31.1.26
Não estamos no Japão
Se chegas em cima da hora, já chegas atrasado. Isto, leitora, aprendi num livro sobre a cultura japonesa, observada por um escocês que por lá viveu uns anos a ensinar inglês. Antes, chegar sempre antes -- para bater o imprevisto. O Japão é dado a catástrofes naturais, como terramotos e tsunamis, daí a necessidade de antecipar, de prever, de prevenir, que se lhes entranhou no quotidiano. Infelizmente, por cá, o livro (Fish Town, de John Gerard Fagan) não deve ter tido grande procura, decerto não foi lido por nenhum dos nossos responsáveis políticos, nem dos mais literatos, aqueles que durante anos falaram sobre livros em horário nobre na radiotelevisão. Seja a tragédia fogo (os incêndios), água ou ar (as inundações e a tempestade), o atraso é omnipresente. Deslocam-se aos locais dos desastres dias depois destes ocorrerem, como se esperassem que entretanto se resolvessem por si mesmos e apenas para a oportunidade de foto, marcam conselhos de ministros de emergência para ainda mais dias depois, titubeiam generalidades inóquas, proferem lições inoportunas aos que, no terreno, estão, na realidade a procurar dar a mão a quem precisa, fogem a perguntas como se estivessem a correr à frente do vento. O quarto elemento, a terra, é o único que ainda não despertou. Assim se mantenha porque, por estas terras, atraso não é falha: é método.
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Texto perspicaz e pungente.
ResponderEliminarCrítico, mordaz e realista.
Admiro a coragem de reconhecer que atraso pode ser método, quando a previsibilidade falha.
O Japão é longe, mas a lógica do "chegar antes" devia ser universal. É a diferença entre governar e apenas aparecer na moldura. Entre a água, o fogo e o ar, ficamos nós, neste atraso crónico que se tornou parte da paisagem, como uma estrada mal pavimentada que ninguém se apressa a reparar. Que a "terra" continue pesada e imóvel, pois se ela acorda, os nossos responsáveis ainda estarão a escolher a gravata para o comunicado.
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