20.9.17

Sair a dançar de manhã

Daqui da esplanada ouço Dona Aureliana a cantar no café. É cedo, estamos apenas três sentados cá fora, as Donas lá dentro, cirandando, e Dona Aureliana chegou dançando, ao som de uma música lá da terra dela, que atravessou o equador. ‘De manhã é que se dança o dia,’ digo eu e ela responde ‘É preciso é alegria logo ao amanhecer’ e é, porque não havendo de manhã, quando é que há, penso eu? A alegria é assim uma espécie de peixe fresco, não é leitora? [E se esta não é a pior metáfora da história deste blog, também não é a melhor, não.]

Conto os trocos, as moedinhas de cobre oxidado, para aliviar a carteira do peso e pago assim o consumo. ‘Darão mais jeito à senhora do que a mim, decerto, Dona Aureliana,’ digo eu. A Dona faz um sorriso mefistofélico, e assegura-me, ‘Vou guardar aqui à parte e amanhã vou devolver todos ao doutor. Eu gosto é de ser assim má.’ E sai a dançar ao som da morna que se ouve em fundo. E eu não acredito nela. Isto é, quem dança pela manhã não pode gostar de ser má, assim. Mas amanhã é capaz de me devolver os trocos, nisso acredito.

19.9.17

um ser quase

reconstróis

me?

Dar alguma ordem a nós próprios

Willem de Kooning, Composição, 1955
A atitude de que a natureza é caótica e que o artista tem que a ordenar é um ponto de vista absurdo, penso eu. Apenas podemos esperar dar alguma ordem a nós próprios.

[Willem de Kooning]

O meu paradoxo com os blogs

Apesar do carácter transitório, volátil, flutuante, de um post, que tem como destino inevitável desaparecer no fundo da página, que tende para o fundo do tempo, tenho para mim que os melhores blogs, ou aqueles a que volto com mais ânsia, ou aqueles que começo a ficar inquieto se levam dias ou semanas sem atualização, são precisamente os que mais se aproximam da intemporalidade, que por uma qualquer combinação mágica de talento, bom senso e bom gosto, conseguem, sei que conseguem, arrancar-me um ‘ah, caramba’ quer os leia agora, quer daqui a um ano ou três. São raros, delicados, preciosos, e ah, caramba, não sei sequer se o sabem.

18.9.17

Vibrações na alma

Wassily Kandinsky, Vermelho e azul, 1926
A cor é o teclado, os olhos são as harmonias, a alma é o piano com muitas cordas. O artista é a mão que toca, uma corda ou outra, para causar vibrações na alma.

[Wassily Kandinsky sobre a pintura como outra forma de música.]

17.9.17

Suave melodia


Andrea Falconieri, La Suave Melodia

Conversas leves que dissimulam o enamoramento

Há muito de decisão elementar e arbitrária, também estética ou presumida (olhamos em volta e dizemos: ‘Combino bem com ela’), nesses amores que por força começam com timidez, com olhares breves, sorrisos e conversas leves que dissimulam o enamoramento, o qual no entanto se vai enraizando a seguir e parece inamovível até ao fim dos tempos.

[Javier Marías, Berta Isla, versão de x.]

16.9.17

A ver o mar

Hoje encontrei o mar exatamente com a cor das nossas palavras.