28.4.17

As peças do percurso

Hoje, todas as peças que encontrei no percurso do dia encaixaram.

Apenas um espaço ficou por preencher.

Pertence-te.

27.4.17

um papagaio de papel, com asterisco

notamos bem quando nos apaixonamos:

é quando saímos de perto, mas a alma permanece
junto dela*
a pairar

a paixão faz da alma um papagaio de papel

*ela: leia-se aquela que nos toma a alma de empréstimo

Agustina D'Água

A mudança da obra de Agustina para a Relógio D'Água é, até agora, a segunda melhor notícia do pequenino mundo editorial português neste ano de dois mil e dezassete.

[Esperando sempre o melhor das gentes, há muito suspeitava que Álvaro Sobrinho e Paulo Teixeira Pinto não teriam no topo das respetivas prioridades bem cuidar das palavras de Maria Agustina.]

De sol a sol, e ainda com sol pelo meio

Cheira a pão fresco no café. Cheira a pão fresco, digo eu a Dona Aureliana quando ela me entrega a chávena fumegante, como imagino o pão a sair do forno. Fui eu que fiz, diz a Dona, com aquela fala lá dela que atravessou o equador. Pois claro, Dona Aureliana, quem mais poderia fazer pão tão cheiroso? Senão que estaria eu aqui a fazer? responde a Dona, abrindo o sorriso alvo. E corre a atender os restantes dez clientes que aguardam enquanto o meu café teve entrega, digamos, expressa. Pois que mais estaria a Dona ali a fazer, de facto, de sol a sol, e ainda com sol pelo meio?

26.4.17

relatividade generalizada

a resposta é que em torno dos apaixonados
o espaço curva-se num abraço concêntrico
não há luz mais veloz que a dos olhares
a radiação envolve-os num traje cintilante

o tempo, ah o tempo: enovela-se no abraço
e perde-se, volteia, expande-se, excêntrico

Nem Deus o encontraria num alfarrabista

Debalde procurei o livro durante dias: num momento estava presente, no outro, ausente. Hoje, apareceu exatamente no lugar onde deveria estar. Podia ter surgido numa das várias estantes onde o procurei, nos depósitos recônditos que vasculhei, e até em locais de que não me recordei. Mas não. Exatamente onde devia estar. Tenho duas hipóteses: a primeira, é que foi a mão de Deus que o colocou no local de novo [é um livro de poesia, tão esgotado que nem Deus o encontraria num alfarrabista, tê-lo-á tomado emprestado presumo]; a segunda, é que Dona Aline, que toma conta dos aspetos terrenos da minha existência tê-lo-á achado [mas onde?], e o colocou exatamente no local onde eu aguardava por ele. Talvez inspirada por Deus, quem sabe. Claro que não irei esclarecer o mistério: afinal, trata-se de um livro de poesia. O reaparecimento pode ser só mais um poema. Um poema de uma página até agora oculta. E provavelmente, a partir de agora, oculta de novo.

[Adenda: a ser o divino que o tomou de empréstimo, já agora há um segundo livro em falta, tão escasso como este. Se aparecer amanhã, no mesmo local, ninguém mais precisa de saber, não farei perguntas adicionais. Grato.]

25.4.17

Contentes do mundo descontentes

Amam-me o caminho, a casa
e na casa uma jarra vermelha
amada pela água,

Amam-me o vizinho
o campo, a debulha, o fogo,

Amam-me braços que trabalham
contentes do mundo descontentes
e os arranhões acumulados no peito
exaurido do meu irmão atrás
das espigas, da estação, como rubis
mais rubros que o sangue.

Nasci e nasceu comigo o deus do amor
— que fará o amor quando eu me for?

[Versão de um poema de Adunis, nome por que é conhecido no ocidente o poeta sírio Ali Ahmad Said Esber.]

O dia de hoje, ou a via terrestre

Era na mesa ao lado no café [onde mais?]. O pai, debruçado, segurava-lhe no braço, para as palavras seguirem também por via terrestre, para além da via aérea. Foi há muito tempo, ainda nem o pai era nascido, só a avó e o avô, dizia-lhe. E ele olhava para aquele pai tão novo que lhe contava aquela história de tempos que ele nunca poderia imaginar. Faz hoje quarenta e três anos, acrescentou o pai, antes de se alongar na história. E a mãe, ao lado, segurava no braço do pai, para os sentimentos seguirem por via terrestre, para além da via aérea.

24.4.17

A natureza dos sonhos


Max Richter, Dream 13

Ulrica, ou a suavidade

Uma linha de William Blake fala de raparigas de suave prata ou furioso ouro, mas em Ulrica estavam o ouro e a suavidade, afirma Borges. O ouro é inútil, digo eu. Bastaria a Ulrica ser suave como a brisa, o tempo, ou o Universo.

[As palavras de Blake são, no original: «girls of mild silver, or of furious gold».]

23.4.17

cartografia empírica

é no teu mapa de mim
que me descubro

Uma criação contínua

O corpo humano não é uma coisa ou uma substância dada, mas uma criação contínua... O corpo humano é um sistema energético num estado de perpétua destruição e construção de si...

[Norman O. Brown em Love's Body, citado por António Ramos Rosa n'A construção do corpo.]

Cada livro é uma peregrinação

Não é coisa usual eu incluir prefácio nos meus livros. Entendo que eles se recomendam como os peregrinos de Santiago, pelas conchas que têm no chapéu e que simbolizam a viagem no sentido supremo, de descoberta, testemunho e redenção. Cada livro é uma peregrinação; não precisa de passaporte e aviso que o distinga e lhe assegure hospitalidade.

[A propósito do Dia do Livro. Agustina Bessa-Luís, no prefácio de Fanny Owen.]

Suspensórios

Na mesa ao lado daquela onde repousava o meu café tardio, todos eram tão bonitos, tão imaculadamente vestidos, que eu esperava a qualquer instante ver surgir o fotógrafo para documentar um brunch de bloggers.

Ele passeava com a mala preta da mãe, com a alça a ameaçar o equilíbrio ainda precário mas decidido, os olhos brilhantes na cara de resistente [não ligou ao meu sorriso, nem tentou sequer esboçar um de volta]. Com tal orgulho fero, seguro nos seus suspensórios, tenho a certeza de que deitaria a língua de fora ao fotógrafo, caso este tivesse a pobre ideia de sobre ele assestar a lente.

22.4.17

Contra o lamento como forma de vida

Cheguei a este texto de António Guerreiro no Público pelo Ouriquense. Respeitando habitualmente o que António Guerreiro escreve, neste caso creio que o seu rigor tem margem para melhoria: afinal, dizer que Agustina deixou de publicar, numa altura em que três mil páginas escritas por ela aparecem em livro há menos de três meses, merecia outro cuidado na expressão do lamento implícito. É que, adicionalmente, não é apenas mais uma obra de Agustina: está entre o melhor que alguma vez foi publicado de Agustina.

Três mil páginas são mais do que as obras coligidas da maioria dos escritores nacionais do século XX. Na verdade, Ensaios e Artigos são uma fonte de prazeres dificilmente esgotáveis para quem se delicia com o pensamento de Agustina e ao mesmo tempo se exaspera com a trama das suas histórias. O pensamento guarda o seu estado pristino, as histórias não chegam a ter tempo para se perderem nos labirintos da autora, quando avança por elas sem o fio de Ariadne.

É próprio de ser português abafar a realidade debaixo de um manto de lamentos. Mas mesmo sendo portugueses, ninguém lamenta que os cinemas não passem Aniki Bobo. Está disponível em formato digital. Ninguém lamenta que as lojas de discos (quais são as que restam?) já não tenham as Sonatas para Cravo, de Carlos Seixas. Estão disponíveis em formato digital.

Em vez de nos lamentarmos apenas pelo que deixou de haver, congratulemo-nos com o que há. E se há, na verdade, menos livros de Agustina nas estantes das livrarias, o Centro Virtual Camões disponibiliza há bastante tempo quatro livros fundamentais da autora, inteiramente grátis, em formato digital, entre as quais A Sibila. Se quem quer conhecer a obra de Agustina começar por estes e a seguir se abalançar aos Ensaios e Artigos, tem palavras de Agustina para bons e profícuos meses. Esgotar a leitura de mais de quatro mil páginas de obras de Agustina Bessa-Luís é, em si mesmo, obra de mérito.

Aprender a invisibilidade

Uma das aspirações de Macedonio era converter-se em inédito. Apagar as suas pegadas, ser lido como se lê um desconhecido, sem aviso prévio. Várias vezes insinuou que estava a escrever um livro de que ninguém conheceria alguma vez uma página. Em testamento, decidiu que o livro permaneceria secreto até 1980. Ninguém deveria saber que o livro era seu. Inicialmente, pensou que o livro seria publicado anonimamente. Depois, pensou que devia publicar-se com o nome de um escritor conhecido. Atribuir o livro a outro: um plágio ao contrário. Ser lido como se fosse esse escritor. Por fim, decidiu usar um pseudónimo para que ninguém o pudesse identificar. O livro devia publicar-se secretamente. Gostava da ideia de trabalhar num livro pensado para passar inadvertidamente. Um livro perdido no mar dos livros futuros. A obra prima voluntariamente desconhecida. Cifrada e escondida no futuro, como uma adivinha lançada à história.
A verdadeira legibilidade é sempre póstuma.

[Versão de um texto de Ricardo Piglia sobre Macedonio Fernández.]

21.4.17

o frágil obverso das palavras

abro as palavras
com ambas as mãos

extraio-lhes a essência

para ti só palavras
em estado nativo

A magia matinal

Dona Aureliana acaba de me salvar o dia, antes mesmo de me sentar aqui na esplanada, saiba a leitora. É o café mais forte que tiver Dona Aureliana, que hoje o dia é longo. Eu sou o primeiro cliente da manhã, as máquinas de Dona Aureliana ainda fumegam um nevoeiro com aromas daqueles que atravessaram o equador, como a fala da Dona. Aqui está doutor, muito bem tirado este. A modéstia de Dona Aureliana é lendária, mas a verdade é que tem toda a razão, muito bem tirado este. E eu escrevo estas linhas à leitora, sozinho na esplanada: A esplanada é toda para si, doutor, dizia a Dona há meio café atrás. O outro meio está aqui à minha frente, a olhar para mim, e para a leitora, naturalmente.

*

E entretanto saio para o mundo. Despeço-me: Bom dia, Dona Aurliana. Tenha um bom dia, doutor. Dona Aureliana está a cantar para a máquina do café canções da terra lá dela, aquela abaixo do equador. E não admira que o café saia assim. Sente-se em casa, só pode ser, sente-se em casa.

20.4.17

Música de câmara


Ballake Sissoko & Vincent Segal, Chamber Music

E quem observa o observador?

Sempre quis viver no interior de um quadro, ser um objeto a contemplar. Mas às vezes quero viver no olho que observa esse quadro onde estou.

[Dos Diarios, Nueva edición de Ana Becciu de Alejandra Pizarnik.]

Livre arbítrio

O livre arbítrio é a prerrogativa de não reagirmos de imediato a um estímulo. Opinar sem ponderar, sem ultrapassar o fosso causa-efeito, é o inverso do livre arbítrio. Talvez valha a pena perguntar a quem abdica do que nos torna humanos: Porque é que opta por não ser livre?

[A propósito dos que opinam em cima da dor de outros. A opinião, como a bala, não volta para a câmara, após ser disparada.]

19.4.17

Outras veredas


Yasamin Shahhosseini, Gahan

e um poeta, leitora?

as rosas não têm boca
é com o aroma que te cativam o olfato
a lua não tem boca
é com a luz que te cativa a visão
e um poeta, leitora, como te cativará?

