Há um novo tipo de audácia no ar — e não é a dos heróis. As “pessoas horríveis”, outrora confinadas aos bastidores da decência, subiram ao palco principal com uma confiança que beira o evangelismo. Já não se limitam a dizer o que pensam; fazem-no com a convicção de quem acredita estar a purificar o mundo da hipocrisia. O que antes seria dito em surdina, entre portas, irrompe agora em maiúsculas, tweets e vídeos caseiros, com a coreografia própria do ultraje profissional. Não é que tenham aumentado em número; apenas perderam a vergonha, essa forma laica de ética que regulava o tom mesmo dos medíocres.
Perante este desbragamento, muitos reagem com espanto — outros com espuma. Mas o erro está precisamente em reagir dentro do jogo que foi montado para nos desgastar. A indignação tornou-se um espectáculo e cada protesto um episódio na série que essas personagens protagonizam com gosto. A resposta mais eficaz talvez seja a mais desarmante: não a gritaria, mas o desprezo metódico; não o moralismo cansado, mas a ironia contida que transforma o ataque num bocejo elegante.
Importa, portanto, recentrar a atenção. Em vez de combater o ruído com mais ruído, é tempo de criar lugares de sanidade — espaços onde a palavra recupere o seu peso específico, onde o pensamento não se renda à histeria. Cultivar o raro, o denso, o inteligente, não como acto de elitismo, mas como forma de resistência cultural. Porque, no fundo, a verdadeira resposta às “pessoas horríveis” não é vencê-las no terreno delas, mas torná-las irrelevantes — devolvendo-lhes o que mais temem: a insignificância.