31.12.19

E para terminar, uma história feliz

Em 1866, ano da sua derradeira campanha militar, o Liechtenstein enviou 80 homens para a guerra. Regressaram 81, pois tinham feito um amigo.

30.12.19

Da independência do amor

O amor, quando se instala, afirma a sua feroz independência face às limitações e constrangimentos daqueles a quem sujeita. Intensidade não é correlacionada com exequibilidade. Ademais, é inútil procurar impor-lhe moderação: o amor é a mais poderosa manifestação de carma na natureza.

Confortável reclusão

«Está muito frio lá fora, Dona Inês?», pergunto eu, antes de me aventurar a atravessar duas ruas para tomar o café e me atualizar com o Correio. «Doutor», responde a Dona, «eu acho que está assim um bocadinho…», e faz tremer o ferro de engomar como se também este enfrentasse, sei lá eu, uma temperatura noturna siberiana, os ventos sibilantes do Ártico. Pondero a camada adiposa adicional que adquiri por estes dias de devaneios gastronómicos, concluo que talvez sobrestime a sua espessura, visto o meu mais quente sobretudo e ouso-me a sair da calidez que tem sido esta confortável reclusão.

18.12.19

Quadro da Quadra

National Audubon Society, Mountain Bluebird

De regresso algures em 2020. A todos os que aqui passam, votos de Boas Festas e de um Feliz e Sereno Ano Novo.

17.12.19

sabes?

porque reservamos as mais belas palavras para o que nos atormenta –

sabes?

Invisível

Brad Kunkle, How to become invisible

Terça-feira, treze

A esta hora no bar, estamos treze homens e outras tantas cervejas. Doze, absortos no jogo da bola. Só um – e nunca se revelará aqui qual – a escrever à sua leitora.

16.12.19

Pagode

Luong Khanh Toan, Indo para o Pagode

Ruborizado

Consegui corrigir dois disparates dos grandes, a tempo, creio. A leitora não notou, decerto, porque não estão visíveis aqui, mas ainda assim, se me visse agora, encontrar-me-ia ruborizado. O dia está frio e este calor adicional na face até nem vai mal, na verdade, se me permite a leveza agora que os níveis de adrenalina voltaram a estabilizar.

promessa

prometo-te fazer –

o melhor que sinto

15.12.19

Uma tarde assim

Qual é o teu nome? pergunta-me a gentil donzela que recolhe o meu pedido de alimento lúdico, na caixa, junto ao balcão. Eu digo, quase soletrando. Quando me entrega o talão, com o nome escrito, descubro que deixou ficar as consoantes – e com as vogais fez, quiçá, um caldo quente, bom para uma tarde assim, em que nenhum conforto é demais.

Restauradores

Cesar Santos, Restorers

mariposas

saudade –
o peso
de trazer ao peito
um mausoléu de mariposas

possíveis

sonhei contigo –

e éramos possíveis

14.12.19

Naufrágios

De minha casa aos teus olhos
não haverá naufrágios.

[Roberto Jorge Santoro]

Vigilância

A senhora de casaco de pele de leopardo que almoçou no restaurante onde eu tomava café, acabou de entrar no restaurante onde janto, numa vila que não a primeira. Estarei eu sob vigilância, leitora? Ou terei apenas um banal bom gosto gastronómico?

13.12.19

Ushant

Yann Tiersen, Porz Goret

Segunda opinião

Tomo, como se fosse para mim, uma admoestação que leio num jornal estrangeiro. É certo que já me tinha repreendido a mim próprio, sem resultado visível, mas como já conheço demasiado bem os meus argumentos, foi mais eficaz a segunda opinião.

Promessa

Prometo-te uma coisa: encher
a tua casa de livros.
Que não se possa andar,
que quem convides diga que
diabo
se está a passar,
que já não existem para ti
mais do que os malditos livros?

[Eusebio Ruvalcaba]

Como a chuva

Ela, como a chuva,
fala em silêncio

[Alberto Szpunberg]

12.12.19

O lado bom

Mais uns tempos e poderemos pagar um haggis em Edimburgo em euros.

As bem-aventuranças

Vladimir Martynov, The Beatitudes

Primeiras letras

Venho lanchar (merendar, diria Dona Lurdinhas, minha professora da Primária que não foi a tempo de me ensinar as primeiras letras, porque já as sabia quando lá cheguei) ao café de Dona Yara que faz uma pequena festa com ponto de exclamação no final da frase naquela fala lá dela que atravessou o equador: «Doutor, há quanto tempo? Não tenho visto o senhor, nem sequer de manhã ao café!» Pois que posso eu dizer, Dona Yara, é verdade, admito tudo. Não que tenha deixado de beber café, apenas que tenho andado pela concorrência, por uma qualquer conjugação de fases da lua e passos perdidos. Quanto a ver-me, nem eu me tenho visto a mim: ando mais fugidio de que um maratonista etíope, Dona Yara. Penso, mas não digo, que a Dona tem sentido de humor, mas com tal ausência o meu crédito deve estar esgotado e tudo tem limites, não é, leitora?

11.12.19

O fruto do silêncio

Pēteris Vasks, The fruit of silence

O segredo

Depois de ter assistido nestes dias, ao vivo, à arte da cozinha do gentil Sri Akah, hoje a comida que ele me apresentou soube-me melhor ainda que habitualmente, como se entender a confecção aprimorasse o paladar. Quanto mais compreendo mais amo, escreveu Russel, que não pensava em culinária, decerto. Mas conhecer o segredo da confecção excede, isso posso confirmar de boca certa, leitora, o prazer de qualquer número de estrelas, Michelin ou outras.

10.12.19

Bloggers anónimos

Durante a reunião pensei perguntar-lhe: Já pensou escrever um blog? É que é tal e qual uma blogger que costumo ler. Mas depois contive-me, a tempo, creio. Quem me dizia que ela não seria mesmo uma blogger que costumo ler?

A meditação das mães

A mãe do jovem comentador de jogos de bola hoje tomava o pequeno-almoço sozinha. Mergulhava a torrada na meia de leite enquanto falava ao telefone e assim que acabou de afogar a última migalha de pão, pagou ainda a telefonar e saiu tão depressa que, distraído com o avô a sorrir para o neto no carrinho que empurrava, nem vi já sequer a porta de vidro a fechar. É escutar o filho, quando está com ela, que lhe torna todas as outras tarefas adiáveis, redundantes até, assim percebi. O filho é a meditação dela, melhor, são os filhos a meditação das mães.

