2.2.20

Do calendário do viticultor

Fevereiro: Adianta-se, para terminar, a poda e plantação nas terras secas. Começa a cava onde se não puder lavrar; continua-se a preparar a madeira da empa; começa a enxertia nas regiões quentes com castas que rebentam cedo e a aplicação de adubos químicos. É tempo de colar e engarrafar os vinhos. As vasilhas devem ser vigiadas, sobretudo se o tempo aquecer.

Por S. Matias, começam as enxertias.

Terra bravia

Janita Salomé, Outra Rosa

1.2.20

Amor novo (III)

Ela tirou o cartão de crédito da carteira e colocou em cima da mesa. Ele limitou-se a constatar: «Pagas tu daí?»

[Eu, preconceituoso me confesso, leitora.]

Amor novo (II)

Ele fala-lhe das suas paixões: filmes de guerra, tatuagens. Ela, com as mangas cor de rosa assentes sobre a mesa, escuta, com a atenção do construtor de pontes longas de mais.

Amor novo

«À saúde. E ao amor.» Brinda ela, na mesa em frente, enquanto tilintam os copos. E eu acho-a parecida contigo.

[Entretanto, encontram mais um ponto em comum e juntam as mãos abertas, em «high five».]

Plano de existência

Ler como uma borboleta, escrever como uma abelha.

[De uma ideia de Philip Pullman.]


31.1.20

Uma ideia radical

O amor não é um sentimento, mas uma aptidão.

30.1.20

semear o mar

o brilho do mar

notarás
é das garrafas
com mensagens
que para ti
semeio

Movimento pendular

Tenho a tua fotografia; não para me lembrar de ti quando olho para ela, mas para olhar para ela quando me lembro de ti.

[Julio Cortázar]

29.1.20

Guarda de fronteira

A  minha pátria está nos teus olhos,

o meu dever nos teus lábios.

Pede-me o que quiseres,

menos que te abandone.

[A partir de Gabriel Zaid.]

Na direção exata da esperança

Entre o final de uma tarefa ciclópica e o início de uma dantesca, numa trégua que dura para lá de meia hora, venho aqui enviar à leitora os votos de um final de tarde tão luminoso como os rasgos de oiro que se elevam acima do horizonte ali ao meu lado direito, na direção exata da esperança.

Contra a cristalização

Quando revemos uma frase, estamos a rever não apenas as palavras, mas também o pensamento na frase.

[Uma ideia de Lydia Davis, em Essays One.]

28.1.20

Ponte invisível

No decorrer da conversa percebi que ambos abominámos a expressão «Um dia de cada vez» trazida por um terceiro. Assim juntámos um pilar a uma ponte invisível entre os dois.

27.1.20

Música eterna

Não me sendo ele sequer próximo, não paro de pensar em como será ter um desgosto de desamor assim à beira de fazer noventa anos.

25.1.20

Empenhado

O meu coração
empenha-se
a recordar-me
que ainda 
está aqui.

[Baseado em Begoña Abad]

24.1.20

Mais vale conhecer, ou não conhecer?

As únicas pessoas que consideramos normais, são aquelas que não conhecemos ainda muito bem.

[Adaptado de Alain de Botton]

Recomendação


22.1.20

Corolário

Somos aquilo a que damos atenção.

[Corolário: Sou tu, quando ocupas todo o espaço do meu pensamento.]

Atenção

E eis que entrei no café e ao entrar vi que o Correio já estava estendido, na mesa de um reformado. Quando esse o acabou de ler e ia retorná-lo ao extremo do balcão onde pertence, logo veio outro, em alta velocidade, apanhá-lo ainda antes de ser pousado. E eu, a quem tantos anos faltam para a reforma, escusei-me de tal competição,  bebi o meu  café e saí, tão desinformado quanto entrei, que uma das decisões para este ano é fazer uma só coisa de cada vez, e o café é assunto que, por si, merece atenção total e indivisa, pois assim não é, perspicaz leitora?

