31.12.15

O Grande Eustáquio da Ópera

Recebo de José Eustáquio de Andrada, professor de literatura portuguesa, no Magdalen College em Oxford, atualmente retirado nos braços da florescente e preciosa Orchidée, uma mensagem manuscrita pelo seu punho, a tinta azul safira, onde reconheço o aroma floral da sua musa.

Meu muito prezado amigo,

Quando esta lhe chegar às mãos, encontrar-me-ei com a dulcíssima Orchidée em Darling Harbour (oh, que nome apropriado para este oásis d'amour), a dois passos da Ópera (1). 

Aqui, nesta baía, veremos o ano chegar antes de quase toda a gente, o que inclui o meu estimado amigo. Orchidée, esta pérola que enche de estrelas o meu dia e de luz as minhas noites, afirma que lhe enviará, atempadamente, notícias do ano novo, por coisas a que ela chama WhatsApp ou Telegram, ou lá esses engenhos que vós, juventude, usais em vez de comunicações digna de pessoas de bem. 

Orchidée, aqui ao lado, sussurra também que dará um mergulho extra amanhã, em Bondi Beach (2), por si, que tem fama de friorento e precisar de águas a, pelo menos, trinta graus, senão mais. Essas leguminosas de que alimenta o corpo e os poemas de que nutre o espírito são insuficientemente calóricos, sempre disse e reafirmo. Um descendente de Genghis Khan, que o somos todos, deveria ter sido treinado nos rigores da água fria, como um Carlos da Maia e desfastiar-se com um bom tártaro, quotidianamente. Agora, se peixe não puxa carroça, menos ainda rebentos de soja fazem locomover bípedes, mesmo que sejam somente cadáveres adiados como diria o poeta, certamente consigo em mente.

Nesta altura toda a gente faz resoluções de novo ano, que são votadas ao olvido no dia dois: eu não. Atingi a tranquilidade, que não a sabedoria, para não ter que resolver nada. Dizia o nosso Eça: «Aqui importa-se tudo. Leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssimo, com os direitos de Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas...» Não importo resoluções nem civilizações. As minhas mangas são da Avenida da Liberdade e estão a gosto. Orchidée é a minha resolução de ano novo; já foi a do ano que passou, e — por Deus — foi a melhor que fiz! 

Meu caro, se aceita um conselho de quem muito o estima, por hoje deixe os alfarrábios nas estantes, e a relva nos prados. Ao menos por um dia, uma noite, digamos, faça vida de gente, homem: saia, areje as olheiras, sacuda os ácaros, coma um lavagante, beba um Veuve.

E transmita votos, da minha parte e da magnífica Orchidée, de um ano de saúde e prosperidade, a todos os leitores desse hebdomadário que insiste em fazer publicar nas internetes e a quem martiriza com os seus humores erráticos e esse romantismo peco de um Alencar de saldo. Deixe de os torturar com tão desenxabidos e insossos arroubos (Orchidée, ao meu lado, lamenta-se: pauvre, pauvre J. Nunca entenderei tal lástima da minha casta diva pelo destino eremita do meu prezado, para ser franco.)

Como deve ler o que escreve, está obviamente incluído nos votos do parágrafo anterior. E como alguém disse, talvez tenha sido eu, não leve muito a sério o que acima escrevo: os tempos prestam-se a estes chistes, que é tudo o que de sadio nos vai restando ainda.

Deste que muito o estima e considera
J. E. de Andrada


(1) O ilustre Andrada refere-se à Ópera de Sydney, evidentemente. Quanto aos dois passos, serão uma metáfora para o passeio de Jesus Cristo sobre as águas, feito que não está ao alcance de mortais comuns.
(2) Praia a poucos quilómetros de Sydney: pudera, com tais temperaturas, também este escriba iria banhar-se, pois então.

24.12.15

Dona Conceição, alquimista em Alfache

Dona Conceição, que foi tia em Alfache durante mais de oitenta anos, gostava de receber os sobrinhos em casa no Natal. Por uma estranha circunstância, todos os elementos da família de Dona Conceição eram sobrinhos. Dona Conceição não tinha filhos, mas tinha muitos sobrinhos, e a todos adorava como filhos. Cada um dos muitos sobrinhos adorava Dona Conceição, por sua vez, como mãe e tia e avó. No Natal, Dona Conceição, tornava-se alquimista. No Natal, e em todas as alturas em que recebia os sobrinhos, que eram também os seus filhos e netos e primos. Todos sobrinhos, já aqui se disse, por estranha circunstância. Alquimista da arte de transformar os melhores ingredientes, que ela sabia desencantar nos produtores mais obscuros, com  a mão para os pratos a que ela dava o gosto que mais ninguém dava, dos doces que sabiam como mais nenhuns, das histórias que contava e acompanhavam cada almoço, cada jantar, cada lanche (ah, cada lanche). Em casa de Dona Conceição, quando ela recebia os sobrinhos, que era amiúde, era sempre dia de Natal. Da cozinha de Dona Conceição saiam mistérios e maravilhas sem fim, causadoras de audíveis ohs, e ahs, dos sobrinhos, que eram muitos, já se sabe. Dona Conceição, que foi tia e alquimista em Alfache, conseguia criar o Natal sempre que recebia os sobrinhos. Mesmo agora, quando já não os recebe, os sobrinhos, que são ainda muitos, recordam Dona Conceição e a sua alquimia. Onde estiver, Dona Conceição, estará decerto a sorrir. E não estando na cozinha, estará a contar histórias. Dona Conceição, tia e alquimista, sabia todas as histórias de Alfache, até as que se perdiam no horizonte do mar. E do tempo.

18.12.15

A arte do Baeta

Alvarino, que foi ceifeiro de cabelos e aparador de barbas em Alfache durante sessenta anos, mantendo em estado superlativo as faces e couros cabeludos dos homens da terra, era o maior contador de histórias de que já se tinha ouvido falar ali e em quilómetros em redor. Vinham homens de outras terras apenas para ouvir Alvarino contar histórias enquanto a tesoura tesourava e a navalha navalhava. Faziam fila os fregueses de Alvarino desde o nascer ao pôr-do-sol. 

A cada freguês, Alvarino dedicava sempre uma história diferente que durava exatamente o tempo do serviço. Talvez Alvarino tivesse aprendido, dizia-se, com o mítico Amarildo, onde o pai o havia deixado aos quinze anos, para aprender a arte do Baeta. E que bem ele a aprendeu, tanto que a elevou a um patamar superior ao do mestre.

Maximino, que foi tipógrafo e impressor em Alfache, dizia que as histórias de Alvarino aparavam as capilosidades da alma como as suas tesouras, as do crânio. Os fregueses saiam do estabelecimento de Alvarino de cabeça e espírito penteados. Espalhou-se que Alvarino curava doenças com as histórias. Com o tempo, falou-se mesmo em milagres. Os homens precisam de histórias, dizia o barbeiro, modestamente, sobre a sua arte.

Quando Alvarino se foi encontrar com os grandes contadores do passado, descobriram, no sótão da barbearia, arcas e arcas de histórias escritas pelo punho do barbeiro, na sua letra miudinha e elegante. Alvarino tinha ainda mais histórias na alma do que as que conseguia contar aos clientes. Irmino, o presidente da câmara de Alfache, mandou transformar a barbearia em Casa das Histórias. Há sempre alguém a contar histórias na Casa, desde então. E há sempre fila de espera  para as ouvir. Não há, diz-se, terra com habitantes mais felizes que Alfache. 

11.12.15

O último dia é o melhor de todos os últimos dias

Beanina, modista de letreiro na porta em Alfache, acreditou, desde os quinze anos, que cada dia seria o seu último. Cada vestido que fez foi sempre o mais belo que já havia feito, cada freguesa, a melhor servida, cada noite, a mais estrelada. 

Quando, aos oitenta anos, a Barqueira a veio buscar, Beanina estava a acabar um vestido de chita, com cores de alvorada de primavera. Beanina precisava ainda coser as bainhas, tirar os alinhavos e passar a ferro para deixar a obra acabada. Pediu duas horas, e a Barqueira acedeu, porque se Beanina tinha esperado a vida toda por ela, era justo que ela esperasse duas horas por Beanina.

Ninguém se espantou quando Saulina, a mulher de Irmino, o presidente da câmara de Alfache, usou na cerimónia de despedida a Beanina um vestido de chita, com cores de alvorada de primavera, as mesmas cores do dia, bem no meio do inverno.

10.12.15

A verdadeira arte da tipografia

Maximino, que foi tipógrafo e encadernador em Alfache durante oitenta anos, nunca imprimiu dois livros iguais. Maximino acreditava que os livros encerram uma alma que se liberta quando são abertos pela primeira vez. Tal como as dos homens, não podem existir duas almas iguais nos livros. Logo, os livros não podem ser, eles também, iguais.

Ainda aprendiz na tipografia do pai, Merrelho, Maximino começou por trocar os tipos de uma letra apenas, de cada vez que imprimia um livro. Mais tarde, quando se tornou o tipógrafo oficial de Alfache, Maximino passou a acrescentar palavras, depois parágrafos e mais tarde folhas completas. Cada livro saído da sua prensa contava uma história diferente. 

Apenas Irmino, o presidente da câmara de Alfache sabia o segredo de Maximino. Descobriu-o uma vez quando ele a a mulher, Saulina, compraram o mesmo livro, no mesmo dia. Irmino leu o livro uma vez e gostou tanto que voltou a lê-lo. Por engano, pegou foi no livro da mulher. Surpreendido, descobriu diferenças na história; não contou a ninguém, nem sequer a Saulina. Daí para a frente, de cada vez que comprava um livro novo, oferecia sempre outro exemplar à mulher. Divertia-se a procurar as diferenças, como outros jogam xadrez, ou fazem palavras cruzadas.

Maximino morreu aos cem anos, sem descendentes. Deixou apenas dois exemplares de um testamento, que ele próprio imprimiu.

9.12.15

E porque este blog, parecendo que não, acredita no direito ao contraditório...

