Um dia voltaremos aos blogs em busca de escrita imperfeita, com arestas vivas e remates abertos, de minudências escritas tanto com os dedos como com a alma, sem calendário editorial, nem hora de publicação, como refúgio dos textos maculados com escritas artificiais, que enchem agora todos os meios onde a palavra escrita é dada a público. Talvez os ingénuos autores considerem que tais escritos passam por prosas próprias, talvez projetem a ingenuidade nos leitores — ah, tão bem escrito que ninguém diz que não saiu de mão humana. Ah, mas diz, diz. Nota-se tão bem como um pão tipo Bimbo quando é comparado com um pão de trigo e levedura, daqueles que têm tempo de vida útil de poucos dias e não dos que podem ser comprados em março e ficar na despensa até junho. Os blogs que perduram são, por estes tempos, os derradeiros guardiões da escrita artesanal, a que se sustenta das vivências do autor e não do que é debitado por algum algoritmo com entranhas estatísticas. Um dia, digo, até os leitores mais distraídos se cansarão dos tiques de escrita infinitamente repetidos, declinados em frases vazias. A escrita tem de apanhar a vida em flagrante. Que me perdoem os cultistas, mas isso é tudo o que a escrita automatizada não será, por definição, alguma vez.
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