[versão de um poema de Oguma Hideo]

Um green que era só nosso

Não sei se foi com ele que aprendi o humor que existe no silêncio inesperado, introduzido com a exatidão de uma linha de compasso. Mas sei que foram muitas as partidas, muitos os anos, em que praticámos esse jogo curto, num green que era só nosso, quero crer. Um dia, voltaremos a jogá-lo. Ainda não, ainda não, mas retomaremos o jogo interrompido como se nunca o tivesse sido, quero crer também.

Sonhar é trabalho intenso

Gostaria de fingir que o sonho é uma forma de descanso, de acreditar que é tomar alento para um novo dia: a continuação do anterior. Não é assim, contudo. Sonhar é trabalho intenso: o de reconstruir quanto possível o que nos empenhamos a desconstruir durante a vigília.

[Com uma vénia a Chantal Maillard.]

Longa passagem para a noite


Ali Farka Touré & Toumani Diabaté, Debe

18.4.17

As derradeiras gotas de luz

Saindo tarde, hoje, a bem dizer noite, ainda retorci o céu para lhe apanhar as derradeiras gotas de luz. Ao pingarem assim, deixaram tatuadas a tinta de sombra as folhas das árvores que recortei para ti.

um verbo

olhar é um verbo

olhares-me é uma luz

17.4.17

ciência da luz

é a luz que busca o olhar

para se poder refletir

Menino da mamã

Luis XIV, filho tardio de Ana de Áustria e de Luis XIII, nascido após vinte e dois anos de casamento dos pais sem geração de descendentes, passou, segundo a opinião do camareiro Pierre de La Porte, mais tempo com a mãe do que qualquer outra criança da mesma classe. Tanto tempo estavam juntos que o jovem Luis, ao contrário do que era habitual na época, acompanhava a mãe em todas as refeições. Prodigiosas refeições. Dela herdou o gosto pelos pratos suculentos: salsichas, costeletas, olla podrida (uma feijoada da Espanha natal da mãe) e o abundante chocolate. A seu tempo, o apetite de Luis XIV espantaria aqueles que assistiram às suas refeições. Nicolas de Bonnefons, camareiro, escreveria que o jantar do rei consistia em vinte pratos, e que o centro da mesa tinha que ser deixado livre, uma vez que o perímetro abdominal de Luis não permitia que o alcançasse. Cerca de quinhentas pessoas eram necessárias para preparar e servir cada refeição real. Após a autópsia, os médicos descobriram, talvez sem grande surpresa, que o estômago de sua majestade era à medida de tudo na sua vida: três vezes maior que o normal. Ainda assim, Luis, que comia em pratos de ouro, recusava-se a usar o garfo. Tamanha abundância só podia ser degustada à mão. No fim, os criados estendiam-lhe um pano, após o que a governação podia continuar, de mãos limpas.

16.4.17

#Páscoa

Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que ele é o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus: «Maria!» Ela, voltando-se diz-lhe em hebraico «Rabbount!» (o que quer dizer Mestre).(*)
Diz Tom Holland: «Não conheço outra passagem mais poderosa e contudo mais terna e comovente no corpus da literatura antiga do que João 20.15-16.»

[*Tradução de Frederico Lourenço.]

15.4.17

onde nascem as flores

deito-me na terra — sabes
para colher para ti
as flores que nascem no céu

Adoram as pombas como deusas

Conta Ctesias, na sua História da Pérsia, que Semiraminis, abandonada em bebé no deserto, sobreviveu porque foi adotada por um bando de pombas. Eram as pombas que a protegiam, com as suas asas, do frio e do calor e que traziam no bico gotas de leite que roubavam aos pastores, sempre que estes desviavam o olhar. Quando Semiraminis começou a precisar de comida sólida, por volta de um ano de idade, as pombas debicavam queijo e traziam-no. Assim, Semiraminis, que viria a ser a mulher mais bela e mais poderosa do seu tempo se criou, até que os pastores, intrigados com as bicadas no queijo, procuraram a resposta no deserto, a encontraram e levaram. Foram eles que lhe deram o nome de Semiraminis, que deriva da palavra pomba em sírio. Desde então, os sírios adoram as pombas como deusas.

Gente fantástica

Dizia o saco da rapariga ao balcão do café quando eu vinha a sair: «Reading is for awesome people». No meu café, vejo-os a ler. Muitas vezes os mesmos, os mesmos livros. Noto-lhes as emoções a fluir nos filamentos que ligam o olhar às páginas abertas. De vez em quando, surge-lhes um sol na face, mais brilhante do que o que funde os vidros da janela. Gente fantástica, os leitores.

14.4.17

volantes

todos os dias as palavras volteiam junto a mim
e eu tento — tento
apanhá-las aqui

mas, ai de mim, em vão
rebelam-se, são tuas
voam para ti

Uma parede de tijolos à mostra

De onde me sentava via-lhe a curvatura das costas, um arco de um quarto de circunferência, causado pelo peso da solidão na cabeça. Jantava com a lentidão dos que desistiram. O olhar triste e vago contrastava com o castelhano borbulhante do par que se sentava entre a minha mesa e a dele. Vi-o ontem, mas a imagem permanece, talvez porque antes me tinha fixado nos olhos tristes de um homem de barba nobre, com idade para ser meu pai. Dois olhares assim, quase de seguida, não se esquecem facilmente. Mas ocorreu-me agora: o homem solitário não tinha telefone nas mãos, sequer sobre a mesa. Não se escondia num ecrã. A sua solidão era assumida, autêntica, sem reboco. Tinha a alma à mostra, como os tijolos a descoberto na parede.

13.4.17

pistas

não sei como o fazes
sei que encontro pistas de ti
por todos os lugares onde vou

não, não sei como o fazes
não sei se tu deixas as pistas
ou se eu as deixo por ti

Folhas de erva

A senhora de vestido preto e sapatos rasos de fivela aguardava, lendo com óculos atentos, a espessa versão portuguesa de Leaves of grass.

12.4.17

Florescer


Abril florescia
frente à minha janela.

[Antonio Machado]

O Ò Que Som Tem?

Escrevendo para a The Paris Review, Anthony Madrid responde à questão que ele próprio coloca: a que soa Rumi na sua língua original? Pois soa a Antonio Machado, assim, com métrica e rima e ritmo e música [e que aqui se mantém no original]:

Anoche cuando dormía
soñé, ¡bendita ilusión!,
que una fontana fuía
dentro de mi corazón.
Di, ¿por qué acequia escondida,
agua, vienes hasta mí,
manantial de nueva vida
en donde nunca bebí?
(...)

Que bela ideia esta: se a poesia se queda sem música na tradução, que quem traduz nos diga que som tem. Uma pauta, umas notas ao menos, para a podermos interpretar. E se quem traduzir Machado disser que soa a António Nobre?

—Onde vais tu, cavaleiro,
Pela noite sem luar?
Diz o vento viajeiro,
Ao lado d'ele a ventar...
Não responde o cavaleiro,
Que vai absorto a cismar.
- Onde vais tu, torna o vento,
N'esse doido galopar?
(...)

Em Nobre se ouve Machado e neste, Rumi. É de música a linhagem da poesia. Poucos dizem de um poema: ò que som tem. Mas talvez seja mesmo por aí que deve ser redescoberta a poesia [não apenas a traduzida]. Pelas pautas perdidas.

[O título inclui uma brevíssima homenagem ao trabalho de Rui Júnior.]

Antes que esfriasse de vez

O café que eu pedi cheio, vem com uma altura de dedo e meio. Um café forte não tem que ser minguado, e eu quero o melhor dos dois mundos, mais cafeína e mais bebida fumegante, que aguente quente o tempo pelo menos de eu começar a escrever esta missiva à leitora. Mas o jovem do outro lado do balcão não é Dona Aureliana, menos ainda o Chico. Não usa a mesma escala de medição da chávena que eu. O café era cheio, digo eu, com reticências vagamente desapontadas na voz. Eu vou encher, devolve-me o jovem do outro lado do balcão, desconhecedor não só da termodinâmica do café como da minha própria termodinâmica. Quando o tema é café, fervo em pouca água, saiba a leitora. Como, encher? Depois de tirado? Encher com quê? Café tirado é sagrado, lá diz o ditado, e se não diz, devia dizer. Escrevi a primeira frase desta missiva à leitora, bebi o café de um trago antes que esfriasse de vez. Quando inventarem a minha esplanada em forma portátil, leitora, não saio de lá. É certinho.

11.4.17

Olhar o sol de frente

Uma das fotografias que tirei hoje ao céu azul, apanhou o sol em pleno flagrante no ato de brilhar. A foto eterniza o que eu apenas consegui fazer por breves instantes: olhar o sol de frente. E como é magnífico o sol quando é captado, distraído, no seu lado mais fotogénico.

10.4.17

E o tempo que fez hoje?

Afirma Luciano Curatio que no paraíso a primavera era eterna: as estações e os extremos geográficos do clima só começaram depois da queda. Não diz Luciano, mas subentende-se, que será por isso que por vezes vislumbramos o paraíso em dias como o de hoje.

9.4.17

oásis

encontrei o lugar
as sombras as mesas
as cadeiras as folhas
as cores as horas
para te olhar

o lugar é teu
ele como eu

Nova formulação da dialética Binómio de Newton/Vénus de Milo [o autor original, que até é parte interessada, que me desculpe]

A geometria de Almada é tão bela quanto o melhor golo de Cristiano. O que há é pouca gente para dar por isso.

[Almada Negreiros, entenda-se.]

8.4.17

heterónimos

sabiam-se heterónimos um do outro
apenas habitavam corpos diferentes

terna é a lua

há a lua para nos recordar: 
quão incompletos estamos

A felicidade secreta

Ao vê-los há pouco ao sol junto ao rio achei-os felizes. Não é isso que me dizem os estudos onde aos portugueses falta a felicidade que aos outros sobra. Não me cabe ajuizar do grau de felicidade individual de cada um dos que por lá andavam. Não realizei nenhum inquérito, não validei nenhum modelo. Estou apenas a assumir que aqueles que vi há pouco ao sol, passeando lentamente depois do almoço de sábado, seriam secretamente felizes, ainda que publicamente infelizes. Ou que seriam felizes que bastasse, que para pior antes assim. Os portugueses são mais felizes do que afirmam, quando lho perguntam, quero crer. Experientes e desconfiados, sabem no entanto que se se afirmarem felizes, mais cedo ou mais tarde, a felicidade será proibida ou, pior, taxada. Assim escudam-se. Deitados ao sol, banhados em azul, ainda com sabor a bom café nos lábios, são infelizes. São absolutamente infelizes, graças a Deus.

Quanto de autêntica viagem

Quanto do que fazemos, fazemos para fazê-lo e quanto para contá-lo? Que parte da nossa vida está vivida e que parte fotografada e empacotada para ser vivida depois, quando puder ser comunicada? Quanto de autêntica viagem há nas nossas vidas e quanto de turismo?

[Baseado em leituras dos Diarios Indios, de Chantal Maillard.]

7.4.17

Um efeito curioso da primavera

Um efeito curioso da primavera nos subúrbios é produzir uma quantidade surpreendente de cantorio masculino e feminino à noite. Sentamo-nos com as janelas abertas, e uma senhora chia notas em aparente êxtase.

[Dos Diários de Virginia Woolf, possivelmente o melhor blog feminino escrito no início de século vinte.]

Árvore — homem

Fragmento de Un dimanche après-midi à l'Île de la Grande Jatte, de Georges Seurat, 1886

Os poetas, donos dos dias

Talvez os dias de chuva pertençam a Karmelo C. Iribarren:

Qué hago
mirando la lluvia,
si no llueve.