Radicalismos radicais

«Oh Moraes, o mundo está a radicalizar-se entre duas posições extremas e perigosas», bramava J. E. de Andrada. «Não concorda, Moraes, você, que é um homem lido e investido?» 

«Pois claro que concordo, Andrada, mas estas coisas nas Américas e nas Gálias, são boas para os futuros do Brent.» «Mas quem é que está a falar disso?», clamou J. Eustáquio. «Eu estou a referir-me é à divisão do mundo entre os que acham que podem riscar e, oh sacrilégio, dobrar as páginas aos livros, e os outros, aqueles como nós que defendem os valores tradicionais, o livro impoluto, imaculado desde a sua conceção! Pois não concorda, oh Moraes?» 

«Já eu, sublinho a torto e a direito», sentenciou, enterrado no seu sofá, o pálido J. «Mas você não é exemplo para ninguém», atirou J. E. de Andrada. «Você, J., lê tudo em ecrãs, sublinha, mas é de dedo em riste, que eu bem sei. Livros lidos em ecrãs não são livros, são pasquins, como aquele hebdomadário que edita lá nas internetes.»

«Pauvre, pauvre J.», murmurava a dulcíssima Orchidée. «Mon amour, o J. é uma alma atormentada, tem que ter um sublinhar orgânico, n’est ce pas?» «Orgânico ou não, sublinhar é sublinhar, não acha você, oh Moraes? Quem sublinha num ecrã, sublinha num livro de papel, e dá-se por isso, está a grafitar paredes, de lata de spray na mão, como um adolescente de boné de través. Sublinhar livros ou, oh sacrilégio, dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos. Você descende de hunos, J.?» 

«Eu sou de ascendência nórdica», disse J. levantando os olhos do telefone, onde teclava intrepidamente, como se não houvesse dia seguinte. Do outro lado da sala, Orchidée soltou um sorrisinho saltitante como um arpejo. «Nórdicos, viquingues, hunos, é tudo a mesma coisa. Destruidores da cultura, da civilização, das páginas dos livros. Uma praga, pois não acha, oh Moraes?» 

«Uma praga, Andrada, uma praga. Sem dúvida, um tema para colocar na agenda da próxima cimeira de Davos.» «Não esperava menos de si, Moraes, não esperava menos. Já aqui do J.... » 

J. olhava fixamente para o telefone, quando de repente deu um salto e lhe saltaram lágrimas dos olhos, de riso. Do outro lado da sala, também de telefone na mão, Orchidée observava com ar triunfante. «Eu bem digo, já aqui do J....» concluiu Andrada. «Esta gente dos pasquins das internetes, dá-se por eles e dão em vândalos grafitadores. Pois não acha você, oh Moraes?» «É colocar-lhes desde logo pensos rápidos nos dedos para que não sublinhem nos ecrãs, Andrada», sugeri eu. «Há que cortar o mal pela raiz!», corroborou o professor reformado do Magdalen College. 

Orchidée e J. estavam, por essa altura, demasiado ocupados com os telefones para lhe prestar sequer atenção.

8.12.15

O ornitólogo prodigioso

Salemo, que foi carteiro em Alfache durante cinquenta anos, era ornitólogo amador. O pai de Salemo, Simauro, era columbófilo, e foi com os pombos que Salemo se apaixonou pela arte de entregador de cartas. Passou a amar os pombos e, através deles, todas as outras aves. 

Salemo era capaz de dizer as horas observando o vôo dos pássaros. Os relógios também têm duas asas, costumava dizer, mais não são que pássaros que repetem o mesmo vôo duas vezes por dia. Com o tempo, Salemo aprendeu a dizer não só as horas, mas também os minutos e, nos dias de sol, os segundos. Precisava do sol para ver bem o bico dos pássaros, que, como se sabe, é também um ponteiro.

Quando Salemo, já nonagenário, deixou de conseguir sair de casa, ficava com as janelas abertas para que os pássaros voassem livres pelo quarto, pela cozinha e pela sala. Retirou a maioria dos móveis para que os pássaros se sentissem na casa dele como na deles. Aos cem anos, quando se transformou, ele também, em ave, mas invisível, vieram as aves visíveis e cantaram-lhe uma canção de boas vindas. Foi tão bonito de ver que até Irmino, o presidente da câmara de Alfache, depois da elegia a Salemo, verteu duas lágrimas, em forma de asa.

7.12.15

A bela arte de chegar a centenário

Consulino, o mais celebrado dos calceteiros de Alfache, todos os dias lia o jornal do dia anterior. Tinha vinte anos quando concluiu que em cada dia pouparia assim um dia de vida em relação aos outros habitantes de Alfache, que liam o jornal do próprio dia. 

Morreu feliz, aos setenta anos, com a bonita idade de cento e vinte anos.

6.12.15

O nascimento do menino

Rubim, o padre de Alfache, todos os dias celebra missa na Igreja de Nossa Senhora e todas as noites perscruta os mistérios do universo com o telescópio que tem na torre, junto ao sino. Rubim observa as galáxias, as estrelas, os planetas e os satélites e rabisca anotações num livrinho  de capa púrpura que transporta sempre consigo.

Quando faz o presépio, Rubim deposita o menino nas palhinhas, como se ele fosse de porcelana frágil. Depois, consulta o livrinho, onde foi anotando os planetas que observou à noite, do telescópio do sino. Pois se Deus se fez menino para nascer na Terra, pensa Rubim, porque não se fará menino para nascer nos outros planetas, milhões de milhões deles, que existem no universo? E assim, compulsa as suas anotações à procura de um sinal de que Deus está a nascer, feito menino, num planeta do seu universo.

Nunca fala da sua busca nos sermões, mas Saulina, a mulher de Irmino, o presidente da câmara de Alfache, suspeita da demanda do padre. Já o viu à noite, na torre do sino, escuta-lhe as palavras com toda a atenção, dá os nós.

Rubim tece a teia do universo. Saulina tece a teia de Rubim. E Deus nasce, incógnito, num dos planetas do livrinho do padre de Alfache.

5.12.15

Alfache

Garibaldo, que foi guarda-livros em Alfache durante quarenta anos, costumava deixar poemas escritos nas paredes a lápis de cera cor de sangue. Nunca atuava à luz do dia, e nunca os assinava. Só o dono da papelaria onde comprava os lápis sabia, mas guardou segredo até ao fim. Quando Garibaldo morreu, o presidente da câmara de Alfache, Irmino, mandou pregar molduras em torno dos poemas. O livro das Obras Completas de Garibaldo contém apenas os nomes das ruas e os números de porta das casas onde estão os poemas.

Levi, um estudioso da obra de Garibaldo, vive, há uma década, na rua de Lianor, frente ao primeiro poema de Garibaldo. Quando lhe perguntam o que vai fazer quando acabar, responde simplesmente que mudará para a rua de Palmiro, para ler o segundo.

Elixir da eterna juventude

Quando não vou ao café do Chico, absorvo cafeína em forma liquefeita no café do Senhor Jacinto. Há muitos anos que lá vou, anos que passaram depressa, mas não para o Senhor Jacinto e retomo o tema já, já.

O Senhor Jacinto hoje conferia faturas, enquanto os funcionários, da geração X, aviam cafés, pastéis de nata, torradas, galões, tostas mistas, queques e pães de deus. Eu fiquei-me pelo café, deitando embora um olhar de soslaio ao pão de deus. Recordo-me que esta semana comi um, bem bom por sinal, noutro café (o da Dona Albertina, ainda outra Dona, servido pelo Senhor Arnaldo, que usa t-shirt no pico do Inverno, para mostrar, assim julgo, as tatuagens intricadas, parece um maori, quase o imagino a fazer a haka).

Mas perco-me nestas divagações. Retomo, nas faturas do Senhor Jacinto. Dizia eu que os anos passaram, mas o Senhor Jacinto permanece igual: o cabelo não cresceu no alto da cabeça, liso; o bigode não desapareceu, nem embranqueceu. Não aumentou ele de tamanho, e vi-o sentado (a conferir faturas, lá está) mas também não achei que tivesse diminuído. Não muda de uniforme desde o início do café, mas é pessoa de asseio, assumo que será lavado periodicamente, o dito.

Antes, passei pelo quiosque do Senhor Joaquim, para comprar o espesso, não é gralha, é trocadilho gasto, mas é habitual: Senhor Joaquim, é o espesso se faz favor, e entrego a nota de cinco euros, e pergunto se ainda chega, e o Senhor Joaquim entrega-me moedas pretas e cor de metal, e é todo um ritual, chega e sobra. E o Senhor Joaquim, tal como o Senhor Jacinto encontrou o elixir da eterna juventude, está na mesma, bem conservado, Deus o proteja. Há tantos anos que por lá passo, e não noto a diferença neles, mas noto em mim. Talvez porque não saiba, não consiga determinar, a idade deles, mas saiba a minha, estão sempre como quando os conheci, há tantos anos. E nunca lhes tirei uma fotografia, é verdade.

A receita do elixir talvez seja simples, no fim de contas: não se saiba a idade, não se guarde qualquer imagem de dias idos, vejam-se as pessoas semanalmente, vá, que seja. E ai estão, para as curvas, para a eternidade. A conferir faturas, ou a entregar espessos, numa continuidade tranquilizadora. Uma das poucas, mas tão valiosa que não há notas de cinco euros em quantidade suficiente para a pagar.

20.11.15

Pilosidades supralabiais

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora retirado algures no Restelo, nos braços da dulcíssima Orchidee. Como habitualmente, a missiva apresenta-se na cuidada letra treinada nas tertúlias caligráficas contíguas à Bodleian, escrita pelo aparo suavíssimo da S. T. Dupont do venerando mestre.

