19.5.19

Como Saramago se enganou

[El País (PaísVasco)] A que atribui o boom público que vive a poesia?

[Karmelo C. Iribarren] Primeiro a que, com muito bom critério, desde há algum tempo, alguns professores decidiram incluir nos seus planos de estudos poetas atuais, que conectam com o leitor de hoje. Depois disso, deu-se a adesão de todo um público jovem, que antes estava mais atento à música. É um leitor novo e que compra livros.

[Publicado no passado dia dezoito de maio. Como Saramago se enganou. A jangada de pedra, afinal, não é a península, mas antes este retângulo, que se afasta, sem se aperceber quanto, de Espanha. levado pela corrente da superficialidade, Atlântico a dentro.]

18.5.19

O Vice-Rei

Um entendimento razoável da língua de Louis Mountbatten tem-me sido cada vez mais útil em restaurantes dentro das minhas preferências gastronómicas, da capital.

[Mountbatten não tem culpa mas sim, sou capaz de apontar algumas influências dele e de quem o precedeu neste estado de coisas.]

Autodidatas

No que se refere a sentimentos, todos somos autodidatas.

[Manuel Neila]

17.5.19

Missiva sobre certas e determinadas questões ornitológicas

Recebo uma carta com a inconfundível caligrafia, a tinta azul cobalto, de J. Eustáquio de Andrada, lente jubilado do Magdalen College em Oxford, atualmente desfrutando os seus dias de ouro no colo sedoso da dulcíssima Orchidée.

 «Meu muito estimado amigo,

Jeremias, meu prezado, o seu nome só pode ser Jeremias, tantas e tão constantes lamentações saem dessa sua pena engendrada em engenhocas hodiernas. Então agora, dizem-me as minha fontes anónimas, («Pauvre, pauvre Jeremias», alterei subtilmente a expressão original para mais fácil correspondência ao espírito da «lettre»), que o meu amigo anda a lamentar-se pela ausência de um pássaro no seu beiral.

Mas o meu estimado não tem mais nada que o rale, lá nessas catacumbas empoeiradas onde desbarata o melhor dos seus dias e de onde só emerge para tagarelar com «baristas» sobre viagens ao Equador? Homem, se é de cantares de pássaros que sente falta, prontamente lhe enviarei pela mão do prestimoso Reboredo, as obras completas de Messiaen e umas gravações que eu mesmo me encarregarei de fazer dos trinados graciosos da harmoniosa Orchidée, enquanto penteia, ao amanhecer, as cascatas de ouro do seu perfumado cabelo.

O mundo pula e avança, como proclamaria o poeta, e o meu correspondente esboroa-se, qual gorgonzola desidratado, por não acordar ao som do pio piar de um estorninho insone? O comendador Andrada Pai recomendaria, na sua inflexível ciência, uma dieta de gemadas e garrafadas, para restabelecer o equilíbrio de forças nesse corpo onde delas há um défice maior do que o da Argentina (acabam de me enfiar um cotovelo piedoso entre a sexta e a sétima costelas: «Pauvre, pauvre J., si malheureux, si souffrant».)

A caridosa Orchidée, qual Madre Teresa do Restelo, já se prontificou para lhe limpar as chagas causadas por tal ausência de penas, pelas penas de tal ausência (não resisti a um chiste primário), e portanto está a organizar, prepare-se, uma viagem de exploração às Berlengas, onde passará o dia inteiramente rodeado de aves, a saber, graciosas e cantantes gaivotas. Avistará assim o meu amigo todas as aves de que necessita e ficará ainda com depósito para as próximas semanas, quiçá, meses. O virtuoso Reboredo estará à sua porta, amanhã às  seis e trinta, a entoar cantos tiroleses, que é o que de mais parecido com chilreios de aves exóticas ele tem no reportório. Orchidée pede-lhe para se apresentar em azul marinheiro, e diz que já tem guardado um «béret» Gaultier para proteger esse pergaminho delicado a que chama pele, das inclemências solares. Quanto ao protetor, ela também já encomendou um de fator cento e cinquenta, algo assim, para si.

Cá o aguardamos, para a viagem balsâmica como uma canjinha de aves. Ah, e reforçam aqui ao lado a recomendação de indumentária («Pauvre, pauvre J., il aura l'air si mignon en costume de marin.»)

Aceite um abraço deste que muito o considera,

J. Eustáquio de Andrada»