21.1.20

Uma garrafa à água

Uma gaivota pousa no outro extremo da mesa de tábuas corridas onde me sento com o comandante. Estou de frente para o mar, e ele do meu lado esquerdo. Na mesa ao lado, uma mulher de vestido verde com flores brancas e chapéu de palhinha com uma fita grená afasta as moscas, mão remando no ar com um abanico de fogareiro. O dono do bar assovia baixinho lá atrás do balcão. Bebo pelo gargalo da garrafa um gole de cerveja de água dessalinizada. Tem o sabor adocicado das cervejas de todas as ilhas. «Uma vez encontrei uma garrafa com uma mensagem enrolada, ali à beira de água», diz o comandante, esticando o dedo, num gesto brusco. A gaivota, já próxima, assusta-se. Hesita, levanta as asas, como se fosse partir. Mas fica. A mulher do abanico pousa-o nas pernas e fecha os olhos, enquanto adormece na cadeira. «No papel amarelecido dentro da garrafa, apenas as palavras em espanhol, ‘Não me esqueças’, ‘No me olvides’.» Porque é que se deitaria ao mar tal mensagem, para quem?, interroga-se o comandante. Agora ao pé, noto que a gaivota é demasiado grande, do tamanho de uma galinha, como as que encontrei no outro lado do mundo. Não tenho resposta para a pergunta. «Gastamos a vida a atirar garrafas ao mar, com uma esperança vaga de que os destinatários as encontrem. Mas a maioria perde-se na corrente dos dias.» A gaivota acena a cabeça como que a dar razão ao comandante. O abanico da mulher do vestido verde cai ao chão com um ruído seco que contrasta com o silêncio da tarde e é desta que a gaivota se vai, como se fosse uma garrafa levada pelas correntes do ar. 

[Revisitando os «Diários» de Victor de Vere.]

Grau de parentesco

Creio que nunca te terei dito, mas tal como do mar, também são as ondas a matéria da saudade.

Parece fácil

Após praticar dez anos, pode começar a agradar a si próprio; após vinte, pode-se tornar um músico e agradar ao público; após trinta, pode agradar até ao seu guru; mas deve praticar por muitos mais anos antes de finalmente se tornar um verdadeiro artista — então poderá agradar até mesmo a Deus.

[Ali Akbar Khan, músico clássico indiano que chegou a treinar a sua arte dezoito horas por dia.]

20.1.20

A arte da carícia

Ustad Shahid Parvez & Ojas Adhiya, Raag Yaman

Tio Ernesto

Quanto ao duelo de Davos, confesso, apenas tenho a curiosidade de saber se será a adolescente sueca ou o prócere americano a merecer o escárnio militante do sempre encantadoramente provocador Tio Ernesto.

Como se fosse estreia


Após vários meses a frequentar o café do Senhor Velez, ainda o café me é servido como se eu fosse cliente de primeiro dia, como se fosse estreia, sem se ater a nenhuma das preferências já manifestadas. Olhando para o reverso da moeda, percebo que pode não ser necessariamente distração, mas uma forma de me moderar expetativas, de me ensinar a humildade de pensar que afinal ele tira mais cafés num dia do que os que eu bebo num mês e, por Deus, que sei eu sobre café?

[Caramba, que saudades de Dona Aureliana, leitora.]

18.1.20

Nostalgia é a incapacidade de reconhecer que o presente é o resultado das tentativas de superar imperfeições do passado.

15.1.20

De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto. Mas embriagai-vos.

Deveis estar sempre embriagados. Aqui reside tudo. É a única questão. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que vos esmaga os ombros e vos verga para a terra, é imperativo embriagar-se sem descanso.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto. Mas embriagai-vos.

E se por acaso, sobre os degraus de um palácio, sobre a relva verde de uma vala, na morna solidão  do vosso quarto, acordardes de embriaguez diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que roda, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vos responderão: «É hora de vos embriagardes! Para que não sejais escravos martirizados do Tempo, embriagai-vos; embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, a vosso gosto.»

[Charles Baudelaire, Le Spleen de Paris, tradução de João Coles.]

14.1.20

Ócios do lusco-fusco

Não tenho pressupostos nem convicções sobre potenciais amores possíveis ou impossíveis, dadas as assimetrias de sinais exteriores de relacionamentos oficializados. Sei que se encontram a dias certos no meu bar, se sentam na mesa ao lado da minha e conversam com óbvio prazer, direi mesmo com compatível entendimento intelectual, daquela espécie em que nenhum silêncio está a mais, nenhuma palavra está a menos. Meto-me na minha vida e, por esta vez, tenho a certeza de que a leitora perdoará não me adentrar por quaisquer inferências não provadas, fruto da minha riquíssima imaginação e dos ócios do lusco-fusco.