Mas hoje o dia pertence a António Ramos Rosa:

Eu escrevo versos ao meio-dia
e a morte ao sol é uma cabeleira
que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo
Estou vivo e escrevo sol
Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam
no vazio fresco
é porque aboli todas as mentiras
e não sou mais que este momento puro
a coincidência perfeita
no acto de escrever e sol
A vertigem única da verdade em riste
a nulidade de todas as próximas paragens
navego para o cimo
tombo na claridade simples
e os objectos atiram suas faces
e na minha língua o sol trepida
Melhor que beber vinho é mais claro
ser no olhar o próprio olhar
a maraviha é este espaço aberto
a rua
um grito
a grande toalha do silêncio verde

6.4.17

Flores entrelaçadas


Fragmento de Der Kuss de Gustav Klimt, 1908

referencial cartesiano

é por existires
que a minha vida existe
para lá do plano

O paradoxo de senão

Quando todas as peças se encaixam, é todo o resto do mundo que se desencaixa.

5.4.17

Um método infalível

Método azteca para encontrar uma pedra preciosa:

Saia antes do amanhecer.
Olhe para leste.
À medida que o sol nasce, olhe atentamente; não pisque.
Uma fina coluna de vapor ascenderá: aí estará a pedra.
Se não estiver no chão, se nada for visível, cave.

O meu estatuto especial

O meu outro fornecedor de café, que não é nem a Dona Aureliana nem o Senhor Variações nem o Chico, deu-me a conhecer o meu estatuto: sou oficialmente cliente Expert (com maiúscula). Sou, portanto, Expert em café, diz ele, que não sabe dos cafés tomados nas esplanadas amenas de cada um dos concorrentes. Ora se sou Expert aqui, que serei se somar todos os cafés degustados aquém e além Tejo, aquém e além mar, aquém e além equador? Em que estado estarão as minhas células, as cerebrais e outras, com tamanha expertise em café? Transforma-se o amador na coisa amada, reconhecia o poeta. Ainda não apareceu esta transformação em nenhuma análise, não sei porquê, talvez por distração dos analistas. Mas quando me perguntarem o meu tipo de sangue, a resposta será expressa: é arábica.

O mundo segundo Chang III

Chang Jung, poeta do século V, recebeu um leque de penas de garça branca, feito por um padre taoísta, que lhe disse que coisas estranhas deveriam ser dadas a pessoas estranhas. O Imperador disse que o reino não podia ficar sem um homem como Chang Jung, mas também não podia ficar com dois.

O mundo segundo Chang II

Chang Ch'ang, erudito e governador do século I AC, tinha o hábito de pintar pessoalmente as sobrancelhas da sua esposa. Quando o imperador lhe perguntou porquê, Chang respondeu que as mulheres consideram serem as sobrancelhas da mais elevada importância.

4.4.17

Cuidar do seu — jardim

Fragmento de Poplars, Éragny de Camille Pissarro, 1895

O mundo segundo Chang

Disse Chang Ch'ao, no século XVII: «As flores devem ter borboletas, as montanhas devem ter riachos, as rochas devem ter musgo, o oceano deve ter algas, as árvores velhas devem ter trepadeiras, e as pessoas devem ter obsessões».

Paciência

Aperta-me a mão e agradece-me a paciência. Mais uma vez, acrescenta, com um sorriso delicado. E deixa-me a pensar que eu é que lhe fico a dever um agradecimento pelo agradecimento.

2.4.17

Mergulho — rio

Fragmento de La Grenouillère de Claude Monet, 1869

A liberdade das gaivotas

As asas da gaivota mergulharão e sobre o seu fulcro ela rodará, fazendo cair anéis brancos de tumulto.

Um dia, tu e eu, inventaremos liberdade tão tumultuosa como a das asas da gaivota.

[A linha inicial é de uma versão livre do princípio de The Bridge, de Hart Crane.]

Uma dívida astronómica

Saio já tarde para prestar vassalagem ao sol. Deveria ter ido mais cedo, bem sei, mas perdi-me por aqui em minudências inconsequentes. O café breve não conta neste cômputo, creio eu. No balanço de súbdito solar acabo de ganhar mais uma dívida. Quando o verão chegar, terei que madrugar para conseguir pagar tal encargo acumulado, composto com juros especulativos. E talvez um verão só não chegue para saldar a soma astronómica que devo ao sol.

Talvez, talvez — num barquinho a remos

Fragmento de Notre-Dame-de-la-Garde de Paul Signac, 1905

Não é sobre a minha altura

Não é sobre a minha altura, este texto. Eles passam por mim e noto que as respetivas cabeças ficam ao nível do meu ombro. Se as idades tivessem cabeça estariam abaixo do limiar do meu pulso. Ouço-o a ele dizer para ela: Deixa-me, quero ser livre (e considere-se aqui acrescentado um aguçado ponto de exclamação). Não é sobre a minha altura, este texto, disse acima. Mas creio que quando ele tiver a minha altura, se a vier a ter, dirá o inverso. Pensei nisto, mas não lho disse. A altura não era adequada.

1.4.17

Danças solares


Jean-Baptiste Lully, Chaconne de Phaëton

Vivos! Vivos!

Os Lushei, que vivem na Índia, acreditam que os terramotos são causados por povos que vivem abaixo do solo e agitam a terra para ver se alguém acima está vivo. Quando um terramoto acontece, os Lushei saem das suas casas a gritar: «Vivos! Vivos!» para que os que estão abaixo saibam e parem a agitação.

As raparigas cantam e os pássaros cantam

Os Santals, um povo que vive nas florestas do estado de Bihar, na Índia, têm uma canção com os seguintes versos:
Nas árvores, os pássaros cantam.
Na povoação, as raparigas cantam.
Uma imagem de serena calma, gente e natureza em harmonia. As raparigas cantam e os pássaros cantam. E mais ainda: cantam-se.

Criação e boa criação

A nove de junho de mil seiscentos e três, Samuel de Champlain participou numa cerimónia de vitória nas margens do rio Ottawa. Sentou-se com o Grande Sagamore, Besouat, em frente a uma fileira de espigões encimados com as cabeças dos inimigos derrotados, e observou como as esposas e filhas do Grande Sagamore dançavam diante deles, cobrindo a nudez apenas com colares. Depois da dança, a conversa voltou-se para a teologia. O Grande Sagamore disse a Champlain que há um único deus. Depois de ter criado todas as coisas, Deus colocou algumas flechas na terra e estas transformaram-se em homens e mulheres que povoaram a Terra. Champlain respondeu ao Grande Sagamore que esta era uma superstição pagã e falsa. Há de facto um único deus, mas depois de ter criado todas as coisas, tomou um pedaço de barro e fez um homem, e então tomou uma costela do homem e fez uma mulher. O Grande Sagamore pereceu duvidar, mas, seguindo as regras da boa hospitalidade, permaneceu em silêncio.

31.3.17

o crescimento do mundo

desde que olho para o mundo por mim e por ti
desde que os teus olhos habitam os meus
o mundo cresceu — sabes?
há tanto mais mundo 
e tanto mais tu —
no mundo

O fluir caprichoso do tempo

Quero chegar aos cem anos o mais lentamente possível. Mas quero que certos dias no caminho dos cem anos cheguem o mais depresssa possível. Claro que para que a conta dê certo, outros dias terão que decorrer muito devagar. Preciso de um tempo com geometria variável e não sei onde encontrá-lo.

Cor de laranja

O homem dos Crocs cor de laranja diz-me que eu tenho bom feitio. Agradeço enquanto faço mentalmente a lista dos itens que o contradizem. Mas claro que ele não sabe, nem eu os sei todos e menos ainda lhos direi. Quando o deixo vou, atipicamente, beber um sumo de laranja que me sabe como ambrósia. Não tivesse eu bom feitio e deitava a culpa do atípico nos Crocs.

30.3.17

Frágil, frágil

Mesmo restaurante, mesma hora. Os mesmos dois irmãos, a mãe. Perdi-me eu a falar de irrelevâncias inconsequentes noutra mesa, lá na minha conversa. Perdi-os a eles de vista e só voltei a vê-los quando passei ao lado da mesa, junto à saída. A mãe estava muito atrasada no almoço, notei então. O avanço deles era imbatível. Tinham retirado meticulosamaente as espinhas e a pele ao peixe, e disposto os fragmentos brancos no prato, em porções tão diminutas que até a mãe conseguiria comer. Ao ritmo dela, que não é o deles. Eu almocei o mesmo, eles estavam a almoçar o mesmo, a cena e os protagonistas eram os mesmos. Apenas mudaram as mesas e um ou dois pormenores sem importância no contexto. A história repete-se essencialmente sem alterações.

29.3.17

O exercício absurdo

De um olhar livre
se vive
António Ramos Rosa

Faço o exercício absurdo de reconstruir o dia e mais do que as palavras tento reencontrar as cores. Há o verde da relva e o amarelo do bico do melro e o azul traçado de branco do céu e o lilás das flores pendentes. Talvez ao reconstruir fiquem apenas as manchas, talvez um dia caiba numa tela onde as tintas se revoltaram em vagas brilhantes. Talvez seja esta a forma de aprisionar a luz em grandes lagos polícromos quando o olhar se liberta da tirania das linhas precisas. Talvez
a vida seja a cor,
e a luz a vida,
devida.

28.3.17

Quando lá cheguei

Quando lá cheguei esperava-me o cheiro a relva fresca, o mesmo do lugar de onde parti, e uma revoada de cantos de pássaros. Esperava-me a primavera para um abraço. Senti-o como se fosse teu.

Vento solar

Chama-se vento solar porque insufla a alma quando, proveniente do sol, rasga por fim as nuvens pardas.

[Nem sempre a verdade poética tem que coincidir com a das ciências da natureza, convenhamos.]

O cheiro das ervas jovens

Pousei o derradeiro papel e deixei-me perder no cheiro aguçado das ervas jovens. Procurei a sensação. Ano novo sim, sabe a ano novo. Durará umas horas, muito poucas. O cheiro das ervas perdurará até pelo menos à tarde. A sensação, menos. Não importa. O ano novo mais saboroso é o que aparece mais inopinadamente, que eu bem sei.

26.3.17

Como ser prior nesta freguesia?

Bessa-Luís excita-se facilmente com o que julga subtileza, cultiva a «espontaneidade». O resultado é esta imediata aparência de pretensiosismo irritante, de gratuitidade, de falsificação (como se diz de um quadro que é um «falso»). Irritante ainda — e a propósito — é a autodidáctica exibição de «cultura» com referência a autores, a pintores, etc. Cá temos neste livro um Frei Luis de León, a rainha de Navarra e não sei quem mais. Ora a cultura não se exibe: manifesta-se por si como a civilidade. É um modo de se ser, não de se estar. Irritante ainda é o tom sentencioso de quem detém o segredo das grandes verdades da vida e as lança de alto com autoridade. Em todo o caso, é prudente admitir que a gratuitidade ou falsificação sejam só aparência. Porque de vez em quando a observação acerta, a verdade ilumina-se flagrantemente. É, aliás, arriscado julgarmos charlatanice aquilo a que não aderimos — ou porque o não entendemos. Schopenhauer, que diabo, julgou Hegel um vigarista e Hegel é o pensador mais presente em todo o século XX. Aceitemos pois que o defeito, estando nela, está também em nós.

[Vergílio Ferreira sobre Agustina Bessa-Luís, em Conta Corrente I]

Eu nunca tinha lido Jorge Luis Borges. É à primeira vista, qualquer coisa como um pedante humilde; faz da filosofia um catecismo para disciplinar a literatura. E resultou nessa espécie de provinciano que se pode simbolizar pela Melancolia de Dürer, algo de anjo atlético e de cozinheira que espera que o leite ferva.
Não se sabe se o rodeia uma bateria de cozinha mal disfarçada de bricabraque. Jorge Luis Borges, candidato ao Prémio Nobel em sucessivas tentativas que dedica, decerto, ao seu antepassado Lafinur (1797-1824), como parte da sua antologia pessoal, é terrivelmente um homem de recursos. A sua bagagem intelectual chega para soterrar o seu talento. Faz citações que me curam definitivamente das minhas. As citações são as erupções cutâneas da arte narrativa, um indício da natureza púbere e defensiva. Luis Borges chega à atroz necessidade de citar Daniel von Czepko: Sexcenta Monodisticha Sapientium, III, II (1665). Depois faz maus versos. Pudera! Que diferença entre a inteligência convulsa, monstruosa de Poe, e esta banalidade aristocratizada de sabedoria de Borges! Eu não sei se ele sabe muito, ou se, pelo facto de não querer omitir nada, nos deixa impressionados e banidos da cripta do seu Aleph intelectual.

