Ao cavalheiro que, na primeira fila, na cadeira logo à minha frente, dormiu a primeira parte do concerto por inteiro, a primeira das sinfonias da noite, e que acordou apenas ao quarto andamento, porque não há como continuar adormecido num Allegro molto vivace, sobretudo com a secção de metais a tonitruar a dois metros da face, ao cavalheiro, digo, que se conserve por muitos e bons anos com tal firmeza de propósito, com tal paz de espírito, com tal descanso. É admirado por todos os que o rodearam, entre as duas filas da frente, já para não falar do palco, nessa inolvidável soirée.
7.7.26
29.5.26
Veredas
Nada como ter sido Senhora Presidente da Câmara — pelo mais puro dos acasos — a dar-me as indicações do caminho, para ter, implícita e explicitamente, autorização para seguir por atalhos que, de outra forma, me estariam interditos. O senhor não é de cá, pois não? Pois não, não sou — nenhum dos locais faria perguntas desconchavadas como as minhas. Esbaforido, consegui chegar ao destino, que o caminho era a subir e estavam trinta graus com vista para o rio. A transgressão, se devidamente abençoada pelas autoridades competentes e ainda por cima de um forasteiro, é mancha daquelas que sai com pó de talco e uma escovadela leve ou, quiçá, um sopro brevíssimo.
22.5.26
Pensar
E a presença em todas as escritas agora daquilo a que chamam inteligência artificial, escritas até de gente que se tem em elevadíssima conta, que publica em páginas de valor, que tem direito a encómios públicos e prebendas várias, é a prova de que estava certo o poeta quando dizia que pensar incomoda como andar à chuva. Decidiram abrigar-se, todos, em simultâneo, num telheiro. Já de tal incómodo estão -- finalmente! -- libertos, leitora.
1.5.26
Primeiro
No quintal ao lado, de Dona Almerinda, ao final da tarde do Dia do Trabalhador, ouço uma música conhecida, que não ouvia desde a minha meninice, quando era eu o músico, a da tabuada dos quatro, depois da dos cinco, depois da dos seis, sendo aqui o praticante Menino Rodrigo, neto de Dona, luz radiosa de seus olhos, que ele também é trabalhador e devia estar antes em remanso, o petiz, alvo de exploração intelectual, que não merecia, leitora, logo no dia de hoje.
28.4.26
Cinquenta metros
Há quem conduza como se estivesse sempre atrasado para salvar a civilização. Não sei se era o caso de Cavalheiro do Porsche, mas foi essa a impressão que me quis oferecer, com generosidade sonora, num cruzamento onde eu cometi a extravagância de esperar. A situação era simples, quase pedagógica: havia um carro em sentido perpendicular, havia margem estreita de manobra, havia a possibilidade de todos continuarmos inteiros, viaturas incluídas e sem papéis para preencher.
Eu, antiquado, pessoa de outro século como ele, mas com prioridades diferentes, escolhi a espera. Uns segundos apenas. O tempo suficiente para o outro carro passar e para a manobra deixar de parecer uma candidatura espontânea a uma visita a Senhor Armindo, bate-chapas.
Foi então que Cavalheiro apitou. Não uma buzinadela de aviso, dessas que ainda fingem utilidade pública. Não. Uma buzinadela moral, um pequeno manifesto em forma sonora: avance, homem, que a vida é curta e eu tenho cilindrada.
Confesso: fiquei sensibilizado. Não é todos os dias que alguém nos lembra, de dentro de um Porsche, passe a publicidade, que a prudência é uma falha de carácter. Durante um instante, considerei rever toda a minha filosofia de cidadão encartado. Talvez eu devesse ter embatido no carro vindo da perpendicular com convicção, apenas para honrar a pressa de Cavalheiro. Talvez a verdadeira cidadania esteja em transformar cruzamentos em experiências imersivas, uma espécie de tenda de carrinhos de feira, mas com riscos decuplicados.
Resisti. Esperei. O carro passou. Eu avancei. O Porsche avançou também, finalmente liberto daquele drama de oito segundos que lhe tinha sido imposto pela minha incompreensível preferência por não bater em ninguém.
Cinquenta metros depois, Cavalheiro virou, descendo para o parque do hipermercado. A urgência tinha destino, afinal: talvez uma alface, talvez empadas de galinha, talvez uma promoção de iogurtes. Não julgo. Cada um sabe a epopeia que transporta no porta-bagagens.
Cinquenta metros. Toda aquela indignação motorizada, toda aquela impaciência com escape desportivo, para ganhar talvez meio suspiro antes da rampa do estacionamento.
Ficámos todos inteiros, felizmente, leitora. O cruzamento, o carro da perpendicular, eu, o Porsche, as alfaces possíveis.