22.11.17

Não, não sou o único

Hoje, leitora, não sou o único na esplanada. Depois de me ter inteirado das novas sobre os dentinhos da pequena Soraia [cortesia de Dona Yara], sentei-me aqui numa das minhas mesas favoritas, aqueci as mãos na chávena, olhei em redor e detive-me na outra cliente em linha de vista, a três mesas de distância. Chamou-me a atenção por ser tão jovem, tão jovem é, estar a ler tão concentrada, e logo um livro RTP, dos originais, com mais décadas do que ela leva de existência, decerto. E não só lê para dentro, como para fora, com os lábios marcando o silêncio entre as palavras. Aqui não ouço, três mesas são muitas mesas, mas se estivesse mais perto, chegar-me-iam as frases aos ouvidos, talvez eu me encantasse também. De vez em quando pára e sorri, embevecida com o que acabou de ler. E eu viro a cabeça, e noto por detrás do meu ombro esquerdo, a duas mesas na diagonal, um casal a olhar para ela, com ar entre o espanto e a inveja, porque só se pode ter inveja de tal mergulho no mundo das palavras. É quando me disponho a espantar-me também e olhar o céu, admiravelmente azul depois do amanhecer cinzento. Não, não sou o único na esplanada, mas agora, leitora, sou o único a olhar o céu.

21.11.17

Alojamento local

Há poemas que entram no corpo através do cérebro,

mas que se alojam por detrás do esterno,

adjacentes aos orgãos vitais,

entre o coração e os pulmões.

É Hefesto que pergunta

Se diante deles, deitados no mesmo leito, surgisse Hefesto e lhes perguntasse: «Que querem um do outro?» E se, perante o seu embaraço, de novo lhes perguntasse: «Porventura é isso que desejam, ficar no mesmo lugar, o mais possível um para o outro, de modo que nem de noite nem de dia sejam separados? Pois se assim o desejam, fundir-vos-ei e forjar-vos-ei numa mesma pessoa, de modo que de dois se tornem um só e, enquanto viverem, possam viver como uma só pessoa  e na vida depois da vida, no Hades, em vez de dois serem um, num corpo comum.»

Após ouvirem estas palavras, sabemos que nem um só diria que não, ou demonstraria querer outra coisa, mas antes pensaria ter ouvido o que há muito desejava: sim, unir-se e confundir-se com o ser amado — e de dois ficarem um só.

O motivo é que a nossa natureza original assim era e nós éramos um todo — é portanto ao desejo e procura do todo que se dá o nome de amor.

[Adaptado de O Banquete de Platão.]

Coração nas mãos

O que eu não faço pela leitora. Aqui na esplanada, onde sou o único utente, teclo sujeito à brisa matinal, dedos curvados sob o peso do frio emergente, ar fresco como sistema de arrefecimento sub quinze, recordando-me que sim, que estamos no final de novembro, apesar do azul escandaloso para esta altura do ano. Não que ao café falte freguesia: Dona Yara e Dona Aureliana, daqui ouço-lhes as vozes, desdobram-se servindo bebidas quentes e crescentes aquecidos a clientes com sobretudos e cachecóis. Mas os clientes não se atrevem ao ar livre. Eu, ainda convencido que estamos na primavera, estou sintonizado no sol, até no trajar, desafiando convenções e arrepios. Em breve terei que me render à evidência, a terra continua a sua elíptica viagem em torno do sol, e nada que eu faça ou pense, a fará estacar no espaço. O frio está a chegar, e é desvario inútil tentar detê-lo com esta teimosia de eterno veraneante. Embrulho a chávena entre os dedos, roubo todo o calor que posso e escrevo tão depressa quanto consigo esta minudência inconsequente. Escreve-se para aquecer o coração, como toda a gente sabe, mas desta vez, também para aquecer as mãos, o que é especialmente útil para quem anda com o primeiro nas segundas. É o caso.