10.3.26

Seja eu!

 Em pé, ao balcão do café de Seu Silas, um Pai almoçava uma das famosas tostas mistas do sítio, acompanhada de um sumo de pêssego dos de garrafa, tudo isto com Filho de poucos meses ao colo, apenas narizinho e olhinhos brilhantes a espreitar de um saco marsupial ao peito paterno.

Das colunas de Seu Silas, saia a voz de Marisa Monte: Seja eu! Seja eu! / Deixa que eu seja eu / E aceita o que seja seu / Então deita e aceita eu

e Pai e, por consequência, Filho, ensaiavam uma não muita discreta dança ao balcão, entre uma dentada na tosta e um gole de sumo. Eu, quase de saída, atrasei o pagamento da conta para não perturbar o quadro. Afinal, já é primavera e ninguém parece ter notado que este ano chegou uns dez dias mais cedo.

8.3.26

A diagonal do mundo

Na mesa atrás da minha, no café de Dona Astrid, discute-se, à hora do brunch, a prestação dos mecânicos da Ferrari na troca de pneus que ao, que parece, e a leitora estará decerto mais atenta do que eu ao tema, não foi brilhante no Grande Prémio da Austrália. Eu, aqui confesso, estava a dormir -- se bem me lembro, bem -- à hora da dita corrida e, pior ainda, nem fazia ideia de que esta se teria realizado hoje, menos ainda que teria sido às quatro da manhã do nosso fuso horário. Já as três Senhoras, sentadas na dita mesa, ficaram acordadas, assim o percebi, para assistir em direto, à abertura do calendário automobilístico -- e suspeito que a leitora notará sem dificuldade as minhas lacunas terminológicas sobre assunto a que sou tão flagrantemente alheio. E, para quem se terá deitado a tais desoras, parecem despertíssimas às onze e trinta da manhã. Já este que lhe escreve, se tivesse tentado tal proeza, estaria em estado tão atónico que nem vinte chávenas do supremo café de Dona, proveniente de fazendas selecionadas de Ouro Preto, lhe conseguiriam dar o choque de volta à vida. E esta é a mais pura das verdades, leitora.

5.3.26

Senhor Antunes

Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.

31.1.26

Não estamos no Japão

Se chegas em cima da hora, já chegas atrasado. Isto, leitora, aprendi num livro sobre a cultura japonesa, observada por um escocês que por lá viveu uns anos a ensinar inglês. Antes, chegar sempre antes -- para bater o imprevisto. O Japão é dado a catástrofes naturais, como terramotos e tsunamis, daí a necessidade de antecipar, de prever, de prevenir, que se lhes entranhou no quotidiano. Infelizmente, por cá, o livro (Fish Town, de John Gerard Fagan) não deve ter tido grande procura, decerto não foi lido por nenhum dos nossos responsáveis políticos, nem dos mais literatos, aqueles que durante anos falaram sobre livros em horário nobre na radiotelevisão. Seja a tragédia fogo (os incêndios), água ou ar (as inundações e a tempestade), o atraso é omnipresente. Deslocam-se aos locais dos desastres dias depois destes ocorrerem, como se esperassem que entretanto se resolvessem por si mesmos e apenas para a oportunidade de foto, marcam conselhos de ministros de emergência para ainda mais dias depois, titubeiam generalidades inóquas, proferem lições inoportunas aos que, no terreno, estão, na realidade a procurar dar a mão a quem precisa, fogem a perguntas como se estivessem a correr à frente do vento. O quarto elemento, a terra, é o único que ainda não despertou. Assim se mantenha porque, por estas terras, atraso não é falha: é método.

29.1.26

Senhora Vestida de Rubro

No café de Senhor Alberto (não se amofine, leitora, este que lhe escreve rodopia por entre cafés como um dervixe), no café de Senhor Alberto, digo, quando chego, está Senhora Vestida de Rubro a duas mesas de distância, embrenhada em leitura de espesso cartapácio, daqueles onde se adivinham tortuosas intrigas e intensos amplexos.

Traz-me Senhor Alberto o café e o pastel de nata, mais a obrigatória canela, e Senhora continua de olhos assestados no tomo, como se o livro lhe segurasse a alma pela écharpe.

Mas eis que se lhe escapa um suspiro — porventura da alma —, e, olhando para o teto, ou para alguma recordação de um passado que se adivinha longo, interrompe a leitura com um sorriso de quem atinge um píncaro, por instantes, antes de se voltar a perder nas páginas do livro, ou de um qualquer outro mundo para o qual as páginas são apenas um postigo ou, quem sabe, um portão.

25.1.26

Da felicidade sem mestre

Na mesa ao lado, no restaurante de Senhor João, a jovem neta, frente ao seu ainda mais jovem irmão, queixa-se das condições em que lhes foi transmitido o que ambos acabaram de ouvir da boca da terceira ocupante da mesa, que ainda limpa os olhos chorosos: “A avó riu-se tanto a contar a história que eu não percebi nada, nadinha…”