9.12.19

O abraço é um colar mas sem fecho*

Agostino Arrivabene, coniuctio. zolfo e mercurio, 2017
* Ramón Gómez de la Serna

Elyseum

Asja Kadrić cantou até aos limites da sua voz, muito mais cingidos que os de Lisa Gerrard. Mas também, ninguém mais tem, como esta, voz de campo de trigo, sem confinamentos, a perder de vista.

8.12.19

A mesma canção

Aqui no café, ao rés da hora de almoço, os namorados que estudam em conjunto dividem-se entre os que partilham o mesmo par de auscultadores e os que usam cada qual o seu. Romântico que sou, hesito contudo em aplicar o critério de Rui Veloso*, por achá-lo mais afiado ainda do que a navalha de Occam.

[* Não se ama alguém que não ouve a mesma canção.]

Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas*

Gabriel Gomez, Nemo
* Jorge Palma

Como é o mundo

Sigrid, Home to you

7.12.19

Instantâneo

Ela sorri, enquanto olha para o mar, que a esta hora está da cor do ano. Ele, de mão na dela, de olhos fechados, ondeia a cabeça ao som de Lana Del Rey, que ocupa a brisa de fim de tarde. Eu, penso em ti.

O riso excelente lá dele

Com as mãos mergulhadas em farinha de grão e manteiga clarificada, diz-me o gentil Sri Akah: Qualquer comida que nós fazemos, emoções que nós temos é sempre transmitidos no comida. E ri, aquele riso excelente lá dele, elaborando a alegria que vou almoçar daqui a pouco.

19-4052

6.12.19

Um homem crescido

«Muito mau o seu almocinho, hoje», ralha-me Dona Gracinda perante a minha parcimónia ao almoço. Não se trata de um qualificativo quanto ao produto em si, note-se, mas quanto à minha capacidade de degustá-lo por completo. Passou o fastio por falta de tempo, porque, enfim, um homem crescido não confessa assim, em público, que perde o apetite quando a saudade aperta precisamente à hora da refeição, nem mais nem menos.

Artista do ano

O senhor Spotify anuncia-me que o meu artista do ano é Jordi Savall e a minha artista da década é Christina Pluhar. Chama-me Cidadão do Mundo por ter ouvido música de 54 países e neste inclui a Áustria por causa de Karajan, porque não sabe das apfelstrudel. Mas tenho a certeza de que a leitora poderia dizer o mesmo pelas escritas aqui neste hebdomadário nas internetes, pois não podia?

4.12.19

Espanto e fascínio

Adormecemos e os sonhos tornam-se como um som baixo, uma música de fundo que depois de algum tempo deixa de ser ouvida, embora ainda esteja lá. A primeira coisa que vejo quando a sonolência me agarra são bandos de pássaros que voam no céu, em uníssono, sem se tocarem, como um manto que ondula e pulsa ao vento. Sei que é uma memória distante, algo que vi quando era criança, num carro, enquanto o meu pai conduzia por uma estrada, atravessando uma planície infinita de ervas douradas, monótonas. Não posso colocá-la em nenhum outro contexto; não sei para onde íamos ou de onde vínhamos, mas da janela do banco de trás pude ver essa presença gigantesca e ameaçadora com uma mistura de espanto e fascínio.

[De Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, novembro de 2019]]

Raízes 2

Vine a Zapotal para morirme de una buena vez.

[Início de Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, 2019]

Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.

[Início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, 1955]

[Mateo García Elizondo é neto de Gabriel García Márquez. Pedro Páramo é uma herança de família.]

Raízes 1

El padre Rentería se acordaría muchos años después de la noche en que la dureza de su cama lo tuvo despierto y después lo obligó a salir. Fue la noche en que murió Miguel Páramo.

[Juan Rulfo, Pedro Páramo, 1955]

Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. 

[Gabriel García Márquez, Cien años de soledad, 1967]

3.12.19

Retoques subreptícios

Devo a Vila-Matas a descoberta de que Bonnard «entrava nos museus onde os seus quadros estavam expostos e, aproveitando a ausência de vigilantes, corrigia-os com uma euforia infinita.»

Sinto-me menos desacompanhado por, amiúde, regressar a este espaço, que está longe de ser um museu, mudar uma vírgula aqui, uma palavra ali, e sair subrepticiamente, na esperança de que se alguém der por isso, ao menos não achar que o resultado é pior do que o que lá estava antes.

Mapa dos vícios

Vinte e dois clientes no bar, e apenas eu e a senhora do casaco cor de salmão na mesa ao lado não fumamos. Como não recomeço no vício, disso estou certo, deverei mudar de bar, leitora?

As it happens

O infante na mesa ao lado, que se veste como eu (ou eu como ele), vai mostrando, alternadamente em português e inglês, à mãe dele, os seus vastos conhecimentos sobre as ligas espanhola e inglesa. Se consigo igualá-lo na indumentária, nunca por nunca o seria, ou serei, em tal admirável, avassaladora mesmo, verve desportiva.

[A banda sonora no café, reparo, é agora, enquanto escrevo, apropriamente, The return to innocence, dos Enigma.]

2.12.19

Resoluções de Ano Novo

À saída, após o almoço, ouço um ralhete delicado do gentil Sri Akah: Ah, mas o senhor comeu demasiado depressa. Assim não tem tempo de saborear nossa comida. Até pensei que tinha sido devagar para os meus usos, que me tinha alongado na contemplação dos comensais nas suas danças por entre as mesas, dos rituais de chegada coroados por longos abraços, do encontro de etéreas yoginis na mesa em frente, mas o meu tempo e o de Sri decorrem em referenciais diferentes. Mas como as minhas celebrações de Natal começaram com um mês de antecedência, as resoluções de Ano Novo, entram agora em vigor, também. Comer com tal vagar, que faça inveja ao excelente Sri. Isto, claro, se inveja constar do vocabulário dele, o que duvido, leitora, duvido.

