27.7.17

Como diria o outro

Eu e Dona Yara falamos da pequena Soraia, leitora, que já vai à praia, ainda cedinho doutor porque não pode apanhar muito sol, diz-me a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador e um sorriso extremoso. A semana está quase a terminar, talvez no sábado ou no domingo a pequena Soraia volte a colocar os pezinhos na areia, já falta pouco Dona Yara, digo eu, com esta fala cá minha ligeiramente rouca, leitora, do ar excessivamente condicionado em que vivo nos dias cálidos. Só a esplanada me cura deste mal, Dona Yara, digo eu na altura da sobremesa. Tenho ali o remédio ideal, doutor, diz a Dona e traz-me uma fatia de bolo de chocolate, que está mesmo muito ótimo, afiança a Dona. Eu faço-me rogado, por uns dez segundos, aproximadamente. Depois, por motivos evidentemente terapéuticos, acabo por ceder, em decisivo xeque-mate. E não é que a voz melhorou? Não que tenha ficado maviosa, menos ainda muito ótima, que isso nunca será. Mas é natural, é a minha e está paga, como diria o outro.

26.7.17

Guardador de esperanças

Florival, que exerce a profissão de guardador de esperanças em Alfache, aprendeu o ofício com o pai, Idavide, que por sua vez aprendeu com o avô, Jansênio, que se dizia descendente em linha de sangue real de Nivaldo I, dito o Esperançoso, Imperador de Altineia e primo de Luis XIV, o Rei-Sol. Contava Idavide que, durante o grande incêndio que destruiu Axela, a capital de Altineia, vendo o desespero dos homens perante do fogo, incitou-os Nivaldo a atravessarem o grande rio Touro, vinde comigo sem medo, com esperança, para a outra margem onde estareis a salvo e de onde voltaremos para reconstruir a nossa cidade ainda mais esplendorosa do que antes, assim falou. Ele próprio foi à frente enquanto as labaredas corriam atrás dos axélios, rosnando como uma matilha de cães. Atónitos, os axélios viram o Imperador avançar sobre o rio, caminhando com as passadas largas com que atravessava os longos corredores do palácio logo que os primeiros raios de sol desenhavam estradas retas nas paredes que ligavam o chão ao teto. Os homens, as mulheres e as crianças descobriram então que podiam andar sobre as águas do rio, que as pequenas ondas faziam cócegas nos pés refrescados pela corrente. Os mais bravos, ou antes, os mais estouvados, começaram a correr e só não chegaram primeiro que o Imperador à outra margem porque era coisa de desrespeito fazê-lo. O cognome de Esperançoso nasceu dessa travessia, passou para os filhos e destes para os filhos dos filhos até aos berços de nascimento de Idavide e depois de Florival, que é, diz-se acima, guardador de esperanças em Alfache, fiel depositário de esperanças que podem ser reclamadas pelos próprios depositantes em alturas posteriores em que delas advenha escassez ou emprestadas a quem façam falta. Irmino, presidente da câmara de Alfache acumulou ao longo dos anos um precioso património de esperanças, das quais se tornou um grande depositante nos cofres de Florival. Nos dias em que o vento estaca e as nuvens estacionam em frente ao sol, ou nos dias em que as folhas das árvores vibram ao ritmo do ruído de fundo do cérebro, ou nos dias, enfim, em que os peixes no mar precisam de vir à tona para respirar, sufocados, Irmino vai visitar Florival, preencher o talão, levantar uma esperança. Então o vento volta a soprar, as folhas das árvores caem num sono de bebé, os peixes passam a respirar a plenos pulmões debaixo de água e Irmino volta para o edifício da Câmara a assobiar La donna é mobile, enquanto Florival anota a transação no grande livro do deve e do haver das esperanças de Alfache, com o sorriso lá dele, descendente do de Nivaldo, que atravessou o grande rio Touro a pé firme.

24.7.17

Viver na era da velocidade

No inverno de 1705 Bach empreendeu a sua viagem a pé para Lubeck, para ouvir Buxtehude. Talvez lhe tenha sido proposto assumir o lugar do velho organista e talvez o tenha recusado, porque o cargo trazia consigo um requisito extra-musical: quem o aceitasse teria que casar com uma das filhas do titular. Buxtehude, ele próprio, assumiu o lugar a 11 de abril de 1668 e casou com a filha mais nova do seu antecessor a 3 de agosto desse ano. Após uma vida bem sucedida no lugar, quando morreu, Buxtehude foi enterrado a16 de maio de 1707, e o seu sucessor, anteriormente seu assistente, foi nomeado a 23 de junho e viria a casar a 5 de setembro, com a filha do mestre. Não sei o que para mim será motivo de maior admiração: se esta tradição do emprego incluir noiva e boda, se a celeridade de todo o processo. Podemos achar que vivemos na era da velocidade: francamente, estamos deveras enganados.

Sonata a dois

Dieterich Buxtehude, Sonata V à due, Op. 2


[Para ouvir Buxtehude viajou Bach quatrocentos quilómetros a pé, num bravio inverno.]

Como proa de submarino

A rapariga que vendia livros escorou-se com a muralha de um sorriso bonito às arremetidas do escritor com canetas no bolso da camisa manchada pelo suor. Contava-lhe ele as suas aventuras na escrita e na vida com face rotunda, raiada de vasos sanguíneos rubros, olhos vítreos, abdómen proeminente como proa de submarino. A mulher do escritor aguardava, sentada, com um livro comprado à menina do sorriso, enquanto o marido se alongava no monólogo pastoso como massa tendida. Naquele espaço curto, e andando eu em maré de coincidências, haveria de aparecer um conhecimento comum, a mim e ao escritor. Do conhecimento comum, todas as minhas memórias envolvem momentos agradáveis. Mas a ele, não. O conhecimento comum tinha-lhe colocado a carreira em ponto morto, recordou à mulher, em tom preciso, quando regressou temporariamente ao porto de abrigo, junto a ela. Vislumbrei num segundo as horas infindas de ódio fermentado, ocorridas muitos anos antes do fortuito encontro. Não quereria ter estado por perto dos dois, então, como estava ali agora. Desabafou e perscrutou o espaço em silêncio. As manchas de suor haviam-se tornado amazónicas. O livro de apontamentos espreitava, como periscópio, do bolso das calças amplas. Respirou fundo, duas ou três vezes. Puxou os ombros para trás e, reposto o amor-próprio, rumou de novo em direção à rapariga que vendia livros, que o recebeu, admiravelmente, com o bonito sorriso com que se escusava às investidas dele.

23.7.17

mudança de luz

sabes? a cidade precisa
de toda uma pintura
nova 
com a luz do teu olhar

vê quão bonitos ficaram
o mar o céu a lua
já pintados por ti

O vento da tarde

Se todos os ventos são o mesmo, este é o vento da desgraça de Eréndira, a cândida, o que começou quando ela estava a dar banho à avó, que se parecia com uma formosa baleia branca no tanque de mármore.

[O vento que fez estremecer a enorme mansão de argamassa lunar, na orla do deserto, que entrou no quarto como uma matilha de cães e derrubou o candelabro contra os cortinados.]

Calor a sério

Calor forte, calor a sério, é em Comala, que está sobre as brasas da terra, sobre a boca do inferno. Muitos dos que por lá morrem, quando chegam ao inferno, regressam para vir buscar um cobertor.

[Para Comala, viaja-se à procura de Pedro Páramo.]

Drama inquietante

O crítico da Variety refere-se-lhe como um drama inquietante, concretizando a inquietação na violenta ambiguidade moral do filme. A história de Lady Macbeth funciona como a de uma Lady Chatterley emendada por Dostoievsky, mas em que o realizador se concedesse a ele próprio o benefício de emendar Dostoievsky. A história original é de Nicolai Leskov e não de Dostoievsky, embora tenha sido publicada na revista deste. Mas há um fio dostoievskiano subjacente, tal como o há shakespeariano. Creio, contudo, mais do primeiro que do segundo, apesar do nome. A inquietação é causada pela inversão das premissas morais convencionais, mas também, creio, e porque li apenas críticas escritas por homens, pelo facto da protagonista ser mulher. De algum modo, a violenta ambiguidade moral que passaria incólume numa história com protagonista masculino é, para os que escreveram sobre o filme, perturbadora como não o seria caso a personagem central fosse um homem. Talvez me tenha perturbado mais esta constatação do que a história cortante como o cinzento frio do céu sobre o mar do norte, que enquadra o filme como uma moldura de aço.

21.7.17

um compêndio finito

como é que o compêndio
finito de formas
da tua ausência
pode conter
o tempo infinito
da tua ausência?

Uma minudência após a indulgência

Se Potemkin não era couraçado, muito menos o será um banal escrevinhador a viver neste jardim de amenas temperaturas, em esplanadas tranquilas, onde a couraça é inútil sobrecarga. Um homem não é de ferro, ia quase dizendo, mas não disse, quando pedi a sobremesa indicadora de gulodice reprimida, caindo a pique no poço da tentação. Dona Yara, diligente, lendo nos meus olhos a metanoia de dois mil anos, pelo menos, de herança judaico-cristã, disse com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Leva frutos, doutor. [Intervalo grande.] E soja. [Com tom de contrabandista de uísque na era da proibição.] Ah, leva soja. É praticamente como obter uma indulgência trazida pela pomba do Espírito Santo da Praça de São Pedro. Já me salvou a alma, Dona Yara. E agora aproveito para escrever à leitora esta minudência inconsequente, enquanto não desfaço o sabor do pecado com o café a seguir. Pecar por pecar, ao menos tira-se partido do dito, pois não é leitora? E como leva soja é, quando muito, um pecadilho, coisa de nada. Minudência, também.

20.7.17

O descouraçado Potemkin

Como trabalhavam em partes diferentes do palácio durante o dia, Catarina e Potemkin escreviam bilhetes um ao outro, continuando as conversas da noite: declarações de amor, misturadas com negócios de estado, mexericos da corte,  notas sobre a respetiva saúde e admoestações carinhosas.

a gaiola

por vezes abria a porta da gaiola
onde guardava o coração

Uma corda partida

Hans Holbein, Os embaixadores [pormenor], 1533
Talvez a corda partida do alaúde fosse uma forma de Holbein enviar uma mensagem a Francesco Sforza. Uma aliança só é harmoniosa, como o som de um alaúde, se não houver deserções, se todas as cordas estiverem inteiras.