[Agustina Bessa-Luís sobre Jorge Luis Borges, em Ensaios e Artigos I]

Chuva filosofal

A hora perdida transmuta-se em água abundante, por engenho de um alquimista que prefere permanecer incógnito.

25.3.17

O Lohengrin

Do D. Carlos conta-se esta anedota autêntica: quando foi à Alemanha conversou naturalmente pelo caminho com os que o acompanhavam a respeito do imperador, sua figura, suas atitudes, suas qualidades, etc.
Chegaram à estação e D. Carlos desembarca. Ao fundo avança o Lohengrin, de grande capa branca traçada, e o rei, voltando um pouco a cabeça, murmura para os seus:
— Lá vem o gajo...

[Das Memórias de Raul Brandão.]

Um amigo generoso

O meu amigo Jeff Bezos avisa-me cordialmente que aquele livro que eu estou a hesitar comprar hoje de manhã, e que me parece estranhamente familiar, já consta da minha biblioteca há pelo menos dois anos. Teria mais receita se mo vendesse duas vezes, mas pôs a nossa longa amizade à frente do lucro. Um compincha, o Jeff.

Dançando os dias

Edgar Degas, Dançarinas praticando na barra, 1877

Desenha linhas, jovem, desenha linhas, disse Ingres a Degas. Desenham linhas, as dançarinas de Degas, também elas de linhas desenhadas. Não desenhamos nós as linhas, todas as linhas que dançam em nós. Mas quando desenhamos uma dessas linhas, ah, quando logramos desenhar uma linha nossa, dança-nos o coração.

24.3.17

coroa de palavas

apanho
palavras que brotam 
das gotas de chuva
com elas teço 
uma coroa
para ti

De bandeja

Eu conto à leitora. Irrompo pela porta do café e Dona Yara vai logo dizendo: Bom dia doutor [ouça-se aqui um ponto de exclamação com ênfase na última sílaba]. Cafezinho? Pois claro, Dona Yara, cheio por favor. Pouso o implemento com teclas e ecrã onde escrevo estas missivas à leitora em cima do balcão e Dona Yara pousa o café ao lado e vai dizendo, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Cuidado com seu computador, doutor. A placa de alumínio que se abre aqui à frente, quando está fechada parece uma bandeja, é certo. Mas uma bandeja daquelas de transportar missivas, com entrega por mordomo de luva branca: A letter has just arrived for you, sir(*). A versão cortês de You got mail. Aposto que os senhores sentados lá com vista para o Pacífico pensam nestas coisas, eles pensam em tudo. Eu é que ainda não tinha pensado nisto, em boa verdade.

[* Como diria Jeeves.]

23.3.17

Um jogo perdido

Com aquela fala cantada lá dele que atravessou dois continentes, vem perguntar: Sir, do you want some? Ainda não almocei, não me parece excelente ideia comer bolachas de chocolate a esta hora, declino, mas sei que ele vai insistir. Sei da sua generosidade persistente: da forma como deixa que o pacote fique ali a pairar à altura dos meus olhos, à distância breve da minha mão. E ele sabe que eu vou aceitar, porque abri precedente, cedi à tentação e comi já duas destas bolachas antes. É um jogo que não posso ganhar. Mas que continuaremos a jogar, eu sei. Ele a oferecer, eu a recusar, pouco convicto. Um amável braço de ferro que me condenei, irremediavelmente, a perder.

22.3.17

Onda de indignação

O padrão é conhecido. Alguém, alguma figura das ditas públicas, diz ou escreve uma frase que, no contexto ou fora dele, adquire propriedades comburentes. O incêndio subsequente, a onda de indignação, autoalimenta-se nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais, nas notícias televisivas, no parlamento se a tanto chegar. Na verdade, as gentes carecem de motivos de indignção. Os homens precisam de heróis, dizia Carlyle. Não, os homens precisam é motivos para se indignarem, melhor, de pretextos para expressarem a sua indignação. Motivos para indignação não faltam, a quem estiver atento ao mundo. Mas expressar a indignação é mais complexo. Convém que seja uma indignação consensual, para não ameaçar a paz social geograficamente mais próxima. As gentes não querem ser percebidas como descontroladas. Se houver alguém que se coloque a jeito para ser bombo de festa, e se esse bombo for atingível por vários ângulos e quadrantes, ah, isso é uma sorte, uma benção. A dose regular de indignação é alcançada sem danos colaterais. Porque é tão fácil indignarmo-nos por escrito, num texto de cinco linhas e outros tantos pontos de exclamação, mais fácil ainda fazer replicação, gosto, partilha. Desmond Morris escreveu sobre os hábitos tribais dos adeptos do futebol. Sim, o futebol é um magnífico pretexto para a indignação coletiva, com rituais sedimentados para uma indignação profícua e catártica. Mas e para aqueles de nós a quem o futebol não permite suprir esta necessidade primordial? Ou permitindo, fá-lo apenas a espaços semanais, em doses demasiado pequenas para tão grande necessidade? Não há que temer. Haverá sempre um escritor, um político, um artista de qualquer das múltiplas artes de palco ou tela, que se prestará a ser tritinitolueno agitável. Consumada a explosão, o explodido continuará na sua vidinha, sendo o episódio recordado apenas esporadicamente, com intervalos temporais cada vez mais espaçados. Até pode proferir nova atoarda, que a primeira funcionou como vacina. Não mais despoletará indignação, apenas um encolher de ombros. A sede de indignação não se sacia com repetições. Nenhum ritual tribal sacrifica a mesma rês duas vezes. A onda de indignação anseia por deflagrante novo. Mas não tardará. A esta mesma hora, alguém, algures, estará a abrir a boca ou carregar nas teclas para debitar uma frase fatal. Amanhã, recomeça tudo, com uma onda de indignação novíssima. Necessária e merecida.

21.3.17

Onde é que estão os poetas?

Agora que a poeira assentou, os tapumes foram levantados, as ruas brilham de tão jovens, podem avançar os poetas. Alguém cante Lisboa, que já tarda.

Peças do puzzle

Prefiro as obras iniciais de Picasso, as intermédias de Borges e as tardias de Beethoven. Isso diz mais sobre mim do que sobre os autores e a ditas obras. O quê, não sei. Ainda ando a montar o puzzle.

Trocas e pombos

Troco o pacote de açúcar por uma colher, digo eu a Dona Yara. Oh, desculpe doutor, isso não está legal, diz-me a Dona, ralada por ter trocado as minhas idiossincrasias. Ora essa Dona Yara, ora essa, não há de quê. Não lhe digo que não tivesse ela feito a troca, não teria assunto para escrever à leitora, enquanto me sento absolutamente sozinho na esplanada, tendo apenas um pombo por companhia. E isso, talvez dissesse a leitora, isso de não dar notícias, é que não está legal. Sinto-me tentado a concordar com a leitora, sabe?

20.3.17

Medidas implícitas de distância

Cada dia mais longo leva-me para mais perto de ti.

Os últimos quartetos de Beethoven

Ouvi-me a falar dos últimos quartetos de Beethoven como se estivesse a escrever um texto para este retângulo branco. E não percebi se eu escrevo o blog ou se ele me escreve a mim.

Perdidos

Os telefones pousados em cima da mesa, a atenção centrada nas cartas. Quando passei por eles, o meu olhar prendeu-se nas moedas empilhadas. Esperaria vê-las numa mesa onde estivessem os respetivos avôs, não eles. Mas ali estavam ao final da manhã, com as mochilas de escola ao lado, olhar fero, gesto determinado. Perdidos no jogo. Ou antes, ganhos no jogo. Embrenhados num jogo real, daqueles onde perder dói mesmo. Tal e qual como na vida, fora daquela mesa, onde os telefones estavam pousados.

19.3.17

*

Precisamos de escritores que se lembrem da liberdade

Acho que nos tempos difíceis que se aproximam quereremos as vozes de escritores que possam ver alternativas a como vivemos agora e possam ver para lá da nossa sociedade atingida pelo medo e pelas suas tecnologias obsessivas, para outras formas de ser, e até imaginar alguns fundamentos reais para a esperança. Precisamos de escritores que se lembrem da liberdade. Poetas, visionários, realistas de uma realidade mais ampla.

[Ursula K. Le Guin, no seu discurso de aceitação do National Book Award de 2014. Tinha, então, 85 anos.]

18.3.17

em partes iguais

o verde foi oferta tua
eu dei o azul

assim sonhámos o dia

A tenda dos milagres

A cuba das bagas goji é a única esvaziada no supermercado de produtos a que chamam biológicos.

A ganhar terreno

Ela enrola o cabelo longo, ele a barba rasteira. Mas é muito mais rápida, ela.

Prioridades das importâncias

Quando digo alguma coisa, isso perde imediatamente e totalmente a importância, quando escrevo, também a perde,  mas por vezes ganha uma nova importância.

[Dos Diários de Franz Kafka.]

17.3.17

O dilema do contador

Deve o contador contar as histórias que não lhe pertencem? Mas e se se perderem, não sendo contadas?

Frágil, frágil

Está com soninho, mãe? pergunta um dos dois irmãos, são tão parecidos, enquanto o outro arranja o peixe-espada. Bom proveito, mãe, e o peixe vem no prato, sem pele e sem espinha. Frágil, frágil, a mãe. Tem feito a fisioterapia, mãe? Que não. Tem que fazer, mãe. E a mãe torna-se filha, e os filhos, pais. E tão parecidos que são. Agora reparo, vestem os três de castanho. Ou seja, o casaco da mãe é castanho, que o vestido é preto. O queixo, aquele queixo saliente deles, é que era de certeza o do pai.

Aqui, à minha frente

Meninas, boa tarde, diz o Senhor Filipe, quando elas franqueiam agora a porta para a luz da tarde. Da minha mesa vejo o céu, caiado de cal fresca, a mesma que coloriu os cabelos de ambas. De bengala sorridente, ainda hesitam antes de sair. Depois, partem, rejuvenescidas.

Ponto de situação

Ainda não são oito pela manhã e já Dona Yara me deu contas da jovem Soraia, com aquela fala lá dela que atravessou o equador: Está muito bem, muito bem, doutor. Pois que é muito bom saber, Dona Yara, qualquer dia está uma mulher feita. O tempo passa a correr que nem um campeão da Jamaica. Já tomei o café quente, hoje foi quente porque fui muito rápido a escrever as primeiras linhas, e estou pronto a enfrentar o dia. Ou a que o dia me enfrente, o que parecendo idêntico, não é a mesma coisa.

16.3.17

Hora a hora

Procuro o fio condutor no meu dia. Não te encontrei, mas encontro-o. Foste tu.

Um sério embaraço

Um homem que se embaraça a si próprio perante muitos homens e poucas mulheres é um embaraço para todo o género masculino.

[Ah, como me senti embaraçado ao ouvi-lo.]

A maioridade

Uma dúvida premente: que idade teriam Adão e Eva quando foram expulsos do Éden? Teriam atingido a maioridade? Se não, que pai expulsa os filhos de casa antes de estes serem maiores de idade?