O que fica de quem passa

De um obituário no The Times.

13.1.20

Ítaca

No dia do aniversário da morte de Joyce, descubro o meu Ulysses. Quinze anos depois de ter comprado uma edição especial do Requiem de Berlioz com uma qualidade de gravação extraordinária, ainda não foi hoje que consegui acabar de ouvi-la. Acabei de desistir ao fim de minutos, e estou aqui a escrever à leitora, refugiado nesse porto de abrigo tempestuoso que é a quarta de Mahler. Berlioz terá que aguardar a próxima efeméride, ou a chegada de uma paciência que teima em não encontrar o caminho de regresso, como certo guerreiro da antiguidade na volta para a sua Ítaca.

Regresso à Kora

Ablaye Cissoko, Douna

O poeta é um travesso

Fernando gostava muito de pregar partidas quando era garoto.  Gostava de se vestir com uma parafernália aterrorizadora para assustar os criados, divertia-se inventando todo tipo de histórias vivas nas quais nós (Michael, John & eu) éramos os personagens principais.  Tudo isto aconteceu na 10ª Avenida, em Durban.  Ele tinha muito medo das trovoadas e costumava esconder-se em lugares escuros para evitar o clarão e cobrir a cabeça para não ouvir os trovões.

[De uma carta, originalmente escrita em inglês, de Henriqueta Madalena (Teca), irmã de Fernando Pessoa, a Hubert Jennings, biógrafo sul-africano do poeta.]

12.1.20

Convicções

Recusei a entrada: «Eu não como carne, desculpe» e ele arregalou os olhos de surpresa. Ainda perguntou: «Não come?» mas eu desarmei-o com o meu melhor sorriso. Ao menos ao domingo à tarde permito-me ter convicções sem explicações, leitora.

Aceitas um café ao sol da tarde?

HiromiSonata Patética

11.1.20

Silenciosa luta de classes

Talvez fossem cunhadas, porque irmãs não me pareciam, mas que sei eu? Ficaram em frente uma da outra, porque é assim que o mundo se organiza, depois de os maridos também se arrumarem frente a frente e das netas se sentarem no outro extremo da mesa. A de cabelos lisos de tom entre dourado e prateado usava umas botas de pele de cobra. A de cabelos encaracolados a rolo, calçava sapatos pretos rasos e meias com logótipo Sport. Jantaram em silêncio, sem que alguma vez tentassem tema comum de conversa.

10.1.20

O homem certo para ela

Será o homem certo para mim? leio na face esperançada dela, a mão direita protegida pela mão esquerda em concha, dele, mãos que não se descolam enquanto ele vai rolando meticulosamente o ecrã do telefone com o polegar direito, antes do jantar, daquele que me parece o primeiro encontro, ser servido.

En attendant Corto

Eliza Ivanova, 2019

Entre nós dois

Eu cheguei primeiro e levei o Correio da Manhã para a mesa, enquanto aguardava o café. Ele, vindo minutos depois, olhou para o canto onde costuma estar o jornal, viu-o vazio, sentou-se na mesa ao lado, e abriu o livro que trazia. Mas, ah, quando eu, café já bebido, fiz o primeiro gesto para me levantar, olhou furtiva, cobiçosamente, para o Correio. E quando o retornei ao balcão, ao lugar de onde o havia retirado, mesmo antes de sair, logo ele veio buscar o ambicionado troféu, antes que qualquer outro cliente notasse a disponibilidade de tal indispensável fonte de informação. Este café é muito mais um reflexo das ânsias do mundo do que qualquer um dos clientes admitiria em público, ou mesmo em privado, como aqui entre nós dois, creia-me, leitora.

Placebo ou prelúdio

Um café a queimar é um placebo – ou um prelúdio – para um beijo.

8.1.20

Se não for hipnótica, para que serve, na verdade?

Robert Plant, Carry Fire

incógnita

que parte das saudades de ti serão as daquele que sou contigo?

5.1.20

profunda mente

a função do poema

não é
fazer volver
ou resolver
é

revolver

Deixa contar aqui p'ra você como é que foi

Cheikh Lo, Degg Gui (feat. Flavia Coelho & Fixi)

4.1.20

Hino da Coroação

E reparo que, na minha fila, sou o único a bater o pé durante todo o encore. Ou sou mais irrequieto, ou gosto mais da música de Händel do que as vinte e nove pessoas que me ladeiam. Acredite-me, leitora, com todos estes anos de autoconhecimento, é na primeira hipótese que voto.

