14.8.18

Ecrã total

Os livros que eu lia nas férias grandes têm areia por entre as páginas, manchas de bronzeador, que protetor solar é eufemismo surgido anos depois, páginas enrodilhadas, recordação de resgates extremos de ondas impetuosas, cheiro a iodo, marcadores de algas quebradiças. Alguns duplicaram de espessura, as lombadas abaularam em forma de meia lua, e sacudidos, décadas depois, ainda largam areia, como se alojassem dunas inesgotáveis. Quando os dias eram passados na praia, que mais fazer depois de almoço, nas intermináveis horas da digestão, senão ler? Mas nesta Babel à beira de água, onde o tempo, como então, se mede a conta-gotas, escassos são os livros, nenhum deles em mãos adolescentes. Telefones sim, um por cada dois olhos. O bronzeador do tempo das férias grandes cedeu lugar ao ecrã total. O livro também.

13.8.18

Como na Agatha Christie

No livro anterior, só morre uma personagem, num homicídio involuntário, uma cena de violência breve, e é já a meio, depois de lidas umas cento e cinquenta páginas. Neste, ao final de um capítulo, morreram já centenas de milhar, em circunstâncias apocalípticas, que fazem tremer as palavras que as descrevem. Vou deixá-lo assim, trocar por um policial, onde, quando muito, morrerá apenas uma personagem, daquelas antipáticas, como na Agatha Christie. Com sorte, pode até nem haver homicídio, ser só sobre um assalto, um rapto, uma fraude, uma chantagem, algo assim, tranquilo. Lemos ficção porque dela podemos acordar, por decisão consciente, como num sonho mau. A História, como o presente, é demasiado inquietante, assombra o sono, sem remissão. A História não é recomendável para tempo de férias. Nem sequer o presente.

12.8.18

Caravanserai

O filho mais velho, ainda que novo, cabelo esvoaçante de fios de ouro, arrasta pela areia um carro de quatro rodas, desdobrável, carregado com o que a família achou por bem trazer para a praia, entre cadeiras, espreguiçadeiras, toalhões, geleira, chapéu de sol, quiçá mesa, que já cá vi também. Tarefa ingrata, porque as rodas finas afundam a cada passo, com aquele peso. À frente dele, a mãe avança abraçada a um jacaré insuflável, verde, de tamanho real. O pai abana as mãos livres, libérrimo. O filho mais novo, não mais de dois anos, o mais louro dos quatro, à frente, em passo que o irmão não consegue acompanhar, comanda a caravana em direção ao oásis que vê ao fundo, ou seja, ao mar imenso e impávido aos passantes, como um caravanserai.

11.8.18

Tabuada da vida

Então que tal estava, jovem? pergunta-me Giuliano na língua cantada cá deles. Giuliano é, pelas minhas estimativas, mais novo que eu. Um dos dois está a errar as contas, e eu tenho a tabuada bem presente. Ou então, Giuliano sabe mais da tabuada da vida, aquela que lhe diz que eu, não sendo a primeira vez que venho ao restaurante dele, não será a última também. Creio até que ele o soube antes de mim. Melhor aluno que eu, o ladino.

Um par de horas

Para beber, o habitual? pergunta ela, no idioma cá deles, ainda antes de me entregar a carta. Confirmo, em tom interrogativo. É a segunda vez que cá venho, em dias diferentes, não contíguos e nem eu o que bebi no primeiro dia recordo, até ela mo trazer de novo, naquele jeito que tem de se eclipsar silenciosamente e materializar do nada, como se viajasse no tempo, ao contrário da minha memória. Eis um homem de hábitos, deve pensar, por detrás do sorriso ubíquo e impenetrável. Nem sabe quanto. Todos os infortúnios do homem provêm de não saber estar quieto num lugar, disse Pascal. Na mesa habitual pela segunda vez, com a bebida habitual, idém, os ditos infortúnios terão mais dificuldade em encontrar-me, pelo menos por um par de horas.

10.8.18

Arco em ogiva

Em passo apressado em direção à porta cravada de pregos de bronze, a mãe cerceia-lhe as ideias: «On ne voyage pas pour aller au MacDo.» Mas na boca dele vejo um arco em ogiva, tão determinado, tão resistente, como os que sustentam a catedral onde a mãe queria ir primeiro. Queria.

A seita

E às vinte descem à rua, em silêncio, de faces cerradas, embrenhados no ecrã do telefone, passos mecânicos, robóticos de tão pouco naturais, hesitam nos cruzamentos, olham, ansiosos, nas rotundas, apressam-se nas avenidas, e quando chegam ao destino avaliam a porta, espreitam pela janela, aguardam ser notados e suspiram de alívio quando aparece alguém a quem possam comunicar finalmente a senha secreta: «Tenho uma reserva.»

9.8.18

A brisa desinquietante

Conto os passos que os separam: quinze. Deitada na toalha, ela tem o olhar assestado nele. Ele, fixo nela. Não voltarei a passar aqui, ficarei sem poder confirmar o desfecho que intuo. A caça do amor é de altanaria, sopra-me mestre Gil ao ouvido, as palavras trazidas pela brisa desinquietante.