Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.
Talvez Xilre tenha dado nome àquilo que me prende à escrita - para mim única - de Lobo Antunes: o coração subjacente, poético e compreensivo em toda a extensão dos nós que mostrou e tanto pertencem à espécie. É uma dor quase terna.
ResponderEliminarO que devo ao senhor Antunes não tem paga.
Notícia triste, esta, da morte de ANTÓNIO LOBO ANTUNES, hoje.
ResponderEliminarO exorcista do limite do mundo.
Há por aí notas de pescar, cof cof cof, de pesar, que são um completo nojo!!! Como é possível fazer-se isto ao António, a um ilustre morto?
ResponderEliminarO que me conforta é saber que o fazem por um de dois motivos: ou a jactância de um idiota puro, ou a má maldade, tão antiga como o mundo.
Desde o primeiro livro que veio para "partir a loiça", sobretudo se fosse de porcelana:) Mas tudo com um coração ao pé da boca. A forma como falou da doença e da forma como quis viver e resistiu aproxima-me muito dele como pessoa. Mas sei que o que fica é a obra (e já agora as três filhas mulheres!).
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