5.3.26

Senhor Antunes

Quando me cruzava com António Lobo Antunes -- melhor, o encontrava em lugar que ambos frequentávamos em circunstâncias da existência corrente -- sempre o via rodeado de carinho, de ternura até, dos circundantes. Isto, antes da pandemia, antes do mundo se virar do avesso, como ainda hoje está. Depois, deixei de o ver, e comecei a ter ecos de que provavelmente não voltaria a vê-lo, não naquele local, pela doença que entretanto emergiu. A imagem de Lobo Antunes em público, ali, não era, nem de perto a imagem pública com que o pintavam: muito Lobo, pouco Antunes. Já comecei a ver obituários que lhe puxavam esse outro lado pessoal, mais rijo, mais feroz. Mas tenho para mim que -- a ser assim -- era para se proteger. Escrita é outro nome para nudez. E não se pode sair nu para o mundo. Senhor Antunes sabia-o bem. Tudo o que escreveu, tem, se bem o entendi, esse coração subjacente.

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