Para ti, Cloé

«Cria um sentimento de felicidade e alegria, paz e segurança, plenitude de vida.» Eis como é descrito aquele cognac que tantos quilómetros percorreu até me chegar às mãos agradecidas pela noite de Natal. Faltou, ao publicitário-poeta, dizer que parece acompanhamento perfeito para as «Odes» do teu Ricardo Reis. Aqui fica, Cloé, para ti, para memória futura, a adenda.

3.1.20

Crise de meia-idade

E eis, leitora, que no respeitável restaurante, à sexta à noite, todos os clientes masculinos com cabelos grisalhos calçam sapatilhas brancas com nome de campeão de ténis. Digo, calçamos.

Os vocais silenciosos

Matthew Abbott

Como têm estado silenciosos os que quotidianamente bramavam contra os avisos de quem alerta para as catástrofes climáticas, face ao que está a suceder na Austrália. É muito mais conveniente e simples, convenhamos, atacar uma jovem sueca de dezasseis anos, do que um primeiro-ministro de cinquenta e um, que igualmente nega as evidências, como eles, e vai de férias para o Hawaii enquanto, no país dele, uma área equivalente à conjunta da Holanda e da Bélgica já ardeu. Que nunca os factos lhes lancem sequer uma sombra de dúvida nos preconceitos ideológicos, na ignorância aferrolhada em medos indizíveis, que debalde tentam disfarçar.

2.1.20

Nem sequer nos pertence

Ferdinando Scianna, Roma: Villa Borghese, 1963

Antes acreditava que ao coração o poderíamos dirigir para aqui ou para ali, conforme quiséssemos, que poderia ser manejado a nosso bel-prazer. Mas agora sei que não, que o coração nem sequer nos pertence.

[Juan Rulfo, Cartas a Clara]

Sugestão de leitura


[O gentil Tom Holland a contar maravilhosamente histórias terríveis.]

Mel e limão


Pois que sei a leitora inquieta com a sorte da minha voz, atualizo dizendo que, após muito mel e limão, rivalizaria agora com a de Bryn Terfel, assim a minha ascendência céltica pendesse para o lado galês, e a minha arte vocal fosse sequer uma sombra da do encorpado baixo-barítono.

Mas aproveito e faço das cantadas por ele minhas palavras:

I'm as restless as a willow in a windstorm
I'm as jumpy as puppet on a string
I'd say that I had spring fever
But I know it isn't spring

I am starry eyed and vaguely discontented
Like a nightingale without a song to sing
O why should I have spring fever
When it isn't even spring

[Oscar Hammerstein II]

1.1.20

Resoluções de Ano Novo

Elliott Erwitt, Schleswig-Holstein, Island of Sylt, 1968.

A cura para tudo é sempre água salgada: o suor, as lágrimas ou o mar.

[Karen Blixen]

Estúpido orgulho

Foi a irmã do meio, que vive a doze mil quilómetros de Portugal, que comunicou à irmã mais nova, que a mais velha morreu esta noite. A mais velha morava a trinta quilómetros da mais nova, mas deixou de lhe falar há cinco anos, por ninharias. Nem a proximidade da morte reverteu a decisão de silêncio tomada por estúpido orgulho, decisão mantida por marido e filha após o óbito. Assim se encerrou a quezília, para a eternidade.

O rescaldo


A minha voz hoje, leitora, quase me permitiria cantar este Downtown Train como o Senhor Tom Waits, assim o destino me tivesse bafejado com o talento para tal e a Corifina combinasse melhor com Four Roses Bourbon.

31.12.19

E para terminar, uma história feliz

Em 1866, ano da sua derradeira campanha militar, o Liechtenstein enviou 80 homens para a guerra. Regressaram 81, pois tinham feito um amigo.

30.12.19

Da independência do amor

O amor, quando se instala, afirma a sua feroz independência face às limitações e constrangimentos daqueles a quem sujeita. Intensidade não é correlacionada com exequibilidade. Ademais, é inútil procurar impor-lhe moderação: o amor é a mais poderosa manifestação de carma na natureza.