Retrato de uma mesa enquanto jovem

Então é assim. Escolhi a maior das mesas da esplanada e em cima dela descansa uma chávena de café em meio arrefecimento. Tenho um livro já muito manuseado, o único que sublinho e que até tem, oh!, papelinhos amarelos e amarelados a espigar das páginas. Tenho uma pilha de papéis brancos e ex-brancos, num dossier à moda antiga. E tenho um ecrã alvo à minha frente, onde estas letras que escrevo à leitora vão saltitando como, sei lá, as notas do concerto que ouvia há pouco, enquanto semaforava até à esplanada. Ali ao lado, Dona Aureliana rodopia como uma abelha que encontrei hoje ao amanhecer, em plena laboração em torno de uma flor amarela, brilhante. E divido-me entre a vontade de ficar aqui a escrever à leitora e a de voltar ao dossier cheio de anotações e decisões. Indeciso, fico-me por aqui. Pelo menos uma decisão: acabar o café, enquanto está ainda um bocadinho de quente. Não vá Dona Aureliana passar por perto, inspecionando chávenas. E tomar a decisão de me expulsar da esplanada, por crime de toma de café frio. Mais do que crime, pecado, tenho a certeza. O pecado original aqui deste Éden.

15.3.17

Vontade secreta

Queria ter sido eu a inventar a água, ou a lua, ou a magia das marés, sabes? Gostaria de ter sido eu a inventar qualquer coisa que pudesse dizer: Olha, criei para ti. Mas não inventei. Apenas posso dizer: Olha, fui criado, não me criei. Mas uma coisa é certa. Fui criado para ti.

14.3.17

Um livro de muitas páginas

A mulher leva um livro de muitas páginas e o homem leva o braço por cima dos ombros dela, como se indo, não a quisesse deixar ir. Creio que ela ficará a sós com aquele livro e ele com a memória daquele abraço, ambos por muito tempo.

poema para ti

se palavras bastassem

escrever-te-ia um poema

mas para ti

só da música de que é feita a luz

um dia meu amor

um dia


10.3.17

o mistério primeiro

que sangue pulsa
neste coração a que chamamos

ternura?

O importante é a rosa

Passo por uma esplanada a meio da tarde e não paro, não vá a leitora pensar que a minha vida é esplanar. Mas para o meu olhar, que esse é um esplanador inveterado. E fixa-se no chapéu branco de abas largas, com uma rosa, abaixo do qual está aposto um sorriso que só posso descrever como de plena satisfação. Do sorriso sai o fumo onde noto, mesmo a esta distância, o aroma inconfundível da cigarrilha. Em cima da mesa, um cálice de vinho tinto. Quando regresso, vejo-a já a afastar-se da esplanada com passos cuidados, o movimento lento e ondulado das calças pretas rematadas por uns pumps vertiginosos. O chapéu branco a cintilar ao sol das cinco. Talvez tenha setenta e cinco, talvez tenha oitenta, a idade é desimportante para o caso. Importante é a rosa e o sorriso de contentamento, à vista de quem o queira ler.

O homem de voz profunda e calma

Durante anos a sua voz entrou-me pela sala profunda e calma, como um tio-avô, pleno de sabedoria e experiência do mundo. Quando agora me cruzo com ele no elevador, não é aquele que via no pequeno ecrã. Aparece-me pequeno, frágil, de pele translúcida e andar difícil. As horas, penso então, contamo-las pelos relógios. Os anos, são os outros que no-los contam.

9.3.17

A senhora vestida de branco

Está muito bem: profere a senhora vestida de branco enquanto descola os elétrodos como se retirasse uma presa da boca de jacarés. Sorrio. O meu coração, esse pseudo-fleumático, nunca se desmancha.

Ai eu já pensei mandar pintar o céu em tons de azul

Somos apenas dois na esplanada a esta hora. Ambos com ecrãs e teclados em cima das mesas, que distam uns cinco metros. Uma música de fundo ouve-se ténue, sem se fazer notar até que, de súbito, a voz de Xana acaricia o ar: Ai eu já pensei mandar pintar o céu em tons de azul pra ser original. Instintivamente, olho para o céu, que alguém mandou pintar em tons de azul logo pela manhã. A minha vizinha de esplanada, a cinco metros, começa a dançar na cadeira, sem tirar os olhos do ecrã. Xana continua: Só depois notei que azul já ele é, houve alguém que teve ideia igual. E eu tenho pena de a ideia não ter sido minha. A minha vizinha veste-se primorosamente de azul, até aos pormenores da mala e dos sapatos. Algo que me diz que também ela teve ideia igual.

8.3.17

Ao menos vinte e quatro horas

Conheci e conheço algumas que usaram esfuminho sobre as linhas das suas vidas e assim se esvaneceram. Apagaram-se. A vida construiu-se para o marido, os filhos, os pais, quando se tornam filhos também. Elas, sempre no plano segundo. E quando os netos surgem, é nos netos que projetam a vida que é delas, mas que cedem em empréstimo sem juros. Esquecem-se de existir. Os ritos de passagem dos homens são exteriores. Os das mulheres, interiores. As etapas da vida nos homens são difusas, nas mulheres, precisas. Peter Pan é homem porque nunca poderia ser mulher. Há um significado público, de domínio comum, para o dia da mulher. E há um íntimo, secreto até. É o dia para que as mulheres, especialmente as que se apagaram para o mundo, se lembrem de si próprias, se o puderem fazer. Ao menos por vinte e quatro horas, sejam elas e não o que outros, todos os outros, esperam delas.

7.3.17

Quando eu tiver noventa anos

Vai ser preciso trabalhar sessenta e seis anos e quatro meses [sic] para me poder reformar sem penalizações, diz-me o telejornal da televisão independente. Faço rapidamente as contas: reformar-me-ei perto, muito perto, dos noventa anos. Vai ser uma festa bonita: noventa e reforma. Espero ter ainda muitos amigos, então, que me acompanhem nessa gloriosa dupla efeméride.

Zona de desconforto

E na outra mesa, a que está junto à janela, diz ele para ela: É preciso tirar o outro da sua zona de conforto. Ora no restaurante não se come mal, ou eu não iria lá, o lugar junto à janela onde ele está, é o melhor ou, cliente frequente, não estaria lá, ela olha-o, escutando-o interessada. Estará ele confortável? Eu diria que sim. E é a partir desta zona de conforto que planeia, portanto, tirar o outro da sua zona de conforto.

A verdade em forma esvoaçante

Paul Klee, A máquina de trinados, 1922
Pergunte-se a um pássaro o que é necessário para voar.
Ele responderá: comida e repouso.

6.3.17

Um dos sete mares

Nicolas de Staël, Mediterranée
Quanto mais me embrenhei em terra, mais encontrei o Mediterrâneo. Os rios procuram o mar na direção errada.

Vivendo no beiral

O pássaro do beiral apareceu às seis da manhã. Acordei com uma revoada de trinados, o passado a treinar um arpejo nas teclas do canto. Depois, como chegou, parou. Veio colocar o padrão, marcar posição e voar. Pássaro livre, este. Aparece a desoras, desaparece por dias, não dá sinais nem manda postais. Deixa-me feliz quando surge, inquieto quando some. Este pássaro faz-me viver no beiral.

5.3.17

Urge no domingo à tarde

O carro à minha frente detém-se na margem da passadeira. Paro e aguardo. Nada acontece na passadeira, não há peões, na rua ninguém anda: apenas dois carros parados. Olho de novo, a passadeira continua vazia. Deve haver um bom motivo, abstenho-me de quebrar o silêncio. Ultrapasso. Ao passar, olho, tento entender a causa da paragem intempestiva, desnecessária do meu ponto de vista. Mas o meu ponto de vista tem um ângulo morto. A causa premente é o beijo do condutor e da passageira. É domingo, final da tarde, a luz escoa-se, rápida. Não pode haver outra justificação, melhor, para um beijo urgente.

O problema não é ela, sou eu

Ana Luísa Amaral fez uma tese de doutoramento sobre a poesia de Emily Dickinson. Eu sou apenas um leitor da poesia de Emily Dickinson. Ana Luísa Amaral ter-se-á angustiado horas infindas para achar os cem poemas de Emily Dickinson que optou por traduzir. Eu apenas me angustiei com as traduções de Ana Luísa Amaral, onde não acho a poesia de Emily Dickinson. Nem poesia alguma. Admito: o problema não é ela, sou eu.

The things we thought we should do
We other things have done
But those peculiar industries
Have never been begun –

The Lands we thought we should seek
When large enough to run
By Speculation ceded
To Speculation's son –

The Heaven, in which we hoped to pause
When Discipline was done
Untenable to Logic
But possibly the one –
Das coisas que entendemos querer fazer
Outras coisas fizemos
Mas essas diligências em concreto
Nunca foram sequer iniciadas –

As Terras que entendemos querer ver
Quando tínhamos fôlego
Cederam-se em Hipótese
A Hipótese deixada –

O Céu onde esperávamos repouso
Quando o Rigor se fosse
Tal não o prova a Lógica
Mas talvez seja isso –

Aqui à frente

É um deus simples, pede a Dona do café ao colega dextro. Deus, dizem, está em todo o lado. Mas simples, é só aqui.

4.3.17

Sete colinas

Em cada uma das setes colinas te vi
e em nenhuma delas te encontrei.

Dos que pouco dormem

Julgando eu que não dormi muito e que ostentarei o meu mais cerrado carão sonolento, os bocejos alongados do guarda-noturno fazem-me sentir um autêntico paxá.

3.3.17

A sabedoria dos nossos sábios

Ainda do Guia para os perplexos: Nos nossos sonhos, por vezes acreditamos que estamos acordados, e que contamos o sonho a outra pessoa, que explica o significado, e tudo isto acontece enquanto sonhamos. Os nossos sábios chamam a isto um sonho interpretado num sonho.

Advertência sobre os anjos

Não se imagine que um anjo pode ser visto ou as suas palavras ouvidas de qualquer outra forma que não seja uma visão profética ou um sonho profético, adverte Maimonides, no Guia para os perplexos.

Nem por sonhos, penso eu, conformado.

A longa barba do presidente da América grande de novo

Durante a ausência de Ricardo Coração de Leão, os seus súbditos ingleses não apenas cortaram os cabelos, mas escanhoaram os rostos. William Fitzosbert, ou Barba Longa, o grande demagogo daqueles tempos, reintroduziu entre as pessoas que diziam ser de origem saxónica a moda dos cabelos longos. Fez isso com o objetivo de torná-los tão diferentes quanto possível dos cidadãos e dos normandos. Usava a sua própria barba dependurada até à cintura, de onde o nome pelo qual ficou conhecido para a posteridade.

[Colhido em Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds que Charles McKay publicou em 1841.]

Tão pequeninas que são

A senhora aqui ao lado está a narrar ao telefone coisas da vida lá dela e acaba de encontrar na prateleira o seguinte, eu passo para diálogo, para a leitora visualizar melhor a cena: Sabes o que está aqui? pergunta a senhora ao telefone, a quem tuteia. E dá a resposta: Sementes de chia. Pausa. Estas são tão pequeninas. Mas se se colocaram em água devem inchar, não devem? pergunta a senhora ao telefone, que mais parece um oráculo. Tento-me e retraio-me para não dizer à senhora que umas gotas de limão na água das sementes de chia tornam supimpa a bebida. Isso, e que as sementes de chia são naturalmente mais pequenas que as nozes, as pevides de abóbora ou as sementes de girassol. Mas não digo. E o telefone oráculo da senhora também se mantém mudo e quedo. Nem chia, por assim dizer.