«Meu muito estimado amigo, 

Fontes que não posso nomear, mas que lacrimejam copiosamente aqui ao lado, dizem-me que o meu prezado deixou de ter vida, deixou de dormir, de comer, de ler, de ver a luz do sol, e o disco da lua. Parece-me uma decisão sensata, e não totalmente inesperada. Julgo que escolheu o caminho menos viajado, como diria Frost. Veremos se isso lhe faz toda a diferença. Em boa verdade, nunca soube muito bem que vida era a sua, e os desenvolvimentos recentes vieram apenas solidificar esta minha convicção. 

Sugiro-lhe que deixe medrar as suas pilosidades supralabiais e ninguém lhe negará o estatuto de um Tomás de Alencar do século vinte e um. Note bem que eu não disse a estatura, menos ainda a poética, que tirando fonte que insiste em manter-se anónima, não acredito que mais alguém tenha paciência para ler os seus eflúvios líricos, por demais açucarados e eivados de um saudosismo hercúleo (para não dizer «herculaneano»), caduco, decadente, deprimente. Mas não leve demasiado a peito esta minha apreciação. Considere-a uma crítica construtiva.

Jane Austen escreveria que a natureza humana precisa de mais lições do que um sermão semanal pode transmitir. Eu diria que a natureza humana precisa é de um bom jantar, diário de preferência (coisa que o meu amigo não parece saber já o que é) ou, ao menos, semanal. Está, portanto, intimado a comparecer por cá amanhã às dezanove para tratarmos dessa fome acumulada, com juros. O diligente Reboredo está, neste preciso momento, a amanhar um anho com as suas próprias mãos de antanho, que nos servirá com todo o gosto dele e maior prazer nosso. Esqueça lá essa sua mania de se alimentar apenas de capim e cardos. Por um dia, não morrerá se comer algo que tenha corrido em cima das próprias pernas. E se morrer, olhe — faremos publicar um belo obituário nos hebdomadários em papel e até nalguns nas internetes, pois então. 

Orchidée, soluçando aqui ao lado («Pauvre, pauvre, J.») segura-me a mão para travar esta minha torrente de amizade. Sabe que é sempre por amizade que digo o que digo. Cá o aguardamos impacientemente, uns mais do que outros, evidentemente. Não se atrase. O amável Reboredo costuma ficar de mau feitio quando serve o seu afamado anho já a esfriar. Não vai querer enfrentar o olhar fulminante dele, em caso de tal desinfeliz desenlace.

 Aceite um abraço, deste que muito o estima e considera, 
 J. E. de Andrada»

9.11.15

Bach, o social

A Deustsche Grammophon avisa-me, via Twitter, que é altura de eu conhecer tudo sobre Bach! (ponto de exclamção incluído, coisa lá deles, com hashtag apensa: It's all about #Bach!). Apresenta-me o retrato de John Eliot Gardiner a apontar para outra hashtag: #50BachMasterworks. E uma foto de um telefone, com o perfil de Bach no ecrã, e as ligações para os serviços de música da moda, onde posso, finalmente, ouvir tudo sobre Bach, em cinquenta obras, primíssimas, as mais primas de todas. «Bach e Gardiner pertencem simplesmente em conjunto», dizem-me. E eu vou até à estante, onde param todas as obras de Bach que sobrevivem — e não conto, claro, com as outras tantas que a mulher teve que vender, após a morte dele, para pagar as contas da família numerosa e que nunca mais se encontraram — e pergunto-me se Bach merece ser tratado assim, na modernidade de hashtags e no despautério de tantos pontos de exclamação. É inegável que é um sinal geracional, isto de ter esperado que Gardiner publicasse as cantatas, gravadas numa magnífica peregrinação que passou por Portugal; de preferir a versão dele à de Koopman; de ter penado até encontrar uma interpretação perfeita da Chaconne para Violino Solo (Kremer, meu caro, chapeau). Não sou pela sacralização da música — aliás, sou pela sacralização de muito poucas coisas, quase nenhumas delas relacionadas com arte, música, literatura, ou criação humana. Eu sei que a Deutsche Grammophon tem que se adaptar aos tempos, como eu me adaptei. Só não gosto que me sirvam sopa de cogumelos feita de pó hermeticamente selado como se fosse dos ditos acabados de colher e ainda a saltar de frescos quando mergulham na água. É um preciosismo, mas é o meu. E gosto dele assim.

25.10.15

O café da hora antiga

Chego ao café do Chico pela hora antiga, porque há que manter a continuidade dos dias, assim o creio. Não mudarei de hora por imposição, só por opção, só quando me apetecer — apesar do meu carro ter decidido fazê-lo sem autorização, e dos gadgets o terem imitado, os influenciáveis. Assim entro no café a uma hora diferente de todos os que ainda lá não chegaram porque já estão numa hora nova, já lhes levo avanço, vai dar para daqui a pouco comprar até um livro de poesia, mas isso eles não sabem. Chego ao café ainda sem o livro que comprarei, só mais tarde — ser narrador omnisciente dá para jogar com vários tempos ao mesmo tempo, pensa a leitora, e pensa bem, como sempre, omnisciente, também. Recebe-me o Chico no tempo dele, que é um tempo intemporal, não há relógio na parede do café, nem televisão ligada, pode haver lua ao meio-dia e sol à meia-noite e o cliente perderá, ainda assim, a noção de tempo. Que bem sabe, o tempo sem tempo, quase tão bem como os pastéis de nata, dois, que o Chico junta ao café, dois para celebrar o dia longo. E enquanto ainda não compro o livro, leio o jornal, que é o benefício de chegar antes dos outros, exceto do Júlio e da Laura, que estão a tomar o café em mesas separadas, cada qual com o seu telefone, a ler, a escrever, a ler, a sorrir, a ler, a escrever. O Júlio e a Laura, que o destino separou e o café juntou, tomam café ao mesmo tempo, não em conjunto, mas juntos. Mesas contíguas, chávenas sincronizadas, olhares perdidos no telefone. O Chico dança por entre as mesas aquele tango dele, semeia olhares e palavras. Procuro uma nesga de azul, uma que seja, lá fora, mas sol, só dentro do café, bem o vejo, entre as mesas do Júlio e da Laura. Bem nota o Chico, a quem a face irónica se ilumina enquanto passa entre as mesas. E quando sai a Laura, sai logo a seguir o Júlio. E a Laura estaca, à porta do café, do lado de fora, procura algo na mala, alonga o tempo de procura, transforma-se em tempo de espera. Eis que o Júlio chega junto, num repente abraçam-se, um abraço tão rápido como a diferença entre a hora antiga e a nova. O destino separou, o abraço juntou. Ninguém viu o abraço, furtivo, ninguém exceto eu e o Chico, mas nós não contamos: somos discretos, secretos, ninguém. Eu disse rápido, há pouco? Deveria ter dito longo: depois do abraço, vejo-os acertar os relógios, cada qual o seu. Prolongado o abraço, portanto. O tempo é o que deles quisermos fazer. Abraço o Chico, abraço a mulher do Chico, também. Saio. Do Júlio e da Laura, já não há sinal. Vou aproveitar a hora extra, comprar o tal livro de poesia. Isso a leitora, omnisciente, já sabe. Mas dá-me o devido desconto, porque hoje, a hora a mais, até para isso dá.

21.10.15

Manifesto do escritor, que podia ser o manifesto do blogger

Escrito por Joanne Harris, para um discurso no festival de literatura de Manchester, esta semana.

Manifesto do escritor:

  1. Prometo ser honesto, corajoso e verdadeiro; mas, acima de tudo, fiel a mim mesmo – porque tentar sê-lo face a qualquer outra pessoa não é apenas impossível, mas o sinal de um escritor timorato.
  2. Prometo não me vender — nem mesmo que mo peçam.
  3. Poderá nem sempre gostar do que escrevo, mas saiba que foi o melhor que pude fazer, naquele momento.
  4. Irei desafiá-lo e puxá-lo para fora de sua zona de conforto, porque é assim que podemos aprender e crescer. Não posso prometer que se vá sempre sentir seguro ou à vontade – mas vamos ser inquietos juntos.
  5. Prometo seguir a minha história onde ela me levar, até mesmo ao mais escuro de lugares.
  6. Não limitarei a minha audiência apenas a um grupo ou uma demografia. As histórias são para todos, e todos são bem vindos.
  7. Incluirei pessoas de todos os tipos nas minhas histórias, porque as pessoas são infinitamente fascinante e diversas.
  8. Prometo que não vou hesitar tentar algo diferente e novo — mesmo que as coisas que tente não sejam sempre bem sucedidas.
  9. Nunca deixarei que alguém decida o que eu devo escrever, ou como — nem o mercado, os meus editores, o meu agente ou mesmo você, leitor. E apesar de às vezes tentar dizer-me o contrário, também não acho que seja o que realmente quer.
  10. Prometo não ficar indiferente quando falar comigo — seja em meios de comunicação ou fora, no mundo real. Mas lembre-se que sou humano também — e nalguns dias estou impaciente, ou cansado, ou às vezes só corro contra o tempo.
  11. Prometo nunca esquecer o que devo aos meus leitores. Sem leitores, sou apenas palavras numa página. Juntos, criamos um diálogo.
  12. Mas no final, tem a opção de me seguir ou não. Abro-lhe a porta. Mas nunca o culparei se decidir não atravessá-la.
[Versão de x.]

19.10.15

incredulidade

Paul Klee, Angel still feminine, 1931
entraste
e habitaste-me 

tal

com incredulidade
admito-me incapaz
de distinguir-te-me

6.10.15

estado nativo

Paul Klee, Pastoral, 1927
preciso arrancar 

estilhaços de céu
e arestas de fogo

para urdir as palavras 
que urjo dizer-te

não se encontram
em estado nativo

na natureza

1.9.15

O rei janta, e canta

Jean-Baptiste Lully, Passacaille d'Armide

Era para ser estreada em Versailles, ou assim o pretendia Lully, esse pérfido e genial intriguista, mas afinal, são os parisienses que assistem à primeira apresentação de Armide. E deliciam-se: tanto, que Luis XIV, nela glorificado, dá por bem investido o ouro aplicado na encenação; e até sua majestade solar cantarola os prologues durante a representação ou trauteia passacailles ao jantar. 