1.12.19

o poema é uma casa / para passar a noite / sem janelas úteis*

Anonymous 4, Gaude virgo salutata
*Rui Pires Cabral

A mão à palmatória

Até por este espaço, onde as palavras têm sido a favor das preleções da jovem Thunberg e com frequência opondo-se aos céticos do mérito da sua cruzada, se instalou o cansaço, não por ela, mas pela corte de bajuladores, faroleiros, dançarinos em pontas dos pés, e outros arrivistas, que se desdobram em mensagens, receções e homenagens, apenas porque a máquina dos retratos se encontra em foco, deixando cuidadosamente longe das suas preocupações tudo o que fica de fora da lente por ora assestada na viajante que está para chegar, assim as correntes e os ventos se aprontem de feição.

Pecados, só os merecidos

Tal é o carrossel de celebrações natalícias, que dei por mim, tendo chegado antes dos restantes convivas, com um copo de espumante na mão, na festa que descobri, atempadamente, ser a errada. Corrigido o erro, reposto o espumante intocado à bandeja de origem, prossegui para a folia certa, onde o espumante era igual, decerto, mas caía em orçamento de outras gentes. Não que acredite que cada um tem o espumante que merece (não acredito) mas não há espumante que mereça ser também um pecado, não é, leitora?

29.11.19

Uma senhora adorável

Hoje vi, finalmente, o novo namorado de Dona Miranda, uma senhora adorável, que me cumprimenta sempre tão bem. Vinham no carro dela, estacionaram-no atrás do meu e era ele, ensimesmado, que o conduzia.

É sobre as pedras que os corpos se apuram.*


John Tavener, The Protecting Veil (Fragmento)
* Rui Costa

28.11.19

O blog e a felicidade

Enquanto no almoço de Natal discutia a felicidade espontânea e a felicidade programática, dei por mim a recitar ideias que fui buscar a textos escritos e lidos nisto do em linha em toda a mais de meia dúzia de anos que levo de frequentar estas prosas voláteis. Até saiu qualquer coisas de coerente, penso agora, já com oito horas de permeio. O blog não me faz mais feliz, leitora, mas sem dúvida permite-me camuflar sofrivelmente a minha ignorância sobre o assunto.

A veneranda ordem dos insubstituíveis

Ainda trabalhas?, perguntou-me, quando nos encontrámos no elevador do parque de estacionamento. Ora essa, tantos anos me faltam ainda para a reforma, se a tiver alguma vez, por não me imaginar sem esta pequena, quando não grande, angústia pelo que fica por fazer, pela porção de mundo que acabará sem a minha intervenção atempada, pelo descalabro inevitável se faltar o brilho da minha opinião, pelo indispensável que sou em cada avanço, tão único como cada um dos que me precederam e não menos, decerto, dos que me sucederão, todos membros desta veneranda ordem de insubstituíveis que se sucedem metronomicamente da aurora até ao ocaso da humanidade.

Uma questão de (certa) destreza

Enquanto eu escrevo à leitora com o telefone numa mão, a condutora do veículo ao lado, mais destra, escreve aos seus leitores (decerto) com uma tabuleta segura pelas duas mãos.

27.11.19

Pandã

No restaurante vegetariano, o homem de cabelos apanhados como um yogi, veste um blusão de marca Ecologic.

Do Manifesto da Sociedade

Acreditamos que as nuvens são para os sonhadores e a sua contemplação beneficia a alma. De facto, todos os que consideram as formas que veem nelas pouparão dinheiro em contas de psicanálise.

[Do Manifesto da Sociedade]

Vivemos no céu

Nós vivemos no céu. Não por baixo dele, mas dentro dele.

[Um lembrete oportuno de Gavin Pretor-Pinney, fundador da Sociedade de Apreciação das Nuvens.]

26.11.19

Tarde, sei, será, se vier socorro: / se transluz pouco ao escuro este sinal*


Henry Purcell, Dido's Lament
* Margarida Vale de Gato

25.11.19

No final do almoço primeiro de Natal

O monge explicou-me que a campanha se destina a comprarem marmitas térmicas, porque ao menos desta forma, aqueles a quem a levam poderão comê-la quente, nestas noites frias. A comida vai saber melhor assim, acrescentou, sorrindo com as palavras, com os olhos, com as mãos, como um garoto feliz por antecipação.

Trilam os lábios nossos, à semelhança / das musicais manhãs dos pássaros.*

Georg Muffat, Passacaglia em Sol maior
* Fiama Hasse Pais Brandão

O homem e o Natal

Os almoços e jantares de Natal  iniciam-se-me oficialmente esta semana. Se tudo correr como se afigura, e a este ritmo, quando chegar o dia vinte e cinco de dezembro terei celebrado já sessenta vezes, à mesa, o nascimento do menino, que não consta que tivesse sido assim tão prematuro, pois não, leitora?

A espera

Sabes como podes saber se alguém te ama? Se te ama mesmo, quero dizer. Nunca pensei nisso. Eu sim. E encontraste uma resposta? Acho que é algo que tem a ver com a espera. Se é capaz de esperar por ti, então ama-te.

[A partir de Alessandro Baricco]

24.11.19

Ame-se o que é, como nós, / efêmero. Todo o universo / podia chamar-se: gérbera.*

Jean-Féry Rebel, Les Elements, Le Féu

*Eucanaã Ferraz

Auto do anfitrião

Durante o almoço que eu cozinhei com a minha maior ciência, ainda respondo o melhor que sei e posso à questão atual e premente de um dos meus convidados, expressa em português de vinte e quatro quilates: «Mas quem é esse Jorge Jesus?»

[Os convivas à minha mesa, leitora, conseguem estar mais fora do mundo que este que aqui lhe escreve, por exorbitante que tal hipótese pareça.]

O bom, o mau e o medíocre

Foi Julio Ramón Ribeyro quem disse que um autor escreve dois ou três livros e depois passa a vida a responder a perguntas e a dar explicações sobre eles, o que prova que as pessoas estão tão ou mais interessadas nas opiniões do autor sobre os seus livros do que sobre os próprios livros e, quem sabe, talvez por causa disso o autor não escreva novos livros ou apenas livros sobre os seus livros. Para combater este perigo, Ribeyro propôs ter em mente que um bom trabalho não tem explicação, um mau trabalho não tem desculpa e um trabalho medíocre não tem qualquer interesse.

Como despertar interesse por um romance

É um bom romance? Sem dúvida, é um romance excelente. É bem escrito, cuidadosamente estruturado, cumpre um propósito original, ambicioso e interessante? Suponho que sim, mas não sei. Não sei porque o li como se o tivesse comido, como se o tivesse bebido, como se precisasse de percorrer as suas páginas para continuar a respirar.

