29.1.26

Senhora Vestida de Rubro

No café de Senhor Alberto (não se amofine, leitora, este que lhe escreve rodopia por entre cafés como um dervixe), no café de Senhor Alberto, digo, quando chego, está Senhora Vestida de Rubro a duas mesas de distância, embrenhada em leitura de espesso cartapácio, daqueles onde se adivinham tortuosas intrigas e intensos amplexos.

Traz-me Senhor Alberto o café e o pastel de nata, mais a obrigatória canela, e Senhora continua de olhos assestados no tomo, como se o livro lhe segurasse a alma pela écharpe.

Mas eis que se lhe escapa um suspiro — porventura da alma —, e, olhando para o teto, ou para alguma recordação de um passado que se adivinha longo, interrompe a leitura com um sorriso de quem atinge um píncaro, por instantes, antes de se voltar a perder nas páginas do livro, ou de um qualquer outro mundo para o qual as páginas são apenas um postigo ou, quem sabe, um portão.

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