27.5.17

O que procuramos na livraria

Chama-se Kalathos e é uma livraria em Caracas, onde nunca estive. Todos os dias dá a conhecer ao mundo o que se passa no seu espaço, e se é muito o que lá acontece. As leituras de poesia sucedem-se, como os lançamentos de livros, uma vez que também é editora, uma pequena editora. Vejo as capas: não são, não podem ser, ilustradas, coloridas como as dos nossos livros. São discretas, de elaboração económica, simplificadas. Mas o conteúdo dos livros dos escritores venezuelanos é vivo, intenso, urgente. Hoje a Kalathos anuncia um ciclo de sessões de meditação. No primeiro dia: meditação para perdoar. Nos seguintes: para curar, contra a dor, contra a angústia. Não está fechada sobre si, portanto. Mas nunca vi uma referência às dificuldades que decerto enfrenta. Nem um lamento. Num país onde tudo falta, um grupo de gente que gosta de livros, decerto, percebeu que as livrarias não vendem histórias ou poemas impressos em papel. Não. As pessoas vão à livraria à procura de esperança. E isso, aquela tem para dar e vender.

o paradoxo dos dias

os dias contam
quando o tempo
não conta

26.5.17

de asas bem abertas

deu-lhe a mão
e assim voaram juntos

Olhar clínico

Chego tão cedo ao café que Dona Aureliana ainda está a tomar o pequeno-almoço. É o seu café doutor, pergunta ela afirmando, com aquela fala lá dela que atravessou o equador, enquanto se dirige para a máquina adormecida como o dia, ainda. Sai o café e a Dona de pronto o rejeita. Sai o segundo e a Dona aplica o seu mais clínico olhar para dentro da chávena, analisando em pormenor a tonalidade e espessura do creme cor de creme. Espero que este esteja bom, doutor, diz a Dona, é o primeiro do dia. Ora essa, pois há-de estar, nunca aqui um café saiu mal. E é verdade leitora, o café cuja última gota arrefece aqui ao lado enquanto escrevo esta minudência inconsequente, estava excelente. Como a manhã, aliás. Ou a disposição da leitora, espero.

24.5.17

o princípio foi assim

ela encontrou-o à beira de se afogar
e ensinou-o a respirar debaixo de água

O mundo a avançar assim

Para ouvir falar de como o mundo está a mudar, o Senhor Jaime vestiu o fato cinzento escuro que mandou fazer por medida naquele alfaiate que até lhe arranja uns preços em conta, colocou a gravata de seda azul como a do presidente, os botões de punho com aplicações de laca preta, oferta de Natal de há dois anos, enfrentou duzentos metros de trinta e cinco graus de temperatura de um verão impaciente, porque já não havia lugar ali no parque junto à porta grande, abriu um sorriso rasgado e encolheu a barriga quando a gerente que o convidou para o evento o encontrou finalmente, Que bom ter podido vir, Senhor Jaime, aproveitou e comeu dois folhados de salsicha, um pastel de nata e um croissant misto, bebeu três copos de sumo de laranja para hidratar, porque quem vai ao mar avia-se em terra, arranjou um lugar bem no centro e enquanto o mundo mudava lá no palco em baixo, o Senhor Jaime dormiu um sono justo, que isto ao fim da tarde bate o cansaço e já se sabe. Lá diz o poeta, quando um homem sonha o mundo pula a avança. E tão bem que o Senhor Jaime sonhou naquelas três horinhas. Que regalo, o mundo a avançar assim.

A poesia segundo os prosadores

Ao ouvir há pouco o início de Cem anos de solidão lido por Gabriel Garcia Marquez compreendi, talvez de forma mais límpida que nunca, que a distinção entre prosa e poesia é tanto fruto de convenção como as linhas de fronteira. Ao passar entre Portugal e Espanha, o que é que difere no solo dos dois países? Em que é que aquele início (ou meio, ou fim) da obra de Marquez se distingue dos escritos de Paz ou de Neruda, se lidos pelas respetivas vozes, as que conhecem a pauta original do texto? Serei duro de ouvido, talvez, mas não encontro maior musicalidade em Canto Geral do que em Cem anos de solidão. Todas as restantes circunstâncias permanecendo iguais, a minha bitola de aferição é o texto dito. E este é musical ou estridente. Os guardas fronteiriços só existem para assegurar que o que é artificial é tomado como natural. Se for estridente, nunca será poesia, por mais balas que os carabineiros gastem a defender o indefensável.

23.5.17

Como um samurai com um sabre tão afiado

Talvez ela suspeitasse, mas julgo que nunca acreditou verdadeiramente no poder que a inteligência dela exercia sobre ele. A mente dela era como um sabre tão afiado que cortaria num golpe uma folha a pairar. Ele imaginava o movimento e o golpe e a cisão da folha e sobrevinha-lhe o enlevo. Quem maneja o sabre, pensou, não lhe consegue ver o brilho do fio como quem o observa. Esse brilho, replenava-lhe os olhos. Era o seu prazer secreto: pois como descrever a luz a quem a emite?

fascinação

é ver o mundo visto
pelos teus olhos

O prestidigitador

Não vi como o fez, mas o Senhor Variações entregou-me o café e o troco de uma só vez, como se trouxesse a moeda na mão já antes de eu retirar as minhas da carteira. Ou eu sou previsível, ou ele é prestidigitador. Ou então existem mesmo mágicos no mundo, escondem normalmente bem o dom mas, de vez em quando, deixam escapar inadvertidamente um bocadinho de magia. Afinal, até os mágicos são humanos.

Definição pela repetição

Há quem repita toda a vida as mesmas poucas frases. Até que estas almejem definir toda a sua existência.

[A partir de Chantal Maillard.]