Escrever à chuva

Sou o único cliente na esplanada nesta manhã chuvosa. Aqui à frente o café arrefece enquanto as letras saltitam no ecrã. É um café e um pão de deus, Dona Yara, pedia eu há pouco. E Dona Yara, de serviço ao balcão da máquina desesperou porque o braço é curto e o pão divino está noutro balcão. É só um minuto, disse ela naquela voz lá dela com toque de aflição que atravessou o equador. Eu espero, Dona Yara, afinal ir lá para fora com este tempo, e não concluí, que o cantar da chuva é mais eloquente do que qualquer discurso sobre ela. Doutor, minha colega Aureliana dá-lhe já o pão de deus, Aureliana é eficiente. Não se preocupe, Dona Yara, não há pressa, digo eu equilibrando o café, a gabardine e o chapéu de chuva à porta periclitante. E sou salvo pela eficiência certificada de Dona Aureliana e sento-me num lugar a salvo da chuva e surge-me esta vontade de escrever à leitora para dar conta destas minudências inconsequentes. Ao lado, a chuva canta, tentando suprir a ausência do canoro do beiral, acolhido por certo em parte incerta. Distraio-me a escrever e tomo o café no instante exato antes de ser considerado oficialmente frio. Não posso contar do café gelado a Dona Yara nem a Dona Aureliana, senão sou expulso sem remissão. Digo apenas à leitora e fica só entre os dois, combinado?

[O céu parece querer cair agora aqui em cima. Vale-me o chapéu de sol em dia de chuva, que a alma benfazeja de Dona Aureliana abriu. A arca de Noé pode ser uma esplanada, concluo.]

2.3.17

ramos e folhagem

percebeu-se como árvore

a folhagem abrigá-la-ia
nos dias de sol

os ramos defendê-la-iam
nos dias de chuva

só a terra protege do céu

Toshta mishta

Diz ele para ela, com aquele sotaque lá dele que atravessou o Atlântico: Vamos comer uma mishta, uma toshta mishta. Que é uma mishta? pergunta ela com o mesmo sotaque, igualzinho. É uma toshta feita de massa de croissants, mas leva queijo e fiambre dentro, clarifica ele. E eu, que já comi a mesma toshta mishta bastas vezes, acabo de perceber que não percebo nada de pão, daquele bom pão saloio que eu pensava que era usado na toshta mishta, eu que peço: É uma tosta mista em pão saloio, se faz favor. E afinal é massa de croissant. Talvez das lendárias e seculares croissanterias da Malveira, digo eu.

O pássaro das ausências

Já passa largamente das nove, e do pássaro do beiral nem pio. Aproveitou a minha ausência para se ausentar, o ladino. Mal sabe ele que o levei na alma, e que lhe trouxe poemas que posso dizer baixinho ao amanhecer, a troco de trinados, e que lhe trouxe lendas milenares que posso contar, a troco de cantorias. Ausente ele, o que faço a estes tesouros que guardei no alforge de almocreve? Aposto que amanhã me aparece às seis da manhã, a trinar como se não houvesse depois de amanhã. E aposto comigo que perco esta aposta. Procura-se pássaro de beiral. Alvíssaras a quem trouxer notícias. Poemas, lendas, apostas perdidas. Até um coração.

1.3.17

Estado alterado de perplexidade

Amar não nos torna mais frágeis. Torna-nos antes mais perplexos pela nossa fragilidade.

O dilema do pobre aprendiz

Há no Japão, dizem-me, pessoas que estudaram e praticaram Chá todas as suas vidas sem atingirem a perfeição, tão delicadas são as regras.

[Colhido em Myths to live by, de Joseph Campbell. A que pode então um pobre aprendiz ocidental almejar, quando prepara um Matcha?]

28.2.17

Em resumo

Quando me procuro
é a ti que encontro.

Impressões em pinceladas rápidas

Preto: Os dois homens que guardavam o lugar de estacionamento como a própria vida.

Branco: Emily Dickinson, que vestia de branco para lavar a roupa conjuntamente com os lençóis.

Avelã: O cabelo do octogenário que andava amparado em passos curtos e lentos.

Cinzento: Os sapatos da senhora francesa que provava que o pico da beleza dura pelo menos setenta anos.

Azul: A redenção do céu cansado.

Vermelho: A casa do botão do blazer do médico no restaurante.

Verde: Tanto.

27.2.17

Olhar de espanto

O homem tira todos os autorretratos na igreja com grandes óculos escuros Pode ter atravessado dois continentes para aqui chegar mas ninguém testemunhará o seu olhar de espanto Nem sequer a mulher ao lado De olhos ocultos também. No fim autorretratam-se Com felicidade genuinamente plástica.

Um mar — não importa quão azul

Eu digo-lhe, Mr. Bowles, é um sofrimento ter um mar — não importa quão azul — entre a sua alma e você.

[Emily Dickinson, das Cartas, versão de x.]

26.2.17

Receitas de bolos E outros fenómenos.

Descubro uma receita de bolo de Emily Dickinson Que ela comia ensopando-o em xerês No mesmo dia em que ouço pela primeira vez Coldplay em violoncelo Como nada é casual Chegará uma altura em que encontrarei o ponto de enlace Hoje apenas achei os fios Soltos.

25.2.17

Ditosa pátria bem amada

No grupo que passa por mim avançam à frente destemidamente um homem e uma mulher a comer de boca tão escancarada que se vê, caso o olhar resista a tal visão, o traço de pão em duelo suicida com os dentes. Eis que o homem, provando que em masculino também se conjuga multitarefa, isto é, que consegue andar, mastigar e falar sem se atrapalhar, atira para a mulher ao lado, e eu apanho, no meio da Babel que nos circunda: 'O teu marido não veio. Deixamoso lá!'

Podemos sempre contar com um compatriota, em qualquer latitude, para plantar o padrão do charme discreto, da elegância, enfim, de um jeito pleno de classe, do amor de ser português.

24.2.17

Pré-história de uma viagem espadaúda

Recebo uma carta, escrita a tinta azul-cobalto, pela mão treinada nos clubes de caligrafia de Oxford do ilustre J. Eustáquio de Andrada.

Meu muito estimado amigo,

O que um homem faz em vida ecoa na eternidade, disse um imperador de tempos idos. É mentira. O que um homem faz em vida morre com ele. E se não fizer, pior ainda: não só não fez, como morreu. Triste, como diria um imperador dos tempos que vão.

Fontes que não denunciarei, mas que sussurram aqui ao meu lado «pauvre, oh, pauvre J.» informam-me que o meu estimado amigo se converteu do café para o chá. Era tempo. A ver se deixa de falar de serviçais de balcão e escreve sobre temas que interessem a homens: tabaco, «football», bebidas brancas. E outros, que não escreverei aqui, porque alguém espreita por cima do meu espadaúdo ombro.

Adiante. Além de se converter ao chá, dizem-me, enfia-se horas e desoras a fio lá nesses locais tenebrosos onde erode os seus melhores anos, empalidece ainda mais profundamente essa face encovada, mirram-se-lhe as carnes à míngua de nutrientes, perde a arte de falar e o tino, um desatino.

Eis que surgem as trombetas de Jericó, «nay», da salvação. Eu e a dulcíssima Orchidée partimos amanhã para a Provence, em viagem longa e lenta e gastronómica, conduzidos pelo prestimoso Reboredo. O Phantom, como sabe, tem lugar para quatro e Orchidée detesta fazer estas viagens sozinha no banco traseiro. Precisa desesperadamente de alguém com quem coscuvilhar, clac, clac, clac e partilhar gritinhos de cada vez que um pôr-do-sol radioso se atravessa no meio da estrada.

Faça a mala, leve aquele seu Vilebrequin de tons róseos que decerto combinará bem, à beira da piscina, com umas miniaturas que Orchidée está agora a colocar na sua «petite valise». Combinará, digo eu, enquanto coscuvilham e dão risinhos e tiram autorretratos que mais parecem os de propaganda a pastas dentífricas.

Reboredo estará aí à sua porta às sete da manhã, em ponto. Não se atrase: a paciência do bom Reboredo, polida em King Saul Boulevard, é lendária mas não infinita.

A ver se liberta o «pauvre J.» que há em si, homem!

Deste que muito o aprecia e considera, e da estrela radiosa ali assentando todo o seu peso de orquídea em cima da «petite valise»,

J. Eustáquio de Andrada.

Refutação de Lavoisier

Se na natureza nada se cria, onde se ocultava o amor até surgir?

23.2.17

sol branco e azul

hoje

colhi tantas imagens
de sol branco e azul
e tenho os olhos tão cheios

que me urge olhar os teus
para que vejas
tudo o que vi

para ti

Como a aranha que tece a sua teia

Vejo chegar os agentes da empresa municipal de estacionamento, vejo-os abrir as portas dos veículos que transportam quantidades inimagináveis de penosos imobilizadores, vejo-os cumprimentarem-se com «high-fives», com o júbilo da aranha que dá o derradeiro ponto na sua teia.

22.2.17

O rei dança?


Na corte de Luis XIV, ele próprio um excecional dançarino, dançar bem era considerado a derradeira graça social. Aos mestres de dança a fortuna sorria, porque quem queria progredir no estatuto e na carreira, tinha que dançar bem. Sob a influência do rei, a paixão pela dança estendeu-se por França, levando à inevitável intervenção da igreja. Na Provença, onde o rei também havia dançado, a igreja acabaria por pedir ao parlamento a suspensão das danças nas cerimónias religiosas. As «posturas indecentes» dos dançarinos, especialmente no «Rigaudon», fizeram transbordar a tolerância do pio clero. Pois tal júbilo é lá coisa que se admita numa sorumbática cerimónia sacra?

21.2.17

imagens ou um punhado de sol no ar

o fogo que aparece
por cima do horizonte

a vela deslizando sobre a terra

papéis que estalam brancos
um punhado de sol no ar

[tudo isto vi

hoje

o poema é devido a antónio ramos rosa]

Livro de voo

Em viagens longas prefiro um livro daqueles a que se viram as páginas com afinco e ritmo. Depois de várias tentativas de ler em aviões os meus autores eivados de frases complexas e musicais e intuições profundas sobre a natureza humana, desisti. Numa viagem o livro deve ser um vórtice de horas. O livro de voo comprimirá o tempo como a mão que aperta a esponja. O escritor é um prestidigitador do tempo. Descobri que há escritores, e livros, que me dão mais minutos às horas, outros que os retiram. Tenho passado a vida a pensar que o génio reside exclusivamente nos primeiros. É constatação recente, de poucos dias, que comprimir o tempo não é rasgo menor do que expandi-lo. Talvez esteja, arrisco a dizer estejamos, a avaliar a novela pelo padrão errado. O que chamaríamos a quem é capaz de encurtar uma viagem de oito horas a duas, ou mesmo uma? Génio? Creio que é perfeitamente adequado.

20.2.17

A chave perdida

Perdi a chave da máquina do tempo. Hoje apetecia-me rodar a agulha e saltar para o meu próprio passado. Mas sem chave estou condenado a permanecer para sempre no meu presente. Condenado a prisão perpétua, sem hipótese de comutação.

Bater de coração irlandês


Sou Irlanda:
Sou mais antiga do que o Hag of Beara.

Grande é a minha glória:
Eu que dei à luz o bravo Cúchulainn.

Grande é a minha vergonha:
Os meus próprios filhos que venderam a sua mãe.

Grande é a minha dor:
O inimigo irreconciliável que me provoca continuamente.

Grande é a minha tristeza:
A gente, em quem depositei a minha confiança, decaiu.

Sou Irlanda:
Sou mais solitária que o Hag of Beara.

[Música de Patrick Cassidy sobre um poema de Patrick Pearse. Versão de x.]

Olhem para o que aconteceu ontem à noite, na Suécia

Recebo uma carta em papel digital do meu fornecedor de café em cápsulas, aquele que satisfaz a minha necessidade de cafeína na ausência de Donas e bailarinos de tangos por detrás de balcões. É este o teor:
«Caro Cliente,
Agora que o tratado de paz na Colômbia foi assinado, a [digníssima marca] orgulha-se de apresentar Aurora de la Paz, um café que esteve praticamente inacessível durante décadas. É o nosso espresso Limited Edition raro e especial, um Pure Origin da exuberante região de Caquetá.
Descubra-o.»
Se me perguntarem, direi que prefiro a paz à guerra, como pretexto. Em geral, prefiro a verdade à mentira, no que não será decerto exclusivo meu. Acima de tudo, creio que há pretextos escusados e, isso sim, pode ser uma peculiaridade minha.

