Os palmiers que descobri na padaria de Dona Joselda são -- se outros motivos não existissem, o que é debatível -- o pretexto mais direto para me condenar às expiações eternas, pelo pecado mais insidioso de todos, o da gula. Ditos palmiers, da dimensão de uma moeda de cinco escudos -- não sei se a leitora tem memória desses tempos, em que ainda se pagava com bom metal sonante e não com precárias ondas de rádio -- são crocantes, estaladiços e rendem-se em estilhaços doces à mais ligeira das dentadas. E, ah, são polvilhados de sementes de sésamo, naturalmente tostadas da passagem pelo forno de Dona.
Dona Joselda fornece-os em saquinhos de duzentos e cinquenta gramas, nem muitos, nem poucos, a medida exata para me tentar a estender a mão de cada vez que deles passo perto. A solução foi escondê-los à vista, na bancada da cozinha, algures entre o sal e a canela. A lógica é que a habituação, a demasiada familiaridade, hão-de fazer com que os ignore, nem sequer os note -- nem o sal nem a canela vizinhos me tentam no quotidiano, logo ditos palmiers, com o tempo também não -- assim o espero, utópico que sou.
Para já, o plano não está a resultar: os palmiers como que se evaporam de dentro dos sacos. Mas dizem os entendidos que os hábitos precisam de dois meses para se estabelecerem. Lá para abril, já deverei ser capaz de os ignorar completo. Ou isso, ou assumo -- algum dia seria -- que eu a minha gula temos relação para toda a vida.
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