28.8.15

Epístola a um vilegiaturista

Recebo de J. Eustáquio de Andrada uma missiva, escrita a tinta azul cobalto, na sua letra cultivada nos salões de arte caligráfica apensos ao Magdalen College, em Oxford, onde foi professor de Literatura Portuguesa, até se retirar, nos seus anos de ouro, para os braços de Orchidée, sua musa d’estes dias.

Meu muito estimado amigo,

Stevenson dizia que viajava, não para ir a algum lado, mas para ir. O meu prezado correspondente, que há um mês expunha as suas dúvidas sobre ir, provavelmente foi, sem de facto ir a lado algum. Não me espantaria que, quando muito se tivesse soterrado nalgum tugúrio perdido nos montes, empanturrando-se das obras completas de Lactâncio e Santo Agostinho — e desnutrindo-se decerto com sopas de acelgas e sumo de pepino. Aqui ao meu lado, perante tal perspectiva, alguém soluça, na língua de Musset: «Pauvre, pauvre J.» 

Imagina-o a pobre Orchidée — esta diva que transforma o meu ocaso numa vereda crócea para o paraíso — com um carão ainda mais esquálido e pálido, do que o levou à partida, após todas as horas que terá passado nessa gruta, a ler até desoras à luz de velas, esses alfarrábios bichosos e bafientos. Não o faz por menos, a minha deidade. 

Reproduzindo os passos de Thoreau, que já me confessou admirar, o meu amigo, no seu regresso aos primórdios, nalgum Walden Pound perdido no Portugal profundo, imagino-o eu. Um mui sui generis vilegiaturista, portanto. (Orchidée, que numa primeira leitura, percebeu «naturista» fita-me com ar de fera — e injustificada — reprovação). 

Insta-me a dulcíssima Orchidée a salvá-lo da inanição em que decerto se encontra depois desse seu mais que provável retiro meditativo afundado em cartapácios (tem a certeza de que tem forças para se mover? precisa que lhe envie uma equipa de salvação, com soro, talvez?). 

Caso se consiga arrastar até ao Restelo, as portas de nossa casa estão abertas, a mesa fartamente posta, e um turno de enfermagem a postos para os primeiros socorros, que isso de ver a luz não filtrada pelas ramagens de árvores dos bosques pode causar fotofobia, e os primeiros alimentos dignos desse nome num mês, dilatação excessiva dos órgãos digestivos. Renascer causa mais cuidados que nascer, em suma.

Apareça. Pela sua saúde.

Deste que sempre o considera,

J. Eustáquio de Andrada

16.8.15

O café do café

Regresso cedo ao café do Chico no dia seguinte ao da mudança de turnos. Os que chegaram, estão em ritmo de arrasto para a praia nossa de cada dia — não apareceram ainda; os que se foram, pois bem, foram. O Chico não está em ritmo de praia, nunca está; o Chico está sempre em ritmo de tango, nem parece desta terra, nunca a pressa o aflige, e é em passos curtos e saltitantes, que dança por entre as mesas, rasga um sorriso lunar e me abraça até que os meus ossos se assemelham a lenha aquecida. O Chico põe-me a par das andanças do sítio, é todo ele uma rede social, sem que eu tenha que comentar ou gostar de polegar. Sento-me junto à janela, tenho o DN e o CM e todos os jornais para mim; mas não me apetecem as notícias. O Chico vai passando, enquanto limpa copos, e eu vou-lhe contando das viagens; quase deixei de beber café, Chico, quase deixei, longe daqui; noto-lhe o sorriso irónico. O café, Chico, o café, é o que redime este país que nos acolhe. Nós, que por cá andamos, pensamos que é o sol, a gentileza das gentes, as brancas areias, o peixe a saltar, vivo; não é. Corre-se Seca e Meca e Roma e Pavia, e nem um dia se bebe um café que saiba a perfeição; nas terras para lá das fronteiras e dos mares, as colheres são por demais grandes, as chávenas são bojudas como galeões, as torras sabem a água com barro. A nostalgia é como uma mola — afasto-me, e quanto mais me afasto, mais a sinto a esticar, até que há uma altura em que ela vence e eu volto, mais veloz do que consigo dizer «café». Mandasse eu nisto, aqui no rectângulo, digo ao Chico, e decretava uma chávena bem ao centro da bandeira: as quinas e a Esfera sobejaram, que para mim bastava café somente. O Chico ri, traz-me outro café: este é por conta da casa, oh nacionalista de meia-chávena. E eu, abro o livro que me acompanha; fico, aboletado, sem compromissos de horas. Domingo, férias e café a sério. Supreendo-me feliz, e perco-me na leitura.

1.8.15

Mais cigarras de agosto

Esperavam-me, à entrada da praia, as cigarras, antes da descida. O concerto continuava onde o tinha deixado, quando saí de casa: notei a persistência melódica. Não sei se os homens que transportavam as suas asas as ouviam — suspeito que já estavam sintonizados nas boas vibrações dos Beach Boys, ecoadas pelos altifalantes do bar. Mais à frente, abrigados das areias rodopiante, dois tocadores, um de viola, outro de guitarra portuguesa, ofereciam um fado ao mar onde, em cima das ondas, dançavam homens vestidos de negro, embalados, pareceu-me, pelo ritmo da música, nos braços do vento. Lembraram-me anjos bailando. Quando, mais tarde, regressei à entrada, ao canto das cigarras, um rapaz que chegava nesse instante, trazia estampadas na t-shirt as palavras Why don’t you blog about it? Sim, porque não? Este agosto está cheio de cigarras.

22.7.15

Salvaram-me a vida, ou perto disso

Ah, o cheiro dos livros ao entardecer; ah, o verão que leva à alteração de horários; ah, a paz das bibliotecas vazias. Tão vazias; tão confortavelmente vazias; tão vazias que quando cheguei à porta, estava fechada: eu dentro. Sem desespero. Imaginei uma noite a ler até que se esgotasse a luz do telefone; o espanto de quem me encontrasse de manhã; o nascimento da lenda; ou de uma anedota. Alguém passou, lá fora; a salvação do náufrago à vista; em minutos, um segurança benevolente abria-me a porta. Saio, livre, para o ar quente da tarde. 

12.7.15

Astrolábio à água

Pêro de Évora, navegador de astrolábio em punho, passeia pelo convés quando tropeça no cordame. Solta-se o astrolábio; floreia no ar; numa parábola perfeitamente desenhada, mergulha; um magnífico «plof» e um salpico no casco; o desaparecimento perpétuo. Pêro chicoteado; nau à deriva; revolta a bordo.

Por erros meus, esgota-se a bateria no telefone. Um tijolo, extra-fino até, de última geração, é certo, mas um tijolo, no bolso. Preciso sincronizar locais, horas — horror! como é que isto se faz, sem telefone? Chicotear-me em público, apetece-me, mas não é opção; à deriva é como me sinto; revolto-me, contra esta dependência estúpida. 

Prioridade: chegar ao carro para carregar o telefone. Tudo o resto se torna secundário. Penso: e se fizer com que ao telefone suceda o mesmo que ao astrolábio? Será um dia feliz esse: deve ser bom passar a navegar a vida apenas pelo sentido das correntes, a força dos ventos, os contornos da costa.

A ver se não me esqueço de tropeçar — junto ao rio.

29.6.15

sombra

Paul Klee, Personagens em amarelo, 1937
de nada
me serve a luz
se não encontro
a sombra
de ti

23.6.15

A dança é a criação de uma escultura visível apenas por um momento


Lully, Passacaille de Armida, pela companhia Neveux de Rameau, de São Petersburgo

21.6.15

O café das águas cristalinas

O Chico já sabe que, nestes dias assim, antes do café, eu bebo uma garrafa de água, fresca, ainda enevoada de gotas minúsculas, baça por fora, cristalina por dentro. Traz-me então um copo brilhante, ainda vem com o pano na mão a puxar lustre, e através do copo vejo a luz da rua que se escoa por todos os vidros, luz matinal, que só pela manhã é que se aguenta o café quente, e cheio — cheio para o prazer da cafeína se alongar. Ainda tenho Diário de Notícias e Público e Correio da Manhã à escolha, toda a informação à minha espera, que no café estou só eu. E o Chico, pois claro. E, de repente, não me apetece ler, apetece-me apenas ficar na palheta com o dono dançarino, aluno de Apolo, tribuno de balcão. Apetece-me falar como se entre os dois se tivesse juntado a sabedoria dos anos e a curiosidade das infâncias. Dos dias que correm rápidos, tanto, que ainda ontem era domingo, e amanhã o será de novo. Já me explicaram o fenómeno: quanto mais vivemos, menor é a percentagem de um dia, de um simples dia, no total da nossa vida. O primeiro dia de vida, é cem por cento, o segundo, cinquenta, e depois, sempre a diminuir, por isso o tempo passa tão depressa quando já lá vão tantos dias, cada um a retalhar mais ainda a percentagem. Já me explicaram, e eu ainda não entendi: a água que corre nos rios da minha mente não é cristalina — quem dera que fosse —  como a que corre agora para o copo. O Chico tem que interromper a conversa sobre o tempo, eis que chega a Alda, a segunda freguesa do dia, madrugadora também — foi do calor, diz Alda, como que a justificar o que não é preciso. E Alda bebe também água antes do café, o Chico vai ter que mudar o nome do estabelecimento, o modelo de negócio, como se diz, já está em transformação. A competência nuclear do Chico deixou de ser tirar cafés, passou a ser servir águas. Águas cristalinas, como os olhos de Alda, a segunda freguesa da manhã, já o disse, ainda antes de falar dos olhos. Hoje não leio, limito-me a olhar, fito os olhos de Alda, que com eles baixos, fita os jornais que estavam todos livres. De vez em quando, Alda levanta os olhos e o que leio neles, não está nos jornais. Cada qual em sua mesa, e eu sei que não se brinda com água, mas que fazer, se esta não é ainda hora de vinho, levantamos os copos, que se cruzam no ar. Não é um brinde, é um cruzamento de vida, por via de água cristalina. Cruzam-se águas, como as linhas que o grande arquiteto cruza na vida das gentes. O Chico, esse senador omnisciente, sorri atrás do balcão, enquanto vê os olhares a cintilar pelos ares do café. O Chico hoje não fará mais negócio comigo — nada mais levo. Não levo rissóis, nem pastéis de nata: o tempo, este tempo assim, não pede, não puxa. Só pede água fresca e olhares cristalinos. Digo bom dia, saio para o calor. Levo água para me saciar uma hora e olhares para me saciar o dia. Em termos de percentagens, parece-me o melhor dos compromissos. 

