24.4.18

Espicaçar

«Tens que me espicaçar, estou muito cansado,» diz-me. O cansaço não tem balança, modo de comparação, escala sequer. Talvez eu esteja mais do que ele, penso, mas não lho digo ao telefone. Inspiro o ar fresco da tarde, tomo as rédeas às palavras e espicaço: a ele, a mim, por Deus, espicaço pelo passado e pelo futuro. Já que é para espicaçar — deixo de ser só eu: chamo a multidão ululante, espicaçante, que aguarda em mim. O cansaço que aguarde a sua vez.

A chave

Eis a chave para entender Borges [estava apenas semioculta na porta de entrada]: «É o mesmo argumento de outros contos meus; eu apresento coisas que parecem presentes, que parecem dádivas, e depois descobre-se que são terríveis.»

[A propósito de Funes, O Memorioso, o seu melhor conto — ou assim dizia ele que diziam dele. A chave para entender Borges é também a chave para entender a vida; apenas costumamos deixá-la perdida por aí, e surpreendemo-nos, até com algum júbilo,  quando a reencontramos.]

23.4.18

Dente-de-leão

O canto do pássaro do beiral a esta hora indecisa que antecede a alvorada é, claramente, mais importante que o livro que estou a ler. É para esse canto que voa a minha atenção, pedindo de empréstimo as asas que são agora de pouco uso ao canoro — enquanto ele faz a sua serenata à beira do meu volátil pensamento, tão firme quanto um dente-de-leão.

22.4.18

Tarefa interminável




Os poetas são os mondadores da língua.



Mudança de tempo

Quando o céu começou a escurecer e uma brisa fria se acomodou junto ao muro da casa, o gato deixou o tejadilho do carro, espreguiçou-se e tornou a deitar-se, agora no chão, de orelha a roçar o tubo de escape. Distendido, abrigado, voltou a fechar os olhos e assim adormeceu, com a face em paz.

O infinito pela janela

Compadecido por me ver sentado no café com os olhos fixos no infinito filtrado pela janela, o ocupante da mesa ao lado, portador de bigode camiliano, pergunta-me em tom generoso: «Quer o jornal de hoje?» Sem aguardar resposta, entrega-me o «Correio da Manhã» dobrado, encostando-o à minha chávena meio vazia. Agradeço a boia de salvação não solicitada, bebo de um trago o que resta do líquido escuro quase frio e mergulho na realidade paralela do matutino. Indiferente à transação, a ocupante da mesa seguinte, cuja cor dos botins condiz com a das unhas, continua mergulhada no ecrã do telefone. Estava já tão salva do tédio da inatividade que ao meu vizinho pródigo nem ocorreu socorrê-la, presumo.

O silêncio

Os pássaros alvoreceram, irrompendo num canto bordado em despique marialva. Depois, cumprida a inquietação, calaram-se, em silêncio tão profundo que, atento, consigo ouvi-los respirar. Perto, o gato refugia-se num sono impassível, enrolado como as pétalas de uma rosa.