[Almudena Grandes]

Também na vida, no amor...

Isto é fundamental, penso eu: o que nos importa sobre um livro está associado à sensação de que há algo que não compreendemos completamente. A felicidade da leitura está associada à possibilidade de releitura.

[Alejandro Zambra, Tema livre]

22.11.19

Na minha Alma há um balouço / Que está sempre a balouçar --- *

Bertali, Ciaccona, Voices of Music; Alana Youssefian, violino barroco.

* Mário de Sá-Carneiro

Ira opsófaga

Em dois dias, perguntam-me, com antecipação, de formas diferentes, o que irei escolher para comer. Como não sou conhecido por apetite pantagruélico, creio, fico com uma dúvida: serei considerado influenciador, temerão que o meu exemplo gere uma onda de imitadores, levando a um estampido para o meu prato de eleição, ou a explosão da minha ira opsófaga, se o que vier à mesa não estiver à altura do que imaginam serem as minhas expetativas?

A ruína circular

Tendo regressado a O Relatório de Brodie, de Borges, senti necessidade premente e inadiável de comprar um livro ali mencionado. E, já que comprava o livro, porque não a obra completa do respetivo autor? (Não a de Borges, que essa tenho em duplicado, fora réplicas avulsas, não vá dar-se o caso de, subitamente, a obra do argentino ser confiscada a nível global e eu precisar recorrer a reservas estratégicas para continuar a lê-lo). Andamos nisto há décadas, ele e eu. Agora terei que interromper o Relatório para ler o livro a que ele me remete. Quando voltar, pois a outro me enviará. Os labirintos que descreve, não são mais do que as metáforas para os apuros em que embrulha os leitores. Ou, ainda que não generalizando, este leitor, pelo menos, já de si perdido com facilidade, mais ainda num labirinto.

21.11.19

Isso não se diz

Enquanto tomava café com o coronel, contei-lhe do Requiem de Mozart, de há dias, disse-lhe da acústica da sala, do arrumo do coro, da pujança da orquestra, da energia do maestro, do sublime de  tudo. Cortês e distante como habitualmente, o coronel escutou-me com atenção e logo que oportuno, cortou-me os adjetivos, mudou de tema. Ele é que tem razão. Por vezes, no embalo da conversa, esqueço-me que nada é mais inútil do que falar sobre música. Com quem não gosta, porque a música não lhe diz nada; com quem gosta, porque as palavras sobre música nada lhe dizem. A música escuta-se, e tudo o que mais se diga é ruído.

Podia também ser epígrafe deste blog

Sei que estas recordações não são alegres nem significativas, mas não tenho outras.

[Ivan Turguénev, Diários de um homem supérfluo]

20.11.19

Banda sonora

A arquiteta passa frente à loja do alfarrabista, em passo tão acelerado que dela fica apenas o rasto do casaco vermelho e da boina preta como as luvas e as botas. Eu estou junto a uma estante, sopesando uma primeira edição, e ele está perto, arrumando livros, enquanto ela segue sem se deter, sem um aceno de mão, sem um olhar para dentro sequer. É certo que eu já a vi antes à conversa calorosa com o meu anfitrião e que, após a quebra anunciada dela com o motociclista, alimentei esperanças de vir aqui contar histórias dos amores felizes do alfarrabista e da arquiteta. Mas, ah, as histórias são labirintos onde nos perdemos por recantos inesperados.

O alfarrabista fica a vê-la passar e segue devagar até à porta, para evitar denunciar o interesse e detém-se a olhar na direção dela, talvez, imagino, na esperança vã de que ela se vire para trás e corrija a indiferença. Vã, digo. Logo, regressa para dentro, a assobiar baixinho um hino dos Stones, que é também um apelo que ela não ouvirá. Os nossos olhos cruzam-se, ele percebe que eu percebi, mas também o que sobra para entender quando a banda sonora diz dela: A sweet sweet beauty, but stone stone cold?

Claro que eu podia dizer ao alfarrabista que a indiferença é, por certo, não casual, muito estudada, afirmativa, para lhe provocar alguma reação, fazê-lo mover uma peça, despoletar o desenlace. Mas quem sou eu, que sei eu, para escolher a banda sonora para o próximo passo dele?

Contra a conclusão moral

Knausgaard e Ferrante prometem tão pouco. Mas o que prometem, dão. Cada um conta, na primeira pessoa, o interior de uma vida humana. Isto é algo que inúmeros escritores têm feito, obviamente, mas eles parecem fazê-lo de uma forma nova e perigosa – com uma impiedosa e desapaixonada modéstia de ambição. Nenhum dos narradores extrapola verdades maiores a partir das suas experiências.

[Charles Finch, no New York Times]

19.11.19

Apfelstrudel

Ao almoço, com o doutor Videira, recaindo o tema na gastronomia geográfica, não pude deixar de lançar saudosos encómios a um templo de adoração de apfelstrudel na terra natal da sacro-romana tarte. O doutor Videira, com inegável expressão blasée, mostrou, mão a varrer o ar, que nunca se aproximou de tal delicadeza e que, a lá regressar, as minhas indicações não lhe são prioritárias. Tais doces nada lhe dizem ao palato, afirmou-me. À saída, já depois da conta saldada, do cesto de rebuçados de cortesia, retirou uma mão cheia. «Sou muito guloso», justificou-se, e eu acreditei. Ai de mim, que até para o segundo pecado com logística mais simples, o da gula, não sei senão escolher as vias mais intrincadas.

Um homem que fala alto é um homem persuasivo

Quando ele chega ao café, a voz do doutor Videira faz-se sempre ouvir acima de qualquer burburinho de fundo e não há moinho de café, centrifugadora de sumos ou avião a aterrar que lhe retire o tónus. Um homem que fala alto é um homem persuasivo, dizem os livros e eu, até saber o motivo, estive convencido que o doutor tinha feito cursos dos que ensinam a projetar uma personalidade confiante e vitoriosa ou, depois de ter passado pela tropa como alferes, continuou na parada da vida a dar instrução até aos objetores mais convictos.

É certo que, no decurso da conversa, o tom baixa até ao nível do do interlocutor, mas só quando me convidou a ir a casa dele provar um whisky japonês e ver primeiras edições de Camilo, percebi a origem da modulação em forma de taco de hóquei. Munido de um papel onde o meu anfitrião tinha escrito a morada, toquei à campainha, subi ao terceiro andar sem elevador e logo no primeiro degrau ouvi o troar da televisão.

