Os palmiers que descobri na padaria de Dona Joselda são -- se outros motivos não existissem, o que é debatível -- o pretexto mais direto para me condenar às expiações eternas, pelo pecado mais insidioso de todos, o da gula. Ditos palmiers, da dimensão de uma moeda de cinco escudos -- não sei se a leitora tem memória desses tempos, em que ainda se pagava com bom metal sonante e não com precárias ondas de rádio -- são crocantes, estaladiços e rendem-se em estilhaços doces à mais ligeira das dentadas. E, ah, são polvilhados de sementes de sésamo, naturalmente tostadas da passagem pelo forno de Dona.
Dona Joselda fornece-os em saquinhos de duzentos e cinquenta gramas, nem muitos, nem poucos, a medida exata para me tentar a estender a mão de cada vez que deles passo perto. A solução foi escondê-los à vista, na bancada da cozinha, algures entre o sal e a canela. A lógica é que a habituação, a demasiada familiaridade, hão-de fazer com que os ignore, nem sequer os note -- nem o sal nem a canela vizinhos me tentam no quotidiano, logo ditos palmiers, com o tempo também não -- assim o espero, utópico que sou.
Para já, o plano não está a resultar: os palmiers como que se evaporam de dentro dos sacos. Mas dizem os entendidos que os hábitos precisam de dois meses para se estabelecerem. Lá para abril, já deverei ser capaz de os ignorar por completo. Ou isso, ou assumo -- algum dia seria -- que eu a minha gula temos relação para toda a vida.
Se os palmiers são assim tão perigosos, começo a achar que Dona Joselda devia vender também indulgências à porta da padaria. Quanto ao plano de habituação… força nisso. Alguns de nós já desistimos há muito.
ResponderEliminarA ideia das indulgências é bem pensada. Os ingleses têm até o verbo "to indulge" precisamente com o significado de (como diz o dicionário): "to allow yourself or another person to have something enjoyable, especially more than is good for you". Ou seja, sem dúvida, o caso dos palmiers.
EliminarUm perigo! Esses não conheço, mas outros semelhantes...veja se enjoa. Mas, se for como eu, raramente enjoo de algo que gosto.
ResponderEliminarFazendo um "update" -- hoje ainda não foi o dia em que os ignorei :)
Eliminar:)))) gosto do plano de quem não quer desabituar-se.
ResponderEliminarBom, dado que são do tamanho de uma moeda de cinco escudos e polvilhados de sementes de sésamo, vários não valem um dos palmiers cobertos da Alcoa. Não me perco por eles, mas são o bolo mais barato da dita pastelaria que pratica preços escandalosos. Porque vivo longe dela, a distância desabitua-me: e é verdade que há lá outros que prefiro. Mas nenhum me enjoa tanto, facto que só me traz vantagens.
Fique bem, Xilre. E assuma a gulodice que a mim parece inóqua, esses bolinhos parecem de dieta; levam açúcar, ao menos?
Levam pois -- como são pequenos, o açúcar deve ser proporcional. Mas que lá está, não há dúvida...
EliminarNão me parece que desses minúsculos palmiers venha grande mal ao mundo Xilre, ou seja, à sua barriga. Se bem me lembro, uma moeda de cinco escudos, deve ter o diâmetro de uma actual de vinte cêntimos, talvez cinquenta; portanto trata-se de doçaria gourmet, necessarimente sem açúcares, corantes e conservantes, em suma, com poucas calorias. Eu sei que deve ser como a batata frita: nunca se come só uma, mesmo assim...
ResponderEliminarTodavia o maior perigo caso os ponha de lado, como ensina a filosofia budista, pode vir do seu desejo insatisfeito, ou então como diria Schopenhauer a satisfação de um desejo apenas abre espaço para outro e outro, criando um ciclo interminável de sofrimento.
Boa noite Xilre e grato por partilhar iguarias de Dona Joselda, embora no que toque a palmiers, continue a preferir os de formato coração. Coisas de um romântico!
Valham-nos as cerejas, das quais também não se comem apenas uma e que caem no campo do que é a gulodice socialmente aceitável (se é que tal pleonasmo é, ele próprio, aceitável também...)
Eliminarperdoa-se o mal que faz com o bem que sabe.... diz o povo :)
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