Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.
5.3.26
31.1.26
Não estamos no Japão
29.1.26
Senhora Vestida de Rubro
25.1.26
Da felicidade sem mestre
17.1.26
Palmiers descobertos
5.1.26
A vida dupla de Senhor João
Senhor João do Restaurante, quando não me está a recomendar o peixe mais fresco da ementa, que ele bem sabe que eu não sou de comer carnes de animais de quatro patas e de duas, só quando não pode deixar de ser -- valham-me os de guelras para me ir mantendo à tona de água --, Senhor João, digo, descobri-o agora: quando não está a dançar por entre as mesas como um Carlos Gardel da arte de bem-servir, é agente imobiliário. Satisfeitos os clientes do almoço, arrumadas as mesas com destreza de prestidigitador, eis que Senhor João afivela o seu sorriso mais engravatado e vai por aí fora mostrar moradias, apartamentos, alinhavar contratos-promessa, acertar comissões e até fazer-se à estrada para aquelas convenções das gentes lá do imobiliário, que imagino estarem a meio caminho entre celebração litúrgica e concerto de André Rieu. Foi assim que fiquei a saber: daqui a dias, não há peixe escolhido; aliás, não há restaurante de Senhor João aberto, porque o dito vai de convenção. Não havendo como o convencer a não ir, resta-me autoconvencer-me a almoçar noutras paragens. Vita nuova, diria Dante, ainda que por meia semana. Vencido, mesmo que não convencido: eis o que um Nostradamus míope preveria para este ano, leitora.