8.4.20

Cozinha confinada

E foi assim, leitora, que segui com a melhor atenção a receita televisionada por Dona Maria José Sousa para uma genuína açorda de bacalhau alentejana e de súbito surgiu-me tal vontade de experimentá-lha que já decidi o destino a dar a uma das belas postas do fiel amigo que tinha mercado quando há uns dias me aventurei fora dos limites do meu confinamento. Fora em fevereiro – será em junho? – e ter-me-ia abalançado a duzentos e cinquenta quilómetros de viagem só para, de propósito, o ir provar ao restaurante da própria. Assim, serei eu chef e comensal ao mesmo tempo. Convidarei o meu estimado Antão Vaz e estenderei o convite à minha ainda mais estimada leitora, caso aceite, e faremos um festim num prato de barro – muito mais apetitoso do que uma tempestade num copo de água, já não falando do shakespeariano, e borgiano, universo na casca de noz. Falta-me a ameixa em calda, mas se a leitora tiver por acaso uma aí à mão, eu contribuo com a sericaia, o café e, até, o digestivo. Há que manter o mundo a pular e a avançar como bola colorida nas mãos de uma criança, lá diria o poeta e se plagia aqui, com todo o denodo que merecem estes tempos .

6.4.20

Caderno diário

Ainda não chovia de manhã, à hora em que o pássaro do beiral se fez anunciar. Terá sido imediatamente antes das sete horas quando os primeiros trinados começaram, tímidos primeiro, a espalhar-se pelo quarto, a causarem aquela sensação de fazerem parte de um sonho que se transforma depressa na matéria palpável do alvorecer. Pois era o pássaro regressado. Por Deus, e que estágio fez enquanto esteve ausente, que vigor trouxe no canto, que verve, que desembaraço. Reconheço-o porque está no beiral, mas é como se tivesse passado estes longos meses a treinar num dos muitos teatros de ópera deste continente, afinando o timbre, fazendo escalas, digo escadas, para elevações superiores, para arrepios de virtuosismo. Talvez daqui a uma semana, já o considere intrometido, ruidoso, extemporâneo. Mas hoje ainda não. Hoje, é apenas o pássaro pródigo que regressa e que eu acolheria com a melhor alpista das minhas arcas, caso me tivesse ocorrido açambarcar tal semente, conjuntamente com todos aqueles outros produtos de primeira necessidade que, previdente, arrecadei: as garrafas de castas nativas, as cápsulas de café suíco, as tabletes de chocolate preto a dígitos muito elevados por cento de cacau. Mas, caramba, a alpista, logo fui esquecer a alpista. 

5.4.20

Neologismos

Talvez nos tempos após estes descubramos que ficámos, afinal, com os sentidos mais apurados do que alguma vez os tivemos, como se a parcimónia destas semanas de confinamento se redimisse em cascatas de sensações logo que se entreabrir a porta da rua. Indo ao jardim, apercebi-me de aromas que me eram até agora desconhecidos – ou andavam ignorados – e que se revelaram como se tivessem estado estes anos todos debaixo de uma invisível camada de ocultação; de cantos de pássaros que pareciam regressados de algum trópico longínquo, porque nunca deles havia notado a existência; e de quão afiada pode ser a luz da tarde, ainda que num dia toldado a cinza. Será decerto sentimento temporário, mas nos tempos depois destes, estrearmos o mundo como se tivesse sido acabado de criar e será tão novo que não teremos ainda palavras para nomear o que descobrirmos. Só neologismos, que não imaginamos sequer, nos permitirão fazer sentido do mundo que viermos, então, a inaugurar.

Que sorte!

Acabei de encontrar nas minhas estantes exatamente o livro que me apetecia ler e de que já tinha até tomado nota que havia de encomendar, assim passasse esta névoa que me anda a impedir de me embrenhar em atividades mercantis à distância de um clic. É ou não uma grande sorte, leitora?

[O livro é Bird by bird, de Anne Lamott, caso o ponto de exclamação no título desta minudência tenha despertado a perplexidade da estimadíssima.]

Manutenção de uma distância

Para estar nalgum lugar há que amar algo, e o amor não está na posse total do objeto, mas na manutenção da uma distância que no-lo faça sempre necessário e nunca possuído.

[Ricardo Güraldes]

4.4.20

Mesa de cabeceira

Ao contar os livros na minha mesa de cabeceira, notei que existem oito tomos imprescindíveis de Agustina contra apenas três de Pessoa. É verdade que Pessoa está acima de Camilo (de que lá constam dois), mas ao mesmo nível de José Cutileiro e apenas tem um de vantagem face a Karmelo C. Iribarren. Não que se dê o caso de o chamar, como Ofélia, «Ferdinand Personne» (há-de notar-se que em francês, em “Personne” estão guardados dois significados distintos, sendo o primeiro aquele que corresponde imediatamente à tradução pretendida de «pessoa», mas, dependendo do contexto, também de «ninguém».) É só que, caramba, ler Agustina me dá um sono presto e descansado, enquanto que Pessoa me causa mais espertina do que o café de Dona Yara, e muito mais do que o «Fernandinho lindo» provocava a Ofélia, não o duvido. Pois não lhe acontece tal, ao lê-lo, leitora?

Louvor e distinção

Caso a Autoridade se lembre de, alguma vez, me questionar sobre a excelência do meu comportamento durante aquela década a que foi dado o nome de março, poderei sempre apresentar a fatura do operador de autoestradas, que acabei de receber, e que tem a fortitude de um diploma de aprovado com louvor e distinção.

3.4.20

Cinquenta declinações de cinzento

O homem que foi meu professor há mais anos do que consigo contar, aparece a demonstrar toda a pujança da sua eloquência na televisão, sobre os tempos que correm. Admiro-lhe o cabelo imaculadamente castanho, com madeixa brilhante, que contrasta com o meu, onde poderia, se me aplicasse devidamente, contar cinquenta declinações de cinzento, se não mais. Apesar de todas as poções que por lá aprendi a fazer, escapou-se-me o elixir da eterna juventude – logo aquele que mais falta me faz agora.

Distanciamento social

O meu sushiman favorito dirige-se para mim a correr a bom ritmo, e altera a trajetório para que ao nos cruzarmos, tenhamos pelo menos dois metros de distância a separar-nos. Eu curvo-me ligeiramente, em cumprimento apropriado a estes tempos, e ele também se inclina, em igual saudação, após o que continua em passadas largas, olhar fixo no telefone que leva seguro na mão estendida, no que creio ser uma videochamada, com um sexto sentido qualquer que evita que se estatele num ápice, o que a mim aconteceria se tal o fizesse, não o duvido, mais depressa do que consigo dizer «distanciamento social», leitora.

2.4.20

Vivacidade resguardada

A dois metros da porta da loja tive de declarar, com a melhor dicção que consegui, apesar da voz abafada pela máscara, ao que ia. Felizmente, ia por causa justa. Olhei em volta, não vi olhares reprovadores, antes acenos de compreensão dos confrades compradores, a distância tão segura entre si quanto a minha. Assim me deixaram entrar, verificada que estava, publicamente, a probidade moral da minha presença naquele que era, nos distantes tempos de fevereiro de dois mil e vinte um excelso templo de consumo e que hoje mais se assemelha a uma visita às catacumbas do Museu do Dinheiro – as quais, se a leitora ainda não as visitou, recomendo, com a vivacidade resguardada que é a devida a estes tempos peculiares, numa próxima era, quando tal voltar a ser possível.