície.
[De uma constatação de Antonio Porchia.]
[De uma constatação de Antonio Porchia.]
Organização do mundo
Há o real e o irreal.
Para lá do real e para lá do irreal há o profundo.
[De uma constatação de Henry de Montherlant.]
Para lá do real e para lá do irreal há o profundo.
[De uma constatação de Henry de Montherlant.]
12.11.17
Aroma de flores
[...] e não sei se se deverá felicitar ou lamentar o homem sisudo e pouco sensível a quem o aroma de flores que a sua amada tem sobre o seio não faz jamais palpitar.
[Jean-Jacques Rousseau, Émile, Ou, De l'Education]
[Jean-Jacques Rousseau, Émile, Ou, De l'Education]
29.10.17
Homem ocioso e curioso
Para um homem ocioso e curioso, diz Borges, a enciclopédia pode ser o mais grato dos géneros literários. Curiosidade não é carência minha, mas já de ócio sofro de uma escassez árida. Na grande balança dos dias poderia colocar, de um lado, um ócio que generosamente apelidasse de virtuoso e do outro, vinte ou trinta cartapácios pejados de cultíssimas vinhetas: uma enciclopédia. Grato, contudo, ficaria eu de não ter que a ler. Borges que me perdoe desta vez, mas fico-me pela curiosidade. O ócio pode esperar.
24.10.17
Somos uma soma
Mais não somos do que uma soma cujo resultado jamais se conhecerá. A soma do que recordamos de nós, do que os outros recordam de nós, do que inferem dos trilhos que deixamos, em primeira, segunda ou qualquer outra ordem de intermediação. Ora, como recolher, fixar, somar tais fragmentos, esboroados pela erosão do olvido? Esse é o nosso drama: não temos total. Essa é a nossa salvação: a conta nunca está encerrada.