Válido todos os dias

Disse Tolstoy que um homem é como uma fração cujo numerador é o que ele é, e cujo denominador é o que ele pensa de si próprio; quanto maior o denominador, menor o valor da fração. Não disse, mas creio que está subjacente, que esta asserção se mantém qualquer que seja o dia da semana.

19.2.17

Mar grande

John Miller, Lord, The Sea Is So Big

Os meus amigos de Edimburgo

Hoje chego tarde ao café do Chico, quase à hora de almoço. Mas o Chico não serve almoços, apenas distribui abraços aos clientes que não aparecem há tempos. O meu vem ao meu encontro logo que cruzo a porta, trazido pelo passo dançarino do dono do café. Sento-me na minha mesa junto à janela, de um lado o azul raiado do branco das nuvens, do outro os tons cremosos do café, cadeiras, mesas e balcão castanhos. O café do Chico combinaria bem em tom com um cappuccino, concluo, enquanto olho em volta à procura do jornal, mas eu apenas tomo café escuro, não diluído. Sou capaz de deitar uma gota de água no uísque como os meus amigos de Edimburgo, mas incapaz de deitar leite no café, como os meus amigos de Edimburgo. Dois dias de Correio, consigo encontrar. Só no café do Chico leio o Correio, os meus outros cafés não prestam tal serviço público. Não me espanta que o mundo seja para mim cada vez mais um lugar de espanto. Faltam-me as ferramentas para o entender. Aquelas que só uma leitura metódica do Correio proporcionam. Por exemplo. Eu, que nada sei da Bárbara e do bárbaro professor, sinto-me um ignaro, um bárbaro também, arrisco dizer. Salva-me destes pensamentos o Augusto, a quem não abraço para não esmagar os óculos que transporta ao peito. Conta-me da vida dele, e depois conta-me da vida da Florinda, sabes? está de amores com aquele que trabalha com ela, tu conheces. Ah, se dizes, devo conhecer. O Augusto não me consegue dizer quem ele é, porque não se recorda o nome, nem eu pela vaga descrição, diluída como o café num cappuccino, lá chego. Quando voltar a encontrar o Augusto, já ele descreverá melhor, quero crer, o desconhecido meu conhecido por quem a Florinda está de amores. Eu tenho a certeza de que o Augusto não notou que a Isabel, que está sentada na mesa ao lado da nossa, tem as unhas das mesma exata e precisa cor (Pantone 5115 UP)  que as botas da Lúcia, que se senta com ela. No meio de ambas, a Laura, filha de Isabel desfila atentamente fotos num ecrã. O Chico também não notou e eu só noto porque ao domingo tenho a minha visão apurada para as coisas do mundo. É do café do Chico, o melhor do mundo conhecido, noto hoje que nenhum me sabe como aquele. Tenho a certeza de que se o diluísse em leite, perdia este poder mágico de tornar o ar transparente. Antes de sair, a mulher do Chico faz-me um embrulho de empadas ainda quentes, porque hoje é domingo. Divido palavras e abraços com os presentes e saio para o luz azul da tarde, a pensar no leite que obscurece o café e na gota de água no uísque que abre os sabores como se fossem uma corola ao sol. E reparo que estou em falta: os meus amigos de Edimburgo já me deram a provar o melhor uísque do mundo e eu ainda não lhes dei a conhecer o melhor café do mundo. De caminho, sempre lhes diria que o café, ao contrário do uísque, atinge a perfeição em estado puro.

17.2.17

enumeração

se tivesse que enumerar
tudo o que fiz hoje
desde cedo
tão cedo que começou o dia
até agora
tão tarde que acaba o dia

diria

pensei em ti

A passada de um gigante

Tenho-me lembrado de Brahms. Não por causa da paixão dele por Clara Schumann, embora esse fosse um belo motivo, adequado ao espírito deste espaço, mas antes por causa de Beethoven. ‘Não fazem ideia do que é sentir a passada de um gigante como ele atrás de nós’, dizia, referindo-se ao desespero que o assolava pela sua obra não estar ao nível da do antecessor. Não quero compor nenhuma sinfonia, também não tenho anseios para me aventurar pela escrita romanesca. Bastam-me por ora estas bagatelas de poucas linhas. Acontece é que aterraram nas minhas leituras algumas páginas de tal modo perfeitas que me colocam num estado contemplativo, e me dão o padrão exato para a palavra ‘inatingível’. Cotejar o nosso melhor com o que consideramos imaculado é caminhar sobre gelo sem atrito. A cada passo, a queda iminente. A passada de um gigante obriga-nos a reaprender a andar. Por agora, voltei a gatinhar. O problema é olhar para este ecrã hoje e descobrir que as letras estão desfocadas e que uns óculos de leitura seriam bem-vindos. Gatinhar e óculos de leitura ainda não vão bem na mesma frase, temos que convir.

Interrogação real

Quando somos apenas um endereço a um dedo de distância de uma tecla de apagar, o que somos?

16.2.17

Pintado de fresco

Hoje, poder-se-ia pendurar no céu um letreiro: 'Pintado de fresco'.

15.2.17

Leia-se vida

Já não valorizo a trama da história nem a densidade psicológica das personagens, não me interessa a capacidade de descrição minuciosa, os diálogos nada me dizem, não quero saber do desenlace. Tornei-me maniqueísta. Se gosto das frases, leio; se não, olvido. No fim de um dia como o de hoje, abro um livro em que as frases são afiadas como o gume de folhas de milho. Depois, corto com elas as horas até ao virar da noite. Por vezes, apetece-me doar os livros. Ficarem apenas os das frases moduladas como fugas de Bach: os poucos onde volto sempre. A frase é a minha âncora. Sem ela, vou à deriva, até onde me empurrar a corrente. Salvo-me na frase para não me perder no livro. Onde escrevo livro, leia-se vida.

Lanches e amores

Sento-me no café [onde mais?] com um bule de chá que parece uma lâmpada mágica. O fumo evola-se como o génio, mas eu não sou nenhum Aladino. Antes fosse. Preparando-me para escrever à leitora no ecrã do telefone sem fios, olho para a mesa à esquerda, onde se senta num lado uma jovem mãe e do outro o seu filho, cara redonda pouco acima do tampo, cabelos louros, olhos assestados num livro ilustrado de aprender coisas. A mãe faz perguntas distraídas ao filho, sobre o livro, e tecla rápida com dedos sorridentes no ecrã do telefone sem fios. O meu olhar deambula como o fumo do bule, e encontra muito mais que anotar, mas prende-se numas unhas rubras noutra mesa, que voam sobre o ecrã também de um telefone. Em frente a essas, o parceiro de mesa escreve, imerso noutro ecrã. Partilham a mesa, mas não o tempo e o lugar. Eu começo a escrever à leitora esta minudência inconsequente e depois interrompo, quando me dou conta do absurdo de teclar para narrar as alheadas dedilhações alheias. Foi ontem, dia de amores, ao lanche e por isso só agora coloco esta carta neste marco. Acredito na benevolência da leitora para a demora nas notícias. A mãe gosta muito do filho, o namorado e a namorada gostam muito um do outro e eu gostei muito daquele chá. O mundo está em equilíbrio, pois não?

14.2.17

uma gota de luz

no dia em que todas as outras palavras se tornaram
incompletas baças desencontradas

bebeu a gota de luz que ela transportava no olhar

sorriu e disse-lhe

amo-te

13.2.17

A mão de Deus

Só consegui ler quando me aproximei. Tatuada a cursivo na mão direita, por cima do quinto osso do metacarpo, tinha a palavra 'Deus'. Evidentemente que sendo o corpo todo a tela para quem se tatua, não só é o que é tatuado como onde o é que merece descodificação. A palavra poderia estar tatuada no braço, e nesse caso não a teria visto. Mas na mão, naquela posição, é visível para todos, menos para o portador, ou pelo menos não o é sem que tenha que rodar o pulso. Ver Deus no próprio corpo passa a ser um ato deliberado, quando para os outros, o é involuntário. Já o terço, gravado no pulso esquerdo, não escapa a qualquer olhar ou colocação, mas naquela posição fez-me lembrar mais os «mala» da tradição budista, do que rosários cristãos. Tal consideração não esteve na mente nem do tatuador nem do tatuado, quero crer. Fossem a considerar todas as possíveis associações de tal simbologia, e ainda hoje a tinta daquela tatuagem não teria saído da agulha. Mas num acesso de pessimismo, rejeito a aceção piedosa da decoração e ocorrem-me analogias terríveis para esta mão de Deus. Uma mão que pertence a Deus não tem que prestar contas do que faz: a Deus pertence a derradeira impunidade. Aquela mão fará um dia, se não o faz já, parte dos pesadelos de alguém.

11.2.17

Na corte do Preste João

‘E deveis saber que na corte do Preste João comem todos os dias mais de trinta mil pessoas, sem contar com os que vão e vêm,’ afirmou John Mandeville, Sir, no relato das suas magníficas viagens ao mundo conhecido em meados do século catorze, antes dos portugueses demandarem as terras do imperador cristão do oriente por via marítima. Sete reis serviam João, e partindo estes outros vinham, porque cada uma das setenta e duas províncias tributárias do imperador, tinha o seu rei, e cada rei tinha como tributários outros reis. De onde vinham reis, viriam sempre mais reis. Há lá maior mostra de grandeza do que ter reis como serviçais? E as gentes do século catorze espantaram-se e fizeram-se ao ríspido e longuíssimo mar ou enfrentaram o inclemente deserto em busca da terra onde até os pratos eram lapidados a partir de gigantescas pedras preciosas. ‘M’espanto às vezes, outras m'avergonho,’ disse Sá de Miranda, que viveu no século seguinte ao de Mandeville. Seis séculos depois, já não buscamos as terras do imperador. Nada nos espanta, pouco nos envergonha. É esse resto ténue de vergonha que mantém o fio da nossa civilização. Perdidas as ilusões, perdida a vergonha, restar-nos-á menos do que as ruínas da formidável corte do Preste João.

10.2.17

Passados mutuamente exclusivos

Nem precisava desenhar, eram as imagens que encontravam o caminho até ele. As imagens que traçavam o mapa dos seus múltiplos passados, mutuamente exclusivos. E escolhia, aí podia escolher, ter saudades desses passados que lhe pertenciam. De todos esses passados que lhe foram meticulosamente roubados. Até que do saque impiedoso, apenas lhe restou um.

O granizo e a idade

Depois de apanhar chuva e granizo é mesmo numa esplanada que me apetece almoçar. Dona Aureliana recebe-me com aquela manga curta dela, a mesma que usa dos picos do verão até às catacumbas do inverno. Quem está sempre com calor é aqui a Dona Aureliana, digo eu, ainda a sacudir as pedras de gelo da gabardina. Ela abre o sorriso e com aquela fala lá dela que atravessou o equador, explica, É da menopausa, doutor. A minha estrondosa gargalhada deve ter-se ouvido num molho de vários quarteirões em redor. Dona Aureliana faz beicinho, Pois, ninguém acredita quando eu digo isto. Oh, o lamento. Eu confesso já aqui à leitora a minha incapacidade para avaliar idades do eterno feminino. Mais arte do que ciência, mais perigos do que recompensas. Abstenho-me. Assim, quando atribuo à Dona uma existência, vá lá, de trinta e cinco anos, estarei decerto a falhar por um par de anos, por defeito ou excesso. Pode ter trinta e três, pode ter trinta e sete. Mal iria no entanto se tanto falhasse na minha avaliação, ou se a biologia fosse tão inexata ciência. Abrigado da chuva copiosa, e enquanto tomo o segundo café do dia, escrevo estas minudências inconsequentes. Numa pausa, também. De vez em quando lembro-me e dou uma gargalhada, mas desta vez em surdina. Tenho uma reputação de sólida sobriedade a manter, pois não é?