19.7.17

Rodas dentadas

Na vida, que nos surge a girar como uma roda livre, é possível vislumbrar por vezes as rodas dentadas subjacentes, tão perfeitamente ajustadas que parece predestinação, trabalho de arquitetura, obra de precisão. Nessa altura, duvidamos das nossas descrenças mais profundas, e somos capazes de criar um criador suficientemente engenhoso para gerar tal esmerado mecanismo. Da observação das rodas dentadas em funcionamento, advém a tranquilidade do que é inevitável. Dente após dente, o presente absorve o futuro. O ruído exato do encaixe das rodas dá o conforto de que o criador que criámos tem o mapa do caminho, sabe onde quer ir e como lá chegar. Ao estado decorrente de tal observação podemos, até, chamar felicidade.

aprendiz de poeta

espalho outra película de luz
sobre camadas lucentes
que antes pintei
na minha ânsia insana
de te captar de corpo inteiro
nas três dimensões
de um poema relevado
na tela da página

18.7.17

Entrelaçamento


Biber, Passacaglia



Bach, Ciaccona

[Bach nasceu quarenta e um anos depois de Biber. Não é improvável que tenha conhecido a Passacaglia para violino desacompanhado. De algum modo, sendo cada uma delas peças supremas no legado dos dois compositores — estão entrelaçadas uma à outra, diria.]

17.7.17

cartografias

previdente
foste deixando nos caminhos
traços da tua passagem

por eles recrio
o mapa de nós
antes de nós

imortalizados
no tempo que foi

eternizados
no tempo que será



O caso do tio embaraçoso no jantar de Natal

«A experiência examinou as hipóteses de que as pessoas mais velhas se baseiem mais em estereótipos, e apresentem mais preconceitos, do que as pessoas mais novas, por causa de um défice na capacidade de inibição de informação. De modo consistente com as predições, as pessoas mais velhas baseiam-se em estereótipos mesmo quando são instruídas para não o fazerem, ao contrário das mais novas. As pessoas mais idosas têm mais preconceitos que as mais novas, e estas diferenças na forma como se baseiam em estereótipos e preconceitos são mediadas pelas alterações que a idade causa na capacidade de inibição. Uma vez que as pessoas mais velhas indicam um desejo mais forte do que as mais novas de controlar as respetivas reações preconceituosas, estes resultados sugerem que uma falha na capacidade de inibição pode tornar as pessoas mais preconceituosas do que pretendem ser.»

Sabe-se, pelo menos desde há dezassete anos, quando William Von Hippel e colegas publicaram o resultado acima transcrito, que a idade avançada causa alterações a nível da função executiva do cérebro que modificam o modo como introduzimos preconceitos e estereótipos no nosso discurso. Sim, é uma anomalia de ocorrência natural. Aplica-se ao tio embaraçoso no jantar de Natal, ao escritor frontal e despeitado ou ao médico ilustre e desbocado. Aplicar-se-á a cada um de nós, assim tenhamos vida e saúde para lá chegar.

[Von Hippel, William, Lisa A. Silver, and Molly E. Lynch. "Stereotyping against your will: The role of inhibitory ability in stereotyping and prejudice among the elderly." Personality and Social Psychology Bulletin 26.5 (2000): 523-532.]

cosmogonia comum

quantos universos
quantas galáxias
quantos sistemas
quantos planetas
quantos milénios
quantos anos

quantos sonhos

até ti

16.7.17

Está omisso

No filme está omisso, mas a mulher do derradeiro vice-rei da Índia apaixonou-se pelo futuro primeiro primeiro-ministro do novíssimo país, e foi correspondida: quando ela morreu, anos mais tarde, ele enviou destroyers indianos para acompanharem o funeral, realizado no mar. A história é escrita pelos vencedores, somos avisados no início. Para os estados envolvidos, este é um assunto para manter fora do ecrã, para ser reescrito. O amor é tão perigoso que pode mudar o destino de nações ou continentes, afetar a vida de milhões de pessoas, ameaçar a paz mundial. Falai de campos de refugiados, de genocídios e guerras civis mas, por quem sois, omiti os amores que decidem secretamente o devir da história. Há limites para tudo.

análise concreta

resumo do dia:
o sol girou para poente
o mar recuou para o horizonte
as saudades irromperam a contraciclo

15.7.17

Duas orelhas mas uma só boca

Dizia Tia Frederica há pouco: A natureza deu ao homem duas orelhas mas uma só boca, para ouvir mais do que fala, disse um grego antigo. O bom grego esqueceu-se que a natureza deu dois cotovelos ao homem e estes por ele também fala, disse eu. Fala, mas fala com dor, rematou Tia, esfregando o cotovelo.

Em memória de Maryam

Há três anos, Maryam Mirzakhani tornou-se a primeira mulher a ganhar a medalha Fields, o equivalente ao prémio Nobel da matemática. Disso se deu conta aqui, então. Maryam morreu hoje precocemente [que mortes não são precoces?] aos quarenta anos, de cancro de mama. Teria muito para ensinar aos deuses, decerto, por isso a levaram tão cedo.

O cheiro do quotidiano pela manhã

Antes de sair para o café, e já vestido aprimoradamente com o calor do dia, venho apenas acenar à leitora um fresquíssimo bom dia. Ouço a passarada lá fora, que faz as vezes do pássaro do beiral, desaparecido desde há dias em parte incerta: espero não seja uma frigideira de casa petisqueira ou uma pena remanescente na boca de um gato. Ainda não é altura para cuidados: quando for, levantarei a bandeira branca, solicitando a maior atenção caso a leitora vislumbre o foragido canoro. As cigarras, que já se manifestaram ontem, a esta hora estão ainda descansadamente recolhidas. Silêncio, portanto. À tarde talvez passe chez Tia Frederica, para beber uma infusão de realismo. Será nosso um dia, diz ela a propósito, o mundo do quotidiano, aquele a que estamos demasiado alheios para lhe reivindicar a propriedade. Vou reclamar agora um bocadinho do meu quinhão, acompanhá-lo com um café quente e uma sombra amena: gosto do cheiro do quotidiano pela manhã.

14.7.17

sonho do relojoeiro

1
dia 
tu & eu
faremos
1
relógio
de 
sOl

Um fio condutor

Não acordo sem um café, não adormeço sem um poema. Por aqui nestas páginas, a arte de beber café é a mais cantada, e os versos, apareçam de que forma apareçam, ocupam muito do espaço em branco da tela de fundo. Faltava-me um fio condutor entre a abertura do dia e o cerrar da noite, que agora achei. Diz Daljit Nagra, poeta britânico: «Poetry is an espresso shot of thought.» Ou seja: a poesia é um expresso de pensamento. Eu sabia da potência dos grãos torrados, conheço a história de Balzac, que chegou ao ponto de ingerir o café pulverizado, para o tomar no estado mais puro possível. Ainda não estou aí. Mas o nexo entre o café e a poesia está feito. Agora que se descobriu que beber café prolonga a vida, não me custa admitir idêntico benefício na poesia. Imagine-se o efeito composto dos dois, reforçando-se mutuamente. Imagine-se a longevidade, talvez rivalizando com Matusalém. Com tanto café e tanta poesia, os primeiros cem anos serão canja. O que farei nos segundos?

13.7.17

Sem explicar

Quem ama
sabendo
porque ama,
não ama.

Diz Porchia.

Prefiro amar,
e não saber
explicar.

jardim de verão

repara:
fosse o mar um jardim
e eu colheria nele
saudades aos molhos

Em recuperação

Depois de ter cometido a mãe de todas as gafes durante o almoço, desterrei-me para o meu próprio purgatório, controlei a inflação das minhas palavras, estou ainda em ato de contrição. Voltarei a ser o mesmo? O mesmo cometerá outras gafes iguais, se não piores, bem o conheço. Mas ao menos, desse já sei com o que conto. Se me tornar outro, quem me garante que esse não comete gafes mais incríveis, ainda? É que seja eu o que era antes, ou o eu que me torne depois, quem se envergonha com as gafes sou eu, o de agora.

12.7.17

relógio profundo

só sinto falta de ti
quando o ponteiro
estremece
ante o abismo
de um novo segundo

Antecipar os risos futuros

Releio frequentemente o seguinte parágrafo de Clarice Lispector: Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus. Tanto o li, que me parece que já o sei de cor. Para que me serve? Da última vez que me tiraram pontos, abotoei a face mais impassível que consegui, lembrei-me dos estóicos que se empilham na estante, e não quis fazer má figura perante Séneca ou Marco Aurélio, menos ainda frente às senhoras de branco que retiravam, mediante puxões impiedosos, fios que pareciam vivos, da minha pele martirizada. E eu, quedo. Aprovaram-me o comportamento. Não é pelos pontos, então.
Ando a equacionar outras oportunidades de aplicação do ensinamento de Clarice. Por exemplo, no penúltimo concerto a que fui aplaudi, caramba, se aplaudi, os músicos naquele palco e nos outros que viriam a seguir. Passados dias, outros músicos de outro continente, outro palco, aplaudi menos que os restantes assistentes na sala, tardei mais a levantar-me para o aplauso de pé, não me juntei ao pedido de encore. Ganharam os primeiros, perderam os segundos e eu aprendi uma lição: não gastar os aplausos numa aplicação só, sabe-se lá quantas demãos mais serão precisas. Reaplicando a lição aos gritos, salvo seja: gritar o que tenho que gritar, quando for de gritar, nem mais, nem menos. Não espero praticar os gritos em breve, assim o Deus do futuro me ajude.
Mas, e se o que estiver em causa forem gargalhadas, pergunta a leitora, com elevado sentido de oportunidade? Pois isso, só a prova empírica. Posso tentar antecipar a quantidade suficiente de risos futuros, para gastar mais do que a minha quota do presente. Se o mundo acabar antes do prazo de vencimento do empréstimo, as gargalhadas que der, essas ao menos, não há Apocalipse que mas fique a dever.

olaria de luz

pegar na luz com as duas mãos
senti-la moldar-se na roda
maleável matéria subtil
génese e nascente de cores
tão súbitas como a centelha 
que rebrilha no teu olhar
quando sorris

11.7.17

Aos meus blogs favoritos

Aos meus blogs favoritos não peço muito, aliás nada tenho que pedir, sei que isto é regime de escrita voluntária, que o tema nem sempre surge, que o verbo nem sempre urge, que os dias estão longos e curtas as noites, que o calor dilata os dedos e os encaixes das teclas, que as bebidas de fim de tarde estão mais geladas, que as horas tardias são mais quentes, que os rios levam mais pressa de chegar ao mar, que a areia da praia leva mais pressa de chegar ao corpo, sei disso tudo, caramba, se sei. Mas sei que me faz falta ler-vos. E não, antes que perguntem, os livros todos empilhados aqui ao lado, iniciados, a meio, reiniciados, relidos, não substituem. Um livro é um livro é um livro, é estático. Um blog é dinâmico, com alma rápida, volúvel, caprichosa, até. Os livros são formulaicos. Os meus blogs favoritos, não. Vestem-se de humor subtil, despem-se de inesperado, trocam botões ao abotoar e por vezes erram na estação: são inverno no verão e primavera no outono. Há alturas em que esquecem mesmo as estações e alteram o tempo a seu bel-prazer, como se rolassem dados. Mas não importa, ou importa e é por isso. Não peço muito, na verdade, na minha opinião desisenta. Queria ler-vos mais amiúde. É muito eu sei. E é só.

