5.3.26

Senhor Antunes

Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.

4 comentários:

  1. Talvez Xilre tenha dado nome àquilo que me prende à escrita - para mim única - de Lobo Antunes: o coração subjacente, poético e compreensivo em toda a extensão dos nós que mostrou e tanto pertencem à espécie. É uma dor quase terna.
    O que devo ao senhor Antunes não tem paga.

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  2. Notícia triste, esta, da morte de ANTÓNIO LOBO ANTUNES, hoje.
    O exorcista do limite do mundo.

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  3. Há por aí notas de pescar, cof cof cof, de pesar, que são um completo nojo!!! Como é possível fazer-se isto ao António, a um ilustre morto?

    O que me conforta é saber que o fazem por um de dois motivos: ou a jactância de um idiota puro, ou a má maldade, tão antiga como o mundo.

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  4. Desde o primeiro livro que veio para "partir a loiça", sobretudo se fosse de porcelana:) Mas tudo com um coração ao pé da boca. A forma como falou da doença e da forma como quis viver e resistiu aproxima-me muito dele como pessoa. Mas sei que o que fica é a obra (e já agora as três filhas mulheres!).

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