16.7.21

Elogio do pasmo

Menina Dulce torce-me o pé na direção dos ponteiros do relógio, depois na direção contrária. O pé assume a forma de uma toalha saída de um programa de centrifugação excruciante. Vai encostando o ouvido ao pé, como se fora arrombadora de cofres. Hoje não crepita, afirma, triunfante. É porque não se atreve, afirmo eu, porta-voz do pé — derrotado.

15.7.21

Entardecer no Olimpo

Tem sorte, que o barril chegou hoje, congratula-me Jovem Alberto, diligente gestor de serviço aqui no Bar da Tarde. Enquanto estendo a mão para os tremoços pergunto-me sobre o significado subtil de ele me considerar afortunado por atrás da torneira se encontrar um barril — ainda, por enquanto — em plena capacidade.

14.7.21

Sísifo e a elíptica

Empoderado com habilidades perdidas, atiro-me à elíptica como viajante sedento a arroio de oásis. Menina Dulce aponta o mostrador digital acelerado e acautela, Não esqueça que temos máscara. Aponta para a dela. Temos de ir com calma para não nos esgotarmos depressa demais, acrescenta, majestaticamente. Reconheço nas palavras uma sombra de Kierkegaard. São as máscaras que nos travam ímpetos — impedem o eu de se esbofar. Menina Dulce é, antes de mais, filósofa. E eu começo a acreditar que fisioterapia é sinónimo de frequência de ateneu. Terei diploma, no fim?

13.7.21

Dar voz a Aquiles

 Lamento-me em voz sumida a Menina Dulce, Olhe que assim já dói um bocadinho. E ela, de quem até agora só vi os olhos de ébano, coberta que está com touca, bata e máscara, traça com o aparelho no meu pé uma volta de interrogação, Ups, será que coloquei alto demais? Eu diria que sim, Menina Dulce, diria que sim, que está alto demais, apesar de não os ouvir. Pé que se enformou a bater ao som de You shake me all night long, afinal queixa-se da agitação interior por dez minutos de ultrassons. Até parece ervilha debaixo de colchão, digo eu.