Confortável reclusão

«Está muito frio lá fora, Dona Inês?», pergunto eu, antes de me aventurar a atravessar duas ruas para tomar o café e me atualizar com o Correio. «Doutor», responde a Dona, «eu acho que está assim um bocadinho…», e faz tremer o ferro de engomar como se também este enfrentasse, sei lá eu, uma temperatura noturna siberiana, os ventos sibilantes do Ártico. Pondero a camada adiposa adicional que adquiri por estes dias de devaneios gastronómicos, concluo que talvez sobrestime a sua espessura, visto o meu mais quente sobretudo e ouso-me a sair da calidez que tem sido esta confortável reclusão.

18.12.19

Quadro da Quadra

National Audubon Society, Mountain Bluebird

De regresso algures em 2020. A todos os que aqui passam, votos de Boas Festas e de um Feliz e Sereno Ano Novo.

17.12.19

sabes?

porque reservamos as mais belas palavras para o que nos atormenta –

sabes?

Invisível

Brad Kunkle, How to become invisible

Terça-feira, treze

A esta hora no bar, estamos treze homens e outras tantas cervejas. Doze, absortos no jogo da bola. Só um – e nunca se revelará aqui qual – a escrever à sua leitora.

16.12.19

Pagode

Luong Khanh Toan, Indo para o Pagode

Ruborizado

Consegui corrigir dois disparates dos grandes, a tempo, creio. A leitora não notou, decerto, porque não estão visíveis aqui, mas ainda assim, se me visse agora, encontrar-me-ia ruborizado. O dia está frio e este calor adicional na face até nem vai mal, na verdade, se me permite a leveza agora que os níveis de adrenalina voltaram a estabilizar.

promessa

prometo-te fazer –

o melhor que sinto

15.12.19

Uma tarde assim

Qual é o teu nome? pergunta-me a gentil donzela que recolhe o meu pedido de alimento lúdico, na caixa, junto ao balcão. Eu digo, quase soletrando. Quando me entrega o talão, com o nome escrito, descubro que deixou ficar as consoantes – e com as vogais fez, quiçá, um caldo quente, bom para uma tarde assim, em que nenhum conforto é demais.

Restauradores

Cesar Santos, Restorers

mariposas

saudade –
o peso
de trazer ao peito
um mausoléu de mariposas

possíveis

sonhei contigo –

e éramos possíveis

14.12.19

Naufrágios

De minha casa aos teus olhos
não haverá naufrágios.

[Roberto Jorge Santoro]

Vigilância

A senhora de casaco de pele de leopardo que almoçou no restaurante onde eu tomava café, acabou de entrar no restaurante onde janto, numa vila que não a primeira. Estarei eu sob vigilância, leitora? Ou terei apenas um banal bom gosto gastronómico?

13.12.19

Ushant

Yann Tiersen, Porz Goret

Segunda opinião

Tomo, como se fosse para mim, uma admoestação que leio num jornal estrangeiro. É certo que já me tinha repreendido a mim próprio, sem resultado visível, mas como já conheço demasiado bem os meus argumentos, foi mais eficaz a segunda opinião.

Promessa

Prometo-te uma coisa: encher
a tua casa de livros.
Que não se possa andar,
que quem convides diga que
diabo
se está a passar,
que já não existem para ti
mais do que os malditos livros?

[Eusebio Ruvalcaba]

Como a chuva

Ela, como a chuva,
fala em silêncio

[Alberto Szpunberg]

12.12.19

O lado bom

Mais uns tempos e poderemos pagar um haggis em Edimburgo em euros.

As bem-aventuranças

Vladimir Martynov, The Beatitudes

Primeiras letras

Venho lanchar (merendar, diria Dona Lurdinhas, minha professora da Primária que não foi a tempo de me ensinar as primeiras letras, porque já as sabia quando lá cheguei) ao café de Dona Yara que faz uma pequena festa com ponto de exclamação no final da frase naquela fala lá dela que atravessou o equador: «Doutor, há quanto tempo? Não tenho visto o senhor, nem sequer de manhã ao café!» Pois que posso eu dizer, Dona Yara, é verdade, admito tudo. Não que tenha deixado de beber café, apenas que tenho andado pela concorrência, por uma qualquer conjugação de fases da lua e passos perdidos. Quanto a ver-me, nem eu me tenho visto a mim: ando mais fugidio de que um maratonista etíope, Dona Yara. Penso, mas não digo, que a Dona tem sentido de humor, mas com tal ausência o meu crédito deve estar esgotado e tudo tem limites, não é, leitora?