19.6.15

Famosas últimas palavras

Recebo uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor de Literatura Portuguesa no Magdalen College em Oxford, agora retirado algures no Restelo, nos braços da dulcíssima Orchidee. 

«Meu muito estimado amigo, 

Chegam-me notícias de que voltou a editar esse seu hebdomadário lá nas internetes, e que reabriu também a secção de cartas ao diretor (melhor dito, no seu caso, será mais cartas ao dirigível, dada a volubilidade de que o meu amigo dá mostra na condução dessa coisa que mais parece um zeppelin escrito). As mesmas fontes que me informaram (e que, aqui ao lado, lhe atiram beijos de ar), indicam-me que deixou de falar de pássaros. Se o canoro, como me dizem que chama ao bicharoco, voltar a piar, o Reboredo, que ainda por cá anda a acarretar uns blocos de granito para a nova fonte, está à disposição para tratar do assunto.

Relatam ainda as ditas fontes, que o meu estimado anda envolvido em animadas tertúlias sobre temas económico-sociológicos, que quer marcar posição, sair da sua proverbial «zona de conforto», como sói dizer-se por estes tempos. 

Um homem avisado, que se mete em tais batalhas retóricas, tem que ter sempre as suas derradeiras palavras prontas, na ponta da língua. Nunca se sabe quando serão necessárias. Sabe o meu amigo que, quando o Sidónio levou um tiro no meio do peito, a propaganda da época fez correr o boato de que as suas últimas palavras teriam sido: «Morro bem. Salvem a pátria.» A verdade, que me chegou pelo testemunho do avô Eustáquio de Andrada, que assistiu a tudo, é mais prosaica: o que o Presidente disse, verdadeiramente, foi: «Não me apertem tanto, rapazes!» (1)

Orchidée, aqui ao lado, de lágrima brilhante ao canto do olho, suplica-me para parar de apertar consigo. Assim sendo, apareça é por cá ao jantar, que as perdizes que o prestável Reboredo andou a apertar para entrarem na receita do Convento de Alcântara prometem ser históricas, dignas da Duquesa de Abrantes. 

 Deste que muito o estima e considera, 
 J. E. de Andrada»

(1) O avô Eustáquio de Andrada sabia do que falava.

15.6.15

Caderno Diário

O pássaro, que ontem cantou como um tenor numa ópera de Donizetti, denodadamente, sem pausa, sequer, para retomar o fôlego, hoje nem pio. Não precisei dele para acordar a horas que não se recomendam: suspeito que não quis ser o alibi da minha espertina. Todos os dias são mágicos, não diria Calvin, mas pensaria. Todos os dias são mágicos, especialmente a segunda, diria eu, após maturada ponderação. Especialmente quando, chegadas as 23h59, temos a certeza absoluta (ou para lá da dúvida razoável, digamos) que dali a um minuto, cinquenta e nove segundos, cinquenta e oito,... se inicia terça. Essa é a magia, única, particular, reciclável cinquenta e duas vezes por ano, da segunda. Suspeito que o pássaro sabe isso também, este meu Wittgenstein de beiral.

14.6.15

Um hebdomadário nas internetes

Recebo, de J. Eustáquio de Andrada, via Snapchat de Orchidée, uma foto de uma mensagem escrita a esferográfica azul, que me parece Bic Cristal, escrita normal. Estranho, deveras estranho.

«Prezado amigo,

O bem mais precioso de um homem, depois do seu castelo e da sua donzela, é o seu sossego. E se o meu castelo é bem defendido, como saberá, já a minha donzela, esta Orchidée que ilumina o meu doméstico ocaso, anda a inundar-me os cantos ao castelo com lágrimas, de saudades lá do pássaro que cantava no hebdomadário que o estimado mantinha pelas internetes. Já prometi arranjar-lhe um canário, que ainda para mais será útil em caso de fuga de gás, mas tal sugestão só fez aumentar os prantos. 

Não sei se o meu amigo conhece aquele rapaz, o Reboredo, que trabalha lá na herdade, foi comando e agora é pegador no Grupo de Forcados do Barrete Encarnado. Acontece que ele está de serviço cá por casa, por estes dias, a mudar umas estantes de lugar, a carregar o piano para a ala nova, e a acarretar umas pedras para a fonte que estamos a reformular no jardim. É um rapaz de vastas capacidades, bem vê. Por mor do meu sossego, o bem mais precioso de um homem, repito, estou capaz de prescindir dos préstimos dele por umas horas e mandá-lo ter consigo, para em conjunto discutirem o que é que faz falta para voltar a colocar nas internetes esse seu hebdomadário. Se achar que isso ajuda, disponha. Tem aqui, como sabe, um amigo às ordens. 

E se, entretanto, mudar de ideias, apareça cá para o jantar, soluça Orchidée aqui ao lado. O Reboredo trouxe um par de faisões da herdade e ouço lá fora o piar desesperado da bicharada ao avistá-lo, façanhudo, decidido, frio e insensível, de navalhão na mão, a preparar-se para lhes tratar da eternidade.

Já sabe, se precisar, os amigos são para as ocasiões.

Deste que muito o estima e considera.

J. E. de Andrada»

9.6.15

Caderno Diário

Quando, daqui a pouco, escolher a mesa debaixo da laranjeira para tomar o café, sei que no líquido preto da chávena se refletirá a laranja, por cima. Todos os dias vejo a laranja, junto com as outras que também lá estão, companheiras de horas matinais e de outras em que lá vou, e de outros que lá vão como eu. E a laranja está ali, tão à distância da mão, que a fotografia sai tão clara como se estivesse fresca no ecrã. Aquela é uma laranja tranquila: vê os cafés de cima, observa os almoços, ouve as conversas, quase sempre em vozes baixas. Talvez seja da laranjeira, sim, mas há uma certa reverência, em quem ali conversa, como se cada palavra fosse tão importante como aquela laranja, que a cada dia amanhece, intocada, intocável. Como habitualmente, pousarei o café, sentar-me-ei e fotografarei a laranja. O café pode esperar, pode sempre esperar. Um dia, talvez conte a história da laranja, fotografada, documentada. Mas por agora, acho que ela é que seria capaz de contar a minha, pela forma como pego na chávena, como a deixo permanecer longamente no ar, olhar distante, sorriso perdido de ternura, de nostalgia. Perspicaz, a laranja.

6.6.15

Caderno Diário

Ao sétimo dia descansou. Depois de uma semana em que tentou criar os céus e a terra, as coisas visíveis e invisíveis, as macieiras e as serpentes, ao som de arias schubertianas e de cantos de ortodoxias milenares — o pássaro calou-se. E eu dormi, dormi por seis dias de sonos cerceados ainda em tenra madrugada, o sono dos justos, ou do justo em que amanheci, finalmente. E, também eu, ao sétimo dia, descobri que isso de dormir: é bom.

3.6.15

Do Restelo a Zurique num remate à barra

Recebo de J. Eustáquio de Andrada, em mão própria, uma missiva escrita a tinta azul cobalto, no traço elegante da S. T. Dupont Olympio do professor do Magdalen College. No papel noto, discreta, uma fragrância, que bem conheço. 

 «Meu muito estimado amigo, 

Espero que a presente, que lhe será entregue por diligente mensageiro, o encontre de boa saúde e em pleno uso das suas faculdades mentais, porque sobremaneira precisará delas para o que se segue. Não desconhecerá o caríssimo, por certo, que com a retirada de Sepp (1), fica aberto uma vaga que se adequa como um sapato Ferragamo ao pé deste seu servo. O que me move é, como imaginará, um intuito de puro e seguro patriotismo, o de levar o nome pátrio aos cumes do football mundial. Espírito de missão, sacerdócio até, portanto. 

Orchidée, esta maré que continuamente me inunda de felicidade, já intercedeu junto de son papa a quem o Michel (2) deve, digamos, alguns favores. Ao que a minha diva me comunica, está bem encaminhado o apoio das terras francas à minha candidatura. Eu estive a falar com o Ali (3), que, como decerto não ignorará também, conheci quando ele era estudante na Velha Albion, e que tutorei, aliás, por pedido encarecido do pai. O Médio Oriente também já se entusiasma com o nosso avanço. Aquele outro rapaz português, o de cabelo empastado com gorduras animais (4), não me parece estar, ainda, na linha de partida: eis-me assim, como perceberá, a preparar a mudança para Zurique — a vitória é inevitável, como a morte e os impostos.

Orchidée lembrou, acertadamente como sempre, que o meu amigo, com essa sua mania de querer morrer saudável, anda magro que nem um coiote em ano de seca, se passeia de medonho carão, e acha, a minha musa, que talvez fizesse bem ao pauvre J. uma dieta daqueles fondues de queijo que se comem num restaurante que o pai Andrada frequentava, nas suas viagens frequentes àquela abençoada terra, onde o leite e o mel brotam copiosamente de doiradas torneiras.

Bem sei que o meu amigo acha que football é um jogo em que a bola é oblonga e não consegue distinguir um porteiro de um árbitro. Mas decerto, na sua vasta biblioteca, encontrará algum tomo que lhe explicará que o football é um jogo simples, onde vinte e dois adultos correm atrás de uma bola e, no final, ganham os alemães (5). 