10.7.17

solo arável

se eu fosse um grão de trigo
tu serias a terra
e a água
e o sol

numa palavra
preciso de ti
para germinar

A cegueira e o ensaio

Escrevia Borges em 1957 num texto pouco conhecido, o seu discurso de aceitação do Prémio Nacional de Literatura: «Estou à procura, neste momento, de um género literário que condiga com o declínio da minha vista. Nalguns números de El Sur e nos dois números de La Biblioteca fiz, ou tentei fazer, alguns ensaios, entre narrativos e poéticos, que intitulei «Prosas» e dos quais um, chamado «Borges y yo», me satisfazem.» A cegueira de Borges é um facto universalmente conhecido. Mas sê-lo-á que ele procurou criar um género literário em que pudesse continuar a escrever —  apesar da cegueira? É um debate antigo, que revisito amiúde: devo abordar uma obra sem conhecer nada sobre o autor ou, pelo contrário, lerei de outra forma, mais rica, se conhecer? Se eu souber que Borges cegou aos 55 anos, como devo comparar O Aleph, de antes da cegueira, com O livro de areia, de após? É relevante, sequer, fazê-lo? A verdade é que quando li O livro de areia, este me pareceu com um estilo mais depurado, menos barroco — usando uma expressão de Borges — que O Aleph. O mesmo autor, sem dúvida, mas com uma escrita mais nuclear, reduzida ao essencial. Enquanto me pergunto, descubro que estou a dar a resposta. É inútil negá-lo: se a obra me fascina, procuro o autor. Mesmo que para isso tenha posteriormente que revisitar a obra. Borges foi premonitório em Pierre Ménard, autor do Quixote. O Quixote de Pierre Ménard, ainda que seja igual ao Quixote de Cervantes palavra a palavra, é outra obra. Poderia resistir a dizer que agora, depois de ler o parágrafo citado acima, aprecio a obra tardia de Borges com olhos diferentes. Mas não resisto. Estava cego para o facto de que é uma obra escrita por um cego. Deliberadamente. Fez-se-me luz.

9.7.17

Acordar transformado noutro

Borges, que nasceu no mesmo ano (1899) de Nabokov nunca leu Lolita. O livro saiu na altura (1955) em que a visão de Borges, que se vinha a degradar progressivamente havia muitos anos, cedeu finalmente o passo à cegueira. «Não li o volume de Nabokov e não penso lê-lo, já que o tamanho do género novelesco não condiz nem com a escuridão nos meus olhos, nem com a brevidade da vida humana», publicou em El Sur, em 1959. É verdade que nas leituras, por essa altura, Borges dependia de terceiros, gente que se oferecia generosamente para ir a casa dele ler. Compreende-se a reticência de abordar Lolita assim. Mas também se entende o reparo face à brevidade da vida humana. «Desvario laborioso e empobrecedor o de compor livros vastos; o de espraiar em quinhentas páginas uma ideia cuja exposição oral cabe em poucos minutos», havia escrito ele no prólogo de Ficciones, em 1944. Afinal, ler Lolita é viver na mente de Humbert Humbert durante trezentas e trinta páginas. Nabokov e Borges, cada um à sua maneira, tinham Kafka no topo do olimpo pessoal. A diferença é que Nabokov queria que o leitor acordasse transformado naquele outro Gregor Samsa que é Humbert Humbert. Borges, pelo contrário, que acreditava que cada homem tem em si todos os outros homens, discordava da necessidade dessa metamorfose — que é a base do género novelesco. Nabokov criava sonhos. Borges descrevia sonhos. Aproximava-os o ano de nascimento, a devoção por Kafka e Poe, terem ambos decidido que morreriam na Suíça. Separava-os o modo de sonhar. Ou seja: tudo o resto.

rosa da noite

pensei encontrar o teu perfume
no jardim da luz lunar
era da rosa da noite
o perfume afinal
a rosa que guarda a tua ausência
a sentinela da minha saudade

8.7.17

La Traviata à hora de almoço

Creio que o pássaro que habita o meu beiral decidiu convidar os amigos para almoçar na esplanada que me acolhia. Almoçaram e cantaram, sobretudo cantaram, como se fosse um ensaio geral de La Traviata [iria jurar, leitora, que os canoros roubaram até a melodia de «Libiamo ne' lieti calici»].

 

7.7.17

naufrágio sem astrolábio

contemplo a lua cheia 
como um astrolábio a estrela polar 
e por ela traço o rumo 
pelo qual os meus sonhos navegarão 
até naufragarem em ti

O lápis azul do censor

«Toda ela sorria, e contudo tinha o rosto quieto e vivo como uma rosa de sol, uma rosa de Natal ou qualquer outra flor de poetas. Talvez Desnos, Maiakovsky, ou Van Gogh, ou Eluard. Ou talvez até nenhum destes; e muito menos Gide, Debussy, Pessoa, porque um momento assim é a véspera do estado de graça quando as palavras perdem querido o sentido e a força real, os gestos oh querido trazem uma nova linguagem, a glória, a inteligência física...»

[José Cardoso Pires, Histórias de Amor, livro retirado do mercado pela censura em agosto de1952, no mês seguinte ao da publicação. Assinaladas, duas das frases por onde o lápis azul do censor passou. O amor é sempre visto como ameaça pelos regimes inamovíveis.]

Café a martelo

O meu fornecedor de café encapsulado faz-me chegar uma receita para o «café on ice», não apenas qualitativa, mas meticulosamente quantitativa. PASSO 1: Coloque 3 cubos de gelo num copo de receitas. PASSO 2: Prepare 40ml de café sobre o gelo. PASSO 3: Adicione 90ml de água fria e misture tudo. Nunca tal complexidade abraçaria sem instruções tão precisas. Exatamente 3 cubos de gelo [é fácil de recordar, esta parte], exatamente 40ml de café, exatamente 90ml de água fria [a receita não especifica a temperatura considerada «fria»], senão a poção não resulta. O que o dito fornecedor não explica é qual a diferença de tal solução homeopática, de extração a frio da alma de bom café, face à de um sucedâneo qualquer, «café» de cevada, de chicória, sei lá eu. Se é para ser a martelo, que este seja o do Thor. Senhores: respeitem a memória dos incautos grãozinhos que foram torrados e pulverizados para acabar em tal frankenbebida: não lhe chamem café. Grato.

6.7.17

um ramo de palavras

aceita
um ramo de palavras
como se fora
um beijo

A cura das citações

«Jorge Luís Borges», diz Agustina, «faz citações que me curam definitivamente das minhas. As citações são as erupções cutâneas da arte narrativa, um indício de natureza impúbere e defensiva. Luis Borges chega à atroz necessidade de citar Daniel von Czepko: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, II (1665).»

[Claro que é uma injustiça: Daniel von Czpeko foi contemporâneo de Baltazar Gracián que ela própria cita: «Neste verão sufocante e austero na sua velha regra de ser realmente um verão solar, leio Baltazar Gracián, que recomendo àqueles que usam de jogo descoberto. 'Aquele que esclarece tudo expõe-se à censura; e se não tem sucesso é duplamente infeliz.'» ]

Dualidade

Há versos que passam como um suspiro e permanecem como um monumento.

[Chesterton, citado por Borges. Embora as citações de Borges, que tanto exasperaram Agustina, sejam frequentemente para ser tomadas com uma pitada de sal. Mas com Chesterton, não o faria — assim o creio, pelo menos.]

5.7.17

Caligrafias de amor

Hassan Massoudi, Generosity is giving more than you can
[O título é o de um livro de Hassan Massoudi.]

a incerteza, por princípio

como escrever em palavras

o que não se descreve em palavras

Quatro anos

Nem havia propriamente uma ideia de base, um modelo a seguir, um objetivo, sequer uma razão. Ainda não há nada disto, na verdade. Esperava que durasse umas quatro semanas. Faz hoje quatro anos que existe. Lia blogs havia mais anos do que me recordo. Lia-os nacionais e internacionais, de diversos quadrantes, díspares origens. Por lê-los, pensava que sabia alguma coisa de blogs. Como estava enganado. Nada se sabe sobre blogs antes de criar um. Pouco se sabe [pouco sei, posso dizê-lo] depois de quatro anos a alimentar um. É um ser evolutivo, um blog, em mutação permanente. Nós, que escrevemos para distribuição imediata, que podemos olhar para estatísticas, que não temos que prestar contas a um editor, temos um privilégio inacessível à generalidade das gentes até ao advento dos blogs: publicar exatamente o que queremos, quando queremos, sem qualquer restrição geográfica. Há apenas vinte anos, isso seria impossível. Continuamos a ter um privilégio face a quem abdica de graus de liberdade para viver nos jardins murados das redes sociais. Os blogs são o derradeiro reduto da liberdade editorial em estado puro. Sem sujeição a regras, algoritmos de ranking, supressores de artigos, limitadores de palavras ou imagens. O anúncio da morte dos blogs é deveras prematuro. De uma liberdade conquistada pela primeira vez na história humana, não se abdica facilmente: continuarão a existir blogs.

