Desde aquela primeira noite de amor, dormiram num nó apertado, partilhando o mesmo alento, sonhando os mesmos sonhos.
[A partir de Isabel Allende.]
24.2.20
23.2.20
Nem sequer errado
O artigo de Henrique Raposo que o Expresso republicou e a
que cheguei por via da referência em Tempo Contado, causou-me pena por, após
tão extensa resenha de fontes, o autor ter entendido tão pouco do material que
tinha entre mãos ou, pior, por o que leu não se adequar à tese que pretendia
expor, ter simplesmente ignorado o que Vasco Pulido Valente na realidade escreveu,
substituindo-a por uma qualquer interpretação mal-amanhada e errada.
Sem entrar na análise crítica de cada um dos pontos do texto
(em jeito de exemplo, como é que alguém pode seriamente dizer que Vitorino Nemésio
está entre os “silenciados” do meio literário português por influência da
intelectualidade de esquerda, quando foi professor catedrático na
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa durante mais de três décadas, determinando,
isso sim, quem era estudado ou silenciado, tendo tido, para além disso, um dos
mais populares programas de índole literária que já passaram na televisão portuguesa),
pelo menos o que lá é dito sobre Pulido Valente e Eça, não deveria deixar de
merecer nota.
O que Raposo diz, e é uma das teses centrais do artigo (que tem
origem numa biografia que estará a preparar sobre Pulido Valente): “O erro da
narrativa de V.P.V. está na transformação dos livros de Eça em oráculos eternos
e infalíveis sobre o nosso século XIX e até sobre a nossa (alegada) identidade.”
Ora Pulido Valente diz precisamente o contrário. Leia-se “Um dia na vida de Eça
de Queiroz” em “Às avessas” de Pulido Valente para encontrar que “Eça iria permanentemente ignorar
o lado mais importante e politicamente decisivo da sociedade em que nascera”,
porque a “Lisboa que as estatísticas deixam adivinhar, a Lisboa das ‘vielas e
alfurjas’, dos miseráveis e dos delinquentes, dos operários e dos conspiradores,
nunca interessou a Eça. Olhava-a sempre como um estereótipo de folhetim.” Porque,
na verdade, Lisboa, “a que ele (Eça) entreviu em 30 de Março de 1867 (...) ninguém a escreveu. Ou quem a escreveu, escreveu mal, o que é o mesmo.”
Raposo recorre às palavras de uma colega de Pulido Valente,
para “repor a verdade”: “Ora, como bem explicou Filomena Mónica, a imagem do século
XIX deixada por Eça ‘não é verdadeira’.” Mas tal reparo é redundante, uma vez que
esta era, igualmente, a opinião do seu biografado. Raposo assim não o entendeu,
porque tal não era conveniente para a sua agenda, naturalmente.
Diz-se do físico Wolfgang Pauli que terá afirmado, quando lhe
pediram a opinião sobre determinado artigo científico: “Nem chega a estar
errado.” O mesmo se poderia dizer do artigo de Raposo. Causa-me pena, como disse
ao início. Porque concordando ou discordando das posições de Vasco Pulido
Valente, que leio há décadas, e tanto há por onde discordar, o que não há necessidade
é de ser desonesto intelectualmente para marcar um ou dois pontos de agenda
política. Raposo poderia, com tal esforço, produzir um trabalho sério que
fizesse jus à figura que biografa. Assim, não sabendo se se haverá de pautar
pelo rigor ou pelo ajuste de contas, que parece feito por encomenda, será
apenas mais um dos trabalhos de quem, como ele diz de si próprio, “escreve
o que for preciso”, que ficarão para as valetas de história.
22.2.20
Missiva sobre a festa magrebina
Recebo uma carta escrita
a tinta azul cobalto, onde reconheço a letra treinada nos clubes de Oxford do
ilustre J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado do Magdalen College,
atualmente a viver os seus anos d’oiro no amplexo cálido de subtil Orchidée.
