Um dia voltaremos aos blogs em busca de escrita imperfeita, com arestas vivas e remates abertos, de minudências escritas tanto com os dedos como com a alma, sem calendário editorial, nem hora de publicação, como refúgio dos textos maculados com escritas artificiais, que enchem agora todos os meios onde a palavra escrita é dada a público. Talvez os ingénuos autores considerem que tais escritos passam por prosas próprias, talvez projetem a ingenuidade nos leitores — ah, tão bem escrito que ninguém diz que não saiu de mão humana. Ah, mas diz, diz. Nota-se tão bem como um pão tipo Bimbo quando é comparado com um pão de trigo e levedura, daqueles que têm tempo de vida útil de poucos dias e não dos que podem ser comprados em março e ficar na despensa até junho. Os blogs que perduram são, por estes tempos, os derradeiros guardiões da escrita artesanal, a que se sustenta das vivências do autor e não do que é debitado por algum algoritmo com entranhas estatísticas. Um dia, digo, até os leitores mais distraídos se cansarão dos tiques de escrita infinitamente repetidos, declinados em frases vazias. A escrita tem de apanhar a vida em flagrante. Que me perdoem os cultistas, mas isso é tudo o que a escrita automatizada não será, por definição, alguma vez.
13.3.26
10.3.26
Seja eu!
Em pé, ao balcão do café de Seu Silas, um Pai almoçava uma das famosas tostas mistas do sítio, acompanhada de um sumo de pêssego dos de garrafa, tudo isto com Filho de poucos meses ao colo, apenas narizinho e olhinhos brilhantes a espreitar de um saco marsupial ao peito paterno.
Das colunas de Seu Silas, saia a voz de Marisa Monte: Seja eu! Seja eu! / Deixa que eu seja eu / E aceita o que seja seu / Então deita e aceita eu
e Pai e, por consequência, Filho, ensaiavam uma não muita discreta dança ao balcão, entre uma dentada na tosta e um gole de sumo. Eu, quase de saída, atrasei o pagamento da conta para não perturbar o quadro. Afinal, já é primavera e ninguém parece ter notado que este ano chegou uns dez dias mais cedo.
8.3.26
A diagonal do mundo
5.3.26
Senhor Antunes
Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.