A temática da secura digital

Venho de descobrir que o retângulo de superfície vidrada por onde passeio os dedos quando quero que o cursor se mova no ecrã do computador de colo, é sensível à secura digital, isto é, à aridez da pele que cobre a carne que cobre as minhas falanges. O dito cursor hesita, fica titubeante, parece ébrio logo pela manhã. O que julgava ser problema de foro tecnológico, é afinal de foro humano. Sou infrequentador, desculpar-se-á o neologismo escusado, de blogs que aconselham as gentes sobre a temática da hidratação cutânea, mas reconheço agora quanto tenho subestimado a premência do tema. Ato de contrição. Vou retratar-me e, quem sabe, ainda surpreendo a leitora escrevendo aqui minudências inconsequentes sobre soluções [problemas já todos temos, pois não ?] de humidificação epidérmica. Logo eu, leitora, logo eu.

9.2.17

A dimensão do inexplicável

É um maravilhoso paradoxo não conseguirmos definir toda a dimensão da experiência humana em termos humanos. Deus, qualquer que seja a sua forma, terá lugar garantido nas palavras dos homens enquanto existir tal incapacidade. «É de dimensão divina», é a explicação mais satisfatória de tudo aquilo que não conseguimos explicar. Deus durará enquanto existirem homens. Não me parece um exagero dizer que isso justifica a asserção de que, na perspetiva humana, Deus é eterno. É a eternidade a dimensão do inexplicável.

Manual de degustação do café

É que nem saberia como havia de começar. Talvez assim, Dona Aureliana, não vai acreditar, enviaram-me uma colher para degustar café, está a ver? colher grande e redonda, uma daquelas marcas de café de cápsula quer que eu aprenda a degustar café, consegue acreditar? E ela, com aquele olhar trocista lá dela que atravessou o equador, Ora essa doutor, quer dizer que não aprecia o cafezinho daqui da esplanada, o meu café, o café mais bem tirado da cidade? Pois não aprecio eu outra coisa, Dona Aureliana, mas a colher até vem com manual de instruções, momentinho que eu mostro já. E apresentaria o manual de degustação, uma lâmina de papel de boa gramagem, impressa a quatro cores, com uma foto de uma chávena com imaculado aspeto, indicações meticulosas, Eu leio aqui em voz alta, Um, segure a chávena do café e observe a consistência do crema, assim mesmo, com crema em itálico, Dois, mexa delicadamente o café com a sua nova colher de degustação e inspire, que aromas consegue reconhecer? ainda está aí Dona Aureliana? excelente, Três, sorva o café, ao mesmo tempo que força a entrada de ar, mantenha o café na boca durante dez segundos, e finalmente, Dona Aureliana, Quatro, engula o café, sinta a riqueza do ar que expira e desfrute desta experiência. Mas doutor, perguntaria a Dona, afinal é para degustar o café ou o ar? é que não há ar melhor do que aqui o da esplanada, olhe agora e para o ar não precisa de colher, julgo eu. E tiraria um café, e eu sentar-me-ia, a mexer com a colher pequenina e não a grande e redonda, a escrever minudências inconsequentes, a respirar o melhor ar da cidade e beber o café mais saboroso num molho de quarteirões em redor. Talvez até ficasse com algum crema, com itálico, no bigode que não tenho. Desfrutaria da experiência da degustação, e com jeito, ainda escreveria um manual de instruções para os gentis-homens que tão generosamente me fizeram chegar a colher. Da arte de degustar um bom café ao amanhecer numa esplanada. De tudo o mais posso nada saber, mas disso, tenho umas luzes.

8.2.17

Não sei dizer que não [a boníssima comida]

Ele vem com o sorriso rasgado e aquele inglês lá dele que atravessou desertos e estepes e estende-me o que traz na caixa dizendo [eu traduzo para a leitora], Doutor, quer provar? é muito boa. Eu faço o meu melhor sorriso de escusa, Acabei de almoçar, muito obrigado, mas ele insiste, É piza de peixe, doutor, é muito boa. Falta-me a coragem para recusar mais, não sei dizer não a uma oferta tão plena de simpatia, aceito. É boa, na realidade. Ele atravessou meia cidade, e a piza ainda está quente, não sei como. Degustada, vou ter com ele e confirmo, Boníssima a piza, na verdade [dito em inglês, pois claro]. Passam segundos e ele vem ter comigo de novo, falando em voz tão baixa que mal ouço, revelando-me o segredo da piza, o restaurante onde se chega atravessando meia cidade, e que tem maravilhosa comida portuguesa como aquela piza e quantas mais e lasanhas e pastas, E tantas outras comidas boas, doutor, portuguesas, o meu português é escasso, não sei dizer os nomes, mas as comidas são todas boníssimas. Repete o nome do restaurante e do dono com o verdadeiro entusiasmo de adepto, já é da casa. Agradeço vivamente a revelação. Quando quiser comer autêntica comida portuguesa, como aquela boníssima piza de peixe, já não terei que andar à toa pela cidade.

7.2.17

Da existência formal

No meu pulso um coração perfeitamente desenhado bate indicando-me que estou vivo. Um descanso. De relance, vejo as estatísticas das minhas vivências de hoje com um clique num botão. Conforta-me o pragmatismo da máquina. Ando, respiro, fervilha-me o sangue nas veias, e ela acumula números que lhe dão uma imagem linear da minha existência tranquila. Rejubila com a minha condição, regozija-se quando me movo para lá das suas parcas expetativas. Congratula-me até, generosa. Vista pelos dois ou três indicadores que a máquina do pulso me dá, a minha vida é perfeita. Se eu me guiasse pelos seus padrões, até me poderia considerar feliz. Estatisticamente feliz. Pois que mais posso almejar?

6.2.17

O café mais forte do café

Quero o café mais forte que tiver, Dona Yara, digo eu, é ainda cedinho. Dona Yara abriu aquele sorriso lá dela que atravessou o equador e entrega-me um café hercúleo, ou assim o imagino, à laia de efeito placebo. Está aqui doutor, o mais forte que a máquina dá. Eu, grato, reparo que Dona Yara está mais nova. Sim, a nova mãe está uma mãe nova. [E a pequena Soraia está ótima, respondendo em antecipação à pergunta que a leitora tem em mente.] É claro que não digo a Dona Yara: A senhora está mais nova, se bem que ela talvez não se importasse de ouvir. É verdade, ser mãe rejuvenesceu Dona Yara, mas eu não posso dizer, senão teria que dizer também a Dona Aureliana que ser tia honorária também a tinha rejuvenescido, o que é igualmente verdade. E depois, o que pensaria Dona Patroa, avó honorária se eu não dissesse o mesmo? Já viu a leitora o dilema? Nem com o café mais forte do café ainda o consegui resolver, repare bem. Mas ao menos, estive completamente acordado a manhã toda.

5.2.17

Danças no vento


Praetorius, Danças

Força de gravidade

De todos os livros que estão pelas estantes tantas, regresso sempre a três ou quatro. Posso estar a ler o que estiver no dia mas lá vou procurar refúgio, quando um parágrafo me desilude, ou uma página me falha. Normalmente estão juntos, para ser mais fácil saciar-me, temporariamente que seja. Há um que entra, há um que sai, mas a estabilidade começa a ser granítica. Ancoram-me. Se um dia doar os restantes não creio que sinta falta deles. A força de gravidade reside naqueles poucos, mais do que livros, diria antes vórtices habilmente encadernados.

[Isto digo eu, que me recordo com precisão microscópica de todos os livros que emprestei e não encontraram o caminho de volta. Bem prego eu, em jeito de Frei Tomás.]

O domingo a acontecer

Há pouco vi o domingo acontecer mesmo à minha frente, ia eu nos meus passos a roubar sol, vindo de uma esplanada preguiçosa. Numa cadeira solitária de uma outra esplanada despenteada pela aragem fresca do final da manhã, um homem com a cara agasalhada por umas barbas ainda castanhas, debruçava-se com as costas em ângulo reto sobre um livro espesso e sublinhado a verde líquido. O homem revia as páginas marcadas, e anotava-as com gestos meticulosos. Uma manta sobre os joelhos isolava-lhe as pernas do vento enquanto ele se fechava nas páginas do livro. Podia tê-lo avistado em qualquer outro dia, é certo, porque aquele livro andava há muito a ser lido, não tive dúvidas. Mas noutros dias, àquela hora, a esplanada estaria cheia de gente de traje de negócios a chegar para o almoço, o homem já não teria o silêncio para orar assim naquelas páginas, sim porque parecia quase uma devoção. Uma manta por cima dos joelhos numa esplanada combina é com o domingo, temperando uma leitura transformada em veneração. Eu ainda não me converti, é certo, mas fiquei com ideias.

4.2.17

Céu branco

Um dia encontrarei uma caneta com que escreva no céu branco as palavras que guardo para ti.

2.2.17

e também há a lua

Alex Cameron, Tom and Leander Find Happiness in the Moon, 1971
ela sorria
e ele
ia

Com um sorriso

Segunda, 24 de julho.
Come cá em casa Borges. Nas obras completas de Eça de Queirós vemos as fotografias do grupo «Os Vencidos da Vida». Leio em voz alta os primeiros capítulos de A cidade e as serras e de A relíquia. Enquanto me escuta comenta: «Está escrito com um sorriso».
[Adolfo Bioy Casares, Borges]

aegritudo amoris

Note-se que na medicina ensinada na Universidade, o amor era encarado como uma doença — a aegritudo amoris — segundo a doutrina dos humores e da tristeza ou ira.
[Margarida Vieira Mendes, O Cuidar e Sospirar]

Geologia com laivos sentimentais

O deserto é uma praia que por melancolia se afastou do mar, diz Malgorzata Cruce. Eu interpretaria de outra forma: o deserto é uma praia que pena aguardando o mar.

Dois mil e cinquenta e dois, uma odisseia de falta de espaço

Em mil novecentos e oitenta, o colégio eleitoral lá das américas dos nortes deu a presidência a um ator do grande ecrã. Em dois mil e dezasseis, a um parlapatão do pequeno ecrã. Em dois mil e cinquenta e dois, calharão as sortes a um youtuber. Que a leitora não esqueça, por favor, que foi aqui que leu pela primeira vez esta audaz previsão.

1.2.17

Aqui-d’el-rei

Em dois mil e doze espalhou-se a indignação pelos pais e mães de família deste país porque um livrinho de poemas de Alice Vieira encontrou caminho sozinho para o Plano Nacional de Leitura e era coisa para adultos e não para jovens cabeças em formação. Cinco anos depois, volta a haver um aqui-d'el-rei, desta vez porque um livro de valter hugo mãe chegado também ao Plano Nacional de Leitura tem dois parágrafos com linguagem passível de chocar os sensíveis progenitores.

Seria preciso acreditar que os pais do jovem potencial leitor conseguem assegurar que seu rebento vive num ambiente controlado e asséptico sem Tumblr, sem Snapchat e sem séries da HBO em ecrãs grandes ou pequenos. Porque é evidente que se tivesse acesso ao que se elenca na linha anterior, olharia para os poemas de Alice Vieira ou para os parágrafos de vhm, encolheria os ombros e passaria à frente: para quê perder tempo com poesia ou prosa com meia dúzia de palavras gastas quando, como se sabe, uma imagem vale mil palavras e só o Tumblr tem uns trezentos e trinta e três milhões de blogs[*], muitos deles com inúmeras imagens a valerem as tais mil palavras ou mais ainda?

É só fazer as contas.

[* Fonte: statista.com]