22.6.18

Parágrafos

Na prosa, escrevemos parágrafos. Cada parágrafo é um poema.

[Jack Kerouac]

21.6.18

Irreversível

Ainda que a trovoada de madrugada o pretendesse negar, é o perfume do arvoredo em frente trazido pelo vento da noite que me sussurra que a chegada do verão é irreversível.

Ponte aérea

De cada vez que um avião passa, um poeta interrompe o dizer de um poema. Somos poucos na assistência, é ao anoitecer, estamos ao ar livre, no que foi o quintal de um poeta que não ouvia aviões. E ao  começarem as leituras, parece iniciar-se também um êxodo, como se os poemas tivessem despertado os aviões adormecidos, que ziguezagueiam por entre as vozes dos poetas. Falam mais alto, sempre que um avião se faz ouvir, mas é inútil lutar contra estas toneladas de metal volante. Param os poetas, e ouvimos os aviões transportarem o rugido para mais longe, até se tornar apenas um sussurro e depois, nada. O poema pode prosseguir, que outro avião espera, ainda longe de audição, o próximo. A poesia é a pista de aterragem desta ponte aérea.

19.6.18

Roda vinte e nove

Apreciei-lhe o jeito dramático de falar, a ênfase dada às palavras como um Ary dos Santos fora de tempo, modelando a voz como se a cavasse a golpes de pá; ouvi-lhe as opiniões fortes, o tom desencantado e as desconfianças com o rumo do mundo; respondi com palavras de compreensão, que lhe provocaram acenos vigorosos de cabeça. Exames feitos, enquanto digitava a receita no computador, a conversa desviou-se para outros trilhos, e ele, como se fosse um avô desvelado a apresentar o neto, mostrou-me, no telefone, a imagem da bicicleta. «Roda vinte e nove», disse-lhe eu e ele confirmou, boa para as subidas e terrenos planos; não tão boa nas descidas. A roda vinte e nove não ajuda sempre aí, confirmei-lhe. Durante mais de quarenta minutos, ouvi-o, retorqui, acrescentei, argumentei. Notei que, enquanto falava da vida de fim-de-semana, se evadia das quatro paredes, e andava, feliz, tombando e arranhando-se por veredas estreitas e barrancos vertiginosos. Com a amargura inicial já distante, não soube, nunca saberei, quem é que consultou quem, afinal.

Futebóis

Dona Patroa apanha-me já à saída, já depois das cerejas e do café, e diz-me em tom de confidência: «Doutor, amanhã vamos ter aqui o futebol.» E eu, disfarçando o melhor que sei a minha desoladora ignorância: «Ai sim? Pois, amanhã é quarta. Mas que bom...» «Não deixe de vir, que vamos ter tremoços e bifanas para acompanhar», diz-me a Dona, com notas de sigilo precioso na voz, como um fado cantado em sussurro. Todos nós temos Amália na voz, cantava o poeta que era também barbeiro. Não sei se tenho, penso eu, e talvez também não tenha também os futebóis no coração. Mas vou, pelo menos, considerar: não me lembro de alguma vez ter comido tremoços aqui nesta esplanada e agrada-me a aventura de experimentar algo novo. Quem sabe se não concluirei que o futebol está para os tremoços como os ditos estão para uma cerveja bem gelada, em copo a transpirar de frio, ao fim da tarde, frente ao mar?

[Não se amofine a leitora que eu já descobri, pelos meus próprios meios, que estes tremoços são à hora de almoço, combinação mais improvável não imagino, se posso dar a minha opinião.]

17.6.18

Regressamos diferentes

De cada beijo regressamos diferentes
ou não regressamos.

[Maria Gabriela Rosas]

Nota diplomática

Após ter invadido o sul da Grécia e conseguido a submissão de outras cidades-Estado, Filipe II da Macedónia, dirigindo-se aos espartanos, perguntou-lhes qual das duas hipóteses preferiam: que chegasse a Esparta como amigo ou como inimigo. A resposta veio, breve: «Nenhuma». Impaciente, na mensagem que enviou de volta, ameaçou-os de que se viesse a entrar nas suas muralhas, não deixaria pedra sobre pedra. Em resposta, recebeu a nota diplomática mais curta de sempre: «Se».

[Três séculos antes de Cristo, Filipe e o filho, Alexandre, criaram um império que se estendia da Grécia até à India, mas nunca entraram em Esparta.]

16.6.18

A ponte

Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei.

[Amalia Bautista, tradução de Inês Dias.]