Afinal arranjei alternativa aos iogurtes naturais vindos da Áustria -- não que tenha de andar menos para os comprar, mas alternativa é uma janela para a liberdade, como a leitora concordará. Dita alternativa é produzida no Alentejo, na vacaria de um holandês com nome de imperador austríaco (não pode ser mera coincidência, não). Não tenho informação que me permita afirmar certeza de cem por cento, mas diria que por lá, cada uma das ditas vaquinhas é tratada por nome próprio -- já para não falar de carinhoso apelido, assim: Laurinda, Linda, Linda. Pode não haver relação causa-efeito, mas para mim, só isso justifica que um iogurte natural, vulgar de Lineu, seja tão extraordinário.
20.7.26
19.7.26
Inspiração
Ao Pai que, esta tarde, passou por mim na esplanada junto ao rio, equipado com capacete, joelheiras e patins em linha, levando pela mão a Filha, cinco ou seis anos, tagarela como só se é em tal idade, igualmente aprimorada em semelhantes, mas em rosa, apetrechos, envio daqui o meu agradecimento por me dar um pretexto tão bom para vir partilhar com a leitora esta minudência, não sei se inconsequente, num tempo em que o mais provável seria o Pai entregar-lhe um qualquer ecrã, para ela se perder em desenhos animados com sotaque do outro lado do Atlântico, enquanto ele tomava uma cerveja, num lugar tão bom, tão arejado, num final de tarde domingueira onde qualquer brisa seria uma bênção.
16.7.26
Segregação
No café de Senhor João, de manhã, há mesas estritamente de Senhoras e há mesas estritamente de Cavalheiros. Mistas, ali, só as tostas, leitora.
11.7.26
Cabernet Sauvignon
E conseguem arranjar quem venha colher as uvas, pergunto eu a Menina Esmeralda, quando ela me indica que, daquele lado, as vinhas são para colheita manual, logo menos rentáveis que as do outro lado, mas o vinho, ah, o vinho é melhor, as vinhas mais juntas, o aconchego. E Menina Esmeralda, como se me estivesse a revelar um segredo, mão à frente da boca, quase sussurrando, Os donos da quinta gostam muito de dar festas, sabe, e são os convidados...
10.7.26
Vulgar de Lineu
Pode a leitora ir a Uppsala, que fica ali pertinho de Estocolmo, em busca do rasto de Lineu no seu jardim botânico, ou pode este que lhe escreve atravessar a capital de lés a lés, em busca de um iogurte natural, vulgar de Lineu. Dito iogurte é feito na Áustria, que não consta que tenha sido visitada pelo naturalista: sendo contemporâneo de Mozart, bem lhe podia ter ido fazer uma visita. Mas não. Não consta também que Lineu tenha provado os iogurtes austríacos -- embora esteja documentado que degustou tätmjölk, uma variante sueca de leite fermentado. Terá Lineu corrido Uppsala em busca do tätmjölk como eu Lisboa, em busca de um iogurte natural, mas -- e lá está, Lineu sabia -- vulgar não é sinónimo de indistinto? Confesso -- a leitora concordará, decerto -- que a busca é, amiúde, mais gratificante que o encontro. O encontro comporta sempre o breve desencanto do término. Já a busca, se não for bem sucedida, não leva a desencanto. Ando eu nisto -- buscando o iogurte, e ele ausente. Lineu criou toda uma ciência com a sua demanda. Eu, nem encher o frigorífico de iogurtes naturais consigo. Fica apenas esta minudência inconsequente como testemunho, precisamente, de tal desatino.
7.7.26
Inolvidável
Ao cavalheiro que, na primeira fila, na cadeira logo à minha frente, dormiu a primeira parte do concerto por inteiro, a primeira das sinfonias da noite, e que acordou apenas ao quarto andamento, porque não há como continuar adormecido num Allegro molto vivace, sobretudo com a secção de metais a tonitruar a dois metros da face, ao cavalheiro, digo, que se conserve por muitos e bons anos com tal firmeza de propósito, com tal paz de espírito, com tal descanso. É admirado por todos os que o rodearam, entre as duas filas da frente, já para não falar do palco, nessa inolvidável soirée.