27.7.17

Como diria o outro

Eu e Dona Yara falamos da pequena Soraia, leitora, que já vai à praia, ainda cedinho doutor porque não pode apanhar muito sol, diz-me a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador e um sorriso extremoso. A semana está quase a terminar, talvez no sábado ou no domingo a pequena Soraia volte a colocar os pezinhos na areia, já falta pouco Dona Yara, digo eu, com esta fala cá minha ligeiramente rouca, leitora, do ar excessivamente condicionado em que vivo nos dias cálidos. Só a esplanada me cura deste mal, Dona Yara, digo eu na altura da sobremesa. Tenho ali o remédio ideal, doutor, diz a Dona e traz-me uma fatia de bolo de chocolate, que está mesmo muito ótimo, afiança a Dona. Eu faço-me rogado, por uns dez segundos, aproximadamente. Depois, por motivos evidentemente terapéuticos, acabo por ceder, em decisivo xeque-mate. E não é que a voz melhorou? Não que tenha ficado maviosa, menos ainda muito ótima, que isso nunca será. Mas é natural, é a minha e está paga, como diria o outro.

26.7.17

Guardador de esperanças

Florival, que exerce a profissão de guardador de esperanças em Alfache, aprendeu o ofício com o pai, Idavide, que por sua vez aprendeu com o avô, Jansênio, que se dizia descendente em linha de sangue real de Nivaldo I, dito o Esperançoso, Imperador de Altineia e primo de Luis XIV, o Rei-Sol. Contava Idavide que, durante o grande incêndio que destruiu Axela, a capital de Altineia, vendo o desespero dos homens perante do fogo, incitou-os Nivaldo a atravessarem o grande rio Touro, vinde comigo sem medo, com esperança, para a outra margem onde estareis a salvo e de onde voltaremos para reconstruir a nossa cidade ainda mais esplendorosa do que antes, assim falou. Ele próprio foi à frente enquanto as labaredas corriam atrás dos axélios, rosnando como uma matilha de cães. Atónitos, os axélios viram o Imperador avançar sobre o rio, caminhando com as passadas largas com que atravessava os longos corredores do palácio logo que os primeiros raios de sol desenhavam estradas retas nas paredes que ligavam o chão ao teto. Os homens, as mulheres e as crianças descobriram então que podiam andar sobre as águas do rio, que as pequenas ondas faziam cócegas nos pés refrescados pela corrente. Os mais bravos, ou antes, os mais estouvados, começaram a correr e só não chegaram primeiro que o Imperador à outra margem porque era coisa de desrespeito fazê-lo. O cognome de Esperançoso nasceu dessa travessia, passou para os filhos e destes para os filhos dos filhos até aos berços de nascimento de Idavide e depois de Florival, que é, diz-se acima, guardador de esperanças em Alfache, fiel depositário de esperanças que podem ser reclamadas pelos próprios depositantes em alturas posteriores em que delas advenha escassez ou emprestadas a quem façam falta. Irmino, presidente da câmara de Alfache acumulou ao longo dos anos um precioso património de esperanças, das quais se tornou um grande depositante nos cofres de Florival. Nos dias em que o vento estaca e as nuvens estacionam em frente ao sol, ou nos dias em que as folhas das árvores vibram ao ritmo do ruído de fundo do cérebro, ou nos dias, enfim, em que os peixes no mar precisam de vir à tona para respirar, sufocados, Irmino vai visitar Florival, preencher o talão, levantar uma esperança. Então o vento volta a soprar, as folhas das árvores caem num sono de bebé, os peixes passam a respirar a plenos pulmões debaixo de água e Irmino volta para o edifício da Câmara a assobiar La donna é mobile, enquanto Florival anota a transação no grande livro do deve e do haver das esperanças de Alfache, com o sorriso lá dele, descendente do de Nivaldo, que atravessou o grande rio Touro a pé firme.

24.7.17

Viver na era da velocidade

No inverno de 1705 Bach empreendeu a sua viagem a pé para Lubeck, para ouvir Buxtehude. Talvez lhe tenha sido proposto assumir o lugar do velho organista e talvez o tenha recusado, porque o cargo trazia consigo um requisito extra-musical: quem o aceitasse teria que casar com uma das filhas do titular. Buxtehude, ele próprio, assumiu o lugar a 11 de abril de 1668 e casou com a filha mais nova do seu antecessor a 3 de agosto desse ano. Após uma vida bem sucedida no lugar, quando morreu, Buxtehude foi enterrado a16 de maio de 1707, e o seu sucessor, anteriormente seu assistente, foi nomeado a 23 de junho e viria a casar a 5 de setembro, com a filha do mestre. Não sei o que para mim será motivo de maior admiração: se esta tradição do emprego incluir noiva e boda, se a celeridade de todo o processo. Podemos achar que vivemos na era da velocidade: francamente, estamos deveras enganados.