Meu muito estimado amigo,
Fontes que não irei
identificar dizem-me que das janelas da sua casa se escapam, por estes dias, pungentes
melodias de alaúde magrebino, cantos lamentosos de mouras de olhos amendoados e
vozes felinas, cheiros de chás de menta e sementes de sésamo, despertares com
chamadas à fé, de muezzin (esta parte deduzi eu próprio). Dizem-me as ditas
fontes que não tarda, por este andar, e esse carão encovado com olhos de sono
inquieto, será em breve enquadrado por uma farta barba, à Cat Stevens após a
conversão em Yusuf Islam, que é aquilo que as minhas belas fontes esperam, que abrace
a fé islâmica, o que pelo menos terá como benefício que eventualmente decida
abandonar essas caves onde definha e abrace uma segunda existência, com sorte, breve,
como guerreiro santo no Sudão, no Afeganistão ou assim.
Acontece que, como o meu
amigo sabe, aqui na casa d’Andrada, a dulcíssima Orchidée é tomada de amores
pelo Carnaval. Este ano está a preparar uma festa d’época, onde os convidados
se deverão apresentar vestidos como se fossem magníficos cortesãos de Soleimão,
e onde serão servidas iguarias extraídas do livro secreto de receitas do cozinheiro
de Xariar. Para o meu estimado, haverá kebabs de seitan, shakshuka de soja e
outros pratos que fariam as delícias de qualquer adolescente sueca que faça
gazeta à escola à sexta e que serão, decerto, do seu inteiro agrado. Teremos
sempre uma açorda de acelgas brancas como reforço, caso estes pratos não lhe
quebrem a fraqueza.
Sabendo como é parca a
vestimenta do meu estimado e mais ainda quão falho é de imaginação para estas festividades,
Orchidée faz-lhe chegar, pelo portador desta missiva, o traje completo de califa,
turbante e chinelas incluídas. («Pauvre, pauvre, J., avec une âme si pure,
qu'il a tant de choses à penser, il sera si beau dans ce costume maure.») Cimitarra
também, mas só a terá cá, porque com o seu jeito e habilidade para todas as
coisas do mundo, ainda se imolava sem querer na lâmina afiada e lá teríamos a
inconveniência de interromper as festividades por sua causa. Mais que provável
desastre.
A capitosa musa minha anda
a preparar uma surpresa para os convidados, que eu não posso revelar, naturalmente,
e que envolve danças e véus e umbigos expostos como surgiram ao mundo. De Marraquexe
veio a propósito uma professora de artes de sedução e da tenda no jardim elevam-se
notas dengosas que enchem a casa de atmosfera de Al-Andaluz antes da chegada dos
feros sogros do Dom Manuel, um verdadeiro Alhambra no Restelo. Anda, a frágil
Orchidée, particularmente nervosa se o meu amigo, que tem fama de crítico
exigente das artes, gostará («Le pauvre, pauvre J. aimera-t-il cette simple
petite surprise?»). Já tranquilizei a doce orquídea, por isso, não me faça a
desfeita de não gostar. O mínimo que espero é o seu entusiasmo esfuziante!
Cá o aguardamos,
devidamente trajado, para esta festa carnavalesca memorável e da qual a única
condição é que não pode fazer qualquer “leak” lá naquele seu hebdomadária nas
internetes. «Ce qui se passe à Restelo, reste à Restelo», costuma dizer a
preciosa musa que enleia em mel os meus dias e em rosas as minhas noites.
Deste que muito o estima,
J. Eustáquio de Andrada
21.2.20
Calças quadradas
«É de Sponge Bob?», pergunto eu, a medo, olhando para o sorriso rasgado e os olhos redondos no traje amarelo de Pequena Joaninha, quando a encontro a entrar no carro, pela mão da mãe. «Não, é de peixinho», recebo a correção na volta, acompanhada de um olhar de tal modo gélido, leitora, que espero que a temperatura suba uns dez graus neste fim de semana, não para que as baianas sambem na Mealhada, mas para que o sangue se me descoagule e volte a circular, livre e abundante, pelas veias.
