18.4.21

Estranha espécie

Fiel impacienta-se, enquanto Dona dedilha demoradamente o telefone. Ao contrário de mim, que me sentei debaixo dos chapéus da esplanada, Dona está sentada numa mesa fora do limiar da sombra. Mas ela está abrigada do sol a pique com uma écharpe florida que lhe cobre a cabeça, enquanto Fiel se impaciente, tolhido pela trela, sem liberdade, sem sombra, sem posição. A irrequietude de Fiel desaquieta-me quase tanto quanto a estridência da conversa na mesa ao lado, sinfonia dissonante de vozes demasiado altas para a quietude do final da manhã. Como será a esplanada, este espelho da humanidade, no espaço de uma casca de noz, vista pelos olhos do canídeo? Estranha espécie, a que se autodenomina humana, pensará Fiel — ou, caso não, penso eu por ele.

16.4.21

Profecia


Quando perdermos o medo do fogo,

que lonjuras caminharemos

descalços

sobre brasas?


14.4.21

Menino Ricardo

 Menino Ricardo fez a sua primeira viagem de longa distância. Quando se tem pouco mais de três meses de existência, trezentos quilómetros deverão ser praticamente o equivalente de um trajeto até às antípodas do globo. Quando Prima Vaz me revelou que ia apresentar o infante à família a norte, logo imaginei o ar de espanto primeiro de Menino face ao galope do mundo em volta. Mas até os planos mais elaborados podem cair desamparados, como meteoritos apaixonados pela Terra. Na derrocada destes meus planos, ninguém se magoou, que os céus sejam louvados, a não ser a minha baça bola de cristal. Menino Ricardo dormiu o caminho todo, trezentos quilómetros de sono, como um anjo, ou um bebé, o que, sabe-se, vem a dar no mesmo.

13.4.21

Dobra


É sempre precisa a memória

    do instante

    entre antes

        e depois.


Como uma guerra, uma revolução,

o nascimento de um profeta, o beijo

    é uma dobra

        no canto do tempo.