A todos os que, de uma forma que me espanta e maravilha, leem e acarinham este espaço, pleno de idiossincrasias, o meu sincero, comovido, agradecimento.

4.7.17

Antes pelo contrário

Mozart, Sinfonia 41, Quarto Andamento

Evidentemente, temos sempre que ter em consideração que sete anos antes da profícua noite de Haydn em Londres, Mozart havia completado a sua derradeira sinfonia, a número quarenta e um, que termina neste glorioso Molto Allegro. O pai de Mozart era amigo de Haydn e o filho também com ele teve lições. Mas não é certo que Haydn alguma vez tenha conhecido esta sinfonia, que provavelmente nunca foi publicamente apresentada em vida de Mozart: viria a morrer três anos depois de a ter composto.

De mestre para aluno

Beethoven, Abertura, As Criaturas de Prometeu

A abertura As Criaturas de Prometeu foi composta por Beethoven seis anos depois da estreia da sinfonia número cento e quatro de Haydn. A passagem de testemunho é audível.

Dez anos de trabalho

Haydn, Sinfonia 104, «Londres», Primeiro Andamento

A sinfonia número cento e quatro de Haydn foi estreada em Londres em mil setecentos e noventa e cinco. O público, a orquestra e a crítica foram unânimes no apreço pela obra. Mas o mais contente era mesmo o compositor. No seu diário escreveu: «Ganhei quatro mil gulden esta noite. Isto só é possível em Inglaterra». E só era, mesmo. Nessa noite, levou para casa o equivalente a dez anos de salário ao serviço do seu antigo patrão, o príncipe Esterházy — o mesmo a quem ele se referia em privado simplesmente como «Esteras».

[Nota-se particularmente bem neste andamento que Haydn foi professor de Beethoven, não nota?]

Relativizações em movimento

Era, claro, a sinfonia número cento e quatro de Haydn. Que eu tenha tido que recorrer a São Shazam para determinar o número, embaraça-me profundamente. Mais do que fazê-lo em andamento numa via rápida, está bem de ver.

Águas correntes quente e frias

Abre o sorriso todo alvo e diz-me com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Sabe doutor, eu acho a água de cá fria. Faz um jeito de arrepio, ombros em dança requebrada, onomatopeia a condizer. Não há como discordar, Dona Aureliana. Eu também acho fria, gosto de mais quente. Quente de outras latitudes. A Dona tinha acabado de tirar da máquina o melhor café do mundo e este tem que ser tomado com tempo, o tempo suficiente para que o aroma inebrie a brisa. Já o melhor banho de mar do mundo tem que ser tomado com o tempo suficiente para que o sal inebrie a pele. O tempo é o modo das águas e dos cafés. O banho bom é aquele em que o corpo habita a água, ainda que seja ao entardecer tardio, ainda que chova como na véspera do dilúvio. Penso mas não digo estas coisas à Dona. Se a ela lhe ataca a saudade da água quente lá dela, a tal ponto que atravesse o equador de volta ao ponto de partida, onde é que eu bebo o melhor café do mundo? E, pior, onde é que eu arranjo temas? O mundo é feito de equilíbrios mais complexos do que balançar a colher na borda da chávena [e agora, está a restante clientela na mesa em frente a olhar alternadamente para a dita proeza e para mim, com ar de puro espanto. Eu também estaria, se fosse eles, leitora.]

3.7.17

confesso aprendiz

dir-me-ás como consegues

quando se abrem as tuas palavras

revelam perfumes tão viçosos

como cachos somente cariciados

no rebordo do amanhecer

Encontrámo-nos na estrada e ela mostrava o coração a toda a gente.

Um coração grande, almofadado, rubro, oscilante, pendurado do espelho retrovisor central. Condutor consciente, pasmei cuidadosamente, pelo canto do olho. Mudei de faixa e por momentos fiquei em linha reta de vista para o coração, não de perfil mas, por assim dizer, de frente.

Quem sou eu para alvitrar hipóteses para tal exposição de um coração repleno? Perguntasse eu à moça, e ela responder-me-ia, estou em crer, como no poema de Stephen Crane: gosto, porque é almofado [o dele era mais para o amargo do que para o almofadado, leitora, mas perdoar-me-á o torcicolo ao verso] e é o meu coração.

Carreguei no acelerador, injetei combustível no coração do carro, mudei de faixa novamente. O meu coração acelerou um bocadinho com a adrenalina da aceleração, e deixei para trás o coração almofadado.

E foi aí que tive uma ideia, diria original, que deu a prece que se segue: oh Deus, quando projetares o Homem 2.0, almofada-lhe o coração, resguarda-o, equipa-o com airbags. Terão os poetas menos o que cantar, os escritores, os músicos perderão palavras e notas, a poesia penuriará de tema, por certo, mas o sossego que será, oh Deus: ter o coração à prova de toques simples, de choques de frente, de capotamentos até. Tantos corações a salvo: na Terra, o paraíso reencontrado das estatísticas sentimentais.

Já agora, oh Deus, pensa nas condições de atualização para utilizadores atuais. Este que te escreve é candidato. Põe-me em lista de espera. Oh Deus.

Índice global de felicidade

Ouvindo os pássaros a cantar ontem de manhã, debaixo de um sol coalhado pelo verde da árvore de copa grande, e de tarde, brindando ao mar largo em frente, perguntei-me porque é que Portugal surge em octogésimo nono no índice global de felicidade. A amostra é reduzida, o processo sofre de enviesamentos diversos, mas gente com ar desinfeliz, apenas a que vi nos carros em sentido contrário na hora do regresso a casa, perante a fila, uma boa meia hora, talvez uma hora de viagem, depois das horas de adoração solar. Será de quê, qual a razão, para estarmos imediatamente abaixo do Líbano e imediatamente acima da Bósnia e Herzegovina neste índice? Só me ocorre que o inquérito foi feito no pico do inverno, quando a praia é apenas uma recordação e não ainda uma esperança, que possa ter sido, quem sabe, feito no verão, mas quando a perspetiva de chegar à praia é de uma hora de carro para dez quilómetros de distância ou, talvez, antes da tomada do café matinal, dado que em Portugal a chave da ignição do dia é uma chávena fumegante. Ou isso, ou que os portugueses mentem a toda a boca, escondem a felicidade o melhor que conseguem, não vá ser taxada, penhorada, vendida para reduzir dívidas. Exibem os carros, os fatos de banho garridos, os corpos de praia, mas a felicidade, essa, fica bem guardada. A felicidade é demasiado valiosa para que dela mostrem um sinal exterior que seja.

2.7.17

náufrago convicto

há 
amar 
e
amar

sentir
e
ficar

domingo

xilre, domingo

Duas senhoras amorosas

Ao meu lado esquerdo, três passarinhos disputam uma migalha sobredimensionada. Por cima, na grande árvore, outros, certamente primos saciados daqueles, trinam ao despique melodias que, quero crer, já encantavam Eva. O céu azula como obra de um klein que não folgasse ao domingo. A brisa suavíssima adormece-me o calor, numa dolência que se podia prolongar tarde dentro. Ficaria aqui, neste dulcíssimo embalo. Na mesa em frente, duas senhoras amorosas, por quem as largas décadas de vida não deixaram vincos que uma maquilhagem cuidada não elimine, de sonantes pulseiras e louríssimas permanentes, alongam-se numa conversa pormenorizada sobre sistemas de vigilância dos paióis militares, debatem como peritas a cotação, no submundo, dos lança-granadas.

Regressarei um dia destes ao Chico como Ulisses a Ítaca

Sinto falta dos jornais de domingo neste café onde irei daqui a pouco, não sei se a leitora está a ver. Sempre folhearia a revista do Correio e arranjaria de certeza tema suculento para esta minudência. Assim, será prosa etérea, esvoaçante, toque de pata de ave. A revista do Correio ao domingo, quando vou ao café do Chico, é o meu ponto de aferição no globo, a colher que ajuda a provar o caldo do mundo real, essa sopa de pedra feita com seixos de granito rolados, muita dureza, pouca hortaliça. Este não é o café do Chico, não há passos de tango, nem abraços à chegada, nem pastéis estaladiços como os da antiga fábrica, que me deixam o colo cheio de maravalhas de massa folhada e açúcar pulverizado.

Regressarei um dia destes ao Chico como Ulisses a Ítaca, mas entretanto, tenho provações para enfrentar, cantos de sereia para desouvir, naufrágios onde me estilhaçar. Exagero, ouça a leitora clamar. Um bocadinho, ma non troppo, defendo eu o penálti direto do pé da leitora à minha deambulação aleatória.

Talvez eu lhe devesse pedir a «ele» os jornais, que ontem tinha mais do que um em cima da mesa: a Bola tinha de certeza, não é que eu seja grande leitor de tal bíblia, mas sempre me entretinha. «Ele» franziria o sobrolho por detrás dos óculos de massa preta, e assentiria com um leve aceno de mão, em jeito eclesiástico. Podia ser diácono, cónego, bispo até. O gesto assentar-lhe-ia como uma opa.

Usa o cabelo primorosamente penteado para trás, o pólo com jacaré primorosamente para dentro dos chinos, que estão primorosamente vincados e caem primorosamente sobre os sapatos de vela que evitam, parece-me, primorosamente qualquer saída das ruas da cidade. O pólo do jacaré está ligeiramente saliente na região estomacal, prova de uma prosperidade moderada, de uma posição confortável na vida, na cadeira de gerência de cada dia e no sofá do merecido descanso noturno. Talvez eu lhe devesse pedir a «ele» os jornais, a «ele: um bastião da tradição, homem da Bola e do Correio. Tantas vezes o encontro que já merecia ter um nome. Um homem que tem tudo o que quer, como Filipe II, talvez até tenha um fecho éclair, só lhe falta um nome. É tempo de resolver tal injustiça, não é? Doutor Dâmaso Cândido de Salcede, parece-me perfeito, não parece, leitora?