O doutor apresentou-me a mãe, octogenária de verbo de caudal elevado, acrescentando um reparo: «Terá que falar mais alto, aqui Dona Isabelinha é um bocado dura de ouvido.» Na verdade, mesmo na biblioteca forrada a cartapácios, a televisão de Dona Isabel Videira mostrava-se tão incontornável quanto a Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura na estante, e a tertúlia decorreu como se fosse o primeiro andamento da sétima de Beethoven, em versão musculada de Furtwängler.

Depois de uma hora de debate contra as novelas da tarde, já na rua, parei a falar com Dona Maria Bárbara, que passeava com o gato, e notei-lhe a voz mais acentuada do que o habitual. Percebi que também eu continuava a parecer um pregoeiro e que a diferença de decibéis não se devia apenas a dois dedos de whisky japonês. Dona Maria Bárbara aproveitou para me convidar para o coro da paróquia, «que a sua voz é bem colocada e faz lá falta um baixo assim», acrescentou.

Disse-lhe que ia pensar no convite, mas que entretanto lhe deixava uma sugestão:«Sabe quem tem muito boa voz, e forte, Dona Bárbara? Está a ver o senhor que toma café comigo, o doutor Videira?»

17.11.19

Regresso a Edimburgo com um Lamento

David Alan, Niel and Donald Gow, 1780

Niel Gow, Niel Gow's Lament, Laura Risk with Voices of Music

Zé Elias

Oh, Zé Elias, levante-se do chão!, apela a avó ao neto que nada de bruços à porta da perfumaria, com um formalismo terno perfeitamente condicente com as suas elegantes botas Oxford Ponta de Asa cor de mel.

Inflorescência de Alpinia Purpurata

Quando o telefone começou a tocar, o pianista parou, como se o toque fizesse parte da peça, levantou-se, veio devagar e com largo sorriso até à beira do palco. Depois, com inglês de sotaque eslavo convidou: «Parece que alguém tem uma chamada. Não há problema, atenda, nós aguardamos, temos tempo.» A audiência lançou uma gargalhada coletiva de alívio, seguida de um aplauso, enquanto o pianista regressava ao seu lugar e o telefone continuava o apelo desesperado por quem ouvisse o que tinha a contar. Em vão. O pianista juntou os dedos, esticou os braços e construiu uma ponte. No outro lado do palco, o trio, a violinista, a violista e o violoncelista, aguardavam, impávidos como as estátuas que habitavam no corredor para a sala e, no público, algumas tosses contidas até então, aproveitaram o momento para se libertarem. O toque, por fim, parou. Desta vez sem comentar, o pianista retomou, acenou com a cabeça em direção ao trio e Beethoven regressou vibrante, como se ressuscitado a tocar para o Príncipe Lichnowsky. Nesse momento, olhei para o outro lado da segunda fila e numa face que descia em direção a uma mala consegui notar, iluminada pela luz espantada que restou antes de ser apagado o ecrã, um rubor vivo, como se se tratasse de uma belíssima inflorescência de Alpinia Purpurata.

16.11.19

Estrela Michelin

Pergunta-me Alice, nove anos, cabelos caindo em cachoeira loura pelos ombros, mãos dançando pelo ar como flores: «Sabes qual será o primeiro chef de um restaurante vegetariano a ganhar uma estrela Michelin?»
E eu, leitora, sustenho o espanto e a respiração, e recordo apenas, embaraçado, que, em tal idade, as minhas dúvidas gastronómicas não iam mais longe do que se barrar o pão do lanche com Tulicreme de avelã ou antes de chocolate.

15.11.19

Eu e a blogger

Evidentemente, não me levantei da mesa para a ir cumprimentar, era o que mais faltava aparecer assim, sem convite nem apresentação, entrando pela conversa dela com quem a acompanhava: «Muito prazer, sou leitor do seu blog há uns anos...» Sem esperar vê-la, era naquele restaurante que a veria, na verdade e apenas pelas palavras e uma fotografia, era assim que lhe imaginava gestos e expressões. Ou não imaginava, sequer, e a intuição surgiu-me a posteriori, e tudo encaixou como devia. Demorei mais a almoçar que ela, saiu antes de mim, é improvável que nos voltemos a cruzar e se tornar a acontecer, não é de esperar que eu lhe surja à frente «impromptu». Fui reler o blog. Com a imagem atualizada, as palavras ganharam face. É o mesmo blog, mas já não é exatamente o mesmo blog. A informação, por ínfima que seja, é sempre uma lente: não é possível obtê-la sem que altere a forma como vemos de novo o que sempre lá esteve.

Impressão matinal

Daqui a pouco, será por Dona Inês que saberei a temperatura lá de fora, as previsões para o dia, se devo levar sobretudo ou antes gabardina, se o cachecol será acessório de estilo ou de precisão. O que vejo pela janela, o que os meus olhos me dizem, não é de fiar, são impressões de momento e não indicações de devir. Não fosse o sexto sentido de Dona Inês e eu andaria sempre a contraciclo. Assim também ando mas, ao menos, não há raio de sol, não há gota de água, que me apanhem desprevenido.

14.11.19

Homem previdente

«Admite que não gostas que eu veja o Lee porque estás com ciúmes. Admite que não é tudo cálculo frio contigo, que tens um coração,  mesmo que seja pequeno e fraco e não te lembres da última vez em que o usaste», diz Verna. «Se eu soubesse que íamos expressar os nossos sentimentos por palavras, teria memorizado o Cântico dos Cânticos», escusa-se Tom.

Tom, o pragmático, mostra que homem previdente prepara-se para qualquer conversa, e recusa amavelmente aquelas para que não está precavido.

[Miller’s Crossing, Ethan e Joel Cohen]

parábola do semeador

em vez de sementes
espalhou livros

mas, ah
os livros não medram
e nem pássaros os quiseram

veio a chuva
apodreceram
e neles brotaram fungos

à sua maneira
belos como flores

Doppelgänger

Quando em dúvida, ele olha para mim, que tenho tão poucas certezas quanto ele, e entrega-me a palavra. Cabe-me dar à incógnita partilhada a forma de problema solucionado. Quando é minha a incerteza, é a ele que a entrego para a virar do avesso, fazendo do forro a solução. Visto do exterior, pareceria que pensamos da mesma forma. Nada mais longe da verdade. Só temos é esta habilidade de entregar um ao outro, à vez, uma meia convicção, de a aceitarmos como dádiva, de dela fazermos convicção inteira. Ou disso estamos convencidos.

