17.6.18

Regressamos diferentes

De cada beijo regressamos diferentes
ou não regressamos.

[Maria Gabriela Rosas]

Nota diplomática

Após ter invadido o sul da Grécia e conseguido a submissão de outras cidades-Estado, Filipe II da Macedónia, dirigindo-se aos espartanos, perguntou-lhes qual das duas hipóteses preferiam: que chegasse a Esparta como amigo ou como inimigo. A resposta veio, breve: «Nenhuma». Impaciente, na mensagem que enviou de volta, ameaçou-os de que se viesse a entrar nas suas muralhas, não deixaria pedra sobre pedra. Em resposta, recebeu a nota diplomática mais curta de sempre: «Se».

[Três séculos antes de Cristo, Filipe e o filho, Alexandre, criaram um império que se estendia da Grécia até à India, mas nunca entraram em Esparta.]

16.6.18

A ponte

Se me dizem que estás do outro lado
de uma ponte, por estranho que pareça
que estejas do outro lado e me esperes,
atravessarei a ponte.
Diz-me qual é a ponte que separa
a tua vida da minha,
em que hora negra, em que cidade chuvosa,
em que mundo sem luz está essa ponte,
e atravessá-la-ei.

[Amalia Bautista, tradução de Inês Dias.]

15.6.18

Em diferido

Aqui na esplanada vazia, enquanto me fascino com a pequena coruja vidrada balouçando à brisa do anoitecer, ouço primeiro os gritos de júbilo provindos do lado direito e, um segundo mais tarde, do restaurante do lado esquerdo. Posso estar com as mãos tão geladas quanto a cerveja que morre sobre a mesa, mas chegam-me as novas antes de aos que se abrigam atrás destes vidros. As notícias mais frescas sei-as eu, mais do que eles, literalmente.

14.6.18

Um olhar célere

George de La Tour, Fragmento de A Vidente, 1630
É um olhar célere o da rapariga. Sagaz. Um ângulo de visão que só por si será capaz de dar a volta ao mundo inteiro.

[João Miguel Fernandes Jorge]

Kizomba

«É a origem da kizomba», ouço aqui na esplanada Dona Aureliana a explicar à clientela lá dentro, a música ondulante que sai do rádio, prenunciando o calor tropical que dizem que aí vem para a semana. «Animada, a música», asseverava eu, enquanto a Dona colocava em cima do balcão a chávena com aroma a outras terras. «É para eu acordar, doutor. Tenho tanto sono...», respondeu a Dona, enquanto rasgava o sorriso alvíssimo, mais desadormecido que os meus olhos semicerrados. Cada um desperta como pode, mas com este café e esta música, hoje desperto como se estivesse do lado de lá do equador, de onde vem a fala da Dona. Falta-me o sol grande e o mar claro, mas creio que é só.

13.6.18

Silmarillion

«Olha, a Guerra e Paz», ouço ao lado, frente ao expositor repleto de livros, na última noite da feira, e vejo-os aos dois, talvez dezassete anos, borbulhas na cara, óculos, cabelos encaracolados, delgados e altos como bambus, um deles apontando os tomos com o indicador esticado. O destinatário olha, mas com ar interrogativo. O apontador apressa-se a complementar: «É assim uma espécie de Silmarillion.»

Ulysses

Num artigo do New York Times leio que o Ulysses de Joyce demora vinte e quatro horas a ser lido, em voz alta. Jack Hitt, o autor do artigo, quase ficou em êxtase quando teve tal epifania: «O decorrer do tempo na nossa cabeça é o mesmo que o decorrer do tempo no livro.» É bem visto, e faz sentido: afinal, vinte e quatro são as horas lá contadas da vida de Leopold Bloom, nas deambulações numa Dublin que, segundo Joyce, podia ser reconstruída a partir do livro, caso desaparecesse da Terra. O leitor avisado, munido de um relógio que faça contagem decrescente, pode sempre aferir quanto tempo lhe falta para chegar ao ponto final, final, que devia ser de tamanho desmesurado, de uma moeda, mas tem perdido tinta ao longo dos anos, até chegar a ser um ponto igual aos outros (mas mais negro, afirmam alguns editores). Suspeito que a contagem resulta apenas na versão original, tenho dúvidas nas traduções, particularmente na portuguesa, língua não bafejada pela concisão. Bloom iniciou a volta a dezasseis de junho, em mil novecentos e quatro; cento e catorze anos depois, seria boa oportunidade para passar vinte e quatro horas na companhia dele, de Molly e até de Harry Thrift, um ciclista que pedalava por Dublin por esses tempos. Na próxima sexta, poderia anunciar, com precisão: «Já só me faltam dois dias para acabar de ler Ulysses no original.» Seria uma mentira tão piedosa que pareceria, até, bonita.

Caderno diário

Eram oito e trinta e quatro quando o pássaro do beiral, que tem andado ausente em lugares ignotos, abriu o bico e trinou. E trinou, por Deus, trinou como se tivesse estado em debate de mérito de Alfama versus Mouraria até ao alvorecer, por entre vielas mal iluminadas, com cheiro a sardinhas, vinho tinto e cigarros de enrolar. Trinou, com o pio metalizado de quem passou a noite a debicar copos alheios aproveitando as distrações e benevolências das hordas noctívagas que se acotovelaram pelas ruas estreitinhas que levam ao Castelo, como os cruzados de Ricardo que vieram, viram, venceram e se prostraram a canjirões de vinho oferecidos pelos libertados, senão pelos vencidos. Trinou, e até me pareceu encontrar no canto a vocação da Rua da Betesga, ao Rossio. Exausto com tal hercúleo trinado, calou-se; passaram-se três horas e mantém o silêncio. Tirou o feriado para dormir, alvitro eu.