No fundo, leitora, o que não perdoam a Saramago foi ter lido a Bíblia com olhos mais abertos do que todos os que batem no peito e rasgam as vestes bradando eterna fidelidade aos ensinamentos da dita, mas que, em boa verdade, nunca passaram do índice, se é que alguma vez, sequer, a abriram.
29.3.26
Oh Baby Baby It's a Wild World
A cliente à minha frente no supermercado estacou de repente e, na medida das suas limitações de locomoção, começou a dançar -- pouco e devagar, mas com jubilosa convicção -- e a cantar baixinho a música que passava como banda sonora da superfície, no final da manhã de domingo.
Talvez seja mais uma minudência inconsequente, como tudo o que aqui se escreve, mas já que o dia de hoje nos subtraiu uma hora, ao menos que nos dê motivos acrescidos para dar graças pelas restantes vinte e três.
27.3.26
Para mim pode ser Arábica
O cliente na mesa à minha frente pergunta ao recém-chegado: O Samuel quer um café? E como o dito não parece dar resposta, repete: O Samuel quer um café? Quer, quer, quer?
Não creio que tenha sido por teimosia, ou mesmo indelicadeza, que Samuel não respondeu. Talvez tido um ataque súbito de saudade da mãe, acabada de sair do café de Senhor João pouco depois de entrar. Talvez Samuel estivesse distraído, ou mesmo a dormir o segundo sono da manhã. Ou, mais provavelmente, de dentro do carrinho de bebé, estivesse a olhar para o avô derretido, sem saber o que, ou como, responder a tal insistente convite.
13.3.26
Paraísos artificiais
Um dia voltaremos aos blogs em busca de escrita imperfeita, com arestas vivas e remates abertos, de minudências escritas tanto com os dedos como com a alma, sem calendário editorial, nem hora de publicação, como refúgio dos textos maculados com escritas artificiais, que enchem agora todos os meios onde a palavra escrita é dada a público. Talvez os ingénuos autores considerem que tais escritos passam por prosas próprias, talvez projetem a ingenuidade nos leitores — ah, tão bem escrito que ninguém diz que não saiu de mão humana. Ah, mas diz, diz. Nota-se tão bem como um pão tipo Bimbo quando é comparado com um pão de trigo e levedura, daqueles que têm tempo de vida útil de poucos dias e não dos que podem ser comprados em março e ficar na despensa até junho. Os blogs que perduram são, por estes tempos, os derradeiros guardiões da escrita artesanal, a que se sustenta das vivências do autor e não do que é debitado por algum algoritmo com entranhas estatísticas. Um dia, digo, até os leitores mais distraídos se cansarão dos tiques de escrita infinitamente repetidos, declinados em frases vazias. A escrita tem de apanhar a vida em flagrante. Que me perdoem os cultistas, mas isso é tudo o que a escrita automatizada não será, por definição, alguma vez.
10.3.26
Seja eu!
Em pé, ao balcão do café de Seu Silas, um Pai almoçava uma das famosas tostas mistas do sítio, acompanhada de um sumo de pêssego dos de garrafa, tudo isto com Filho de poucos meses ao colo, apenas narizinho e olhinhos brilhantes a espreitar de um saco marsupial ao peito paterno.
Das colunas de Seu Silas, saia a voz de Marisa Monte: Seja eu! Seja eu! / Deixa que eu seja eu / E aceita o que seja seu / Então deita e aceita eu
e Pai e, por consequência, Filho, ensaiavam uma não muita discreta dança ao balcão, entre uma dentada na tosta e um gole de sumo. Eu, quase de saída, atrasei o pagamento da conta para não perturbar o quadro. Afinal, já é primavera e ninguém parece ter notado que este ano chegou uns dez dias mais cedo.