22.1.21

Memorial do confinamento #9

O problema era que a cadeira era demasiado confortável. A outra, a sueca, de linhas mais direitas, mais austera, já estava comprada há muitas semanas para a substituir, mas ah, o conforto da anterior, aquele doce aninhar de uma cadeira a fazer de casulo, nascida como se ladeada por cintos de segurança. E foi assim que ao olhar para a cadeira do novo presidente de todos os americanos e perceber que tinha um ar mais desconfortável do que a cadeira do anterior, presidente só de alguns, percebi que também para mim estava na altura de mudar para a cadeira mais espartana, funcional, fria, nórdica. Se é altura para mudar na sala oval, mais será no escritório retangular. E há pouco, entre o vernáculo que se escoa entredentes nestas alturas, e entre chaves e entalões e parafusos, enquando partia de um monte de peças soltas para obter finalmente uma obra acabada, digna de desenho algum dia, fui pensando em como dar aqui a nova à leitora. Esta minudência inconsequente foi, assim, concebida aos bocados, não sem pecado, antes lardeada de profanidades. Mas já está, e é sentado nela que escrevo esta e escreverei as próximas, assim a estimada esteja aí para as ler. Janeiro é sempre tempo de grandes decisões para este que lhe escreve, e a cadeira é a decisão do mês. Retrospetivamente, tenho que a ir escrever nas decisões para dois mil e vinte e um. Ao menos assim, já tenho uma cumprida. Como o arqueiro que desenha alvos em torno das setas, prevejo que deste modo, de acerto em acerto, este venha a ser um ano em que cumpro todas as determinações. A leitora ainda não conhecia este meu otimismo irritante, pois não?

21.1.21

Memorial do confinamento #8

Prefiro as pequenas superfícies: a página de um livro a descobrir, uma folha de papel antes do primeiro traço, uns centímetros quadrados de pele suavíssima. Mas hoje, precisei ir logo ao amanhecer a uma das grandes, das superfícies grandes, daquelas onde me perco com ou sem mapa (perder-me, é como tema nestas minudências, uma constante, uma forma de estar, um modo de afirmação). Enganaram-me na entrada, enganei-me no estacionamento, desesperei a procurar o que queria: «É melhor perguntar além ao meu colega.» «Mas foi ele que me mandou vir falar com o senhor.» Solucionada a minha demanda, no regresso dou de frente com a superfície frontal da depressão Hortense. Mal encarada como o segurança do estacionamento onde me perdi. À superfície, até parece que o mundo conjurou hoje de manhã para me deprimir. E logo um nome tão bonito, Hortense, a nomear uma depressão: Hortense devia nomear explosões de verde, não implosões em cinzento. Salvou-me, ao chegar, uma fatia de queijo manchego, aconchegada numa fatia de pão de trigo. Duas pequenas superfícies, lá está, foram o bálsamo para o vinagre da grande. Em querendo a leitora, já sabe, ainda há manchego, que o bálsamo quando nasce é para todos, diz o ditado ou, se não diz, devia dizer.