11.12.19

O fruto do silêncio

Pēteris Vasks, The fruit of silence

O segredo

Depois de ter assistido nestes dias, ao vivo, à arte da cozinha do gentil Sri Akah, hoje a comida que ele me apresentou soube-me melhor ainda que habitualmente, como se entender a confecção aprimorasse o paladar. Quanto mais compreendo mais amo, escreveu Russel, que não pensava em culinária, decerto. Mas conhecer o segredo da confecção excede, isso posso confirmar de boca certa, leitora, o prazer de qualquer número de estrelas, Michelin ou outras.

10.12.19

Bloggers anónimos

Durante a reunião pensei perguntar-lhe: Já pensou escrever um blog? É que é tal e qual uma blogger que costumo ler. Mas depois contive-me, a tempo, creio. Quem me dizia que ela não seria mesmo uma blogger que costumo ler?

A meditação das mães

A mãe do jovem comentador de jogos de bola hoje tomava o pequeno-almoço sozinha. Mergulhava a torrada na meia de leite enquanto falava ao telefone e assim que acabou de afogar a última migalha de pão, pagou ainda a telefonar e saiu tão depressa que, distraído com o avô a sorrir para o neto no carrinho que empurrava, nem vi já sequer a porta de vidro a fechar. É escutar o filho, quando está com ela, que lhe torna todas as outras tarefas adiáveis, redundantes até, assim percebi. O filho é a meditação dela, melhor, são os filhos a meditação das mães.

9.12.19

O abraço é um colar mas sem fecho*

Agostino Arrivabene, coniuctio. zolfo e mercurio, 2017
* Ramón Gómez de la Serna

Elyseum

Asja Kadrić cantou até aos limites da sua voz, muito mais cingidos que os de Lisa Gerrard. Mas também, ninguém mais tem, como esta, voz de campo de trigo, sem confinamentos, a perder de vista.

8.12.19

A mesma canção

Aqui no café, ao rés da hora de almoço, os namorados que estudam em conjunto dividem-se entre os que partilham o mesmo par de auscultadores e os que usam cada qual o seu. Romântico que sou, hesito contudo em aplicar o critério de Rui Veloso*, por achá-lo mais afiado ainda do que a navalha de Occam.

[* Não se ama alguém que não ouve a mesma canção.]

Na terra dos sonhos não há pó nas entrelinhas*

Gabriel Gomez, Nemo
* Jorge Palma

Como é o mundo

Sigrid, Home to you

7.12.19

Instantâneo

Ela sorri, enquanto olha para o mar, que a esta hora está da cor do ano. Ele, de mão na dela, de olhos fechados, ondeia a cabeça ao som de Lana Del Rey, que ocupa a brisa de fim de tarde. Eu, penso em ti.

O riso excelente lá dele

Com as mãos mergulhadas em farinha de grão e manteiga clarificada, diz-me o gentil Sri Akah: Qualquer comida que nós fazemos, emoções que nós temos é sempre transmitidos no comida. E ri, aquele riso excelente lá dele, elaborando a alegria que vou almoçar daqui a pouco.

19-4052

6.12.19

Um homem crescido

«Muito mau o seu almocinho, hoje», ralha-me Dona Gracinda perante a minha parcimónia ao almoço. Não se trata de um qualificativo quanto ao produto em si, note-se, mas quanto à minha capacidade de degustá-lo por completo. Passou o fastio por falta de tempo, porque, enfim, um homem crescido não confessa assim, em público, que perde o apetite quando a saudade aperta precisamente à hora da refeição, nem mais nem menos.

Artista do ano

O senhor Spotify anuncia-me que o meu artista do ano é Jordi Savall e a minha artista da década é Christina Pluhar. Chama-me Cidadão do Mundo por ter ouvido música de 54 países e neste inclui a Áustria por causa de Karajan, porque não sabe das apfelstrudel. Mas tenho a certeza de que a leitora poderia dizer o mesmo pelas escritas aqui neste hebdomadário nas internetes, pois não podia?