1.7.17

Como uma canoa sem remos

Deixei cair a alma ao rio. Mergulhou como uma gaivota e alguns salpicos semearam-se-me nos lábios: sabiam a saudade. Emergiu, vogando à tona como um canoa sem remos. Seguia-a no passo dolente das águas ao entardecer. Apanhei-a junto ao estuário. Enverguei-a então. Notei com surpresa que não se ajusta a mim: hoje não me assenta. Ou eu não assento à minha alma. Entre mim e ela existe uma camada de ar: a alma excede aquele que sou. Não quero que a minha alma se reduza: o tamanho da alma é sempre certo. Eu é que tenho que crescer até à dimensão da alma recuperada do rio. Daquele rio que leva consigo o sabor da saudade.

lullaby

se eu tecer
uma rede
de balouçar
com [a]braços
nela balouçar
ias assim
em mim
até o teu sorriso
brilhar enfim
no sonho
do teu balouçar
no meu sonho?

Incitação ao vício

O charuto de Winston Churchill era inesgotável: o puro é de combustão lenta, é certo, mas durante todo o filme esteve sempre como se lhe tivessem acabado de chegar lume. E a ação do filme decorre em seis dias. Já as garrafas de conhaque e whisky, essas notava-se que eram meticulosamente esvaziadas. Churchill fumava no palácio, nos jardins, no carro, nos subterrâneos. Nos abrigos de Londres, quem sobreviveu à aviação alemã, perto terá ficado de morrer de asfixia, pelo menos na proximidade do primeiro-ministro. A capacidade de Churchill para beber também era lendária. Roosevelt, numa visita de Winston à Casa Branca, quis estar à altura do convidado. Antes, tinha recomendado à mulher que abastecesse a garrafeira de bons espíritos. Quando o britânico regressou a casa, Roosevelt precisou de dormir dez horas, durante três noites seguidas, para recuperar das «horas de Winston.» Foi Lincoln que disse que não se pode confiar num homem sem vícios para ter virtudes. De Churchill se sabe que fumava e bebia. E não era segredo de estado que o fazia. Diz a lenda que Lady Astor ouviu no parlamento o que hoje seria um deplorável insulto: «Minha cara, eu amanhã estarei sóbrio, mas a senhora continuará a ser abominável», após ter sido por esta acusado de estar «abominavelmente embriagado». Ora isto leva-me a pensar que me conheço apenas duas dependências: café e livros. Tão parco em vícios, é certo que serei mísero em virtudes. Por outras palavras, não posso ser boa peça. Como esperava.

30.6.17

Liliana Abreu e eu

Soube da existência de Salvador Sobral já ele estava prestes a ganhar o festival da Eurovisão. Ouvi a canção só depois de anunciada a vitória. Tardiamente o associei à irmã. Reparo agora, pela prosa de gente que prezo, que parece ser novamente alvo da atenção nacional. Sinto-me a viver num universo paralelo. Os jornais que leio não falam de Salvador Sobral, ou então sou eu que não leio as secções que falam dele. Não é caso único. A minha ignorância do mundo assombra-me amiúde. Reconheço mal os nomes das celebridades e menos ainda lhes associo caras. Posso cruzar-me com qualquer jogador de futebol da liga portuguesa que não saberei dizer quem é, nem que alguma alma generosa se disponibilize para ser a bengala na selva da minha ignorância. De vez em quando chegam-me ecos de coisas, como estas, que eu talvez devesse saber e não sei. Depois lembro-me do que disse Mencken: «Uma celebridade é uma pessoa conhecida de muitas pessoas que lhe agrada muito não conhecer.» Eu não conhecia Salvador Sobral, mas a inversa também é verdade, creio. Não reconheço Liliana Abreu e ela não me reconhece a mim. Não sei quem guarda as redes ao Benfica, nem ao Sporting, nem ao Porto. A nenhum clube aliás. Nenhum destes insignes sabe o que quer que seja de quem escreve estas linhas. Imagino-os a bocejar convictamente se soubessem. Mais ainda se me conhecessem. Cultivo esta distância mútua. Para meu bem e, caramba, sobretudo para bem deles.

29.6.17

Encontro de bloggers

O estilo de escrita é diferente, mas o fato dele é igual ao meu.

28.6.17

destinatária

as minhas palavras dirigem-se para ti

como o meu tempo é dirigido por ti

céleres são as palavras que voam para ti

glacial é o tempo que se escoa vazio de ti

Uma ameaça ao gnomo

Os livros desaparecem-me para um limbo qualquer até que num dia o gnomo sub-reptício que os levou os devolve para um local mesmo em frente aos meus olhos, daqueles de sonora palmada na testa e insidiosa interrogação: porque é que eu não pensei nisto? Anda um livro meu no limbo há uns meses, é um livro pequenino, mas tem valor sentimental. Já revirei tudo o que havia para revirar nas estantes e o livro permanece regaladamente nas mãos do tal gnomo, que eu bem o imagino, o vira-casacas. Fará daqui a nove dias quatro anos que coloquei aqui no blog [ainda lhe chamava blogue, então] um poeminha de lá. A leitora não tem forma de comprovar, devido a esta estapafúrdia mania minha de enviar para rascunho os posts passados de prazo [chamar a isto um conceito vago é o eufemismo dos eufemismos], mas pode aceitar a afirmação à confiança. Em desespero de casa e de causa, hoje deparei-me com o livro numa estante de livraria, e o livreiro disfarçou o melhor que pode o riso discreto quando me viu bailar de alegria, aceitou de bom semblante uma nota e um nif, e o equilíbrio bibliográfico foi reposto. Daqui a oito dias se, entretanto, me lembrar, publico o mesmo poema, mas desta vez copiado do livrinho novo. Isto é uma promessa e ao mesmo tempo uma ameaça ao gnomo. Ai dele se me fizer passar uma vergonha aqui em frente à leitora, não é mesmo?

27.6.17

de surpresa

quando o final da tarde
rasgou um quadrado azul
por entre a moldura branca das nuvens

as folhas da laranjeira
apanharam-me de surpresa
e foi o teu nome que desenharam

Ânsia desusada de crocante

Dona Aureliana assoma-se da cozinha para explicar a Dona Sarita o segredo para a delícia que está no forno ficar crocante. Pelo meio, bondia-me: Bom dia, doutor. Bom dia, Dona Aureliana, bondio-a eu de volta. Sarita, é um café para o doutor, ordena a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Cheio, ecoa Dona Sarita. Cheio sai, e eu saio com ele, periclitante na chávena, para a esplanada. Hoje bebi quente, porque sei que a leitora fica horrorizada pelo desperdício de calor do café, que é como quem diz, pelo desperdício da flor do café. Esta minudência inconsequente é escrita quando um segundo café já ia bem, já combinava com o final da manhã. Mas terá que aguardar pelo início da tarde. A ideia do que quer que seja o crocante que estava no forno, que tinha segredo contado em voz miudinha, não me sai da cabeça contudo, dá-me fome antes do tempo. Ainda me rendo, o café da tarde está a candidatar-se a ser tomado com o sol a pique. Certa vez, Kafka foi visitar o amigo Max Brod, e ao passar despertou o pai deste, que dormitava no sofá. Kafkiano como só ele, sussurrou a Brod sénior: Eu sou só um sonho, pode continuar a dormir. Bem sigo o exemplo, bem digo à vontade de ir almoçar a desoras: É só um sonho, dorme mais um bocadinho. Mas a rebelde continua aqui a insistir numa ânsia desusada de crocante. Orwelianamente, posso fingir que esta fraqueza é uma força. Que almoçar mais cedo me dará vigor redobrado para uma tarde mais produtiva. Mas sou muito fraco a convencer-me a mim próprio do que não quero ser convencido. A bem dizer, é uma força que tenho.

26.6.17

arte de tecelagem

quisera ser tecelão
entrelaçar na tua
a minha mão

e rematar-nos
sem costuras
nem nós

só nós

A chegada da nostalgia insidiosa

Entre a minha mesa e a dele não havia senão espaço vazio. Chegou, pela mão do empregado, a taça de Chimay e ele, que estava com o computador aberto, fotografou-a e teclou um arpejo rápido. Quase de imediato chegaram elas, um abraço longo na de olhar brilhante. As mãos entrelaçadas em cima da mesa. Nenhuma escolheu Chimay, mas a de olhar brilhante pediu o mesmo que eu bebia. Foi então que a melancolia entrou pelos vidros amplos e apanhou o meu melhor ângulo. É o problema das janelas vastas: assim como não impedem os raios de sol desenfreados, pouco ou nada barram a chegada da nostalgia insidiosa.

Que precede o desmaio

Na mesa em frente [onde mais?] a cliente com todas as unhas de ambas as mãos em que foi aplicado um lacado Steinway, exceto as dos anelares, que são cinzentas, analisa, a microscópio de distância, a cliente na mesa da diagonal, a que tem todas as unhas daquele tom rosa que precede o desmaio.

25.6.17

Estoicismo dominical

Escreveu Cesário: «Nas nossas ruas, ao anoitecer, / Há tal soturnidade, há tal melancolia, / Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia / Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.»
Estou convicto de que os versos lhe apareceram a um domingo à tarde. A soturnidade e a melancolia a que se refere têm aroma dominical. Creio também que Cesário devia ser discípulo de Séneca. O desejo é absurdo porque o sofrimento já lá está. Abraçando os ensinamentos dos estóicos, Cesário vem anunciar que o que quer é o que tem. Nem mais. Anulando a vontade de ter o que não tem, atendo-se apenas ao que tem, vive numa agonia serena. Se me tornar estóico, começarei ao domingo. Tal é a soturnidade, tal é a melancolia, que ganho logo um avanço até pelo menos meio da semana. Se é para sofrer, que seja assunto sério.

Lágrimas na chuva

Vi coisas em que vocês, gente, não acreditariam. Vi naves de ataque em fogo no ombro de Orion. Assisti ao brilho de feixes-C no escuro, perto do Portão de Tannhäuser. Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Tempo de morrer.

[Do monólogo de Roy Batty, em Blade Runner.]