Sonata a dois

Dieterich Buxtehude, Sonata V à due, Op. 2


[Para ouvir Buxtehude viajou Bach quatrocentos quilómetros a pé, num bravio inverno.]

Como proa de submarino

A rapariga que vendia livros escorou-se com a muralha de um sorriso bonito às arremetidas do escritor com canetas no bolso da camisa manchada pelo suor. Contava-lhe ele as suas aventuras na escrita e na vida com face rotunda, raiada de vasos sanguíneos rubros, olhos vítreos, abdómen proeminente como proa de submarino. A mulher do escritor aguardava, sentada, com um livro comprado à menina do sorriso, enquanto o marido se alongava no monólogo pastoso como massa tendida. Naquele espaço curto, e andando eu em maré de coincidências, haveria de aparecer um conhecimento comum, a mim e ao escritor. Do conhecimento comum, todas as minhas memórias envolvem momentos agradáveis. Mas a ele, não. O conhecimento comum tinha-lhe colocado a carreira em ponto morto, recordou à mulher, em tom preciso, quando regressou temporariamente ao porto de abrigo, junto a ela. Vislumbrei num segundo as horas infindas de ódio fermentado, ocorridas muitos anos antes do fortuito encontro. Não quereria ter estado por perto dos dois, então, como estava ali agora. Desabafou e perscrutou o espaço em silêncio. As manchas de suor haviam-se tornado amazónicas. O livro de apontamentos espreitava, como periscópio, do bolso das calças amplas. Respirou fundo, duas ou três vezes. Puxou os ombros para trás e, reposto o amor-próprio, rumou de novo em direção à rapariga que vendia livros, que o recebeu, admiravelmente, com o bonito sorriso com que se escusava às investidas dele.

23.7.17

mudança de luz

sabes? a cidade precisa
de toda uma pintura
nova 
com a luz do teu olhar

vê quão bonitos ficaram
o mar o céu a lua
já pintados por ti

O vento da tarde

Se todos os ventos são o mesmo, este é o vento da desgraça de Eréndira, a cândida, o que começou quando ela estava a dar banho à avó, que se parecia com uma formosa baleia branca no tanque de mármore.

[O vento que fez estremecer a enorme mansão de argamassa lunar, na orla do deserto, que entrou no quarto como uma matilha de cães e derrubou o candelabro contra os cortinados.]

Calor a sério

Calor forte, calor a sério, é em Comala, que está sobre as brasas da terra, sobre a boca do inferno. Muitos dos que por lá morrem, quando chegam ao inferno, regressam para vir buscar um cobertor.

[Para Comala, viaja-se à procura de Pedro Páramo.]

Drama inquietante

O crítico da Variety refere-se-lhe como um drama inquietante, concretizando a inquietação na violenta ambiguidade moral do filme. A história de Lady Macbeth funciona como a de uma Lady Chatterley emendada por Dostoievsky, mas em que o realizador se concedesse a ele próprio o benefício de emendar Dostoievsky. A história original é de Nicolai Leskov e não de Dostoievsky, embora tenha sido publicada na revista deste. Mas há um fio dostoievskiano subjacente, tal como o há shakespeariano. Creio, contudo, mais do primeiro que do segundo, apesar do nome. A inquietação é causada pela inversão das premissas morais convencionais, mas também, creio, e porque li apenas críticas escritas por homens, pelo facto da protagonista ser mulher. De algum modo, a violenta ambiguidade moral que passaria incólume numa história com protagonista masculino é, para os que escreveram sobre o filme, perturbadora como não o seria caso a personagem central fosse um homem. Talvez me tenha perturbado mais esta constatação do que a história cortante como o cinzento frio do céu sobre o mar do norte, que enquadra o filme como uma moldura de aço.

21.7.17

um compêndio finito

como é que o compêndio
finito de formas
da tua ausência
pode conter
o tempo infinito
da tua ausência?

Uma minudência após a indulgência

Se Potemkin não era couraçado, muito menos o será um banal escrevinhador a viver neste jardim de amenas temperaturas, em esplanadas tranquilas, onde a couraça é inútil sobrecarga. Um homem não é de ferro, ia quase dizendo, mas não disse, quando pedi a sobremesa indicadora de gulodice reprimida, caindo a pique no poço da tentação. Dona Yara, diligente, lendo nos meus olhos a metanoia de dois mil anos, pelo menos, de herança judaico-cristã, disse com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Leva frutos, doutor. [Intervalo grande.] E soja. [Com tom de contrabandista de uísque na era da proibição.] Ah, leva soja. É praticamente como obter uma indulgência trazida pela pomba do Espírito Santo da Praça de São Pedro. Já me salvou a alma, Dona Yara. E agora aproveito para escrever à leitora esta minudência inconsequente, enquanto não desfaço o sabor do pecado com o café a seguir. Pecar por pecar, ao menos tira-se partido do dito, pois não é leitora? E como leva soja é, quando muito, um pecadilho, coisa de nada. Minudência, também.