28.12.16

Basta juntar especiarias

O poeta surrealista Paul Celan, que encontrei na companhia de Hans Weigel ontem à noite, e que é muito fascinante, apaixonou-se maravilhosamente por mim, e isso acrescenta algumas especiarias à minha vida sinistramente laboriosa.

[De uma carta de Ingeborg Bachman, então com vinte e dois anos, aos seus pais, escrita a 17 de maio de 1948.]

27.12.16

Mais doce que mil beijos, muito mais do que o moscatel!

Querido pai, não seja tão rigoroso! Se eu não puder ter a minha chávena de café três vezes por dia, fico seca como um naco de cabra assado! Ah! Quão doce é o sabor do café! Mais do que mil beijos, muito mais do que o moscatel! Preciso tomar o meu café e se alguém quiser agradar-me, deixe-o presentear-me com — café!

[Da humorística Cantata do Café, escrita em 1732 por Bach, em que uma filha pede ao pai para a deixar continuar com o seu vício favorito.]

25.12.16

Alfeu, acendedor de luzes em Alfache

Alfeu, que viveu em Alfache durante noventa e nove anos e noventa e nove dias, teve como profissão e paixão acender luzes. Todos os dias, desde que fez dez anos, Alfeu começou a acompanhar o pai, Alítio, quando este saia a alumiar Alfache. Cada luz tem uma voz, descobriu Alfeu com Alítio, o maior segredo da família, desde que o bisavô de Alítio, Aloís, iniciou a profissão de acendedor de luzes em Alfache.

Sabia Alfeu interpretar a fala das luzes, tecer a teia do fio das histórias que as luzes contavam do pôr ao nascer do sol, quando Alfeu ficava a ouvi-las, toda a noite, até chegar a altura de apagá-las, de novo. Alfeu anotou as histórias das luzes em folhas de papel brancas que escrevia com a sua letra minuciosa. As luzes sabiam todas as histórias da noite, que é, como se sabe, a altura em que as histórias se revelam.

Na cave da casa de Alfeu amontoaram-se tantas folhas quantas as noites em que ele ouviu as histórias, dos quinze aos noventa e nove anos e noventa e nove dias. Quando a mãe de todas as luzes veio buscá-lo para o lugar onde vão as luzes que aguardam ser acesas, Irmino, o presidente da câmara de Alfache descobriu as folhas na cave e sentou-se a lê-las. Interrompeu apenas para fazer um discurso de boas vindas aos anjos que levariam Alfeu à presença da mãe de todas as luzes. Saulina, a mulher de Irmino, durante os trinta dias completos que demorou a leitura das folhas de Alfeu, levava-lhe o almoço e o jantar e ia despedir-se dele com um terno beijo na testa.

Ao trigésimo primeiro dia, Irmino, emergiu da cave de Alfeu, e conta quem o viu então que tinha uma aura em volta dos cabelos despenteados. Nessa noite e nas outras que se seguiram, Irmino despediu-se de Saulina e foi, ele próprio, acender as luzes de Alfache. Não confessou a ninguém, nem a Saulina, que também ele, agora, sabia ouvir as luzes, juntar os fios das histórias. Havia ganho o dom de Alfeu.

23.12.16

Recebo uma carta com a caligrafia cuidada de J. Eustáquio da Andrada

Chegou-me, pela mão própria de Reboredo, e que mãos tem Reboredo, ortopedista diplomado na escola de King Saul Boulevard, uma missiva escrita com a caligrafia cuidada nos clubes de Oxford, de J. Eustáquio de Andrada, professor jubilado de Literatura Portuguesa, atualmente dourando os seus anos no amplexo solar da dulcíssima Ochidée.

Meu muito prezado amigo,

Contam-me fontes geralmente fiáveis que foi avistado a sair olheirento de um desses locais atafulhados de tomos bafientos onde normalmente gasta os seus dias em inconsequente indolência, apenas quebrada por charlas ocasionais com gerentes de serviço, eufemismo moderno para o que dantes, em tempos mais rijos, se chamava empregadas de balcão. Imagino que disserte com elas sobre Wittgenstein, Benjamin ou Bloch, pensadores que, afirmam as mesmas fontes que aqui ao lado soluçam: «Pauvre, pauvre J.» agora lhe preenchem os dias e as noites. Por mais anos que viva, e espero que sejam muitos, não perceberei a sua vida, nem a lástima que inspira a esta doce e pura orquídea, que por si verte tão copiosas e estridentes lágrimas.

Não creio que existam razões para lamentar o homem que se enfronha em livros cheios de traças de sol a lua, com eventuais paragens numa estufa de ervas (É só o que come, não é? Isso das urtigas, não pica o palato? Mera curiosidade…) e em esplanadas com cafés de duvidosas qualidades térmicas. Bom, adiante: instado por esta alma generosíssima («Pauvre, pauvre, J.») que se aflige por o meu caríssimo amigo em vez de uma boa posta de bacalhau dos mares do norte se preparar decerto para fazer um festim natalício com uma folha de alface e um ramalhete de rúcula (e sentir-se-á cheio que nem um abade, acredito) venho endereçar-lhe um convite para que compareça por cá na noite do dia vinte e quatro. Se conseguir descolar a testa dos cartapácios, até pode vir mais cedo, à hora a que começa a fazer frio nas esplanadas. Suponho.

O diligente Reboredo, que lhe entregou esta em mãos próprias, já delineou o festim. Sim, haverá alface e ele pessoalmente encarregou-se de comprar umas bagas Goji e duzentas e cinquenta gramas de sementes de chia. Não morrerá de inanição. Caso decida abrir uma exceção nesse caminho para o ascetismo nepalês ou tibetano, ou lá o que é, haverá também comida de gente humana, aquelas coisas que se comem nesta época e que têm, oh horror! capacidade de não só matar a fome, como de deixar um homem plenamente satisfeito. «Canja, sopa de ervas, arroz de marisco, bacalhau de cebolada, pescada frita, frango com ervilhas, salsichas com couve, chispe, mãozinhas de carneiro, vitela estufada, vitela assada, lombo de porco, cabeça de vitela com feijão, pato com azeitonas, orelheira, rim, carne para bifes, tudo pronto, preços sãos, vinho do lavrador, a rica amêndoa torrada!», diria o nosso Eça. Nem tanto, mas lá perto.

Estou aqui a ser acusado de crueldade psicológica extrema para com o meu amigo, por alguém ao lado, que vai lendo o que eu escrevo, e carpindo-o, com o belamente esculpido queixo espetado no meu ombro. Lavro o meu voto de protesto à palavra «extrema»! E já agora, antes de me despedir, deixe os meus votos de boas festas às suas leitoras e aos seus leitores (você terá leitores, homem, naquele hebdomadário que publica nas internetes; não apenas leitoras).

Não se esqueça, nem se atrase. Aqui ao lado, de cada vez que demora um minuto a mais do previsto, pensam de imediato que foi deportado, ou, com sorte, raptado sem pedido de resgate. E então, são umas lamentações que deixariam Jeremias acabrunhado, digo-lhe eu.

Aceite um abraço deste que muito o estima e considera,
J. Eustáquio de Andrada

3.12.16

Entre o momento zero e o não momento infinito

Entre uma imagem tua
e outra imagem de ti
o mundo detém-se.
Em suspenso. E a minha vida
é um pássaro pegado ao cabo
de alta tensão,
depois da descarga.

[Mudado para português, a partir de Chantal Maillard.]