Há quem conduza como se estivesse sempre atrasado para salvar a civilização. Não sei se era o caso de Cavalheiro do Porsche, mas foi essa a impressão que me quis oferecer, com generosidade sonora, num cruzamento onde eu cometi a extravagância de esperar. A situação era simples, quase pedagógica: havia um carro em sentido perpendicular, havia margem estreita de manobra, havia a possibilidade de todos continuarmos inteiros, viaturas incluídas e sem papéis para preencher.
Eu, antiquado, pessoa de outro século como ele, mas com prioridades diferentes, escolhi a espera. Uns segundos apenas. O tempo suficiente para o outro carro passar e para a manobra deixar de parecer uma candidatura espontânea a uma visita a Senhor Armindo, bate-chapas.
Foi então que o cavalheiro apitou. Não uma buzinadela de aviso, dessas que ainda fingem utilidade pública. Não. Uma buzinadela moral, um pequeno manifesto em forma sonora: avance, homem, que a vida é curta e eu tenho cilindrada.
Confesso: fiquei sensibilizado. Não é todos os dias que alguém nos lembra, de dentro de um Porsche, passe a publicidade, que a prudência é uma falha de carácter. Durante um instante, considerei rever toda a minha filosofia de cidadão encartado. Talvez eu devesse ter embatido no carro vindo da perpendicular com convicção, apenas para honrar a pressa de Cavalheiro. Talvez a verdadeira cidadania esteja em transformar cruzamentos em experiências imersivas, uma espécie de tenda de carrinhos de feira, mas com riscos decuplicados.
Resisti. Esperei. O carro passou. Eu avancei. O Porsche avançou também, finalmente liberto daquele drama de oito segundos que lhe tinha sido imposto pela minha incompreensível preferência por não bater em ninguém.
Cinquenta metros depois, Cavalheiro virou, descendo para o parque do hipermercado. A urgência tinha destino, afinal: talvez uma alface, talvez empadas de galinha, talvez uma promoção de iogurtes. Não julgo. Cada um sabe a epopeia que transporta no porta-bagagens.
Cinquenta metros. Toda aquela indignação motorizada, toda aquela impaciência com escape desportivo, para ganhar talvez meio suspiro antes da rampa do estacionamento.
Ficámos todos inteiros, felizmente, leitora. O cruzamento, o carro da perpendicular, eu, o Porsche, as alfaces possíveis.
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