20.2.20
Meticuloso degustante
E foi enquanto eu bebia o chá das cinco que ele, sabendo-me meticuloso degustante, me recomendou a casa que tem mesmo «uns chás fora da caixa.» Lá irei, lá irei, e dela darei aqui novas. Eu sou comprador de chás avulso, que me são entregues em saquinhos de papel pardo com fitas verdes e etiquetas com instruções pormenorizadas de infusão. Chá, digno desse nome, para mim, tem que ser fora da caixa, na verdade. Já o pensamento, a esse quero-o livre de assentar onde mais aconchegado se sentir. Se for dentro da caixa, aninhado como eu aqui no sofá a escrever à leitora, pois deixá-lo assim, demorando-se, naquela preguiça que alguns, não impropriamente, confundem com felicidade.
19.2.20
A cotovelada
Dina Belenko
Quando Dona Patroa, que não me via há semanas, deu uma cotovelada a Dona Yara para se afastar do caminho para a máquina de cimbalinos, para ela, a Lei da Terra, me tirar o café, senti, leitora, senti, como se a Dona me estivesse a oferecer a mim, cliente pródigo por fim regressado, um ramo d’algo, quiçá de boas-vindas, quiçá de flores, quiçá de afetos.
Jacinto
Não sente a leitora também que esta existência em ambiente urbano é só um rito de passagem, uma nesga de tempo, uma fase, e que mais cedo do que mais tarde, é junto ao orvalho matinal nas folhas das árvores, no verde dos campos, longe da azáfama sorumbática das gentes citadinas, que está, na verdade, o lugar que nos pertence?
17.2.20
16.2.20
15.2.20
Noventa e nove minutos
14.2.20
Dia de entendimento
Quanto mais entendemos, mais amamos; quanto mais amamos, mais entendemos. Entender e amar são duas faces da mesma realidade. A mente que entende é a mente que ama.
[A partir de Tich Nhat Hahn.]
[A partir de Tich Nhat Hahn.]
13.2.20
Quadrante da inexistência
«E quando for assim, pergunte: que é feito daquela senhora de óculos», aconselha-me Dona Sandra, que me serve o melhor gin do mundo ao fim da tarde, no bar, quando lhe disse que senti falta dela nas últimas semanas, que até tive cuidados, por onde andaria? E, de facto, não perguntei a outros, só a ela, e foi agora. (Brilharam-me os olhos de lhe brilharem os olhos, quando lho disse.) Hoje senti falta, mais ainda do que ontem, ou de anteontem, também de Dona Vera, que me ajudava a manter o barco no rumo calculado com sextante e que foi, há umas semanas, como agora se anuncia nos pregões modernos, «abraçar um novo desafio.» Bem lhe mando cumprimentos pelo marido, mas por recato, ou pudor, nunca lhe disse para lhe levar novas da falta que cá faz. Protelo o inevitável. Pois quanto à leitora, decidi não protelar as palavras, que não podem ficar tolhidas, que exigem ser livres como gaivotas: faz cá falta a leitora, e não pouca, pois que é para ela que estas frases são aqui alinhadas. Não fora a leitora, que seria destas congeminações, e daquele que as comete amiúde? Em que quadrante da inexistência perdurariam?
Alfa e ómega
A fonte mais perene de agravos do meu eu atual é o meu anterior, em geral por subestimar o quão incompreensíveis e obscuras as suas decisões apareceriam a um homem mais descontextualizado, mais velho, mais impaciente para com o não essencial, ou seja, a mim.
E para ti?
Infinitamente existiu Beatriz para Dante. Dante, muito pouco, talvez nada, para Beatriz.
[Jorge Luis Borges]
[Jorge Luis Borges]

