28.4.26

Cinquenta metros

Há quem conduza como se estivesse sempre atrasado para salvar a civilização. Não sei se era o caso de Cavalheiro do Porsche, mas foi essa a impressão que me quis oferecer, com generosidade sonora, num cruzamento onde eu cometi a extravagância de esperar. A situação era simples, quase pedagógica: havia um carro em sentido perpendicular, havia margem estreita de manobra, havia a possibilidade de todos continuarmos inteiros, viaturas incluídas e sem papéis para preencher.

Eu, antiquado, pessoa de outro século como ele, mas com prioridades diferentes, escolhi a espera. Uns segundos apenas. O tempo suficiente para o outro carro passar e para a manobra deixar de parecer uma candidatura espontânea a uma visita a Senhor Armindo, bate-chapas.

Foi então que Cavalheiro apitou. Não uma buzinadela de aviso, dessas que ainda fingem utilidade pública. Não. Uma buzinadela moral, um pequeno manifesto em forma sonora: avance, homem, que a vida é curta e eu tenho cilindrada.

Confesso: fiquei sensibilizado. Não é todos os dias que alguém nos lembra, de dentro de um Porsche, passe a publicidade, que a prudência é uma falha de carácter. Durante um instante, considerei rever toda a minha filosofia de cidadão encartado. Talvez eu devesse ter embatido no carro vindo da perpendicular com convicção, apenas para honrar a pressa de Cavalheiro. Talvez a verdadeira cidadania esteja em transformar cruzamentos em experiências imersivas, uma espécie de tenda de carrinhos de feira, mas com riscos decuplicados.

Resisti. Esperei. O carro passou. Eu avancei. O Porsche avançou também, finalmente liberto daquele drama de oito segundos que lhe tinha sido imposto pela minha incompreensível preferência por não bater em ninguém.

Cinquenta metros depois, Cavalheiro virou, descendo para o parque do hipermercado. A urgência tinha destino, afinal: talvez uma alface, talvez empadas de galinha, talvez uma promoção de iogurtes. Não julgo. Cada um sabe a epopeia que transporta no porta-bagagens.

Cinquenta metros. Toda aquela indignação motorizada, toda aquela impaciência com escape desportivo, para ganhar talvez meio suspiro antes da rampa do estacionamento.

Ficámos todos inteiros, felizmente, leitora. O cruzamento, o carro da perpendicular, eu, o Porsche, as alfaces possíveis.

24.4.26

Prognósticos

Senhor Augusto é um homem de gostos pacatos, amigo do seu sofá, apreciador da sua aguardente à varanda, de chinelos e pijama de cuidada flanela com riscas em tons de azul e cinzento claro. Dona Ester, a esposa, é mais dada aos treinos diários, em horário pós-laboral, de crossfit no ginásio perto, e às provas de trilho de montanha quando o sábado chega. Eu vou sabendo do trajeto do casamento por indiscrições de amigos comuns. Estou, portanto, bem informado — e admito, aqui, que estou a sonegar informação sobre os mais recentes desenvolvimentos. E a leitora, tem prognósticos?

7.4.26

Derrocadas

Acima de tudo, a guerra de que ouvimos o rufar dos tambores cada vez mais ensurdecedor, causa a angústia adicional de, lá no fundo, sentirmos que os que desde sempre consideramos os bons, afinal são os maus, sendo a inversa, pelo menos em parte, verdadeira. Fica a dúvida, cada vez mais transformada em certeza, de que durante décadas fomos manipulados e ofuscados, provavelmente suspeitando-o mas não o querendo reconhecer. É mais do que altura de olharmos a verdade bem nos olhos, sem os desviarmos por vergonha ou preconceito. Daqui para a frente, se voltarmos a ser enganados, é porque o quisemos. Nesse caso não é engano: é cumplicidade.

4.4.26

Públicas virtudes

A padaria de Dona Joselda vende umas amêndoas da época que respondem pelo insidioso nome de Amêndoas Solidárias, já que o valor da venda reverte a favor de obra paroquial, de reconhecido mérito. Acresce que são as melhores que se podem comprar no quarteirão, sendo que defino quarteirão como todo o perímetro geográfico da minha gulodice pascal. Os piores pecados são os que se disfarçam de virtudes: gula com trajes de generosidade, no caso presente. Muito apreciaria eu que a obra paroquial por via de Dona Joselda, entrasse, sei lá, no ramo dos pastéis de nata. Ah, ter o caminho para a virtude tão curto, tão em linha reta, que me bastaria atravessar a rua, já viu a leitora? Praticamente um dossier fechado e selado para beatificação, garantido.

2.4.26

Saramago, o opcional

No fundo, leitora, o que não perdoam a Saramago foi ter lido a Bíblia com olhos mais abertos do que todos os que batem no peito e rasgam as vestes bradando eterna fidelidade aos ensinamentos da dita, mas que, em boa verdade, nunca passaram do índice, se é que alguma vez, sequer, a abriram.

29.3.26

Oh Baby Baby It's a Wild World

A cliente à minha frente no supermercado estacou de repente e, na medida das suas limitações de locomoção, começou a dançar -- pouco e devagar, mas com jubilosa convicção -- e a cantar baixinho a música que passava como banda sonora da superfície, no final da manhã de domingo. 

Talvez seja mais uma minudência inconsequente, como tudo o que aqui se escreve, mas já que o dia de hoje nos subtraiu uma hora, ao menos que nos dê motivos acrescidos para dar graças pelas restantes vinte e três.