12.7.20

A rajada de vento chegou feroz como um soco

— atirou a carta plastificada para um canteiro de flores, rolou o meu copo até à borda periclitante da mesa da esplanada e, por por pouco, não deu asas indesejadas ao telefone. 

O pai da família ebuliente ao lado veio entregar-me espantos e confortos que agradeci com emoção comedida — e eu e ele ficámos, por instantes, calados, a apreciar as consequências das fúrias da natureza, naquele assombro que une os homens em tais ocasiões, sob uma abóbada de invisível devoção.

Após o que regressou a reconfortar a família, que começava a desfazer o olhar arregalado, dizendo em voz apaziguadora e, esperava-o, inaudível para mim: «Ainda bem que foi na mesa dele e não na nossa, já viram a sorte?»

11.7.20

Tenho várias, para combinar com as toaletes

— diz a senhora na mesa ao lado da minha, na esplanada, enquanto pousa a máscara verde alface sobre a blusa verde militar.

Imperturbável, o marido ostenta uma máscara preta, a fazer par com o sapato dela, de onde emerge um hálux imponente, rubro — diria sanguíneo.

Aqui ao lado

o canto obsessivo das cigarras parece o zumbido que se ouve dos fios de cobre assoberbados de energia.

Enquanto estávamos distraídos, o verão chegou sem darmos por ele.