13.11.19

Uma incógnita

Vieram morar para aquela casa há uns dois anos. A memória, se não for auxiliada, combina os tempos numa forma indistinta: é esse o modelo da minha. Todos os dias o via a ele no jardim ao final da tarde, curvado sobre o jornal, fazendo-me lembrar o meu pai que gostava de ler os vespertinos com a atenção de quem tem a vontade de conhecer o mundo pelas rodas dentadas que o movem. Ela saia, devagarinho, com andar manso, quase flutuante, dizia-lhe algumas palavras e voltava, como se tivesse sempre frio, mesmo a meio do verão. Há três semanas, vi um alvoroço na casa, gente, luzes acesas até mais tarde. Depois, parti em viagem, nada mais consegui observar. Regressei, a casa estava vazia, não o encontrei a ele na cadeira do jardim, nem a ela, com os seus passos de anjo vinda do conchego que imagino das mantas frente à lareira. No domingo, ela reapareceu, voltei a vê-la embrulhada no robe, mas a ele não. Nada sei sobre eles, a não ser que ele falta. Não sei se é ausência provisória, se definitiva, mas sei que a explicação mais simples é a melhor: ele é, por agora, até eu saber mais, um espaço em branco. A versão que conto a mim próprio é a que não queria que tivesse acontecido. Talvez me encha de coragem, vá à beira do jardim um dia e pergunte. Nada é mais inquietante do que uma incógnita. Perturba-me, e não pouco, esta indeterminação.

11.11.19

*

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

 [Álvaro de Campos]

9.11.19

Validação externa

Picasso era apenas um grande exibicionista. A maior parte do seu trabalho é inerentemente trivial.

[Germaine Greer]

8.11.19

Afinidades

CaravaggioAlaudista, 1596

No céu vive um coração de que as fibras são as cordas de um alaúde
como a alma de uma labareda, no céu mais alto.
Não há tão selvagem canto no fundo do absoluto como 
o canto deste alaúde em voragem
angélica, que é a corda vibrante do coração do Anjo
Israfel. E cada pulsação deste
obscuro oráculo
é um Sinal, onde o infindo amor pôs a mão em chamas, na orla do Paraíso.
E diz a lenda que os astros bêbados emudecem,
e assistem atónitos
à inaudita ascensão daquela música
inaudita,
que o mágico Bardo do alto soletra enquanto soletra a sua vida,
cantando.

Extracto de Israfel:  Edgar Allan Poe, Stephane Mallarmé, Antonin Artaud, Herberto Helder



J. S. BachPrelúdio, BWV 1006, Hopkinson Smith

2.11.19

Uma sopinha

Declinaria com a maior amabilidade que conseguisse um eventual convite para comer uma sopinha elaborada com os saberes da senhora que, à minha frente, leva a hortaliça, liberta do confinamento do saco de compras, a arrastar pela lateral das longas escadas rolantes do metro da estação mais movimentada da cidade.

Sósia de John Malkovich em jovem

Don Giovanni, no final da ária «Deh, vieni alla finestra», pisca o olho à rapariga sentada na coxia da terceira fila. Ela sorri, desvelada, e não desvia os olhos daquele sósia de John Malkovich em jovem, um casting perfeito para o sedutor. Ao lado, o namorado, a olhar para a primeira-violino, de nada se apercebe. Se se voltar para a namorada, talvez se intrigue por ela continuar com tal abençoado sorriso, ajeitando nervosamente o cabelo imaculado. Dentro da ópera outra ópera acontece. Esta, ainda a ser escrita na plateia, é deveras mais interessante que a original, predeterminada, no palco.

1.11.19

Caravaggio

Deixo-me prender na voz da americana que vai lendo o catálogo para a companheira e até atraso o passo para a ouvir. A companheira fica estática, enlevada na leitura e julgo que semicerra os olhos, em transe hipnótico. Lento é o avanço, como secagem de tinta na tela. Caravaggio é, creio, apenas um pretexto para ela mergulhar na música das palavras da leitora. Acho o modelo, Mario Minniti, parecido com esta. Talvez Mario lesse para Caravaggio assim, talvez este fechasse os olhos para o ouvir. Nunca saberei. Com as unhas cheias de terra fresca, Mario parece troçar das minhas fantasias.

Torrente verbal

A compatriota de casaco de pele de leopardo praguejava como um marinheiro junto das lojas da Hermès e da IWC, no buliçoso final de tarde de véspera de feriado. Apenas o par que a acompanhava, ambos igualmente de meia idade e portugueses, entenderia semelhante torrente verbal. E eu, claro, que seguia atrás do trio e depressa o ultrapassei com a opaca expressão dos nativos, que uma tal explosão de liberdade é para ser vivida sem testemunhas senão as escolhidas, e que só a narro aqui porque sei que a leitora esquecerá, ainda mais depressa do que lê, esta minudência inconsequente.

21.10.19

Prioridades bem definidas

A edição mais antiga de Agustina que tenho, está assinada e datada por mim, e não há dúvidas: era o mês em que eu teria que acabar o curso, o primeiro, se o quisesse fazer a tempo e horas. Foi decerto comprado em alfarrabista, uma vez que a data de impressão precede de vários anos a do meu nascimento. O curso foi terminado no prazo, não tenha a leitora cuidados, mas lá está, já na altura as minhas prioridades estavam bem definidas. Maria Agustina é que nunca chegou a saber, que pena. Daquela vez, a única, não tive coragem de lho dizer.

14.10.19

Com um dedo, ou dois

O leitor assiste à vida em tempo acelerado. O escritor atrasa-a, para captá-la. A palavra no papel é um botão no comando da existência.

11.10.19

Caderno diário ilustrado

Mary Alaine Thomas, A leitora, 2016

Escrevo ao acordar, no escuro silencioso apenas iluminado pelo brilho ténue do caderno. Algures que não aqui o pássaro cantará. Dele nada sei. E eu com tantas páginas de saudade em branco para replenar com trinados do canoro. Quando Deus criou os pássaros com a forma que usou para o coração, legou-nos uma dúvida insolúvel. Como se preenche o vazio deixado pelo pássaro que leva em si o nosso coração?