Desobediência civil

Virgílio deixou a dois amigos a tarefa de destruir a Eneida, por publicar. Os amigos desobedeceram. Kafka incumbiu Max Brod de queimar a sua obra. Brod, como se sabe, rebelou-se. Santa Rita Pintor pediu que lhe destruissem os quadros. Mais submissos, os amigos ainda deixaram algumas, poucas, pinturas. Estava eu neste elencar, a pensar como é que será neste mundo digital desmaterializado e lembrei-me: este blog, que fará um dia destes quatro anos [eu aviso, quando chegar a altura] tem algures nos rascunhos mais de três mil ex-posts. É certo que pouco há aqui de mérito, menos ainda de valor. Mas se um dia me quiser desfazer disto, faço um apagamento sistemático, um posticídio, ou deixo a palavra-passe e instruções a um amigo, esperando que faça o que eu não tenho coragem para fazer, e secretamente ansiando que seja um desobediente civil, tão meu amigo que não faz de certeza o que eu lhe pedirei veementemente para fazer?

24.6.17

Marginália

Descobri, ou redescobri, que aquilo de que mais gosto nos grandes escritores são as suas obras menores. Papéis perdidos, textos para as quais não olharam segunda vez, livros impossíveis de achar, folhas salvas in extremis da fogueira. Descobri também que, mais do que dos grandes escritores, gosto dos escritores menores, dos que não são consensuais, dos que, quais salmões, avançam ainda no sentido oposto ao da corrente viçosa. E, claro, dos escritores menores prefiro as obras ínfimas às vistosas, as sumidas face às presentes, as dispersas face às apuradas. Se descubro o rasto de uma obra noutra obra [como uma rosa esquerda que deixou uma marca rubra no trajeto virgem], rejubilo em silêncio. No que é pequeno, procuro a marginália. Apaixonado pelas grandezas do ínfimo, creio ser assim que se chama esta minha maladia.

[A expressão «grandezas do ínfimo» devo-a a Manoel de Barros.]

23.6.17

tão frágil

gosto de te pensar intrépida
capaz de dançar cirandas
no cerne dos tornados
de rachar ondas a voz de comando
como se das tuas mãos
dependesse um povo em fuga

venha a criação ou o desmoronar do mundo
venham cavaleiros prenhes de apocalipse
venham anjos em enxames crepusculares
tu não fugirás
assim gosto de te pensar

e: não sabes

gosto também de te pensar
couraçada pelos meus braços
no baluarte do bater do coração
onde seguramente estarás
segura

e denodadamente frágil
tão frágil
tão tu

Vocês desculpem tocar nesse assunto

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muita gente, diria o Velho Braga. Em 2015 ocorreram 31.953 acidentes com vítimas, nas estradas portuguesas, 41.076 feridos, 473 mortos. Em 2015 aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), que em 2014. Em 2014, aconteceram mais acidentes, mais feridos, menos mortos (felizmente), quem em 2013. O facto de os carros serem mais seguros provavelmente ajuda a que se morra menos, mas não que existam menos acidentes, pelo contrário. Entre 2005 e 2015 morreram nas nossas estradas 6.694 pessoas, mais do dobro do número de vítimas do ataque às Twin Towers. Durante o dia de amanhã, pela estatística, deverão acontecer pelo menos 87 acidentes, dos quais resultarão pelo menos 112 feridos e pelo menos um morto. Não é decretado luto nacional, não são exigidas cabeças de ministros, não há pronunciamento de comentadores, não há notícias de abertura de telejornais nem pedidos de inquérito. Morrer na estrada em Portugal é tão banal, tão pouco digno de nota, como morrer na guerra civil em Aleppo. O pior é que a cada dia o número dos que estão no «lado de lá» vai aumentando, e se a gente demorar muito[*], diria o Velho Braga, por aqui acaba falando sozinho.

[*A deixar de banalizar a morte que não dá manchetes. O dados são da Pordata.]

21.6.17

a soma dos pensamentos

há um verde de mar que nunca verei contigo
há um horizonte dourado que nunca observarei refletido nos teus olhos
há um aroma de ervas cortadas que não nos inebriará em conjunto
há um punhado de areia que nunca correrá da minha mão para a tua

a vida de um homem é a soma dos seus pensamentos
mas quando subtraio tudo o que nunca viverei contigo
o resultado ainda és tu
és toda tu

Ficam lindas, lindas, lindas

O Senhor Estrelinha tinha o estúdio de fotografia no primeiro andar de uma casa que era de primeito andar. No andar de baixo, o irmão tinha uma retrosaria. À retrosaria nunca fui, mas sempre que precisava de um retrato para o cartão da escola, era o Senhor Estrelinha que me imortalizava por mais um ano. De imortalidade em imortalidade cheguei aqui, nem tudo se perdeu.

Contavam que o Senhor Estrelinha era cruel com as Modelos.
Modelo: Mas oh Senhor Estrelinha, estou tão mal nesta fotografia.
Senhor Estrelinha: Nessa e nas outras todas, senhora. Sou fotógrafo, não faço milagres.
Modelo: Malcriadão. Nunca mais cá ponho os pés.
Senhor Estrelinha: E eu ralado, não venha. 
O Senhor Estrelinha tinha o monopólio dos retratos. A Modelo voltaria, ele sabia que voltaria.
Já eu, ficava sempre bem, modéstia à parte. Mas eram outros os tempos.

Ontem lembrei-me do Senhor Estrelinha. Olhei para o cartaz e lá estava a Candidata em tamanho irreal. Bem apessoada. Sorriso inabalável. Pele forrada a seda. Muito melhor do que quando me cruzei com ela, estava ela em tamanho real, numa superfície de tamanho irreal, onde ambos comprávamos coisas inúteis. O Senhor Estrelinha chegou cedo ao ofício. Os fotógrafos agora são milagreiros. 

A conclusão moral desta minudência impõe-se assim. O monopólio é mau. A concorrência é boa. Não havendo concorrência, as gentes ficam mal nos retratos [exceto eu, mas eram outros os tempos]. Havendo concorrência, ficam lindas, lindas, lindas. Quem sabe se agora, eu... 

20.6.17

O melhor café

Eu cheguei ao café há já longas horas. Antes que a leitora me olhe de olhos demasiado abertos de admiração e alguma reprovação, direi que faz horas também que já lá não estou. Mas quando cheguei, era Dona Aureliana que estava no posto de comando.
Dona Aureliana: Bons olhos o vejam doutor. Vai ser o melhor café para o senhor?
Eu: Dona Aureliana, hoje tem que ser mesmo o melhor de todos os cafés.
Dona Aureliana: Pois aqui a Jânia vai tirar para o senhor o melhor café. Jânia, é o melhor café para o doutor.
Eu: Dona Jânia, é o melhor café bem cheio, se faz esse favor.
Dona Jânia: Silêncio eficientíssimo.
Dona Jânia afadigou-se em torno da máquina fumegante, perante o olhar atento de Dona Aureliana, coordenadora de serviço do café, controladora de qualidade de líquidos cremosos em chávena, dona de uma fala lá dela que atravessou o equador. E sai um café orgulhoso de ser o melhor café. Por todos os deuses que os homens criaram, leitora, há tempos que não bebia tão bom café. Verdade. Primeiro porque estava na temperatura certa. Não arrefeceu enquanto eu escrevia minudências, que essas escrevo agora. E depois, porque estava mesmo bom, qualquer que seja a definição de bom café. Bom café e boa brisa, deixei-me ficar à sombra, despachando missivas importantíssimas para a esquerda e para a direita. Dona Aureliana mandando no mundo lá dela, eu vigiando o mundo cá meu, a leitora aí a franzir o sobrolho, que eu bem imagino. Pois se isto é forma de passar uma manhã, na esplanada, por mais importantes que sejam as missivas enviadas para a esquerda e para a direita? Quando se tornou demasiado escandaloso até para mim estar tão bem, mudei para lugar mais formal. Tão escandaloso, que o meu plano para amanhã é repetir o escândalo todo, sem nada omitir.

19.6.17

o sussurro das estrelas

por um instante me quedo
mudo
como quem escuta
no fundo da noite
o sussurro das estrelas
e o compreende

falar baixo

falasse eu hoje contigo
falaria baixo
de mim não se ouviria mais
do que uma nuvem a deixar um traço no azul
do que um raio de sol a mergulhar no poente
do que palavras a atravessarem uma página

e no entanto eu sei
por todos os deuses que os homens criaram
ainda que falando baixo
não haveria palavra minha que não ouvisses

as minhas palavras são tuas
a ti regressavam apenas

neste falar tão baixo do silêncio

18.6.17

A esplanada era outra

A brisa salvou-me do calor da tarde, numa esplanada [tenho um mapa completíssimo de esplanadas, leitora]. O meu café ia a meio quando ela chegou, que eu ouvi, no silêncio das horas de calmaria: «Um café cheio e um copo com gelo». Ora de café cheio percebo eu, que é o que dá tempo para escrever uma minudência inconsequente, mas eu, que havia recusado a oferta de pedras de gelo para a minha água efervescente com rodela de limão, não acompanhei a necessidade de tal combinação [ah, a minha ingenuidade]. Sentou-se na mesa ao lado [nestas histórias, reparará a leitora, toda a gente se senta na mesa ao lado], despejou o café para dentro do copo com gelo e mais depressa do que eu levo a escrever a palavra «minudência» engoliu a frankenbebida de um trago. Abalou como chegou. Em cima da mesa ficaram um maço de tabaco vazio e um copo com umas pedras de gelo com cor de café. Dona Aureliana não estava nem por perto, que a esplanada era outra. Por perto apenas o meu espanto e a brisa. E no fim, apenas a brisa, que acabou por levar o espanto com ela.

Um assombro antigo

(...) o fulgor do fogo  / Que nenhum ser humano pode olhar sem um assombro antigo (...)

[Jorge Luis Borges]

Assombro, horror, comoção: antigos sim, mas atuais, presentes, imediatos, como facas finas cravadas na nossa consciência coletiva.

Instagrafias

O pássaro anda numa onda de vir picar o pio e zarpar. Irrompe em cantorio, um pico lírico e ala, para outras paragens. Outras passaragens, diria.

Melhorou o panorama da esplanada. Mais afoitos à sombra. É verdade que o céu está mais sombrio. A sombra puxa a sombra, por cá. É isto que nos diferencia de outros povos, também.

Diz-me que eu estou elegante por devoção e ele elegante por obrigação. E sinto-me na obrigação de ficar envergonhado por não o ter reconhecido, assim, tão eufemisticamente elegante.

