1.4.25

O dia da verdade provisória

Há dias em que escrever é um risco calculado; o primeiro de Abril exige perícia adicional. Não basta evitar a mentira — é preciso evitar que a verdade pareça uma. O escritor, neste dia, pisa um campo minado onde cada frase pode ser interpretada como ironia, cada adjetivo como artifício, cada título como isco. O estilo torna-se cúmplice do engano mesmo quando a intenção é apenas, como sempre, vaguear pela ambiguidade das coisas.

Publicar uma crónica neste dia é como tentar declamar Hamlet num circo: o público espera acrobacias, não dúvidas existenciais. Qualquer tentativa de dizer algo sério será recebida com sobrancelha arqueada e risinho cínico. Já se sabe: quem escreve, hoje, ou mente com mestria ou fala com tanta verdade que ninguém acredita. O risco não está no erro, mas no acerto mal interpretado.

Por isso, o escritor cauteloso recua. Deixa as revelações para o dia seguinte e limita-se, talvez, a descrever o estado do tempo — assunto que, mesmo assim, pode ser posto em causa. Ou então, numa ousadia deliberada, escreve como sempre escreveu, com a tranquilidade de quem sabe que, no dia das mentiras, a maior subversão é dizer a verdade — com todas as letras e nenhuma esperança de ser levado a sério.

31.3.25

A estética da desfaçatez

Há um novo tipo de audácia no ar — e não é a dos heróis. As “pessoas horríveis”, outrora confinadas aos bastidores da decência, subiram ao palco principal com uma confiança que beira o evangelismo. Já não se limitam a dizer o que pensam; fazem-no com a convicção de quem acredita estar a purificar o mundo da hipocrisia. O que antes seria dito em surdina, entre portas, irrompe agora em maiúsculas, tweets e vídeos caseiros, com a coreografia própria do ultraje profissional. Não é que tenham aumentado em número; apenas perderam a vergonha, essa forma laica de ética que regulava o tom mesmo dos medíocres.

Perante este desbragamento, muitos reagem com espanto — outros com espuma. Mas o erro está precisamente em reagir dentro do jogo que foi montado para nos desgastar. A indignação tornou-se um espectáculo e cada protesto um episódio na série que essas personagens protagonizam com gosto. A resposta mais eficaz talvez seja a mais desarmante: não a gritaria, mas o desprezo metódico; não o moralismo cansado, mas a ironia contida que transforma o ataque num bocejo elegante.

Importa, portanto, recentrar a atenção. Em vez de combater o ruído com mais ruído, é tempo de criar lugares de sanidade — espaços onde a palavra recupere o seu peso específico, onde o pensamento não se renda à histeria. Cultivar o raro, o denso, o inteligente, não como acto de elitismo, mas como forma de resistência cultural. Porque, no fundo, a verdadeira resposta às “pessoas horríveis” não é vencê-las no terreno delas, mas torná-las irrelevantes — devolvendo-lhes o que mais temem: a insignificância.

27.3.25

Álibi

Dizer eu sou assim é o álibi preferido da preguiça moral, como se a identidade fosse uma sentença em vez de uma escolha.

[Natureza humana na ótica do utilizador]

24.3.25

Segunda de Sísifo

Ninguém gosta verdadeiramente da segunda-feira, nem mesmo os relógios, que avançam com um certo esforço mecânico, como se também eles soubessem que estão a trair o repouso. Os filósofos gregos, se tivessem inventado a semana, teriam posto a tragédia na segunda e a comédia na sexta. Acordar neste dia é um acto de fé sem recompensa visível: o café sabe a dever, os e-mails chegam como exércitos sem causa, e o corpo, fiel a Epicuro, protesta contra a obrigação de existir produtivamente às nove da manhã.

Mas talvez o mais fascinante seja o ritual com que se finge surpresa: «Já é segunda outra vez?». Como se a repetição fosse um erro e não o próprio coração do calendário. É um dia que exige estoicismo e oferece burocracia, que simula recomeços mas serve sobretudo como lembrete do que não se fez na semana anterior. No fundo, a segunda-feira é o mito de Sísifo reencarnado em invólucro moderno: empurramos o labor pela montanha acima, sabendo que, lá para quinta, ele já estará, de novo, no rodapé da alma.

23.3.25

Woke

Eu, assumidamente woke, ainda sou do tempo em que a maior ameaça à pax occidentalis, aos olhos dos homens brancos ocidentais — entre a meia-idade e a senilidade elegante — eram as manifestações estudantis de sexta-feira à tarde contra o lobby dos combustíveis fósseis. Inspiradas por Greta Thunberg, essas marchas juvenis conseguiam provocar uma raiva viril nos escribas do mundo civilizado: da blogosfera nacional (até a resguardada em aprazíveis cidades do centro da Europa) às op-eds de conservadores fatigados no New York Times.

Não havia texto, crónica ou lamento indignado em que não se insurgissem, com a fúria ofendida de quem vê a própria autoridade abalada por uma adolescente sueca armada de cartaz e convicções. Venenosos, viciosos, mas sempre com aquela solenidade típica de quem se sente atacado no âmago — o da ordem natural das coisas.

Bons tempos, pensando bem.

21.3.25

disto, da poesia

as palavras não nasceram para dizer

mas para inclinar o mundo


um milímetro apenas

o suficiente

para que o silêncio

tome outro nome