23.6.17

tão frágil

gosto de te pensar intrépida
capaz de dançar cirandas
no cerne dos tornados
de rachar ondas a voz de comando
como se das tuas mãos
dependesse um povo em fuga

venha a criação ou o desmoronar do mundo
venham cavaleiros prenhes de apocalipse
venham anjos em enxames crepusculares
tu não fugirás
assim gosto de te pensar

e: não sabes

gosto também de te pensar
couraçada pelos meus braços
no baluarte do bater do coração
onde seguramente estarás
segura

e denodadamente frágil
tão frágil
tão tu

Vocês desculpem tocar nesse assunto

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente, diria o Velho Braga. Em 2015 ocorreram 31.953 acidentes com vítimas, nas estradas portuguesas, 41.076 feridos, 473 mortos. Em 2015 aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), que em 2014. Em 2014, aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), quem em 2013. O facto de os carros serem mais seguros provavelmente ajuda a que se morra menos, mas não que existam menos acidentes, pelo contrário. Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito. Morrer na estrada em Portugal é tão banal, tão pouco digno de nota, como morrer na guerra civil em Aleppo. O pior é que a cada dia o número dos que estão no «lado de lá» vai aumentando, e se a gente demorar muito[*], diria o Velho Braga, por aqui acaba falando sozinho.

[*A deixar de banalizar a morte que não dá manchetes. O dados são da Pordata.]

21.6.17

a soma dos pensamentos

há um verde de mar que nunca verei contigo
há um horizonte dourado que nunca observarei refletido nos teus olhos
há um aroma de ervas cortadas que não nos inebriará em conjunto
há um punhado de areia que nunca correrá da minha mão para a tua

a vida de um homem é a soma dos seus pensamentos
mas quando subtraio tudo o que nunca viverei contigo
o resultado ainda és tu
és toda tu

Um belo nó Windsor na gravata

De tudo o que o homem à minha frente, com um belo nó Windsor na gravata, disse numa língua parecida com português mas que não era português, porque o português não tem aquelas palavras menos ainda aqueles tempos verbais, enquanto apontava para os diapositivos cheios de diagramas pormenorizadíssimos, que lhe terão levado horas de rendilhada minúcia a elaborar, recordo apenas o marulhar da água da fonte em fundo e a linda cor ocre das paredes.

Ficam lindas, lindas, lindas

O Senhor Estrelinha tinha o estúdio de fotografia no primeiro andar de uma casa que era de primeito andar. No andar de baixo, o irmão tinha uma retrosaria. À retrosaria nunca fui, mas sempre que precisava de um retrato para o cartão da escola, era o Senhor Estrelinha que me imortalizava por mais um ano. De imortalidade em imortalidade cheguei aqui, nem tudo se perdeu.

Contavam que o Senhor Estrelinha era cruel com as Modelos.
Modelo: Mas oh Senhor Estrelinha, estou tão mal nesta fotografia.
Senhor Estrelinha: Nessa e nas outras todas, senhora. Sou fotógrafo, não faço milagres.
Modelo: Malcriadão. Nunca mais cá ponho os pés.
Senhor Estrelinha: E eu ralado, não venha. 
O Senhor Estrelinha tinha o monopólio dos retratos. A Modelo voltaria, ele sabia que voltaria.
Já eu, ficava sempre bem, modéstia à parte. Mas eram outros os tempos.

Ontem lembrei-me do Senhor Estrelinha. Olhei para o cartaz e lá estava a Candidata em tamanho irreal. Bem apessoada. Sorriso inabalável. Pele forrada a seda. Muito melhor do que quando me cruzei com ela, estava ela em tamanho real, numa superfície de tamanho irreal, onde ambos comprávamos coisas inúteis. O Senhor Estrelinha chegou cedo ao ofício. Os fotógrafos agora são milagreiros. 

A conclusão moral desta minudência impõe-se assim. O monopólio é mau. A concorrência é boa. Não havendo concorrência, as gentes ficam mal nos retratos [exceto eu, mas eram outros os tempos]. Havendo concorrência, ficam lindas, lindas, lindas. Quem sabe se agora, eu...