1.2.23

néon

Não se pode esconder amor, como não se pode esconder tosse, diz um ditado, que, não sendo dos nossos, podemos ainda assim naturalizar. Na mesa ao lado, ao almoço, não tossiam, não era isso que tinham para esconder. Ao ditado naturalizado, Anne Sexton acrescentou: Nem um pequeno amor, nem uma pequena tosse. Seria ainda pequeno, o amor? O deles, esclareça-se. Ainda que o fosse, não dava para esconder, de qualquer forma, não ao meu olhar de analista profissional de romances. Se ele falava, os olhos dela sorriam de tanta atenção. Se era ela que falava, a curva dos lábios dele denunciavam-lhe o enlevo, como cenário de girândola. O amor, esse velho néon, chamou-lhe Karmelo. Velho como o Sol, brilhante como só ele, acrescento eu.

31.1.23

sussurros

nem de propósito para o dia, o tema eram esquentadores. a outra, a ausente, tinha gasto duzentos euros mandando arranjar um, mas oh, não ficou bom. e ela, a tal outra, acabou a comprar outro esquentador, de seiscentos euros. oitocentos euros em esquentadores! tudo sussurrado ao meu lado, como não ouvir? descobriram os instaladores, que o problema era, afinal, da instalação. de modo que a outra, a não presente, ficou com dois, mais com o tom escandalizado destas, que falavam pelas costas dela e pelo meu lado esquerdo. mas escândalo, e decerto a leitora concorda, seria a desinfeliz, a outra, a falada, ainda estar a banhos de água fria. tivesse eu um reino, e não o trocaria por um cavalo. mas já por banho quente em tempo gélido, ia a contas.

30.1.23

mestre

peço desculpa, já sabe como é, diz a mãe de menina joana, todos os dias às dezoito e trinta, com tal precisão que podia acertar o relógio. e, a espreitar da outra porta, menina joana, sorriso maroto, bata azul do colégio, acabada de fazer a sua diabrura diária, tocar-me à campainha e fugir. e ao fingir que não sei quem foi, estou também a manifestar a admiração pela consistência de menina. na idade dela também eu tocava a campaínhas, mas nunca com tal longanimidade. nunca é tarde para encontrar mestre. nesta inigualável arte de azucrinar vizinho, curvo-me perante tal diminuta figura, em reverência.

27.1.23

aleluia

Um dos benefícios de andar com o Messias de Handel no Senhor Spotify do carro é a possibilidade de o Aleluia surgir em ocasiões em que não podia vir mais a propósito. Como quando desencanto um lugar de estacionamento, por exemplo. Tal dificuldade superada, tem de ser celebrada de forma condigna. Ontem, o magnífico William Christie e a sua formidável orquestra, Les Arts Florissants, adiantaram-se dois minutos — quando o lugar surgiu, já o Aleluia tinha terminado. Mas Christie é um visionário, eu não. Se ele manda comemorar, eu junto-me ao coro, com todos os pulmões que a natureza me concedeu. Valha-me então viajar sozinho. Se é para cantar, que não se olhem a despesas.