10.10.19

Missiva acerca disso das artes

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto na qual reconheço a caligrafia apurada nos clubes de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College, atualmente a viver os seus anos de ouro no amplexo generoso da dulcíssima Orchidée.


Meu muito estimado amigo,


«Os homens querem-se para pelejar, para guerrear» apregoava um magala num dos filmes do Manoel de Oliveira, esse Matusalém da sétima das artes. Por afirmações destas é que o desinfeliz era recruta de pente zero e não coronel ou general. As mentes superiores sabem que o homem quer-se é para as coisas do espírito, para a contemplação da beleza, para o prazer que é a mais afortunada das formas de glória, a única, na verdade, para que foi ungido. 


Eu, aqui onde me verá, sou capaz de ficar horas a fio, horas! a apreciar o colo de marfim da dulcíssima sereia cujo canto me enleva de anoitecer ao alvorecer, sem jamais esmorecer. Ah, meu amigo, contemplar a arte assim, sim, porque falamos de arte, é termos o paraíso na Terra, o melhor dos mundos possíveis, como diria Leibniz, porque ao menos aqui temos o Faisão com amêndoa torrada, bolbo de aipo e alperce, do chef Spalk e no outro, sabe-se lá se não nos servem apenas haggis escocês. Claro que para o meu amigo, que é herbívoro, o paraíso são coisas como suflês de malmequeres e feijoadas de urtigas, mas adiante. 


A razão de estar a receber esta página lavrada por meu punho, é que a dulcíssima Orchidée está a organizar um sarau dedicada às artes, no próximo sábado, aqui na Casa d’Andrada. É pois o meu amigo, convidado de honra, como o Porto. Tem a dulcíssima um apreço incompreensível pelas garatujas do meu estimado. Afiança amiúde a formosíssima, a propósito, imagino, dessa sua vocação desperdiçada para os mesteres artísticos: «Ah, le pauvre J., qu’il a des mains d’or!». Mistérios…


Nesse dia faremos, na tenda grande do jardim, uma mostra das obras da coleção Casa d’Andrada, os Dacosta, os Palolo, os Sarmento, e está o meu amigo convidado a juntar também os rabiscos que, dizem-me fez durante as férias, enquanto chorava copiosamente rios de gin com raspa de lima por uma qualquer musa sempre ausente, jamais identificada, oh, mistério maior do que o sorriso da Gioconda.


O diligente Reboredo assegurar-se-á de que haverá canapés com hummus e baba ganoush e baba de caracol e todas essas viscosidades a que o meu amigo canta loas lá nesse seu hebdomadário nas internetes. Faça-se acompanhar apenas pelos seus bosquejos, que de tudo o resto a graciosa Orchidée cuidará. Até mesmo um projeto de artista como o meu estimado merece que as obras saiam lá dessa caverna platónica onde passa os seus empoeirados dias. (Ah, le pauvre, pauvre J, repreende-me aqui ao lado, com pontapé por debaixo da mesa, finíssima apreciadora d’arte que manterei incógnita).


Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada

10.9.19

Missiva sobre as práticas de dar um jeito

Recebo uma carta na qual reconheço, a tinta azul, a caligrafia esmerada do ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a passar os seus anos de ouro no alvo colo da dulcíssima Orchidée.

Meu muito estimado amigo,  

Sei que conhece o enigma da esfinge, que Édipo resolveu, e portanto passo já para a conclusão: chegou a altura de eu andar de três pernas neste arrebol da minha vida. A generosíssima Orchidée ofereceu-me uma bengala de buxo, encastoada em prata fina, que foi usada com sucesso pelo próprio João da Ega nos lombos nédios do Eusebiozinho, e que ela mandou arrematar num leilão da Christie’s. Perguntar-me-á o que me sucedeu que me condenou a tal desdita. Pois saiba que um cavalheiro não revela detalhes do que se passa portas da alcova dentro mas, resumindo, dei um jeito às costas. Por Deus, dei um jeito tal que não mais consegui assumir a minha postura de homem vertical, e estou condenado, dizem-me, a andar como um galináceo mais um par de dias, enquanto sou torcido, esticado e massajado por uma donzela trajada de enfermeira, com os bíceps do Tarzan Taborda.  

Ochidée, essa luz que afaga as pupilas sequiosas dos meus olhos, diz-me que o que tenho é falta de flexibilidade. É verdade, é algo que os meus rendeiros poderão atestar: a minha inflexibilidade é matéria de que se fazem as lendas e os maus-olhados dos inquilinos. Orchidée, ali onde a vê neste momento, é tão flexível que consegue coçar a orelhinha esquerda com o dedinho grande do pezinho direito. O segredo, meu amigo, o segredo de tal gesto audaz está no ioga. Mas não num ioga qualquer, desse que praticam as gentes vestidas de licras lilases no Estádio Nacional. É o ioga quente, o “hot yoga”, praticado a temperaturas em que o suor escorre copiosa e continuamente pelos corpos contorcidos, assim me dizem fontes que conhecem a capacidade de visualização da minha mente impoluta. Um dos quartos da casa d’Andrada foi mandado transformar numa espécie de sauna, onde Orchidée se contorce agora sob a supervisão da caridosa Krishna.  

Orchidée insiste que eu, Andrada, me junte a esse carnaval, tudo a bem das minhas articulações, diz a dulcíssima. Mas, é preciso mais um cavalheiro, para que a piedosa Krishna exemplifique os passes de magia óssea que eu e Orchidée praticaremos. Não sei se está a ver. Foi assim que Orchidée se lembrou, e eu não sei como tem ela tais ideias, do meu amigo: mon chou, ça te dérangerait d'inviter le pauvre, pauvre J. à faire du yoga avec nous ? E aqui estou a convidá-lo a vir suar as estopinhas cá à casa de Andrada no próximo sábado ao alvorecer. Fique o meu amigo descansado que depois, terá direito a lauto repasto de alcachofras da Polinésia e acelgas brancas de Fiji para repor os seus níveis de clorofila.

Orchidée já anda pelas internetes em busca de tangas de fakir ou lá o que usam para praticar aquilo. Venha como está, que tudo o mais está tratado. Entrará naquela sala engelhado e com os ossos fora dos eixos e, debaixo de uma espessa camada de suor, sairá um renovado J. avec peau de bébé, afirmam fontes que não estou autorizado a revelar. Não falte, não falte, pela minha saúde. 

