25.9.16

Sete magníficos samurais

Lukas pode ter-se inspirado em Kambei Shimada d'Os sete samurais de Kurosawa para criar Yoda. Sturges mais do que se inspirou n'Os sete samurais para criar os seus Os sete magníficos — mudou o filme do Japão para o Oeste americano, como Lukas mudaria depois os filmes de Kurosawa para o espaço. Fuqua, por sua vez, transporta os magníficos pistoleiros para o século vinte e um, sem os retirar do século dezanove, e das rochas áridas e estéreis, que parecem apenas dar cactos e ouro. Eu gostaria de ver o Chisolm de Denzel Washington, no espaço de Lukas, numa revisão a sério da Guerra da Estrelas. Isso seria pedir demais, acredito. Para já, e em termos de magnificência, tenho que me ater a'Os sete magníficos de mil novecentos e dezasseis. Fuqua não é Kurosawa, mas é tão bom como Sturges. Como as coisas andam em termos de cinema, isto é um grande elogio, acredite a leitora.

24.9.16

palavras brancas

alguém se divertiu
a pintar mil
palavras a branco
sobre a aguarela anil
do céu
sendo eu eu
já lá leio saudade
e no teu nome
entrelaçado leio
o meu

Francisco de Orellana

Foi Oviedo, o historiador, que concluiu que não, não eram verdadeiras amazonas, ao contrário do que Francisco de Orellana e seus companheiros, os primeiros a subir o rio majestoso, julgavam sobre aquelas mulheres altas que os atacavam com setas envenenadas, as que mataram García de Soria e feriram Antonio Carranza. Tinham ambos os seios, e não apenas um, como as da mitologia grega, disse Oviedo. Disse, mas tarde: o rio de Orellana já tinha ganho o nome pelo qual é conhecido ainda hoje, Amazonas.

Raciocínio em forma de fita de Moebius

Se as gentes não subestimassem a beleza da luz da cidade ao sábado de manhã cedinho sem sombra de gentes, levantar-se-iam cedinho ao sábado de manhã só para a degustar.

23.9.16

mar espelhado espalhado

aqui
nesta pedra
alguém sentou
olhando o mar
o mar
não parou
pra ser olhado
foi mar
pra tudo quanto é lado

[sentado a olhar o mar na pedra de Paulo Leminski]

Homo sapiens

Chelsea Manning tentou suicidar-se na prisão Como pena foi condenada/o a catorze dias de solitária. Para pensar bem no que fez (e, eventualmente, descobrir onde falhou).

Elevação

Tarquinio Merula, Folle è ben che si crede

22.9.16

Uma certa inocência

Assim há que dizer as coisas literárias: com uma certa inocência.

[Borges, citado por Bioy, em Borges.]

O poder em abstrato

Durante a guerra fria, a CIA promoveu secretamente o movimento do expressionismo abstrato, ao qual pertenceram Rothko, Pollock, Sobel ou Newman. Foi a CIA que ajudou a organizar a exposição The New American Painting que percorreu a Europa em 1958/59, na altura em que Khrushchev ameaçava o Ocidente com a aniquilação nuclear (a frase recordada na canção Russians de Sting: Mr. Khrushchev said we will bury you). Motivo: tratando-se de pintura abstrata a interpretação podia ser a que fosse mais conveniente para a época. Não que os pintores se alinhassem politicamente com as ideias do governo americano de então, antes pelo contrário: Rothko e Newman, por exemplo, eram anarquistas. O que levanta uma questão: agora que se sente a brisa gelada de uma nova guerra fria, qual deve ser o papel dos artistas — abstraindo-se, precisamente, e deixando que as suas obras sejam apropriadas e instrumentalizadas, ou tomando decididamente partido, sem margem para dúvidas, como a seu tempo o fizeram Picasso ou Goya? Não há resposta unívoca, creio, mas há hipótese de reflexão.

Ilusão

Janet Sobel, Illusion of solidity, 1945
[Não fosse Janet Sobel a estrear o caminho e provavelmente não haveria Pollock como o conhecemos.]

Veroño

O calendário pode assinalar a mudança, mas eu agarro-me ao verão por mais um bocadinho. Ainda noto sinais dele na sombra que projeto nos arbustos abertos em verde, na esplanada que me acolhe e me mantém o café quente enquanto me alongo nas escritas inconsequentes, no coral dos pássaros que ouvi agora mesmo. Adoto um termo castelhano para esta transição, até o mantenho no original: veroño. Os outros que se mudem para o out(r)ono. A minha estação é o veroño.

21.9.16

A dieta secreta

Diz Dona Aureliana ao almoço, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Vai querer com batatas fritas, doutor? As minhas batatas não engordam, eu lhe garanto. Eu bem sei que as batatas foram fritas por Dona Aureliana, assim como a sopa foi mimada por ela também. (A minha sopa é a melhor do mundo. Se não estiver boa, doutor, é porque foi feita pela minha patroa.) Diz Dona Aureliana: Eu como de minha comida, e olhe aqui. De facto, Dona Aureliana, de facto. Mas isso é a senhora, sabe. Eu, se comer batatas fritas... Dona Aureliana faz um olhar de quem compreende a questão das batatas que mesmo não engordando, engordam, se forem para mim. Além de que eu, fritos, sabe, Dona Aureliana. Dona Aureliana sabe. E traz-me o prato recheado de todas as cores que consegue roubar ao arco-íris: o verde novinho da alface, o roxo pós-cardinalício da beterraba, o rubro desmaiado do tomate, e ainda a dose generosa de amarelo tinto de laranja da cenoura hippie. Menos o dourado, o das batatas. As tais que não engordam: as desinfelizes. Tanta ciência para inventar batatas fritas incalóricas (a palavra foi neologisada agora, a leitora desculpará) e depois, é isto: o cliente sacia-se é de beterraba. Uma desinfelicidade, na realidade.

Arcanjo


Da longitude mais distante, regressar a Corelli tem sempre o sabor de um retorno a casa. 

[Concerto em Ré Maior, Opus 6, Número 4.]

A língua portuguesa, esta riqueza com um oceano de permeio

Pra gente aqui ser poeta
Não precisa professor.
Basta vê no mês de maio
Um poema em cada gaio
Um verso em cada fulô.

[António Gonçalves da Silva, conhecido por Patativa do Assaré, citado por Rubem Alves em Ostra feliz não faz pérola.]