Leu decerto mais livros que eu e não gostou do filme. Fiquei contente por ter lido menos livros que ele: eu gostei. Não lendo tanto, m'espanto às vezes [outras m'envergonho, como diria Sá de Miranda e eu confirmo no parágrafo anterior].

O cão tem menos de meio metro. Enganei-me nas contas. E o olhar do homem há pouco, vazio. Nem uma tatuagem no ombro no horizonte.

Tenho anotado no caderno: «Almoça-se hoje, onde?» perguntaram eles quando chegaram ao restaurante onde vou há anos. Perguntaram para dentro da cozinha, quando tanto lugares estavam vagos na sala. «Aqui na cozinha é que não», respondeu a cozinheira, explicitamente pragmática. Tenho «isto» anotado no caderno. Senão como é que enchia tantas páginas em branco?

17.6.17

a melhor página

de todos os versos de amor
as rimas e frases reinventadas
as jogadas de efeito
os subterfúgios e os hai-kais
anotações de diário
de todos os nomes que dei
para crises de adolescência
e carências plagiadas
de todo o minimalismo
clichês e letras de música
de toda minha literatura
você ainda é a melhor página

[quem dera ter sido eu a escrever, mas é de Martha Medeiros]

16.6.17

A rosa quer perdurar como rosa

Dizia Sui, o chinês, que cada coisa que surge na terra projeta o seu arquétipo no céu. Algures existe o arquétipo da clepsidra, o arquétipo do barco, o arquétipo do soneto, o arquétipo da equação, o arquétipo da catedral, o arquétipo do mapa, o arquétipo do livro. Kant, interpretando Espinoza, observou que cada coisa quer perdurar no seu ser. A rosa quer perdurar como rosa, o rouxinol como rouxinol. Ao procurar-te, encontrei o meu arquétipo. Eu, sabes — eu quero perdurar como nós.

15.6.17

Tal era o seu esplendor

Quando Seth chegou ao Paraíso confundiu-o com um incêndio: tal era o seu esplendor.

[Victorinus, séc. IV]

14.6.17

morrer de imortalidade

quero aguardar o beijo
como o sol nascente
depois da noite desperta

quero que os nossos lábios
cerceiem do tempo
todas as franjas das horas

quero viver o fulgor
do amor a irromper
com a urgência do vulcão

quero no instante do beijo
mensurar o infinito
morrer de imortalidade

Modo de ler

Os livros que tenho comprado são dos que se começam a ler em qualquer ponto e em qualquer ponto se termina a leitura. Leio de forma circular e não raras vezes volto ao ponto de partida, relendo a página que tinha começado por ler antes de todas as outras. Neste modo de ler, pergunto-me se compro livros ou antes fitas de Möbius.

O ar condicionado pode esperar

Vindo de conversar com Dona Yara sobre os calores do dia que se inicia, sento-me na esplanada a escrever uma minudência inconsequente à leitora. A brisa amena convida a espraiar o momento muito para lá do tempo que demora o café a ficar frio. O cliente da mesa em frente bebe um café gigantesco, à maneira anglo-americana e come fatias de fiambre retiradas da embalagem como se desfolhasse um livro precioso. Fiambre às fatias. Na esplanada, apenas os dois e o vento ameno. Ao longe, a fala de Dona Yara com aquela entoação que atravessou o equador. Tal é a calma que os pombos por aqui aterram e ficam, também eles no remanso. O ar condicionado pode esperar, penso eu. Monto escritório à sombra. Mandasse eu nisto do mundo, e deixava esta brisa ligada todo o dia. Feitos à imagem e semelhança de Deus, estou em crer que ele está sentado numa esplanada algures, deitando de vez em quando um olhar distraído para nós, enquanto aspira o aroma do café fresco, quiçá a esfriar mesmo.

13.6.17

Podem sair da sala

«E agora as crianças podem sair da sala» anuncia Jerónimo Pizarro antes de ler ao ar livre, com aquela fala lá dele que atravessou o equador, o soneto dos insultos, de Fernando Pessoa. Recordei-me de Mozart e dos seus versos escatológicos e escabrosos. Mozart sabia mais de composição que Pessoa, e este mais da arte de versejar que o vienense. Mas a insultar, Mozart tinha a opulência do Império Austríaco, e Pessoa, a decrepitude do Português. A queda dos impérios é precedida pela esvaziamento dos seus insultos, até se tornarem irrisórios, olvidáveis, pífios, em suma.

Ganha sempre

«Chamei o pássaro.» diz Mia Couto, «E o pássaro comeu o céu.» O pássaro do lado de fora da janela trina desaustinadamente. O céu não terá comido, e eu não o chamei. Mas trina ele como se me chamasse. Estão mais de trinta graus lá fora. É um jogo de paciência: ele desafia-me, eu resisto. Mas o pássaro, que me deve vigiar e anotar os hábitos, sabe que cederei. É uma questão de paciência, num jogo que estou condenado a perder. Eu contra um pássaro: e o pássaro ganha sempre.

Da pastorícia em Vila Meã e Nova Iorque

Ao ler a opinião de Susan Sontag face à escrita aforística: «Escrever aforismos é assumir uma máscara - uma máscara de desprezo, de superioridade», fico a pensar que Susan Sontag não gostaria de ler Agustina. Mas Sontag descreve os aforistas de forma aforística, ou seja, como Agustina o faria. Já Agustina chama ao aforismo uma pastorícia cultural. A diferença é que Agustina admite que pastoreia e gosta de pastorear, e Sontag pastoreia, mas proclama: «Que horror. Pastorear, eu?» É diferente nascer em Vila Meã ou em Nova Iorque, no que toca à pastorícia.

12.6.17

orçamento zero

começo
todos os dias 
buscando apenas palavras 
acabadas de cunhar 
para ti

Eu também

Salomão diz que uma boa resposta é como um amoroso beijo. Eu prefiro um amoroso beijo a uma boa resposta.

[Agustina]

Vertiginosos na altura

Talvez pela idade pudessem ser meus pais, o que já é dizer alguma coisa. Na mesa ao lado direito da minha não havia como não os notar, também. Ela de cabelo de ouro faiscante, calças brancas rasgadas nos joelhos, sapatos de malha de rede, vertiginosos na altura. Ele de cabelo longo, alvo, apanhado, gigantesco telefone inteligente em uso constante. Apenas faltaram as selfies. Mas tal como os vizinhos da mesa do outro lado, os que se prodigalizaram em autorretratos, também estes tentavam estacar o tempo. E logo à beira do mar, que é onde ele mais se recusa a ser imobilizado.

11.6.17

Proximité

xilre, proximité, 2017

pastoral

não podes dizer que não
hoje reconheci um traço teu
foste tu que pintaste o céu
retocaste o mar
e o meu coração

Seráfico

Na mesa ao lado da minha, não havia como não ver. As selfies, incontáveis selfies, devo eu ter ficado como cenário de fundo de algumas, selfies a um, selfies a dois, selfies de cara de pato, selfies com molduras flutuantes, selfies de face de bebé e selfies de espelhos de feira. Ali mesmo em frente, o imenso mar azul, tão bom de contemplar.

Levado pelo apelo

«Frederico Lourenço vai estar a autografar a sua tradução da Bíblia no pavilhão da Quetzal», proclamava a Voz acima de todas as vozes. Estava perto, tenho o primeiro volume mas não o segundo: podia ter sido levado pelo apelo. As epístolas de Saulo autografadas por Frederico. Mas tal como aconteceu a Saulo, eis que uma luz forte me fez cair do cavalo. Tive a epifania do ridículo de ter uma Bíblia com assinatura e dedicatória de alguém, ainda que seja o tradutor. Felizmente, ao contrário de Saulo, ainda via a luz do dia. Continuei, como até ali, a fotografar capas de livros, que comprarei num raide noturno, quando a feira estiver a fechar, a temperatura for amena, e os autógrafos tiverem há muito cessado.

10.6.17

intimidade

um dia
lerei
para ti

ler-te-ei

Sensibilidade

Todo o cavalo é selvagem e arisco quando mãos inseguras o tocam.

[Clarice Lispector, Onde estiveste de noite]

Main

xilre, main, 2017

9.6.17

Habitar os sonhos

Tenho-te encontrado em cada página de cada livro que leio. A tua ubiquidade surpreende-me, intriga-me, fascina-me: como podes ter sido tema para cada escritor dos que habitam ao meu lado, nestas pilhas instáveis, a que sempre volto, escorando, derrocando, em páginas que tendem a desvelar-se novas à minha mão de leitor repetente. Não em cada parágrafo, como bem sabes, combinaste com os autores o teu lugar, por vezes na primeira das linhas, outras no parágrafo do centro, notei que preferes esperar por mim mesmo antes de virar a página. Jogas comigo, corro a página seguinte, numas escondidas entre o olhar e as palavras. Se o confessasse a outros, diriam que eu é que te vou semeando no campo das letras, para que brotes e que eu te encontre em flor quando por lá regressar. Mas ainda acho que foi conluio teu, uma magia das que alteram o tempo, que te fez habitar os sonhos dos que escreveram os tomos que me preenchem as noites em claro. E assim te encontro, dizia, nos meus sonhos, e nos sonhos que outros, antes de mim, sonharam. Não sei como o conseguiste, como viraste o ciclo dos dias, como quebraste tantos impossíveis, como soubeste antes de eu saber, o que eu iria ler, o que iria ver, o que iria sentir. Sei, isso sim, reconheço, posso dizer-te com segurança, com algum orgulho até: Venceste.

matéria-prima

talvez eu chegue a ti como matéria-prima
talvez sejas tu que me crias a partir de mim

8.6.17

o erro de Newton

dizem os físicos
que dois corpos
não podem ocupar

o mesmo espaço
ao mesmo tempo

estão errados

num abraço
podem

num abraço
devem

O que existe em paralelo

Asak espetou dois paus na areia e sentou-se num tapete a tomar chá de menta. O sol banhava de luz o deserto com a exceção das duas sombras paralelas, filiformes, à sua frente. Longa era a viagem do sol, mas tempo, que é a areia da eternidade, não lhe faltava. Nem chá. Eventualmente, as duas sombras que eram paralelas, sobrepuseram-se. O que é paralelo não se encontra senão no infinito, dizem os homens. Mas Alá, que fez o sol e a sombra, sabe mais. Encontram-se sim, no finito. Nem que seja preciso rodar um mundo. Quando o sol começou a separar as sombras, Asak rodou os paus, por forma a que continuassem sobrepostas. Ou nem que seja preciso contrariar a rotação do mundo, pensou Asak. E bebeu mais chá de menta, que tomava amargo, ao invés de todos os outros. Sempre do contra, pensou. E sorriu.

