4.12.19

Espanto e fascínio

Adormecemos e os sonhos tornam-se como um som baixo, uma música de fundo que depois de algum tempo deixa de ser ouvida, embora ainda esteja lá. A primeira coisa que vejo quando a sonolência me agarra são bandos de pássaros que voam no céu, em uníssono, sem se tocarem, como um manto que ondula e pulsa ao vento. Sei que é uma memória distante, algo que vi quando era criança, num carro, enquanto o meu pai conduzia por uma estrada, atravessando uma planície infinita de ervas douradas, monótonas. Não posso colocá-la em nenhum outro contexto; não sei para onde íamos ou de onde vínhamos, mas da janela do banco de trás pude ver essa presença gigantesca e ameaçadora com uma mistura de espanto e fascínio.

[De Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, novembro de 2019]]

Raízes 2

Vine a Zapotal para morirme de una buena vez.

[Início de Una cita con la Lady, de Mateo García Elizondo, 2019]

Vine a Comala porque me dijeron que acá vivía mi padre, un tal Pedro Páramo. Mi madre me lo dijo. Y yo le prometí que vendría a verlo en cuanto ella muriera.

[Início de Pedro Páramo, de Juan Rulfo, 1955]

[Mateo García Elizondo é neto de Gabriel García Márquez. Pedro Páramo é uma herança de família.]

Raízes 1

El padre Rentería se acordaría muchos años después de la noche en que la dureza de su cama lo tuvo despierto y después lo obligó a salir. Fue la noche en que murió Miguel Páramo.

[Juan Rulfo, Pedro Páramo, 1955]

Muchos años después, frente al pelotón de fusilamiento, el coronel Aureliano Buendía había de recordar aquella tarde remota en que su padre lo llevó a conocer el hielo. 

[Gabriel García Márquez, Cien años de soledad, 1967]

3.12.19

Retoques subreptícios

Devo a Vila-Matas a descoberta de que Bonnard «entrava nos museus onde os seus quadros estavam expostos e, aproveitando a ausência de vigilantes, corrigia-os com uma euforia infinita.»

Sinto-me menos desacompanhado por, amiúde, regressar a este espaço, que está longe de ser um museu, mudar uma vírgula aqui, uma palavra ali, e sair subrepticiamente, na esperança de que se alguém der por isso, ao menos não achar que o resultado é pior do que o que lá estava antes.

Mapa dos vícios

Vinte e dois clientes no bar, e apenas eu e a senhora do casaco cor de salmão na mesa ao lado não fumamos. Como não recomeço no vício, disso estou certo, deverei mudar de bar, leitora?

As it happens

O infante na mesa ao lado, que se veste como eu (ou eu como ele), vai mostrando, alternadamente em português e inglês, à mãe dele, os seus vastos conhecimentos sobre as ligas espanhola e inglesa. Se consigo igualá-lo na indumentária, nunca por nunca o seria, ou serei, em tal admirável, avassaladora mesmo, verve desportiva.

[A banda sonora no café, reparo, é agora, enquanto escrevo, apropriamente, The return to innocence, dos Enigma.]

2.12.19

Resoluções de Ano Novo

À saída, após o almoço, ouço um ralhete delicado do gentil Sri Akah: Ah, mas o senhor comeu demasiado depressa. Assim não tem tempo de saborear nossa comida. Até pensei que tinha sido devagar para os meus usos, que me tinha alongado na contemplação dos comensais nas suas danças por entre as mesas, dos rituais de chegada coroados por longos abraços, do encontro de etéreas yoginis na mesa em frente, mas o meu tempo e o de Sri decorrem em referenciais diferentes. Mas como as minhas celebrações de Natal começaram com um mês de antecedência, as resoluções de Ano Novo, entram agora em vigor, também. Comer com tal vagar, que faça inveja ao excelente Sri. Isto, claro, se inveja constar do vocabulário dele, o que duvido, leitora, duvido.