Um dia voltaremos aos blogs em busca de escrita imperfeita, com arestas vivas e remates abertos, de minudências escritas tanto com os dedos como com a alma, sem calendário editorial, nem hora de publicação, como refúgio dos textos maculados com escritas artificiais, que enchem agora todos os meios onde a palavra escrita é dada a público. Talvez os ingénuos autores considerem que tais escritos passam por prosas próprias, talvez projetem a ingenuidade nos leitores — ah, tão bem escrito que ninguém diz que não saiu de mão humana. Ah, mas diz, diz. Nota-se tão bem como um pão tipo Bimbo quando é comparado com um pão de trigo e levedura, daqueles que têm tempo de vida útil de poucos dias e não dos que podem ser comprados em março e ficar na despensa até junho. Os blogs que perduram são, por estes tempos, os derradeiros guardiões da escrita artesanal, a que se sustenta das vivências do autor e não do que é debitado por algum algoritmo com entranhas estatísticas. Um dia, digo, até os leitores mais distraídos se cansarão dos tiques de escrita infinitamente repetidos, declinados em frases vazias. A escrita tem de apanhar a vida em flagrante. Que me perdoem os cultistas, mas isso é tudo o que a escrita automatizada não será, por definição, alguma vez.
Concordo. A escrita que nasce da experiência tem falhas, hesitações e pequenas imperfeições, mas é exatamente isso que a torna viva, humana. Tenho esperança que talvez por isso, quando tudo soar demasiado perfeito, muitos leitores voltem a procurar precisamente o que ainda respira.
ResponderEliminarBoa noite, sô Xilre
A imperfeição é o toque da mão humana: é o que toca cada obra única. Se for totalmente replicável sem mácula, perde valor, não é verdade? Dias solare, nn.
EliminarSalve, Mr. X, ilustre resistente, por vezes arredio, mas, quando presente, sempre tão cheio de luz.
ResponderEliminarSalve UJM: somos filhos da luz, corroborando o que Saulo de Tarso disse aos Tessalonicences, pois não é?
EliminarOs verdadeiros leitores, esses que sabem distinguir a escrita uma da outra, são cada vez menos; para que tal suceda é necessário o tempo que leva a educação do gosto de quem lê. Portanto, ignoro se tal dia chegará - o dia de regresso aos blogs. É verdade que os blogs, muito antes da disseminação da IA, já estavam em queda mais ou menos livre. Pode ser que as pessoas se fartem da linguagem imitadora da máquina. Mas, lendo tão pouco e tanto na "percefície", como saberão separar o trigo do joio e por que é que isso lhes vai interessar?!
ResponderEliminarMas admito haver sempre gente que gosta de escrever e ler, que talvez tenha um blog, caso eles não acabem - os do sapo têm ordem de despejo. Ou não?!
Bom Dia
A História é feita de pêndulos. Talvez o pêndulo agora volte -- quem sabe -- à escrita "artesanal". Tenho a certeza de que mesmo com a crise de pouca literacia a que assistimos, haverá sempre quem consiga separar o que é genuíno do que é simplesmente regurgitação do que foi engolido por uma máquina, algures.
EliminarBoa tarde, que seja um dia solar (ou que o Sol apareça em tempo útil, digamos).
Já se anda a comprar rádios, pagers e mapas...por isso não duvido. Eu não preciso de voltar porque nunca parti, sei quando um lugar é bom e fico lá, haja ou não plateia. Contudo, é bonita a sua homenagem!
ResponderEliminarFelizmente, há quem nunca tenha partido -- mas mesmo quem partiu, vai regressando. Tenho mais dúvidas de que a geração que cresceu com os olhos no ecrã do telemóvel alguma vez regresse a um lugar que nunca conheceu. Mas a verdade é que os livros em papel se vendem mais agora, depois de um período de queda, e portanto... haja esperança.
EliminarAinda não se falava de IA, apenas o Instagram dava os primeiros passos e já alguém se insurgia: "A escrita, esse retrato interior, perdeu a batalha contra os retratos exteriores. As internetes coroaram rainha, a imagem. A palavra, deposta, partiu para o exílio".
ResponderEliminarSabe quem o disse, caro Xilre?
Pois tenho uma ideia, caro Joaquim. "Video killed the radio star", dizia a canção. Um dia, teremos a dimensão histórica exata de tudo o que perdemos com as internetes. Mas será necessária a devida distância temporal.
EliminarOs blogs salvarão a humanidade da escrita.
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