Aceite um abraço deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada

30.5.19

Má fortuna, amor ardente

E eis que identifico uma falha no livrinho com elástico onde guardo endereços de gentes de bem. Nele não consta morada nem número de porta de bruxo, alquimista, encantador de serpentes, endireita ou tirador de maus-olhados. Nem o livro de São Cipriano habita, sequer, a minha biblioteca. Tantas oportunidades tive para o comprar, sempre as declinei. Todos os outros que ali estão, povoados de palavras racionais e paixões irracionais, parecem-me inúteis contra as artes do além. Até contra as artes do aquém, atrevo-me a dizer, mais não são do que placebos. E enquanto o lado de lá continua a enviar-me raios e coriscos sem pausa nem descanso, aqui estou eu, do lado de cá, apenas com o céu azul como escudo. É um jogo de paciência: ou as minudências consequentes se cansam de vir ao meu encontro, ou ando eu em volta para que elas não me encontrem. Ou então, descubro no meu livrinho algum benzilhão salvador que por lá esteja camuflado. O mundo moderno nenhum artefacto nos dá contra a má fortuna. Contra o amor ardente, também não. Já quanto à perdição, ombros mais largos tivéssemos nós para a carregar, leitora.

15.5.19

Caderno diário


O pássaro voltou a ausentar-se e desta vez nem do beiral nem da frondosa árvore em frente surge qualquer trinado para riscar o silêncio denso do amanhecer. Acordo por moto-próprio às horas a que os sonhos me abandonam, sem o auxílio sempre inesperado, sempre esperado, do canoro. Poderia ser um descanso deitar-me sabendo que não serei despertado a horas aleatórias, por melodias exuberantes provindas do lado certo da janela. Na verdade, é um desassossego. Quem disse ao canoro que eu não queria ser acordado a desoras, ainda que a plenitude matinal seja cortada cerce pelo entusiasmo do chilreante? Quem diz ao cantante estas mesmas palavras, a ver se ele, ouvindo-as, me aquieta, desaquietando-me?

18.4.19

Missiva sobre a abnegação da quadra

Recebo uma carta escrita a tinta azul cobalto com a letra elegante de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente a viver intramuros na casa d’Andrada, no cálido embalo dos braços da dulcíssima Orchidée.

Meu muito prezado amigo,

Espero que este o encontre num estado que possa considerar moderadamente saudável, o que quer que tal palavra signifique para quem não come proteína por onde tenha chegado sangue bombeado por um coração selvagem. Homem, estou em crer que, com tais usos, o seu próprio motor deve estar mais estaladiço que uma palha seca no deserto de Atacama.

Ora o meu prezado sabe que é, «soi disant», para mim como o filho que eu nunca quis ter e, praticamente não durmo mais que hora e meia na minha sesta pelas ralações com o seu bem-estar. Após insistência da minha consultora de temas de felicidade, decidi contribuir para trazer uma centelha de rejuvenescimento a esse seu semblante bocagiano, absorto, novecentista. Estava eu a ponderar passar esta quadra na costa amalfitana, celebrando a vida embrenhado nos braços da dulcíssima Orchidée, quando esta, num acto de abnegação digna dos méritos de um Nobel da Paz, me fez abdicar da viagem para o salvar do terrível destino de passar a Páscoa encerrado nalguma biblioteca poeirenta, sobrevivendo de migas de alho biológico com bagas de goji estufadas. «Pauvre, pauvre J. affamé, maigre comme une canne d'Inde...»

Missão de salvamento, portanto, leva-nos a postergar a viagem. Oh, a bondade deste perfeito anjo que enche de luz os meus dias e de fulgor as minhas noites. Por isso, meu amigo, e por insistência da piedosa Orchidée que, como sabe recebeu o baptismo e a crisma em Notre Dame, da concha do próprio arcebispo André Vingt-Trois, está convidado, não, intimado, a deslocar-se nesta quadra sagrada até à casa d’Andrada (perdõe a rima), onde o aguarda pensão completa, regeneradoras de células liofilizadas, arenosas até, com alimento adequado a quem se encontra em estado mais desnutrido do que uma bomba de combustível em dia de greve de motoristas.

O diligente Reboredo que, como sabe é especialista em culinária levantina, afadiga-se já de volta de pratos à base de ervas com nomes como (um minuto, enquanto mos sopram aqui ao lado com hálito com perfume de orquídea selvagem): Baba Ganoush, Falafel, Hummus. Até pão pita e chá de menta açucarado, para a experiência ser completa. Caso lhe apeteça saltar a cerca, a mesa dos crescidos estará adornada, entre outras iguarias, com perdiz à Convento de Alcântara, Barriga de Freira e pudim Abade de Priscos, pratos que, já pelo seu nome, já por constituírem verdadeiros actos de adoração, evocam a santidade da semana. A sua anuência fará a felicidade de uma santinha, que aqui ao meu lado reza agora mesmo, enviando mensagens para Nossa Senhora, sua padroeira, pela saúde do meu prezado: «Pauvre, pauvre J. tellement fasciné par les livres qu'il n'a pas le temps de manger».

Faça-se acompanhar de um «nécessaire» porque o convite é para múltiplas noites. Orchidée, sempre previdente, já encomendou em linha uns pijamas de seda, com carneirinhos saltitantes de Shetland: «Oh, il va si bien dormir avec ce petit pyjama, le pauvre petit J.»

Aceite um abraço deste que muito o estima,

J. Eustáquio de Andrada

15.3.19

Caderno diário

Assalta-me a indecisão logo ao alvorecer: será o pássaro do beiral, ou não? Reconheço os trinados ou, algures na penumbra do sono, parece-me reconhecê-los, mas estão distantes, esmaecidos, como se tivessem viajado pela canseira de uma linha de telefone centenária. A ser o pássaro, abrigou-se na árvore em frente à janela, frondosa, ampla, acolhedora. Ensaiará o regresso ao beiral? Ou, uma vez encontrado um ramo amplo e confortável, musicado pelo doce roçagar da folhagem ao vento, deixar-se-á ficar, abandonando o beiral expectante mas desvestido? Que apelo pode ter um beiral assim batido a sol e vento, pleno de ângulos e superfícies rugosas, face a uma tão aconchegante árvore, tão repleta de suaves balouços, tão amena a vistas amplas? E como é que se transforma um canto de beiral numa serenata de beiral, leitora?