9.12.16

Frederico Lourenço: Prémio Pessoa 2016

Perdidas nas estantes, mas encontro-as num instante, estão as traduções da Ilíada e da Odisseia, dois espessos tomos, a que retorno com frequência; perdidos estão também livros de crónicas dos mais antigos (Valsas Nobres e Sentimentais, por exemplo) até ao mais recente O Lugar Supraceleste. Está também A Obra Aberta que foi uma espécie de prólogo para o primeiro volume da tradução da Bíblia, uma das leituras correntes atuais. Não perdidas, muito presentes até, estão as palavras trocadas ao longo de anos com alguém por quem nutro uma profunda admiração pessoal e intelectual. O Pessoa 2016 foi atribuído a uma pessoa em pleno. Sinceramente, não creio que alguém merecesse mais este prémio do que Frederico Lourenço.

8.12.16

O espírito foi avistado a pairar sobre as ruas

Os condutores que vêm ou vão para os locais onde se trocam ofertas futuras por dinheiro presente apitam, esbracejam, atravessam os cruzamentos nas cores mais rubras dos semáforos, fazem inversões escherianas, denodamente contribuindo para fazer transbordar ainda mais o mar de trânsito estagnado que levará horas a regressar a níveis navegáveis. Quando finalmente emergirem, estarão decerto banhados em espírito natalício.

Balada de um mar em busca de sal

A diferença entre o turista e o viajante é que este aprendeu a olhar.

7.12.16

Amanhecer antes da esplanada

Apanho Dona Aureliana a cantarolar baixinho enquanto extrai o café da máquina inquieta e relevo-lhe a alegria matinal, que me escasseia ainda, antes da dose de cafeína redentora. Pela primeira vez, noto-lhe um sorriso tímido, quase sem jeito: talvez nos devamos abster de encontrar as gentes em estados de felicidade desprotegidos, venho a pensar, enquanto o café arrefece aqui, à minha frente e eu escrevo estas linhas à leitora.

6.12.16

A nadar contra a corrente

Esta tarde, enquanto à minha volta se bebiam chás fumegantes, resolvi pedir uma limonada gelada como se estivesse numa tarde de verão tardio, entalhado em dezembro. Face aos vinte graus que o carro indicava momentos antes, não foi grande rebeldia meteorológica: mais uma declaração de princípio, admito. O princípio de que um objeto adequadamente escolhido é uma máquina de viajar no tempo e no espaço. Embarquei na limonada e velejei nas arrecuas dos dias para outras coordenadas. Como sempre nestas andanças, o problema, leitora, o problema é encontrar o caminho de volta. É que me esqueci de deitar o fio que salvou Teseu, a limonada acabou, as horas também, e eu continuo perdido, nas tais coordenadas. E, pior, com uma vontade — tão preguiça — de por lá ficar.

5.12.16

Notícias de um inesperado (ou esperado?) nó górdio

As horas andam contadas, no meu mercado do tempo são bens escassíssimos apesar da quantidade ser fixa — se há um paradoxo que me perturbe, é este; os livros acumulam-se, não lidos, em estado de leitura, em estado de releitura (tantos), prosas, poemas, peças, diários, nacionais, de todas as línguas que consigo ler e de algumas que mal arranho, vinte séculos separando os mais antigos na lista dos mais novos; consigo contar livros provenientes de cinco continentes, uns estão em papel, outros usam tinta feita de infusão de eletrões. E no entanto, não há fartura que não dê em fome (os ditados também se abatem): falta-me que ler; falta-me gente que lia todos os dias ou sempre que escreviam, vá. Ando a sentir um vazio agudo de ler as prosas de algumas pessoas que gosto de ler e que ultimamente pouco publicam. Não têm culpa de eu, de forma desmesuradamente egoísta, bem sei, aguardar as suas linhas como um náufrago aguarda água fresca. É mais outro paradoxo: rodeado de água, morrer de sede. Mas neste momento é o que sinto. Caramba, há gente a escrever maravilhosamente nos blogs; e não tenho forma de os obrigar a escrever; e não consigo desobrigar-me desta vontade de os ler. Que nó górdio havia eu de arranjar!