13.12.18

Trabalho do dia

Reparo, ao final do dia, que o meu trabalho em todas estas horas mais não foi do que gerir palavras, umas vezes de mão aberta, outras de punho cerrado. Reparo que o esforço maior foi para não dizer, mais do que para dizer – e que não sei o que farei com tudo o que não disse, porque amanhã mais terei que guardar e nada há mais aguerrido, com mais agudo instinto de sobrevivência, do que as palavras, quando se sentem aferrolhadas.

Dois cálices

Rodney Smith

12.12.18

Paradoxo

Como é que tantos são os escritores que afirmam, «Escrevo aquilo que gostaria de ler», quando outros tantos proclamam nunca voltar a ler o que escreveram, a não ser, em sofrimento e sob ameaça, no pesadelo da revisão das provas tipográficas?

Dos custos obscuros da claridade

Reconhece Nietzsche, com absurda clareza: O infortúnio perpetrado sobre os escritores claros e de fácil compreensão é que são tomados por simplistas e, portanto, pouco esforço é aplicado ao lê-los; a boa fortuna que acompanha os obscuros é que o leitor se esforça para entendê-los e lhes atribui o prazer que, de facto, ganha às custas do seu próprio zelo.

11.12.18

Dos heróis

The Return of Ulysses, 1968 - Giorgio de Chirico
Giorgio de Chirico, O regresso de Ulisses, 1968

Em todas as narrativas do mundo são os heróis que fundam as cidades, as artes, os costumes, as línguas, os instrumentos, as receitas.

Corolário de Quignard: São os heróis que abastecem os antiquários.

A única pessoa

Os seres humanos eram originalmente organismos redondos, diz Aristófanes, cada um composto por duas pessoas unidas, inexcedivelmente felizes. Mas estas criaturas esféricas tornaram-se ambiciosas, pensaram até chegar ao Olimpo rolando. Zeus (sempre ele), atalhou-lhes o caminho, cindindo cada uma das criaturas em duas. Como resultado, aqui estamos, condenados a passar pela vida em busca da única pessoa que nos pode devolver a nossa forma perfeitamente redonda, a nossa forma original.