Arranjar-lhe-emos um pelouro qualquer que combine com o seu perfil contemplativo: guardião das Laws of the Game, talvez. Poderá ficar calmamente lá nas suas bibliotecas, a olhar para o lago, e a assegurar que ninguém altera uma vírgula nas leis. Acho que era um trabalho bom para si, que me diz?

Avisa-me Orchidée que o portador da missiva aguarda à porta e tenho-a, de mão estendida, aqui à minha frente, como pobre de pedir, quase a arrancar-me a carta. Prepare pois o seu bordão de peregrino, meu estimado. Primeiro tomamos Zurique, depois, tomamos Berlim (6).

Deste que muito o estima e considera,

J. Eustáquio de Andrada.»

(1) Blatter, evidentemente.
(2) Michel Platini, presidente da UEFA, candidato a califa no lugar do califa.
(3) Príncipe Ali bin Hussein, vice-presidente da FIFA para a Ásia, já de si, califa, ou perto disso.
(4) Refere-se o ilustre Andrada, depreciativamente ao que é, certamente, brilhantina da mais fina qualidade.
(5) O grande professor foi, obviamente, influenciado, pelo grande Gary Lineker.
(6) J. Eustáquio e Angela Dorothea têm uma longa história de combinar como água e azeite.

1.6.15

Caderno Diário

O pássaro anda a tomar anfetaminas, substâncias proibidas, cafeínadas, ou suplementos proteicos, parece-me a única justificação possível. Canta, mas por deus, canta, como se de cantar dependesse o mundo, não, o universo. Canta de noite e de dia, canta nas jornas da semana e nas sornas do fim d'ela. Para ele não há horas de descanso, há apenas horas de canto. Deve ter-me lido, aqui, uma referência encomiástica à sétima de Beethoven. Pois quer-me parecer que quer provar que ele, também ele, pode ser não apenas compositor, mas também maestro, orquestra completa, audiência efusiva. Canta e aplaude-se, e bisa para agradecer o aplauso, e leva nisto todo o dia. O pássaro tornou-se num Beethoven a compor a sétima, para vencer Napoleão, vindicar Viena, qualquer que seja o pequeno corso que lhe motiva as efusões canoras. Eu, depois de dias sem dormir nada de jeito, já encontrei o meu waterloo. Vou dependurar uma bandeira branca no beiral: rendo-me, mas rendo-me tanto, com tamanhas ganas. Ah, dormir, sonhar talvez! Mas sobretudo, dormir sim, que coisa maravilhosa, deve ser bom, isso de dormir. Que saudades.

26.5.15

Caderno Diário

Acordou já passava bem das sete, que eu anotei — e cronometrei: catorze minutos de canto. E depois, silêncio. Não é bem uma tomada de posição, não é a greve do dia, é uma afirmação estética. O pássaro refina-se: já não acorda cedo, mas também não se espreguiça escandalosamente tarde; já não canta apenas para assinalar a presença no beiral, mas também não se alonga no recital; o seu trinado é um grafiti sonoro — é isso. Por altura da sua erupção lírica, estava eu às voltas com uma estrofe de um poema de Hart Crane: «as pequenas vozes dos cães da pradaria / são incansáveis...» Eu posso ter muito que aprender com Crane — não tudo — mas os cães da pradaria dele teriam muito que aprender com o pássaro que mora lá fora. A beleza breve — é-me infinitamente apreciada. Isso, o pássaro já percebeu. Anseio o início do canto, e tanto temo que se cale — que meço o tempo quando termina. Esperto, o canoro: apanhou-me.

25.5.15

Caderno Diário

Sete horas em ponto, olhei eu para o relógio, porque olhei. Um ímpeto wagneriano, de um pássaro que, por certo, adora o cheiro do sol pela manhã, irrompe pelo quarto, onde dou a volta ao mundo, não viajando como Maistre, mas vendo-o num aparato com ecrã, nesta janela que me permite olhar para o globo de pólo a pólo antes do canoro despertar. E estava eu a congeminar palavras para escrever neste caderno, sobre sentimentos profundos e histórias superficiais, e o bicharoco veio e varreu tudo: a arte lírica do voador tem sobre mim o poder da barrela, do sabão azul e branco com cheiro a lavado. O meu profundo desconhecimento das nuances do canto das aves não me permite dizer a que espécie pertence: terei que fazer um estágio nas obras de Messiaen, compositor de que não tenho sido muito assíduo, para o descortinar. Mas, por causa dele, redescobri a memória desse cheiro de tempos tão idos, tão levados de lavados, de tempos em que o tempo tinha todo o tempo; abro a porta da rua, com tempo e um sorriso; a semana começou bem.

24.5.15

Crónicas do Grémio Literário

«Um mentiroso deve ser um homem com boa memória,» afirma Andrada enquanto cofia a sobrancelha, aspirando a chávena de café,  de olhos fechados, ondulando a mão, conduzindo uma orquestra invisível, que apenas ele ouve, e eu intuo. «Os modos de um homem revelam as suas mentiras, meu caro,» contraponho, «não há boa memória que reponha a verdade.» Meço, com os olhos, as estantes da biblioteca dele, enquanto Andrada continua a conduzir o seu concerto imaginário: «Apostam na lei dos grandes números. A maioria das mentiras passa porque ninguém se dá ao trabalho sequer de as tentar apanhar.»  Apoio o queixo no polegar, para exclamar o meu ponto: «Se um homem diz que nunca mentiu, está já a mentir. Se for banqueiro, ou político, basta-lhe apenas mover os lábios.» Adivinho que Andrada esteja a conduzir o quinto concerto de Beethoven, e na entrada do piano, no segundo andamento, acrescento: «Apenas Fradique tinha a ambição de só produzir verdades absolutamente definitivas.» Andrada interrompe a condução da sua orquestra: «E de formas absolutamente belas, o Fradique. Mas estes mentirosos de agora,» varre o ar com a mão, «nem na mentira têm gosto estético, quanto mais na verdade.»  Já terminámos o café, o reflexo da água dança no tecto da biblioteca: o sol lá fora aguarda-nos. Andrada levanta-se do sofá Chesterfield e conclui: «A vida são só mentiras, enganos e decepções. É pena é ser tão curta.»

23.5.15

Caderno Diário

Seriam umas oito horas quando o ouvi. O ouvido aguardava havia já muitos minutos quando o trinado irrompeu pelo quarto. Durou (estimo) um minuto: prova de vida; estou aqui; alguma coisa sobre que escreveres. Como um postal, isso, um postal, daqueles à antiga, em que o carteiro lia antes do destinatário: Espero que este vos encontre de boa saúde; nós por cá todos bem; saudades; um abraço. O pássaro já se viciou na arte da concisão: um minuto basta para dizer o que lhe voa na alma. Este pássaro é o meu alter ego. Um dia destes, já nem sei qual é qual.

21.5.15

Caderno Diário

O pássaro calou-se, o vento parou. No silêncio absoluto (e absurdo), tento descobrir algum ruído que me inspire o início da manhã. E enquanto escrevo, ouça passar uma revoada de voadores mesmo ao lado da janela — como que a recordar-me que o mundo exterior não desapareceu durante a noite. Sei que, daqui a pouco, ouvirei um canoro mesmo por cima, e esse é fiável, canta todo o dia, com espírito de missão. Mas é o que se espera num local de trabalho: até os pássaros vestem a camisola, se impregnam dos valores, cumprem objetivos. Ordem e progresso. E no entanto, descobrindo em mim uma faceta de anarquista, prefiro o aleatório pássaro do meu beiral, errático, que uns dias trova inopinadamente às seis, e noutros dorme até horas em que já não o ouço espreguiçar-se; gosto desta ave incerta; amo os alvoroços de doçura. 

18.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã, nada. Sete, ainda menos; pássaro, mudo; pio, perdido. Oito da manhã, já o dia ia alto para mim, já havia percorrido o mundo de pólo a pólo e Camilo, já me preparava para, em passo vigoroso, voltar ao ritmo da semana e da cidade, e eis que surgem os queixumes de relva a ser trucidada lá fora. Um diligente trabalhador, de macacão verde e capacete laranja, disparava estilhaços de erva em todas as direções, trabalho bem feito, metódico, meticuloso; ruidoso. Ruidoso como se em vez daquele desafinado instrumento de devastação massiva, de cor a condizer com o capacete, estivesse antes a conduzir um camião de longo curso; junta-se outro: somam-se os decibéis. E eis que, estremunhado, com pio ainda incerto, espreguiçando-se, decerto, o pássaro desperta: oh, alegria breve, finita vitória, gozo interior. Acordei primeiro que o pássaro, já estou fresco e pronto e de café tomado — e ele, ensonado, azoado, desatinado. Começo a acreditar naquilo do carma: obreiros da aparação da relva, vossa missão é, afinal, mais profunda do que parece: nada menos do que repor a ordem natural no universo. O pássaro piou um fio finamente melódico, viu que não se conseguia cotejar  com o roncar dos aparadores, virou-se para o lado; voltou a dormir.

17.5.15

Mergulho de fim de tarde de domingo

Recebo por correio eletrónico uma fotografia de uma carta de J. Eustáquio de Andrada, professor reformado de literatura portuguesa em Oxford, atualmente a desfrutar dos cálidos abraços da sua Orchidée junto à piscina da casa que está na família desde a primeira República, quando o bisavô Andrada conseguiu uma boa barganha num terreno para as bandas do Restelo, pertença de um carbonário, que teve que fugir às pressas do país. Mas deambulo e desvio-me — retomo já de seguida o rumo. 

“Meu muito estimado amigo, Orchidée, o sol que ilumina este dia e rejuvenesce o meu ocaso, far-lhe-á chegar esta carta por via dessas máquinas fotográficas que servem ocasionalmente para telefonar e que ela não larga nem quando flutua como agora aqui, esplendorosa, na piscina. 

Dizia ela há pouco: “le pauvre, pauvre J. deve estar enfiado naqueles livros dele, a empalidecer ainda mais, le pauvre. Não o quer inviter para se juntar a nous, ici? Le pauvre J.” 