4.12.19

Espanto e fascínio

Adormecemos e os sonhos tornam-se como um som baixo, uma música de fundo que depois de algum tempo deixa de ser ouvida, embora ainda esteja lá. A primeira coisa que vejo quando a sonolência me agarra são bandos de pássaros que voam no céu, em uníssono, sem se tocarem, como um manto que ondula e pulsa ao vento. Sei que é uma memória distante, algo que vi quando era criança, num carro, enquanto o meu pai conduzia por uma estrada, atravessando uma planície infinita de ervas douradas, monótonas. Não posso colocá-la em nenhum outro contexto; não sei para onde íamos ou de onde vínhamos, mas da janela do banco de trás pude ver essa presença gigantesca e ameaçadora com uma mistura de espanto e fascínio.

[De Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, novembro de 2019]]

Raízes 2

Vine a Zapotal para morirme de una buena vez.

[Início de Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, 2019]

Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.

[Início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, 1955]

[Mateo García Elizondo é neto de Gabriel García Márquez. Pedro Páramo é uma herança de família.]

Raízes 1

El padre Rentería se acordaría muchos años después de la noche en que la dureza de su cama lo tuvo despierto y después lo obligó a salir. Fue la noche en que murió Miguel Páramo.

[Juan Rulfo, Pedro Páramo, 1955]

Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. 

[Gabriel García Márquez, Cien años de soledad, 1967]

3.12.19

Retoques subreptícios

Devo a Vila-Matas a descoberta de que Bonnard «entrava nos museus onde os seus quadros estavam expostos e, aproveitando a ausência de vigilantes, corrigia-os com uma euforia infinita.»

Sinto-me menos desacompanhado por, amiúde, regressar a este espaço, que está longe de ser um museu, mudar uma vírgula aqui, uma palavra ali, e sair subrepticiamente, na esperança de que se alguém der por isso, ao menos não achar que o resultado é pior do que o que lá estava antes.

Mapa dos vícios

Vinte e dois clientes no bar, e apenas eu e a senhora do casaco cor de salmão na mesa ao lado não fumamos. Como não recomeço no vício, disso estou certo, deverei mudar de bar, leitora?

As it happens

O infante na mesa ao lado, que se veste como eu (ou eu como ele), vai mostrando, alternadamente em português e inglês, à mãe dele, os seus vastos conhecimentos sobre as ligas espanhola e inglesa. Se consigo igualá-lo na indumentária, nunca por nunca o seria, ou serei, em tal admirável, avassaladora mesmo, verve desportiva.

[A banda sonora no café, reparo, é agora, enquanto escrevo, apropriamente, The return to innocence, dos Enigma.]

2.12.19

Resoluções de Ano Novo

À saída, após o almoço, ouço um ralhete delicado do gentil Sri Akah: Ah, mas o senhor comeu demasiado depressa. Assim não tem tempo de saborear nossa comida. Até pensei que tinha sido devagar para os meus usos, que me tinha alongado na contemplação dos comensais nas suas danças por entre as mesas, dos rituais de chegada coroados por longos abraços, do encontro de etéreas yoginis na mesa em frente, mas o meu tempo e o de Sri decorrem em referenciais diferentes. Mas como as minhas celebrações de Natal começaram com um mês de antecedência, as resoluções de Ano Novo, entram agora em vigor, também. Comer com tal vagar, que faça inveja ao excelente Sri. Isto, claro, se inveja constar do vocabulário dele, o que duvido, leitora, duvido.

1.12.19

o poema é uma casa / para passar a noite / sem janelas úteis*

Anonymous 4, Gaude virgo salutata
*Rui Pires Cabral

A mão à palmatória

Até por este espaço, onde as palavras têm sido a favor das preleções da jovem Thunberg e com frequência opondo-se aos céticos do mérito da sua cruzada, se instalou o cansaço, não por ela, mas pela corte de bajuladores, faroleiros, dançarinos em pontas dos pés, e outros arrivistas, que se desdobram em mensagens, receções e homenagens, apenas porque a máquina dos retratos se encontra em foco, deixando cuidadosamente longe das suas preocupações tudo o que fica de fora da lente por ora assestada na viajante que está para chegar, assim as correntes e os ventos se aprontem de feição.

Pecados, só os merecidos

Tal é o carrossel de celebrações natalícias, que dei por mim, tendo chegado antes dos restantes convivas, com um copo de espumante na mão, na festa que descobri, atempadamente, ser a errada. Corrigido o erro, reposto o espumante intocado à bandeja de origem, prossegui para a folia certa, onde o espumante era igual, decerto, mas caía em orçamento de outras gentes. Não que acredite que cada um tem o espumante que merece (não acredito) mas não há espumante que mereça ser também um pecado, não é, leitora?