7.6.17

Rolar, rolar

Asak chegou ao topo da duna e bebeu um chá de menta. O sol do ocaso alongou-lhe a sombra até à duna que começava imediatamente a seguir. Levantou-se, enrolou o corpo sobre si mesmo, fechou os olhos e deixou-se rolar pela areia, sentindo-se acelerar, rocha feita de gente, velozmente azul. Com o impulso, atravessou o pequeno vale e subiu a duna seguinte. Como um milagre, mas Alá sabe mais, atingiu o topo. Em pé, mirou a silhueta do bule e do copo onde havia tomado o chá. Rolar nas dunas, pensou, é como atravessar os dias. Estamos no pico, estamos no vale, voltamos ao pico. Ao vale tornaremos. É a descida de uma duna que faz ultrapassar a seguinte. Asak foi buscar o chá de menta para a duna que havia primeiro subido a rolar. Olhou as seguintes. Numas rolaria, noutras não. Mas haveria de beber chá de menta na duna do horizonte.

As palavras de amor

Não as digas,
se não quiseres;

não é necessário.

Quando
me olhas
dessa forma,
às vezes…

sei que estão
todas aí.

[Baseado em Karmelo C. Iribarren. (Quando aqui aqui escrevo «baseado» é porque acredito que a poesia é intraduzível.)]

Tão cedo

Chego ao café mais cedo que nunca, mais cedo que Dona Aureliana, mais cedo que Dona Yara, apenas Dona Patroa chegou mais cedo, que isto a responsabilidade de mandar num mundo é coisa de peso, arreda o sono antes que a noite se arrede. Hoje fui eu a acordar o pássaro, creio, que imagino estremunhado a esta hora, enquanto o café arrefece aqui à frente e eu escrevo minudências inconsequentes à leitora.
Entretanto, vejo Dona Yara que acaba de chegar, ainda em traje civil, e já num afã sobre-humano. Posso ter acordado antes da lua se ir, pedido um café ainda o sol esfrega os olhos piscos, mas aquele afã, leitora, ainda aqui não está. Apenas o pensamento se afadiga, que esse é rápido de manhã e gasta-se depressa. Começa a funcionar muito cedo e vai travando, até que estaca, ainda a lua está a uns dez graus no horizonte. Agora que estou nisto, pergunto-me se a lua não tem efeito no pensamento, como tem nas marés. Eu vivo sempre no mundo da lua, diz a canção. Já eu não. Passo a vida a fugir do mundo da lua, leitora. O problema, sabe, o problema é que o mundo da lua me encontra sempre.

6.6.17

Desordenadamente

Os teus olhos
que estão plenos de selvas e são um manifesto,
desordenadamente
fazem de mim aventureiro
                        e revolucionário.

[Baseado em Luis Garcia Montero.]

Constatação de Asak

Um oásis é uma porção ínfima de água rodeada por um deserto infindo por todos os lados.

Plácida terça

O meu Plácido Domingo de beiral veio cantar Wagner ao alvorecer, atropelando com o seu afã multidões de trinados incautos. Que fulgor, que vigor, que furor por me acordar assim. Plácido é o tenor, que ao canoro falta em placidez o que lhe sobra em audácia. Comigo aprendeu que deitar tarde e cedo erguer, pode não nos dar saúde [que é sempre adquirida em leasing] mas faz crescer. Não o vejo há meses, acredito que agora peça meças com uma águia ou, quiçá, um flamingo. Com ele eu teria muito para aprender: esta arte de desaparecer e reaparecer, retomando o canto na nota em que o deixou, esta arte de barítono tão plena de oitavas que me deixa num oito, e sobretudo, ah, sobretudo, a arte de voar. Eu, que só consigo voar num casaco de fuselagem, que jeito me dava voar assim, em mangas de alva camisa. É que nem hesitava: voava já. Tomava o segundo café e, inclua-se aqui onomatopeia, num ato de fé, inflava asas pelos ares, tomava a escada para o céu. Como um leve zeppelin, diria.

5.6.17

perpétuo movimento

todos os dias a tua imagem irrompe em mim
como se eu fosse terra fresca e de ti nascessem
raízes e ramos e folhas e sóis

Milheiros cronológicos

Sentado no meu posto de comando, com uma das estantes a alguns metros dos olhos, e em linha reta, direta, duas mil páginas de livros carinhosamente selecionados na feira do livro de há dois anos, às quais se juntarão, por outras estantes, similares milheiros do ano passado e dos adquiridos no intervalo entre feiras, que é o ano todo. Páginas e páginas de prosas magníficas, poemas eternos, não ficções, ficções, pulsões e paixões. A aguardar a oportunidade de serem lidas. Fosse eu a ler por ordem cronológica de chegada à fila de espera e creio que a vez destes mesmo à minha frente aconteceria daqui a uns setenta anos, mais dezena menos dezena. Um ótimo incentivo para buscar uma vida longa, não se desse o caso de ter a certeza de que este fosso crescente de anos nem que eu chegasse a idade de Matusalém seria ultrapassado. Aquiles e a tartaruga, mas com uma tartaruga mais rápida do que Aquiles, por outras palavras. Posto isto, ajude-me a leitora: porque é que eu teimo em ir à feira do livro todos os anos?

4.6.17

a espera

esperava longamente
pela aceleração do tempo

esperava para esperar
desesperava

Leitura dinâmica

Não há leitor mais impaciente que o vento.

Sistema global de poetamento

Quando estou perdido, há sempre um poema que me encontra.

Café forte

Com tal vento, na esplanada só o café muito forte resiste.

3.6.17

Fado tropical


Constantinople, Cissoko, Tabassian e Martel, Lountang

2.6.17

fusion

xilre, fusion, 2017

ex-líbris

fechava os olhos e conseguia ver perfeitamente
onde ela o havia marcado

1.6.17

Carta a propósito de um panda bebé

Recebo, por um estafado estafeta, uma carta manuscrita a tinta azul cobalto, com a caneta S. T. Dupont Olympio de J. Eustáquio de Andrada.

«Meu muito estimado amigo,

Escrevo-lhe instado pela dulcíssima Orchidée, aqui ao meu lado desfeita em lágrimas de dó pela sorte de um panda bebé que, diz ela, está prestes a fenecer se o meu amigo não tomar determinada ação ainda hoje. Pelo coração d'oiro desta que ilumina as horas do meu ocaso sou capaz, como decerto sabe, de tudo, até de o instar a tomar alguma ação, coisa a que o meu estimado é, como é do conhecimento geral, avesso.
Passo a explicar a situação. Informa-me a minha soluçante Orchidée («pauvre, pauvre panda») que o meu amigo recebeu um ex-líbris qualquer lá nessa coisa dos hebdomadários das internetes. Como é que é alguém o nomeia para alguma coisa que não seja contar teias de aranha em bibliotecas empoeiradas, é um mistério para mim, mas avancemos. Informam-me ainda que o meu amigo terá que retribuir o ex-líbris a outro escriba desses de hebdomadários, numa espécie de «merry go round». Ora se bem o conheço, o meu amigo ficará a contar as estrelas do céu e a dividir pelo cardinal de livros da sua biblioteca, para ver se encontra o número que representa o significado da vida enquanto o ex-líbris jaz esquecido e arrefece. O problema é o panda («pauvre, pauvre panda») que assim fenecerá totalmente fenecido, como diria o Herberto, que não disse totalmente assim. O problema, meu estimado amigo, serão as lágrimas desta que aqui ao meu lado se esvai em compaixão pelo «amoroso e fofo pandinha». O problema, enfim, é a minha noite.
O meu amigo sabe que eu não sou versado nisto dos hebdomadários das internetes. Fraco aconselhamento posso dar, mas ainda sou homem para ter uma vida bem vivida e uma considerável memória. Há uns anos, na esplanada do Hotel Mont Blanc em Megève, frente a uma garrafa de Château Lafite Rothschild, o meu estimado amigo Lancastre apresentou-me o sobrinho, cavalheiro de refinado espírito, que tinha também um desses hebdomadários nas internetes, mas que ao contrário do pasquim do meu prezado amigo, falava de coisas que interessam aos homens como carros descapotáveis, «football», vinhos do Loire e montanhas suíças, tudo isto com prosa eivada de um espírito, meu amigo, que o seu sonharia ter, fora o seu um hebdomadário em bom, como sói dizer-se agora. Pareceu-me coisa de valor. Por quem é, procure lá o hebdomadário do sobrinho do Lancastre e envie-lhe o ex-líbris. Diga-lhe que vai da minha parte, olhe. Salva-se o «pauvre, pauvre panda» e salva-se a minha noite, e se calhar a sua, porque a radiosa Orchidée já se preparava para enviar uma orquestra de tocadores de alfaias de cozinha para a frente da janela do seu quarto, onde habitualmente pousa aquele seu pássaro.
Veja se faz alguma coisa ainda hoje, nem que seja publicar esta carta. Quem sabe se algum dos seus dois ou três leitores saberá do paradeiro do sobrinho do Lancastre. Aqui ao meu lado soluçam «pauvre, pauvre panda». Aproxima-se a hora de recolher. Aja depressa, por quem é.

Aceite um abraço deste que muito o considera,

J. Eustáquio de Andrada»

23.3.17

Um jogo perdido

Com aquela fala cantada lá dele que atravessou dois continentes, vem perguntar: Sir, do you want some? Ainda não almocei, não me parece excelente ideia comer bolachas de chocolate a esta hora, declino, mas sei que ele vai insistir. Sei da sua generosidade persistente: da forma como deixa que o pacote fique ali a pairar à altura dos meus olhos, à distância breve da minha mão. E ele sabe que eu vou aceitar, porque abri precedente, cedi à tentação e comi já duas destas bolachas antes. É um jogo que não posso ganhar. Mas que continuaremos a jogar, eu sei. Ele a oferecer, eu a recusar, pouco convicto. Um amável braço de ferro que me condenei, irremediavelmente, a perder.