Diz-me ela, que segue como se fosse religião aquele seu hebdomadário lá das internetes, que o meu amigo não dorme por causa de um pássaro (de um pássaro? ainda por cá tenho um arcabuz que pertenceu ao carbonário que vendeu o terreno ao bisavô — em querendo, o problema resolve-se rapidamente…) 

Não dorme, não apanha sol, passa os dias (ou pior, as noites) nessas suas bibliotecas bolorentas: em suma, não se lhe conhece existência digna de pessoa. Homem, ainda se fina sem chegar a fazer sombra que se veja. 

Pouse lá esse computador onde está a bater teclas (sim, porque está de certeza a bater teclas, mesmo num domingo como este), meta-se no carro, que ainda chega cá a tempo do mergulho de fim de tarde.

Noto agora que Orchidée está a chapinhar as mãos dentro d’água, como se estivesse em êxtase de felicidade. A água está, na realidade, com uma temperatura digna dos mares das Caraíbas, deve ser isso que a faz recuar aos tempos da inocência infantil. 

Cá o aguardamos, para o mergulho, seguido de jantar — que será de sã e honesta confeção portuguesas e não daquelas ervas e seitan, ou lá o que é aquilo que o vai mantendo nos limiares mínimos de sobrevivência. 

Ganhe vida de gente, criatura. 

Deste que muito o preza e considera. 

J. E. de Andrada”

Caderno Diário

Ah, domingo, finalmente, colocar o sono em dia, é a teoria; diria. Exceto, para quem tem um pássaro madrugador e errático no beiral. Seis e trinta da manhã, horas certas, tempo do meridiano de Greenwich, inicia o dito barítono o seu solfejo matinal, acordando-me como se de rebate a incêndio se tratasse: onde é, quantos são? Às sete em ponto, cala-se, extinto o fogo vocal, o ímpeto lírico, a memória de Tomás Alcaide. Silêncio total, finalmente, dormir, sonhar talvez, diz o príncipe da Dinamarca. É o dormes, digo eu. Meia hora de canto torrencial, deixam-me mais desperto que um banho glaciar depois da sauna. Aproveito para me inteirar do estado do planeta, correndo os jornais da porção do mundo que vai de Washington a Melbourne. Posso ser o zombie mais ensonado no raio de uma légua, mas sou o mais bem informado ao domingo de manhã. Graças ao raio do pássaro.

16.5.15

Caderno Diário

O pássaro hoje passou a noite fora, concluo, por ter acordado por mor da minha própria clepsidra interior, e não pelo cantorio desatado na janela. Ou tem segunda habitação, aproveitou alguma euribor ornitológica e expandiu o seu património imobiliário, ou foi debicar para a 24 de Julho, enganou-se, e em vez de água tónica, foi o gin que lhe aliviou a sede; saciou-se; inebriou-se; tramou-se. Agora, estou eu em cuidados com este cantor errático. Não se lhe conhece qualquer previsibilidade, nenhum ritmo, rotina nenhuma. Desaparece quando quer, tonitrua quando lhe apetece. Não consigo dormir durante a semana porque está; não estou descansado ao sábado porque leva sumiço. Veneta, a palavra veneta, provém do latim vena, que é como quem diz, veia. Faz o que muito bem lhe dá na veneta, pois, dá asas à liberdade que lhe corre nas veias, o safado. Aposto, tenho a certeza aliás, que é apenas por uma razão, que está bem à vista: é só para me fazer inveja.

15.5.15

Caderno Diário

Nos livros esgotados (eram dois, do mesmo autor, da mesma coleção) que mandei vir de um alfarrabista de outras terras, que os anunciava como em “estado novo ou quase novo” encontrei passagens sublinhadas a esferográfica azul, que me fez recordar as Bic cristal escrita normal, com que nunca marquei qualquer livro meu. Nem nome, sequer, escrevo, podem estar usados, estão, mas imaculados, os tomos da minha estante. Tiro desforra nos livros eletrónicos, nalguns deles pelo menos, que sublinho e anoto com minúcia de escrtiturário, como um estudante em noite longa antes de dia de exame. Mas divirjo. Num destes livros, de páginas tão brancas quanto a capa, excepto pelas linhas azuis que me causam o apelo irracional de ler em primeiro lugar as palavras que destacam, descobri hoje, na parte interior da contracapa, um pequeno bloco de folhas autocolantes, anotado ele também. E se o livro está marcado a azul, o bloco está escrito a vermelho; e se o livro está escrito em francês, as anotações são em inglês; e se o livro é de reflexões filosóficas, o bloco tem nome de “uma_empresa_que_desconheço.com”. E como este é um autor que tem dedicado parte da sua obra a pensar sobre o paralelismo das realidades, achei que deve haver alguma conclusão, brilhante, ou opaca a tirar deste achado. Talvez por não ter ainda tomado café, falta-me a parte do brilho, sobra-me a da opacidade. Pelo sim pelo não, voltei a colocar o bloco autocolante exatamente no mesmo local onde o achei. Percebi que faz tanto parte do livro quanto os sublinhados, que primeiro abominei, e sem os quais não passo, agora. Não sendo nenhuma epifania, mostra-me que o meu cérebro começa a destoldar. Depois de tomar café, só pode melhorar.

14.5.15

Caderno Diário

Voltou. Rejubilo na partilha da informação, de um facto deveras relevante, que hoje, pela alvorada exterior, quando interiormente era ainda início da noite, o pássaro do beiral tornou a dar largas à sua arte lírica. Não deu notas do motivo da ausência, justificações quaisquer, um singelo “olá, cá estou eu.” Simplesmente, regressou, e pegou ao trabalho, o que é deveras meritório, um exemplo de foco, daqueles que se aprendem em formações de dois dias, em luxuosos hotéis, conduzidas por gurus de barbas escorridas e grisalhas: abreviar-me ainda mais as noites, alongando-me os dias que se vão esvaindo. Serei pois, hoje, um zombie: dormindo menos ainda que o costume, que é o resultado esperado — mas um zombie feliz — embora associar estas duas palavras me cause um arrepio sintático. Ao lado da janela onde estou agora, os outros cantam, mas esses já por cá andavam. Neste momento tenho cantorio a trezentos e sessenta graus em torno da casa, o que me permite finalmente cumprir um sonho de sempre, daqueles que se transportam da mais tenra e inocente meninice: saber o que é estar no centro do palco, numa ópera de Wagner, rodeado de vozes de possantes sopranos em canto firme e ininterruptível. É, nem mais, nem menos, como me sinto, agora. O dinheiro que andava a guardar para ir a Bayreuth, vou antes aplicar na construção de um resort para passarada no beiral. Ah, a magnificência de acordar todos os dias, pela madrugada, ao som da abertura de Tannhauser.

13.5.15

Caderno Diário

Deve ser uma conspiração: ouço pássaros a cantar nos sítios mais improváveis. Onde me sento agora, com o computador ao colo, escuto-os a cantar, a uns metros, calculo que apenas a uns metros, de uns poemas do Ramos Rosa. Ontem à tarde, por cima, e não achei que fosse muito acima, de uns parágrafos do Vergílio Ferreira, também vieram, dar nota dos seus dons. E ainda hoje ao amanhecer, aí sim, um pouco mais longe de um rendilhado da Agustina, mas de forma que eu conseguia ouvir, lá estavam eles. O livro entre mãos influencia a forma como escuto o canto. E provavelmente, escutar o canto, vai mudando o modo como leio. Agora, apenas debico — leitura de pássaro, portanto. 
 *
Ontem ouvi de um helenista, de quem dedicou toda a vida a estudar a língua e a cultura gregas, e já passou o meio século de vida, que ainda lhe faltam mais vinte anos, pelo menos, para saber o que desejaria, dessa mesma língua e da cultura que ela representa. Aprendi, também, que a palavra êxtase, tem origem em escada. Depois, ao subir, não uma escada, mas uma rua fervilhando de gente, ao fim da tarde, pensei se a vida não é, afinal, a tal dita escada, os degraus que se logram subir — e  o êxtase, a consciência, que nos bate de frente, de que há sempre mais degraus a subir, de onde aqueles vieram. 
*
Dois colegas disto dos blogs, aqui e aqui, mostraram, à vol d’oiseau, como é possível colocar tantos de nós, sem ideias pré-concebidas, a olhar para obras de arte, em minucioso pormenor — com notável ironia, bom gosto e enorme prazer. Isto, afinal, sempre são mais do que blogs.

11.5.15

Caderno Diário

Estou chegando quase... Desperto na segunda e sei que o meu corpo já cá está, e sei-o porque sinto a vontade do pequeno-almoço, de assaltar o frigorífico, de ouvir estalar a torradeira, de abocar uma maçã de casca polida. Sei-o, vejo um céu de cor diferente da que tinha quando me deitei: o dia mudou de cenário, alterou a cara, incrementou um número, diminuiu outro. Mas a cabeça ficou no domingo, no sol avassalador da tarde, no ócio do café tomado sem tempo, no debicar de livros entre os passos em volta na cidade. Estou a chegar à semana. Mas, por enquanto, quase.

10.5.15

Esclarecido: a verdadeira origem disto, dos blogs

Em tempos, tomou-se por aqui a opção de usar o termo blog em vez de blogue.  Retomo os argumentos elencados na altura:

A palavra blog foi escrita pela primeira vez em 1999, pela mão de Peter Merholz, a partir do termo weblogcontracção de web e log (registo na web), criada dois anos antes por Jorn BargerWeblog estava mesmo a pedir que o partissem novamente ao meio e Merholz fez-lhe a vontade, ao escrever we blog no seu espaço na web. O we desapareceu depressa, ficando simplesmente blog. Que é uma bela palavra, curta e genuína, de que descobri que gosto mais do que de blogue. Daqui para a frente, se os estimados leitores não se opuserem, volto a usar blog

Aí há uns dias, ainda não totalmente satisfeito, e à procura então do motivo de se usar log para se designar um registo periódico de acontecimentos, concluí que a origem é náutica, isto é, que corresponde ao livro onde se apontava a velocidade do navio, medida por efeito de atrito de um flutuador que seguia atrás deste, preso por uma corda com nós feitos a distâncias regulares; devido ao atrito com a água, este flutuador ficava relativamente imóvel à superfície. Medindo o número de nós que eram largados durante determinado tempo para permitir que o flutuador não fosse arrastado, ou seja, contando o número de nós saídos do navio no período de medição, o sistema permitia obter uma estimativa da velocidade. 

