31.5.20

Contar


Amar alguém é ter sempre algo para lhe contar, enquanto durar o amor, ou a vida.

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «O futuro — disse-lhe eu — é onde te escondes do presente.»

30.5.20

617

E não achas peculiar que os pensamentos, que a maioria das vezes nada mais são do que bolas de sabão que incham, sobem, rebentam e desaparecem sem deixar marca, tenham também os seus tempos de pousio e épocas em que brotam e florescem como se vindos do batismo das chuvas?

[A viagem de Ismael]

Sobre ti


A  presença da ausência

não é 

a ausência da presença.

[Alfredo Serras]

We shall never surrender

Um terço, uma figura de Nossa Senhora de Fátima, duas máscaras. Visto no espelho retrovisor interior do carro ao lado do meu.

Sugestão fora de carta


O molho de tomate aqui é puxado a marisco.

Prazer


O maior prazer não advém da realização mas da possibilidade da realização.

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «O meu objetivo não era ser dúvida dele.»

29.5.20

435

Na casa dos meus pais, havia fogo todo o dia. Alimentávamo-lo para que nunca se apagasse. A constância tornava-o numa outra divisão. Um fogo por mim cuidado, tenho de mantê-lo sempre aceso, trazendo madeira, removendo cinzas, afastando o que pode causar fumo indesejável. Tenho a responsabilidade de cuidar esse fogo que está no centro da minha vida, que está no núcleo do que me é mais íntimo. O fogo é uma bolha de segurança, um lugar de abrigo das mudanças do mundo. É um lugar de compreensão e de reconhecimento. É a forma primeira de igualdade.

[A viagem de Ismael]

Alívio



Evidentemente, as saudades de ti não são sempre insuportáveis. Por vezes, são apenas absurdas.

Quando ficam de um dia para o outro


Se não sabes o que fazer com as mãos, aproveita-as em carícias.

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «Porquê gerar-me insónias se já não me gerava sonhos?»

28.5.20

Beijar

Beijar

é sorver

a vida 

da fonte.

[Alfredo Serras]

Viver para contá-la


Instruções para viver uma vida:
Tomar atenção.
Surpreendermo-nos.
Contá-la.

[A partir de Mary Oliver. O título é de García Márquez.]

Um dia, talvez nos habituemos

O mais estranho, confesso à leitora, não foi entregarem-me como carta uma folhinha de papel onde umas garatujas a que chamam «quê erre code» fazem as vezes de entradas, pratos de peixe, pratos de carne e sobremesas. Não, o mais estranho, foi antes, na quitanda de Dona Marta, pagar uma quantia tão pequena que tive pudor em usar cartão, recorrer a moedas que não viam a luz há uns três meses e achar, caramba, que estava a cometer ato ilícito, ilegalidade, pecado, talvez. Até pedi: «Desculpe, Dona Marta, pagar em dinheiro.» E ela olhou-me com ar de silenciosa reprovação, como se dissesse: «Vai em paz, freguês, mas não tornes a pecar. O céu é para os do plástico, o purgatório, para os do numerário.»

[Obviamente, o inferno será para os do calote, mas esse é assunto de outro departamento.]

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «Deixei de fazer de bengala dele e aí a nossa relação estatelou-se.»

27.5.20

Campo de batalha



A mais perene das batalhas: a razão a tentar convencer a emoção a ser racional.


Caves

Este blog atingiu a marca das cinco mil minudências inconsequentes, a maioria delas agora confinada nas caves deste espaço, à espera que a pátina do tempo lhes proporcione alguma temorosa centelha que, lamentavelmente, o autor não lhes conseguiu outorgar quando as escreveu, a maioria delas em tempo real, sobre a rótula, cedendo ao pecado capital de publicá-las, antes que estivessem sequer prontas para mostra privada, quanto mais dadas à estampa à luz do dia.

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «Preciso — disse-lhe eu — de um homem que tenha a mesma idade de manhã à noite.»

26.5.20

Mar de espaço



O beijo é uma ponte entre ilhas.


Mistério

A poesia ajuda-me a compreender quem sou.  Ajuda-me a compreender o mundo que me rodeia.  Mas, acima de tudo, o que a poesia me ensinou foi o facto de eu precisar de abraçar o mistério para ser completamente humano.

[Yusef Komunyakaa]

Bernarda

Prima Bernarda Vaz ao telefone: «Disse-lhe: — Este Banco de Culpas não aceita mais depósitos.»