Ora esse dito flutuador, que em inglês tinha o nome de log (originalmente seria algo como um toro de madeira), tem em português o nome de batel. O log é um batel. Logo, um web log é um batel na web, na teiaEu sugeria abreviar simplesmente para batel. O b inicial já lá está, para não se estranhar tanto a mudança de blog.

Não vou afirmar, desta vez, que passo a usar o termo batel para designar blog.  Nada de fundamentalismos, por cá. Mas, uma vez por outra, quem sabe, se a maré estiver de feição, talvez aqui se navegue em tal embarcação.

7.5.15

Caderno Diário

Do pássaro, nem pio — fico assim com um ninho vago no beiral. Considero seriamente lançar pregão: 

Aluga-se ninho a pássaro asseado. Passa-se recibo eletrónico.

3.5.15

Caderno Diário

Ainda andei em bicos dos pés, dei até uns pulos, mas ele foi ardiloso: o ninho está em local inacessível. Não deixou uma folha de despedida, nem uma penugem sequer. Abalou, simplesmente, e eu, hoje, dormi por fim até horas pagãs. No silêncio profundo da manhã de domingo, parece-me ouvir um trinado distante. Escuto, atento: é mesmo um harpejo, mas tão longínquo, que só pode ser noutro beiral. Tão ténue que não sei se é o mesmo, o do pássaro fugitivo. Mas não importa, porque entretanto noto em mim o mais insidioso dos sentimentos, uma inveja em tom de esmeralda intenso. Noutra janela, que não a minha, um pássaro solfeja: os vizinhos acordarão quando lhe apetecer cantar coisas da vida dele. Eu, estou condenado a aguardar, de ouvido saudoso, que outro se acolha no meu beiral.

2.5.15

Caderno Diário

Seis e meia da manhã e o quarto em silêncio. Sete horas, nem um pio. Às oito, já estava inquieto, e agora, a meio da manhã, estou apreensivo: do pássaro, nem um trinado, nem um arroubo lírico, nada. Ter-se-á afastado demais e perdido o caminho para o meu beiral? Seria vítima de emboscada de ave rapineira? Impensável ter sido alvo de um arremedo de fisga, daquelas fabricadas no oriente, de maus plásticos, versão horrenda das que eu elaborava meticulosamente com borrachas virgens compradas na papelaria do Senhor Paulino, um bocado de ramo de árvore em forma de “V” e uma tira de cabedal, implorada ao Senhor Jacinto, sapateiro, tudo bem atado com fio de guita. Se o soubesse atingido desta forma artesanal, ainda mitigaria a falta, intuindo a alegria do garoto que teria, finalmente, acertado uma fisgada. Agora assim, tudo ignorando, atormento-me. Dormi o mesmo, afinal, que nos outros dias: o pássaro está inocente das minhas madrugadas brancas. E eu, ganhei mais uma dor de ausência. Olha que esta, era só mesmo o que me faltava.

1.5.15

O estranho caso do livro que lia o leitor: Capítulo II

[Capítulo I: Palmier Encoberto]

Ainda a olhar por cima do ombro, o homem retirou do bolso da casaca um lenço de algodão egípcio onde, bordado a fio de ouro, o leitor decifrou, no monograma, a mesma caveira que vislumbrara no ombro da mãe do homem, no retrato. O homem limpou lenta, meticulosamente, o monóculo, como se fora para dar tempo ao leitor para voltar ao ponto de interrupção. O leitor reviu o elmo de bronze envelhecido, oxidado, e o sabre de luz, enquanto o homem se curvava de novo sobre os manuscritos. E foi então que notou o reflexo no monóculo. Dois erros, dois, contou o leitor, tinha cometido o homem naquele salto precipitado. O monóculo espelhava agora os pergaminhos, e o leitor conseguia lê-los ao mesmo tempo, ou antes até, que o homem. Esse, era o primeiro, mas não tão grave quanto o segundo. O leitor pousou o livro nos joelhos, esfregou as mãos e ajeitou os óculos. O segundo erro, o lenço, o monograma, invertia o equilíbrio de poderes: dava-lhe acesso à passagem secreta. E foi quando o seu indicador direito se aproximava já das palavras “tatuagem de uma caveira”, que o ruído ensurdecedor da grande janela de vitral a quebrar, o deixou estarrecido. Vidros coloridos voaram pela sala, enquanto o homem só teve tempo de tapar os olhos com os braços. No meio dos estilhaços de vidro, no chão, um tijolo de barro maciço, vermelho. Enrolado no tijolo, um papel, onde à transparência se viam letras manuscritas a tinta escarlate. O homem pegou no tijolo, desenrolou o papel, e foi então que o leitor o viu ganhar uma palidez mortal. O motivo, adivinhou-o facilmente. No topo do papel, marcado a letras douradas, o monograma, com a tatuagem da sua mãe: a caveira.

Caderno Diário

O pássaro é barítono, concluí hoje, dia feriado, pelas seis da manhã. Foi quando estava a pensar que os seus trinados se assemelhavam aos sons que ouço na cadeira de barbeiro, de tesoura que diria tenor. Mas notei, intervalados com os harpejos habituais, outros, mais baixos. Talvez este pássaro tenha andado a ouvir os discos de Bryn Terfel, baixo-barítono, de certo familiar meu, e me pretenda impressionar, a troco das horas que não me deixa dormir, nem sequer hoje. Ou, talvez, em vez de um pássaro, sejam afinal dois — o início de uma história de paixão, a desenrolar-se no meu beiral. Se este blog já tinha um pendor romântico, temo pelo seguimento.
A atração do perigo está na origem de todas as grandes paixões, afirma Anatole France. Não há voluptuosidade sem vertigem. O prazer combinado com o medo, inebria.
*
Ao trucidar-me o sono e a paciência, o pássaro sabe ao que se arrisca. Mas deve ter andado a ler Anatole por cima do meu ombro e com a sua paixão, optou por se perder na vertigem. Inebriar-se.

30.4.15

Caderno Diário

Claude Monet, Medas de feno, 1884
Hoje, pareceu-me notar alguns traços de um Werther em ascensão no pássaro tenor que se aninhou por cima da janela. Talvez esteja a tentar atrair a minha atenção, para o apresentar a certas pessoas que conheço nos mundos da música. Como se fosse necessário fazer algo mais para ter o meu ouvido pleno do que acordar-me quando o sol ainda se espreguiça.
*
No parágrafo acima, os leitores mais atentos notarão que a escolha de Porquoi me réveiller como ária demonstrativa das capacidades vocais do pássaro não será mera coincidência.
*
Para se documentar para Bouvard et Pécouchet, Flaubert escreveu, a 25 de janeiro de 1880, que já tinha devorado mil e quinhentos livros. No final, a contagem terá chegado a cerca de dois mil. Esta superabundância de documentos permitiu-me não ser pedante, afirmou depois.
*
Monet treinou-se a pintar um campo com medas de feno oitenta e três vezes.
*

Anatole France resumiu bem este trabalho até que tudo pareça simples: A naturalidade é o que se acrescenta no fim.
*
Acho que o pássaro, para além de frequentar a minha janela, anda a espreitar os meus livros.

29.4.15

Caderno Diário

Há pouco, na Antena 2, um músico confessava-se hesitante quanto a prosseguir a carreira operática. Que bom seria que o pássaro que fez ninho na janela ainda estivesse nessa fase de reflexão. Mas creio que já decidiu: só assim se justifica o afinco do treino e a hora a que o inicia. Ou isso, ou é para me acelerar a insanidade precoce.
*
Como nuvens coloridas, descreve Nabokov a chegada de uma revoada de anjos. E ao olhar para as nuvens hoje, pareceu-me distinguir um irizado entre o branco e o cinzento. Divertem-se, a fingir de camaleões, eles.
*
Os bloggers estão a saturar o globo, escrevia Zinsser há nove anos. Ora cada ano internet são sete anos comuns, como se sabe. Que dirá ele agora, sessenta e três anos depois?

26.4.15

A felicidade por contágio, no café, ao domingo

Há também o café da Cláudia, acho que ainda não tinha falado nele. Se o do Chico é o dos salgados, o da Cláudia é dos doces: do folhado como um transatlântico, do pão de Deus como uma nave povoadora, do croissant que pede meças a uma broa de Seia. Tanta tentação no balcão. Sentado apenas com o café, não vi o Correio da Manhã, não levei o Público, estive só a observar o Henrique Sá Pessoa, lá bem alto, na televisão da parede, a massajar umas beringelas como se fossem clientes de SPA em tratamento de reposição de beleza. E beleza, verdade se diga, daquela da melhor espécie, a serena, tem ainda a Florinda, que o Manico —  que por ela se perdeu d’amores —  chama Flor Linda, aparecida, por encantamento, na mesa em frente, enquanto os meus olhos deambulavam algures. E assim descobri que a adoração que o Manico tem por Flor Linda foi herdada pelo filho de ambos, que segurava a cara enternecida da mãe entre as mãos, como já vi o pai fazer, e a da filha, que lhe tinha tecido um colar feito de braços. Não precisei dos jornais, deixei o Sá Pessoa sozinho a espalhar óleos essenciais sobre as beringelas, fiquei reduzido à minha condição anónima de espetador, quase não respirando para não perturbar o quadro, deixando que o tempo parasse, e percebendo que a felicidade, essa ilusão que às vezes buscamos debalde entre o nascer e o desaparecer do Sol, por vezes se acha apenas por contágio da que está ali, mesmo ali, a desenrolar-se à beira dos nossos olhos.